Tiros na Noite

Dashiell Hammett · Capítulo 2 de 44 · parte 2/2

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Tiros na Noite

Cidade pesadelo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Steve descobriu que uma de suas mãos segurava o rosto arredondado, encostado a seu peito, e que a outra rodeara o ombro da moça, abraçando-a.

– As cidades recém-surgidas são sempre assim, ou até piores – começou ele. – Se você tivesse visto como era Hopewell, na Virgínia, quando os Du Ponts a fundaram... Demora algum tempo até que as figuras desagradáveis, que vêm nas primeiras levas, se mandem. E, no caso de Izzard, perdida aqui no meio do deserto, é natural que a coisa seja ainda pior. Quanto a ser seu amigo... foi justamente por isso que eu fiquei aqui, em vez de voltar para Whitetufts. Vamos ser grandes amigos. Vamos...

Mais tarde, ele nem saberia dizer ao certo o quanto tinha falado, nem o que dissera. Ficaria com a impressão de ter sido muito prolixo, de ter dito um monte de baboseiras. Mas a verdade é que aquilo que dizia não tinha a menor importância. Falava apenas para acalmar a garota, para manter aquele rostinho sob sua mão, junto ao peito, aquele corpinho frágil a seu lado pelo maior tempo possível.

E, assim, foi falando, falando...

Os MacPhail já estavam em casa quando Nova Vallance e Steve atravessaram outra vez o jardim florido. Receberam a moça com evidente alívio. O médico era um homem baixo, com a cabeça redonda e careca, tendo o rosto, também redondo, muito jovial, rosado e brilhante, exceto pelo ponto em que um bigode claro descaía sobre a boca. A mulher era uns dez anos mais nova do que ele, uma loura elegante e de ar felino, por causa de seus olhos azuis e da graça de seus movimentos.

– O carro quebrou a uns trinta quilômetros da cidade – explicou o médico, numa voz grossa e macia, meio engrolada nos erres. – Tive um trabalho e tanto para que voltasse a pegar. Quando chegamos em casa e vimos que você tinha sumido, já estávamos pensando em acordar a cidade inteira.

A moça apresentou Steve aos MacPhail, contando em seguida do ladrão e do que tinham encontrado na casa do homem cego.

O dr. MacPhail balançou a cabeça redonda e careca, dando um muxoxo.

– Parece que o xerife Fernie não está conseguindo controlar as coisas aqui em Izzard.

Foi quando a moça se lembrou do braço ferido de Steve. O médico examinou-o, lavando e enfaixando o ferimento.

– Se tomar cuidado – disse – não vai precisar usar tipóia. O corte não foi fundo e, felizmente, pegou entre o supinador e o palmar longo, sem ferir nenhum dos dois. Foi o ladrão?

– Não. Foi na rua. Estava andando em direção ao hotel junto com um homem chamado Kamp quando pularam em cima da gente. Kamp morreu. E eu recebi isto.

Um relógio rouco, em algum ponto da rua, bateu as três horas quando Steve atravessava o portão da frente dos MacPhail para voltar ao hotel. Caminhou junto ao meio-fio, sentindo o corpo cansado e todos os músculos doloridos.

– Se mais alguma coisa acontecer esta noite – disse a si mesmo –, eu me mando. Já tive o bastante por uma noite.

Na primeira esquina, parou para a passagem de uma corrida de carros. Steve reconheceu um automóvel – era o Vauxhall creme de Larry Ormsby. Atrás dele, vinham cinco caminhões enormes, numa velocidade que evidenciava motores envenenados. Em meio à barulheira dos motores, a uma nuvem de poeira e ao som de janelas se abrindo, a caravana desapareceu na direção do deserto.

Steve foi em frente, rumo ao hotel, pensativo. Sabia que a fábrica trabalhava dia e noite. Mas claro que nenhum pedido de nitrato de sódio justificaria aquela correria toda – se é que eram caminhões da fábrica. Virou na rua principal e teve mais uma surpresa. O Vauxhall creme estava parado perto da esquina, com o dono ao volante. Quando Steve se aproximou, Larry Ormsby abriu a porta do carona e estendeu a mão, num gesto de convite.

Steve parou junto à porta.

– Entre que eu lhe dou uma carona até o hotel.

– Obrigado.

Steve observou com ar interrogativo o rosto do homem, um rosto charmoso, mas descuidado, e em seguida olhou para o hotel mal iluminado, a menos de duas quadras de distância. Depois, voltou-se para o homem. Entrou no carro, sentando-se ao lado dele.

– Ouvi falar que você agora é móveis e utensílios da cidade – disse Ormsby, oferecendo a Steve cigarros de uma cigarreira de verniz, enquanto desligava o motor, que estava em ponto morto.

– Por enquanto.

Steve recusou os cigarros e, tirando do bolso fumo e papel de seda, acrescentou:

– Gosto de algumas coisas por aqui.

– Também ouvi falar que você teve emoções fortes esta noite.

– Um pouco – admitiu Steve, perguntando-se se Ormsby se referia à briga em que Kamp fora morto ou ao assalto à casa dos MacPhail, ou a ambas as coisas.

– Se você continuar nesse passo – continuou o filho do dono da fábrica – vai acabar roubando a cena e ofuscando meu brilho.

Steve sentiu um vibrar de nervos na nuca. As palavras e o tom de Larry Ormsby eram pausados, mas por trás deles havia a sugestão de que queriam levar a algum lugar – a algo muito concreto. Claro que ele não interceptara Steve apenas para bater papo. Acendendo o cigarro, Steve sorriu e esperou.

– A única coisa que recebi do velho até hoje, além de dinheiro – disse Larry Ormsby –, foi um sentido muito estrito de propriedade, daquilo que é meu. Sou muito certinho com isso, com essa coisa de achar que o que é meu, é meu, e deve continuar sendo. Não sei bem como reagir diante de um estranho que chega e, em apenas dois dias, se transforma na principal ovelha negra da cidade. Reputação, mesmo a reputação no mau sentido, também é propriedade, sabe? E acho que não devo abrir mão disso, nem de qualquer outro direito, sem briga.

Pronto. Lá estava. Steve entendeu tudo. Não gostava de duplos sentidos. Mas agora já sabia qual era o jogo. O recado era para que ficasse longe de Nova Vallance.

– Uma vez conheci um sujeito em Onehunga – continuou, com a fala arrastada – que pensava ser o dono de todo o Pacífico abaixo do Trópico de Capricórnio – e tinha até papéis provando isso. Tinha ficado daquele jeito depois de receber uma porrada na cabeça de um maori, com um mele de pedra. Costumava nos acusar de estar roubando água do oceano dele.

Larry Ormsby jogou fora o cigarro e ligou o motor do carro.

– O negócio é que – e agora ele ria – um homem é inclinado a proteger aquilo que pensa que lhe pertence. Claro que talvez esteja enganado, mas isso não afeta o... vigor de seu esforço.

Steve estava cada vez mais furioso.

– Talvez você esteja certo – disse, devagar, disposto a fazer com que aquela conversa desembocasse logo numa crise –, mas nunca tive muitas propriedades, de maneira que não sei bem como me sentiria se perdesse alguma coisa. Mas vamos supor que eu tivesse um... digamos, um colete branco, do qual gostasse muito. E vamos supor que um homem me desse um tapa na cara e ameaçasse estragar minha roupa. Acho que eu não ia nem me lembrar do colete na hora de sair no braço com ele.

Larry deu uma risada aguda.

Steve agarrou no ar o punho que vinha em sua direção, imobilizando Ormsby com seu braço de aço, enrijecido pelo exercício com a bengala.

– Calma – disse, fitando os olhos apertados do outro, que dançavam. – Calminha.

Os dentes brancos de Larry Ormsby faiscaram sob o bigode.

– Está bem – disse, sorrindo. – Se soltar meu braço, vamos trocar um aperto de mão – como forma de selar a paz. Vou com a sua cara, Threefall. Você vai dar uma grande contribuição material aos prazeres de Izzard.

Já no quarto, no terceiro andar do Hotel Izzard, Steve Threefall tirou a roupa devagar, tolhido pelo braço esquerdo, imobilizado, e pelos pensamentos que lhe passavam pela cabeça. Tinha muito no que pensar. Larry Ormsby dando um tapa na cara do pai e ameaçando-o com uma automática. Larry Ormsby e a garota, numa conversinha íntima. Kamp morrendo numa rua escura, suas últimas palavras perdidas em meio à chegada do xerife. Nova Vallance dando-lhe um revólver descarregado e convencendo-o a deixar o ladrão fugir. O relógio caído no chão e o roubo das economias do cego. A caravana que Larry Ormsby conduzira até o deserto. A conversa dentro do carro, com a troca de ameaças.

Será que havia alguma conexão entre cada uma dessas coisas? Ou seriam apenas acontecimentos isolados? Se houvesse uma conexão – e aquilo que no homem leva à simplificação de todos os fenômenos da vida, a unidade, fazia Steve acreditar que a conexão existia –, qual seria? Ainda intrigado, caiu na cama. E pulou fora outra vez. Uma inquietação, que até então fora algo vago, agora se materializava em sua mente. Foi até a porta, abriu-a e em seguida fechou-a. Era uma porta de carpintaria barata, mas abria e fechava silenciosamente, pois as dobradiças estavam bem azeitadas.

– Talvez eu esteja parecendo uma velhinha – disse baixinho –, mas acho que por hoje chega.

Bloqueou a porta com a penteadeira, deixou a bengala ao alcance da mão e voltou a se deitar, adormecendo.

Acordou com uma batida na porta, às nove da manhã seguinte. Quem batia era um dos subordinados de Fernie, dizendo que Steve devia se apresentar dentro de uma hora, para depor no inquérito sobre a morte de Kamp. Steve percebeu que o braço ferido não o incomodava. Pior estava um machucado que tinha no ombro – outra lembrança da briga de rua na noite anterior.

Vestiu-se, tomou café no hotel e foi para a “geladeira” de Ross Amthor, onde o inquérito teria lugar.

O magistrado era um homem alto, de ombros estreitos, com um rosto balofo e pálido, que examinava os processos sem se deter muito em aspectos técnicos da lei. Steve contou sua história. O xerife contou a dele e em seguida surgiu com um acusado – um austríaco muito forte, que parecia nem falar nem entender a língua deles. Tinha o pescoço e o queixo enfaixados.

– Foi esse o homem que você derrubou? – perguntou o magistrado.

Steve olhou para a parte visível da cara do austríaco, acima do curativo.

– Não sei. Não consigo ver a cara dele direito.

– Foi esse o cara que eu peguei caído na sarjeta – disse Grant Fernie –, seja ele o que você derrubou ou não. Imagino que você não tenha olhado muito bem para ele. Mas que foi esse o cara, foi.

Steve franziu o rosto, em dúvida.

– Eu o reconheceria – disse –, se ele levantasse o rosto para eu dar uma boa olhada.

– Tirem uma parte das faixas para que a testemunha possa vê-lo – ordenou o magistrado.

Fernie obedeceu, fazendo surgir um queixo machucado e inchado.

Steve olhou para o homem. Podia até ser um do bando, mas quase com certeza não era o cara que tinha posto a nocaute. Será que estava confundindo os rostos da briga?

– Você o identifica? – perguntou o magistrado, já impaciente.

Steve balançou a cabeça.

– Não me lembro de tê-lo visto.

– Escute só, Threefall – começou o xerife, acercando-se de Steve –, este é o cara que eu apanhei caído no chão. Um dos homens que, segundo seu relato atacou você e Kamp. Qual é, agora? Vai me dizer que esqueceu?

Steve respondeu devagar, teimando:

– Eu não sei. Só sei que esse aí não é o primeiro que eu atingi, aquele que botei a nocaute. Era um americano, tinha cara de americano. Era da altura desse aí, mas era outro.

O magistrado mostrou os dentes amarelos, num esgar de riso, e o xerife fuzilou Steve com os olhos, enquanto os jurados o olhavam com franca desconfiança. O magistrado e o xerife se retiraram para um canto da sala e lá conferenciaram aos sussurros, lançando olhares na direção de Steve.

– Muito bem – disse o magistrado quando terminou a conversa. – Isso é tudo.

Saindo do inquérito, Steve caminhou devagar de volta ao hotel, a mente fervilhando com mais esse entre os muitos mistérios de Izzard. Que explicação poderia haver para o fato de o homem apresentado pelo xerife não ser o mesmo que ele levantara da sarjeta na noite anterior? Outra coisa: o xerife tinha chegado imediatamente após a briga com os homens que haviam atacado ele e Kamp, e chegara fazendo barulho, o que impedira Steve de ouvir as últimas palavras do moribundo. Aquela chegada oportuna e o barulho por ela provocado seriam acidentais? Steve não sabia. E, por não saber, voltou para o hotel mergulhado em profundas reflexões.

No hotel, soube que sua mala chegara de Whitetufts. Levou-a para o quarto e trocou de roupa. Em seguida, carregou suas perplexidades para perto da janela, onde se sentou e, fumando um cigarro atrás do outro, observou a ruela lá embaixo, a testa franzida sob o cabelo castanho. Seria possível que tantas coisas explodissem em torno de um homem em tão curto espaço de tempo, numa cidadezinha do tamanho de Izzard, sem que houvesse uma conexão entre elas – e entre elas e ele? E se ele estivesse sendo envolvido numa terrível rede de crime e intrigas, o que ela significaria? O que a provocara? Qual era a chave para entendê-la? A garota?

Pensamentos confusos brotavam de sua cabeça. Levantou-se.

Do outro lado da rua, um homem caminhava – um homem forte, vestido de azul manchado –, um homem com o pescoço e o queixo enfaixados. E a parte visível de seu rosto era da cara que Steve vira de cima para baixo, na luta. Era o rosto do homem que ele derrubara.

Steve disparou para a porta e dali desceu correndo os três lances de escada, atravessando a portaria e saindo pela porta dos fundos do hotel. Chegou à ruela a tempo de ver uma perna vestida de calça azul desaparecer por uma porta, no quarteirão seguinte. Foi para lá.

A porta dava para um prédio de escritórios. Steve procurou pelos corredores, para cima e para baixo, e não encontrou nem sinal do homem enfaixado. Voltou para o térreo e descobriu um canto escondido, junto à porta dos fundos, perto da escada. Da escada e da maior parte do corredor, não dava para ver o canto, pois este ficava escondido por um armário, onde se guardavam vassouras e esfregões. O homem tinha entrado pelos fundos do prédio. E provavelmente sairia por ali. Steve esperou.

Quinze minutos se passaram e ninguém apareceu diante do esconderijo de Steve. Foi quando ele ouviu, vindo da porta da frente, um risinho de mulher, seguido de passos, em sua direção. Encolheu-se ainda mais em seu canto empoeirado. Os passos seguiram em frente – um homem e uma mulher rindo e caminhando juntos. Subiram as escadas. Steve espiou na direção deles e voltou a se encolher, mais de surpresa do que de medo, porque os dois subiam as escadas abraçados.

O homem era Elder, o agente de seguros e imóveis. Steve não viu seu rosto, mas a roupa xadrez e o corpo gordo eram inconfundíveis. Era o “baixinho com terno de colegial”, como Kamp o descrevera. Enquanto o casal subia a escada, o braço de Elder enlaçava a cintura da mulher, que olhava para ele toda coquete, o rosto encostado em seu ombro. Era a esposa de gestos felinos do dr. MacPhail.

– Que mais? – perguntou-se Steve, assim que eles sumiram de vista. – Será que há algo errado com a cidade inteira? O que será que vem por aí agora?

A resposta foi imediata – um som alucinado de passos, bem acima da cabeça de Steve. Passos que podiam ser de um bêbado ou de um homem lutando com um fantasma. Acima do barulho de sapatos no chão de madeira, surgiu um grito – um grito que deu um toque de horror e dor àquele som, que já parecia assombrado justamente por ser, sem dúvida, produzido por um ser humano.

Steve saiu dali de um salto e subiu os degraus de três em três, girando no corrimão ao chegar ao segundo andar e dando de cara com David Brackett, o banqueiro.

As pernas grossas de Brackett estavam abertas e ele balançava nelas. Seu rosto, por trás da barba, estava agônico e pálido. Havia grandes claros na barba, como se ela tivesse sido arrancada ou queimada. De seus lábios retorcidos, saíam fios de vapor.

– Eles me envenenaram... os malditos...

De súbito, ele ficou na ponta dos pés, seu corpo arqueou-se e ele desabou para trás, como um peso morto.

Steve ajoelhou-se a seu lado, mas sabia que não havia nada a ser feito. Sabia que Brackett morrera antes mesmo de cair ao chão. Por um instante, enquanto estava ali junto ao cadáver, uma chispa de pânico varreu seu cérebro, toldando-lhe a razão. Será que não haveria um fim para aquele permanente empilhar de mistério sobre mistério, de violência sobre violência? Steve sentia-se como se estivesse preso a uma teia monstruosa – uma teia sem fim nem começo, cuja trama estivesse pejada de sangue. Sentia-se nauseado – uma náusea física e espiritual – e impotente. E então ouviu um tiro.

Ficou de pé num pulo e disparou para o corredor, na direção do disparo, tentando, num frenesi de atividade física, fugir do horror que há pouco o tomara.

Ao fim do corredor havia uma placa dizendo CORPORAÇÃO DE NITRATO ORMSBY, W.W. ORMSBY, PRESIDENTE. Steve não tinha dúvidas de que o tiro viera de trás daquela placa. Enquanto corria até lá, ouviu novo disparo e o baque de um corpo, caindo contra a porta.

Steve escancarou-a e pulou para dentro, evitando pisar no homem que estava caído no chão. Junto à janela, Larry Ormsby estava de pé, de frente para a porta, com uma automática preta na mão. Seus olhos se moviam num regozijo alucinado e a boca estava retorcida por um sorriso contido.

– Olá, Threefall – disse. – Vejo que você continua no olho do furacão.

Steve olhou para o homem que estava caído no chão. Era W.W. Ormsby. Havia dois buracos de balas no bolso superior esquerdo de seu colete. Os buracos, distantes pouco mais de dois centímetros um do outro, tinham sido feitos com tal precisão que não podia haver dúvida de que o homem estava morto. Steve lembrou-se da ameaça de Larry a seu pai: “Vou estragar sua roupa!”.

Desviou os olhos do morto e observou o assassino. Os olhos de Larry Ormsby, duros, faiscavam. A pistola estava leve em sua mão, segura com um certo relaxamento, típico dos pistoleiros profissionais.

– Não é nada pessoal com você, é? – perguntou ele.

Steve balançou a cabeça. E ouviu uma confusão de passos e vozes excitadas no corredor.

– Ótimo – continuou o assassino. – E eu sugiro que você...

Ele se calou quando vários homens entraram no escritório. Grant Fernie, o xerife, estava entre eles.

– Está morto? – perguntou, mal olhando para o homem no chão.

– Bastante – respondeu Larry.

– Como foi?

Larry Ormsby umedeceu os lábios, não nervoso, mas pensativo. Depois sorriu para Steve e contou sua história.

– Threefall e eu estávamos conversando junto à porta da frente, quando ouvimos um tiro. Achei que tinha vindo daqui, mas Threefall achou que tinha sido do outro lado da rua. Na dúvida, subimos para dar uma olhada – não sem antes fazermos uma aposta. Sendo assim, Threefall me deve um dólar. Subimos até aqui e, assim que chegamos no andar, ouvimos outro tiro. E Bracket saiu correndo daqui de dentro, com este revólver na mão.

Ele deu a automática para o xerife e continuou:

– Deu alguns passos, gritou e caiu. Você o viu lá fora?

– Vi – disse Fernie.

– Bem, Threefall foi dar uma olhada nele enquanto eu entrava para ver se estava tudo bem com meu pai, e o encontrei morto. Foi isso.

Assim que as pessoas saíram do escritório do homem assassinado, Steve foi caminhando devagar pela rua. Não tinha nem desmentido nem confirmado a versão criada por Larry Ormsby. Ninguém lhe perguntara nada. No início, ficara estupefato demais com a desfaçatez do assassino. E, recobrando a verve, decidira ficar de bico calado por um tempo.

E se tivesse contado a verdade? Será que teria ajudado a Justiça? Existiria um meio de ajudar a Justiça em Izzard? Se ele soubesse o que havia por trás daquela fieira de crimes, talvez pudesse ter decidido o que fazer. Mas não sabia – não sabia sequer se havia de fato alguma coisa por trás de tudo. E, assim, ficou quieto. O inquérito só começaria no dia seguinte – e seria então a ocasião para falar, após uma noite para pensar no assunto.

Por enquanto, só conseguia entender um fragmento da história de cada vez. As lembranças, confusas, giravam em seu cérebro, formando imagens desconexas. Elder e a sra. MacPhail subindo a escada – para onde? E o que acontecera com eles? O que acontecera ao homem com o queixo e o pescoço enfaixados? Será que os três tinham alguma coisa a ver com o crime? Será que Larry tinha matado tanto o banqueiro quanto o próprio pai? E como é que o xerife tinha aparecido por acaso na cena do crime, logo depois de tudo acontecer?

Com esses pensamentos tumultuados, Steve foi para o hotel e se estendeu na cama, ali ficando por cerca de uma hora. Em seguida, levantou-se e foi até o Banco de Izzard, tirou o dinheiro que tinha, colocou-o cuidadosamente no bolso e voltou para o hotel, deitando-se de novo na cama.

Nova Vallance, envolta em crepe amarelo, estava sentada no primeiro degrau da varanda dos MacPhail quando Steve atravessou o jardim florido naquela noite. Ela lhe deu boas-vindas calorosas, sem tentar esconder o fato de que o esperava com impaciência. Steve sentou-se no degrau ao lado dela, virando-se um pouco para poder observar melhor o oval melancólico de seu rosto.

– Como está seu braço? – perguntou ela.

– Ótimo! – Steve abriu e fechou a mão esquerda, num segundo. – Imagino que você tenha ouvido falar da confusão de hoje.

– Claro! Que o sr. Bracket matou o sr. Ormsby e em seguida morreu de ataque cardíaco.

– Hein? – perguntou Steve.

– Mas você não estava lá? – surpreendeu-se a moça.

– Estava. Mas quero que você me conte direitinho o que foi que ouviu.

– Ah, eu ouvi de tudo! Mas o que realmente sei é o que o dr. MacPhail me contou, depois de examinar os dois corpos.

– E o que foi que ele contou?

– Que o sr. Brackett matou o sr. Ormsby com um tiro, embora ninguém saiba por quê. E então, antes que pudesse sair do prédio, teve um ataque cardíaco e morreu.

– E ele sofria do coração?

– Sofria. O dr. MacPhail tinha dito a ele um ano atrás que tivesse cuidado, porque qualquer emoção forte que tivesse poderia ser fatal.

Steve segurou-a pelo pulso.

– Pense bem – ordenou –, alguma vez você ouviu o dr. MacPhail comentar que o sr. Brackett tinha um problema cardíaco, antes do dia de hoje?

Ela o encarou, curiosa, e um brilho de encantamento faiscou em seus olhos.

– Não – respondeu devagar. – Acho que não. Mas é claro que não havia nenhuma razão para que ele tivesse me falado sobre isso antes. Por que você está perguntando?

– Porque – disse Steve – Brackett não atirou em Ormsby. E qualquer ataque cardíaco que tenha matado Brackett foi causado por envenenamento – por um veneno que lhe queimou o rosto e a barba.

Ela soltou um grito de horror.

– Você acha que – e parou, dando uma olhada por cima do ombro para a porta da casa e em seguida inclinando-se e sussurrando – ...você não... você não disse que o homem morto na briga de ontem à noite se chamava Kamp?

– Disse.

– Bem, o relatório, ou seja lá o que for que o dr. MacPhail fez depois de examiná-lo, traz o nome de Henry Cumberpatch.

– Tem certeza? Tem certeza de que é o mesmo homem?

– Tenho. O vento jogou o relatório no chão e, quando fui apanhá-lo e o dei de volta ao doutor, ele brincou – ela corou, dando um risinho. – Brincou dizendo que por pouco aquele relatório não era seu e não de seu companheiro. Foi quando eu dei uma olhada no papel e vi que estava em nome de Henry Cumberpatch. O que significa isso? O que será que...

O portão da frente se abriu com barulho e um homem entrou vacilante. Steve levantou-se, segurou a bengala com força e deu um passo à frente, interpondo-se entre a garota e o homem. O rosto do homem surgiu da penumbra. Era Larry Ormsby. Quando falou, sua voz estava pesada de bebida, o que combinava com o jeito vacilante – não totalmente descontrolado, mas quase – com que andava.

– Escuta aqui... – disse. – Eu estou... bem perto...

Steve foi na direção dele.

– Se a srta. Vallance nos desculpar – disse – vamos até o portão para poder conversar melhor lá fora.

Sem esperar por uma resposta de quem quer que fosse, Steve enfiou o braço no braço de Ormsby e carregou-o rumo à calçada. No portão, Larry se desvencilhou dele e, livre, confrontou Steve.

– Não tenho tempo para bobagens! – rosnou. – Você tem de se mandar! Dar o fora de Izzard!

– Mesmo? – perguntou Steve. – E por quê?

Larry encostou-se na cerca e ergueu uma das mãos, num gesto de impaciência.

– A vida de vocês não vale um tostão... de nenhum dos dois.

Vacilou novamente e tossiu. Steve agarrou-o pelo ombro e encarou-o.

– O que há com você?

Larry tossiu outra vez e levou a mão ao peito, perto do ombro.

– Uma bala... lá em cima... no Fernie. Mas eu o agarrei... o bandido. Atirei-o de uma janela... despencou de lá como um garoto pulando para pescar moedas – deu uma risada estridente e em seguida empertigou-se. – Pegue a garota... e se mande... agora! Agora! Agora! Mais dez minutos e será tarde. Eles estão vindo!

– Quem? Como? Por quê? – disparou Steve. – Fale sério! Não confio em você. Tenho boas razões para isso.

– Razões, Deus do céu! – gritou o homem ferido. – Você vai ter suas razões. Pensa que estou tentando assustar você, para que saia da cidade antes do inquérito. – Deu uma risada insana. – Inquérito! Seu idiota! Não vai haver inquérito algum! Não vai haver amanhã... para Izzard! E você...

Controlando-se com esforço, pegou uma das mãos de Steve entre as suas.

– Ouça – disse. – Vou lhe contar tudo, mas estamos perdendo tempo! Mas se você quer saber, então ouça.

“Izzard é um embuste! A maldita cidade inteira é uma farsa. Birita, é o nome da coisa. O homem que eu matei hoje à tarde, aquele que você pensou que fosse meu pai, foi quem começou tudo. Para fabricar nitrato de sódio, é preciso ferver o nitrato em tanques, com serpentinas aquecidas. Ele teve a idéia de fazer uma usina de nitrato que seria na verdade a fachada para uma fábrica ilegal de bebida. E concluiu também que, se a cidade inteira estivesse trabalhando junto com ele, ninguém ia poder botar areia na história.

“Você bem pode imaginar o quanto de dinheiro existe neste país na mão de pessoas interessadas em investir num negócio de contrabando de bebida que tenha uma fachada legal. Não estou falando só dos vigaristas, mas também de homens que se consideram honestos. Pegue seu palpite, qualquer que seja ele, e dobre, e mesmo assim ainda vai estar a vários milhões de distância. Existem homens que... Bem, mas o fato é que Ormsby levou seu esquema para o Leste e conseguiu apoio – um sindicato que poderia ter levantado dinheiro suficiente para construir uma dúzia de cidades.

“Ormsby, Elder e Brackett eram os caras que comandavam tudo. Eu estava aqui para ter certeza de que eles não estavam passando o sindicato para trás. Abaixo deles, vem um bando de paus-mandados, todos muito confiáveis, como Fernie, MacPhail e Heman – que é o chefe do correio – e Harker – outro médico, que dançou na semana passada – e Leslie, que posava de pastor. Não foi difícil conseguir a população que queríamos. Correu a notícia de que a nova cidade era um lugar onde qualquer vigarista podia se dar bem, desde que fizesse o que lhe fosse mandado. As favelas de todas as cidades americanas, e metade das de outros lugares, esvaziaram – veio todo mundo para cá. Cada bandido que estava a ponto de ser apanhado e que tinha como chegar até aqui veio e ganhou guarida.

“Claro que, com toda essa gente barra-pesada vindo para cá, muitos detetives vieram atrás. Mas eles não eram muito difíceis de se lidar e, na pior das hipóteses, nós deixávamos a lei prender um cara ou outro. Mas era fácil cuidar dos tiras. Temos banqueiros, pastores, médicos e chefes de correio, um monte de homens proeminentes para dar um jeito nos policiais, fosse com uma bala perdida, fosse fazendo com que caíssem numa armadilha. Na penitenciária estadual, você vai achar um monte de caras que vieram aqui – a maioria agentes de combate às drogas e ao contrabando de bebidas – e que, antes de abrir o olho, já estavam enredados.

“Nunca houve um plano tão perfeito! Não tinha como falhar – exceto se nós mesmos jogássemos areia. E foi o que fizemos. Era bom demais para nós. Tinha dinheiro demais envolvido – e isso nos subiu à cabeça! Primeiro, fizemos tudo direitinho com o sindicato. Fabricávamos a bebida e entregávamos o produto – em vagões de carga, em caminhões, fazíamos tudo e, com isso, obtínhamos dinheiro suficiente para o sindicato e para nós. Até que tivemos uma idéia – a grande idéia! Continuamos a fabricar a bebida, mas essa grande idéia era coisa só para nós. O sindicato ficaria de fora.

“Em primeiro lugar, veio o plano para fraudar o seguro. Elder cuidou de tudo, com três ou quatro ajudantes. Lá entre eles, esses caras se tornaram agentes de metade das seguradoras do país e começaram a forjar apólices em Izzard. Escolhiam alguém que nunca tivesse vivido aqui, faziam um seguro no nome dele e em seguida o cara era morto – às vezes, a pessoa morria só no papel, às vezes alguém que morria de verdade tinha seu nome usado, mas havia outras ocasiões em que encomendávamos o assassinato de um ou outro. Era moleza. Tínhamos conosco os agentes de seguro, os médicos, o magistrado, o dono da funerária, todos os funcionários da cidade. Tínhamos uma máquina bem azeitada, capaz de pôr em movimento qualquer plano. Você estava com Kamp na noite em que ele foi morto. Esse foi um dos bons. Era investigador de uma companhia de seguros – as empresas estavam começando a desconfiar. Veio para cá e cometeu o erro de mandar relatórios pelo correio. São raras as cartas de forasteiros que são mandadas daqui sem que sejam lidas por nós. Lemos os relatórios, ficamos com eles e, no lugar, mandamos relatórios falsos, dizendo qualquer bobagem. Depois, apagamos o Kamp e trocamos o nome dele no atestado de óbito, para encaixar numa apólice de seguro da própria companhia dele. Genial, não acha?

“O golpe do seguro não se resumia a homens – incluía também carros, casas, móveis, qualquer coisa que pudesse ser segurada era forjada. No último censo – distribuindo as pessoas com as quais podíamos contar, uma em cada casa, com uma lista de cinco ou seis nomes – conseguimos para os registros uma população pelo menos cinco vezes maior do que a verdadeira. Isso nos deu espaço para muitas apólices, muitas mortes, muitos seguros de propriedades, muita coisa. E nos deu tanta influência política no condado e no estado que nos garantiu um alcance cem vezes maior, tornando todo o esquema ainda mais seguro.

“Você vai encontrar ruas e ruas de casas que não têm nada dentro, exceto aquilo que se vê da janela da frente. Custa caro construí-las, mas o dinheiro já foi todo recuperado e, quando chegar a hora, elas vão dar muito lucro.

“Aí, quando o golpe do seguro já estava rolando, inventamos a história das promoções. Há centenas de corporações em Izzard que são apenas nomes e fachadas – mas seus certificados de ações e bônus têm sido vendidos de um lado a outro dos Estados Unidos. E as empresas compram mercadorias, pagam por elas e depois as embarcam, para se livrar delas – talvez no prejuízo –, ao mesmo tempo em que fazem mais e mais encomendas, até terem um tal crédito com os fabricantes que você ficaria tonto só de ouvir. Fácil! Afinal, o banco de Brackett não estava aqui para dar as referências que eles queriam? Não custava nada. As empresas iam recebendo cada vez mais crédito, até alcançar o ponto máximo. Então, com as mercadorias embarcadas para serem vendidas por debaixo do pano, bingo! A cidade é destruída por um incêndio. Os estoques de mercadorias seriam supostamente queimados. Os elegantes edifícios que os investidores de fora pensam existir também. Os livros e registros, idem. Tudo queimado.

“Que jogada! Tive de me virar para tapear o sindicato, tentando evitar a todo custo que eles descobrissem os nossos planos. Eles são muito desconfiados para levar a coisa por mais tempo. Mas está quase tudo pronto para o grande incêndio – o fogo, que vai começar na fábrica e lamber a cidade inteira –, e o dia que tínhamos marcado é o próximo sábado. É o dia em que Izzard será transformada num monte de cinzas – num monte de valiosas apólices de seguro.

“O povinho da cidade não vai saber de nada sobre a melhor parte do plano. Aqueles que suspeitam de alguma coisa pegam sua grana e calam o bico. Quando a cidade virar fumaça, vai haver centenas de corpos encontrados nos escombros – todos segurados – e vão surgir provas da morte de outros tantos – igualmente segurados –, cujos corpos jamais serão encontrados.

“Nunca houve um golpe igual! Mas era bom demais para nós. Foi culpa minha – pelo menos em parte –, mas teria ido para o buraco de qualquer maneira. A gente sempre dava um jeito nas pessoas que chegavam aqui com cara de honestas demais, ou sabidas demais. E queríamos ter absoluta certeza de que não haveria uma dessas pessoas nem no correio, nem no armazém da ferrovia, nem no posto telegráfico ou na companhia telefônica. Se a ferrovia, os telégrafos ou a companhia telefônica mandavam alguém para trabalhar aqui e nós percebíamos que era alguém que não podíamos enquadrar no esquema, aí dávamos um jeito de tornar o lugar desagradável para eles – e geralmente eles desapareciam rapidinho.

“Mas aí os telégrafos mandaram Nova para trabalhar aqui, e eu gostei dela. No início, só a achava bonita. Há mulheres de todo tipo aqui em Izzard, mas geralmente elas eram só isso, mulheres de todo tipo. Nova, não. Nova era diferente. Já fiz muita merda na vida, mas nunca consegui me livrar de um certo fastio no meu gosto por mulheres. Eu... bem, o fato é que os outros – Brackett, Ormsby, Elder e o bando – queriam dar um jeito em Nova. Eu os convenci do contrário. Disse que deixassem a garota quieta, que eu a faria passar para o nosso lado em breve. Achava mesmo que podia fazer isso. Ela gostava de mim, ou pelo menos parecia gostar, mas o fato é que eu não consegui ir muito além disso. Não fiz nenhum progresso. Os caras começaram a ficar impacientes, e eu enrolando, dizendo que tudo ia dar certo, que se fosse preciso eu me casaria com ela, para não haver mais risco de ela abrir a boca. Eles não ficaram nada satisfeitos. Não foi nada fácil evitar que ela descobrisse o que estava acontecendo – trabalhando no posto telegráfico –, mas, de um jeito ou de outro, nós conseguimos.

“O próximo sábado seria o dia escolhido para o fogaréu. Ormsby foi me ver ontem – e disse na minha cara que se eu não conseguisse que Nova ficasse do nosso lado, eles iam acabar com ela. Não sabiam o quanto ela já tinha descoberto e não queriam correr riscos. Eu disse a ele que o mataria se ele tocasse na garota, mas sabia que não ia conseguir convencê-los a mudar de idéia. Hoje, a coisa estourou. Soube que ele tinha dado ordem para acabarem com a garota esta noite. Fui até o escritório dele tirar as coisas a limpo. Brackett estava lá. Ormsby me cumprimentou e negou que tivesse dado a ordem para acabar com a garota. Em seguida, serviu bebida para nós três. Achei a bebida estranha. Esperei para ver o que ia acontecer. Brackett tomou a sua de um gole. Estava envenenada. Ele saiu pela porta, caindo morto lá fora, enquanto eu acabava com Ormsby.

“O jogo estava terminado! Era bom demais para nós. Todo mundo agora quer beber o sangue do outro. Não consegui encontrar Elder – mas o Fernie tentou me empurrar de uma janela. E ele é o braço direito de Elder. Quero dizer, era... porque ele também virou presunto. Acho que esse troço no meu peito é dos grandes... estou... mas você ainda pode tirar a garota daqui. Você tem de fazer isso! Elder vai querer ir em frente com o golpe, fazer tudo sozinho. Vai pôr fogo na cidade hoje à noite. É agora ou nunca para ele. Ele vai tentar...”

Um grito cortou a escuridão.

– Steve! Steve! Steve!

Steve contornou o portão, pulou os canteiros de flores e atravessou a varanda. Num segundo, estava dentro da casa. Atrás dele, ouvia o ruído dos passos de Larry Ormsby. Um vestíbulo vazio, uma sala vazia, mais outra. Não havia ninguém ali no térreo. Steve subiu as escadas. Havia uma nesga de luz embaixo de uma das portas. Ele a abriu, sem saber nem se importar se estava ou não trancada. Simplesmente se jogou de ombro contra a porta e entrou. Encostado a uma mesa no centro do quarto estava o dr. MacPhail, lutando com a garota. Agarrava-a por trás, com os braços, tentando imobilizá-la. A garota se contorcia e gritava, parecendo um gato enlouquecido. Diante dela, a sra. MacPhail erguia no ar uma maça.

Steve voou no braço alvo da mulher, um vôo cego, sem direção nem intenção. A arma escura atingiu-lhe braço e ombro, e ele cambaleou para trás. Largando a garota, o dr. MacPhail pulou nas pernas de Steve, agarrou-as e derrubou-o. Os dedos de Steve escorregavam pela cabeça calva do médico, sem conseguir agarrá-lo pelo pescoço grosso, até que encontraram uma orelha, cravando-se na carne embaixo dela.

O médico bufava e se contorcia, tentando se libertar dos dedos de Steve. Mas este tinha um joelho livre – e enfiou-o na cara do médico. A sra. MacPhail debruçou-se sobre ele, erguendo a maça preta que ainda trazia nas mãos. Steve tentou agarrar-lhe o tornozelo e não conseguiu, mas o golpe da maça veio oblíquo, atingindo-o de raspão no ombro. Steve torceu-se para o lado e se pôs de quatro, imediatamente caindo de barriga no chão, ante o impacto do corpo do médico, que acabara de pular em suas costas.

Rolou no chão e conseguiu passar para cima, ainda sentindo a respiração quente do médico na nuca. Ergueu então a cabeça e deu com ela uma pancada para trás – com toda a força. Mais uma vez, bateu, atingindo o rosto de MacPhail com a parte de trás da cabeça. Os braços do médico afrouxaram e Steve, de um pulo, ficou de pé, vendo que a luta tinha terminado.

Larry Ormsby, junto à porta, sorria um sorriso maléfico, enquanto apontava a pistola para a sra. MacPhail, emburrada, perto da mesa. A maça estava no chão, aos pés de Larry.

Encostada ao outro extremo da mesa, estava a garota, mal conseguindo manter-se de pé, com uma das mãos no pescoço machucado, os olhos esbugalhados de medo. Steve foi até ela.

– Vai nessa, Steve! Não há tempo para teatrinho. Você está de carro? – A voz de Larry Ormsby era ríspida.

– Não – respondeu Steve.

Larry xingou – uma explosão de nomes sujos – e em seguida disse:

– Vamos no meu. Ele corre mais do que qualquer outro. Mas você não pode ficar aqui esperando enquanto eu vou buscá-lo. Leve Nova até a cabana do cego Rymer. Eu pego vocês lá. Ele é a única pessoa na cidade em quem você pode confiar. Vá logo, droga! – gritou.

Steve olhou para a cara amarrada da sra. MacPhail, depois para o marido, agora se levantando devagar, com o rosto todo ensangüentado.

– E eles?

– Não se preocupe com eles – respondeu Larry. – Pegue a garota e vá para a casa do Rymer. Deixe que eu cuido do casal. Em quinze minutos, estarei lá com o carro. Vá!

Steve franziu os olhos, observando o homem encostado à porta. Não confiava nele, mas como em Izzard tudo era igualmente perigoso, não faria diferença ir ou não ir. E talvez pudesse afinal acreditar em Larry Ormsby dessa vez.

– Está bem – respondeu, virando-se para a garota. – Pegue um casaco pesado.

Cinco minutos depois, os dois estavam correndo pelas mesmas ruas escuras que tinham atravessado na noite anterior. A menos de um quarteirão da casa, ouviram ao longe um estampido, depois outro. A garota olhou rápido para Steve, mas não disse nada. Ele esperou que ela não tivesse entendido o que os dois tiros significavam.

Não viram ninguém. Rymer ouvira e reconhecera os passos da garota na calçada e abrira a porta antes que eles batessem.

– Entre, Nova – disse ele, caloroso. Em seguida, estendeu a mão para Steve. – É o sr. Threefall, não é?

Fez com que os dois entrassem na cabana escura e em seguida acendeu a lâmpada de óleo sobre a mesa. Steve se apressou em dizer, em resumo, o que Larry Ormsby lhe contara. A garota ouvia a tudo com olhos arregalados e uma expressão abatida. O rosto do cego perdeu a serenidade. Enquanto ouvia, ele pareceu de repente mais velho e cansado.

– Ormsby disse que pegaria o carro e viria nos encontrar – disse Steve. – Se ele vier mesmo, o senhor virá conosco, sr. Rymer. Se o senhor disser o que quer levar, nós podemos ir recolhendo as coisas. Assim, não vamos perder tempo quando ele chegar... se chegar. – Virou-se para a garota: – O que você acha, Nova? Ele vem? E, se vier, será que podemos confiar nele?

– Eu... espero que sim. Ele não é de todo mau, eu acho.

O cego foi até um guarda-roupa, no outro extremo do quarto.

– Não tenho nada para levar comigo – disse –, mas vou vestir um agasalho.

Abriu a porta do guarda-roupa no canto do quarto, para trocar-se protegido por ela, como se fosse um biombo. Steve foi até a janela e ficou parado, entre a cortina e a esquadria, espiando a rua escura lá fora, onde nada se movia. A garota estava junto dele, agarrada a seu braço, os dedos cravados na manga de seu casaco.

– Será que nós vamos... vamos...?

Ele a trouxe para si e respondeu à pergunta sussurrada, que ela sequer conseguira terminar.

– Vamos, sim – disse. – Com ou sem a ajuda de Larry, vamos conseguir.

Um rifle foi disparado, em algum ponto da rua principal. Seguiu- se uma saraivada de tiros de pistola. O Vauxhall creme surgiu do nada e parou na calçada, a dois passos da porta. Larry Ormsby, sem chapéu e com a camisa toda aberta, deixando à mostra um buraco de bala abaixo da clavícula, saiu do carro aos trambolhões e entrou pela porta, que Steve acabara de abrir.

Larry fechou a porta atrás de si com o pé, caindo na risada.

– Izzard está fervendo, numa boa! – gritou, batendo palmas. – Vamos, vamos! O deserto espera!

Steve virou-se para chamar o homem cego. Rymer deu um passo, saindo de trás da porta do armário. Em cada uma das mãos, trazia um revólver pesado. A névoa em seus olhos desaparecera.

Com seu olhar agora penetrante e frio, observava os dois homens e a garota.

– Mãos para cima, todos vocês – ordenou, ríspido.

Larry Ormsby deu uma risada insana.

– Você alguma vez já viu um louco em ação, Rymer? – perguntou.

– Mãos para cima!

– Rymer – disse Larry –, eu estou morrendo. Vá para o inferno!

E num segundo tirou uma pistola automática preta do bolso interno do casaco.

Os revólveres nas mãos de Rymer sacudiram a cabana, com uma detonação atrás da outra.

Caindo sentado no chão por causa da rajada de balas que praticamente lhe destroçara o corpo, Larry encostou as costas na parede, enquanto o ruído agudo e estalado de sua arma, mais leve, mesclava-se ao barulho dos revólveres do falso cego.

Tendo pulado instintivamente para o lado no primeiro tiro, levando a garota com ele, Steve atirava-se agora para cima de Rymer. Mas, assim que o agarrou, o barulho cessou. Rymer oscilava e até os revólveres em suas mãos de repente pareciam bambos. Ele se desvencilhou – seu pescoço, seco como papel, escapando à mão de Steve – e num instante era apenas um volume sem vida no chão.

Steve afastou com um chute os dois revólveres caídos no chão e em seguida foi para junto da moça, ajoelhada ao lado de Larry Ormsby. Larry sorriu para Steve, seus dentes brancos cintilando.

– Já fui, Steve – disse. – Aquele Rymer... nos enganou a todos... aquela membrana de mentira nos olhos... pintada... espião do sindicato do rum.

Ele se contorceu e seu sorriso tornou-se rígido, tenso.

– Você se importa se apertarmos as mãos, Steve? – perguntou em seguida.

– Você é um cara legal, Larry. – Foi tudo o que Steve conseguiu dizer.

O moribundo pareceu satisfeito. Seu sorriso tornou-se outra vez real.

– Sorte sua... Vai conseguir dar 160 por hora no Vauxhal – conseguiu dizer.

Então, parecendo ter esquecido a garota por quem dera a vida, deu mais um sorriso para Steve e morreu.

A porta da frente escancarou-se – e duas caras espiaram para dentro. Os donos das caras entraram.

Ficando de pé num segundo, Steve girou a bengala. Um osso estalou como uma chicotada, um homem recuou, levando a mão à testa.

– Fique colada em mim! – gritou Steve para a garota, e sentiu as mãos dela nas costas.

Vários homens surgiram na porta. Um revólver invisível disparou e um pedaço do teto veio ao chão. Steve girava a bengala, abrindo caminho em direção à porta. Atrás dele, a luz da lâmpada brilhava, refletindo-se no bastão de madeira, que rodopiava. Ele batia de trás para a frente, da esquerda para a direita, da direita para a esquerda. A bengala movia-se como uma coisa viva, parecendo dobrar-se a partir do meio, onde a mão a agarrava, como se feita de molas de aço. O brilho dos meios círculos crescia, fundindo-se numa esfera mortal. O ritmo incessante dos golpes contra a carne e o estalar de ossos tornaram-se a melodia de fundo, em meio aos grunhidos dos homens em luta, gemidos e xingamentos dos que eram golpeados. Steve e a garota atravessaram a porta.

Em meio a um tumulto de pernas e braços, viram o Vauxhall cor de creme. Havia homens trepados em cima do carro para, do alto, lutar melhor. Steve foi em frente, brandindo a bengala contra canelas e coxas, arrancando os homens de cima do automóvel. Com a mão esquerda, puxou a garota para junto de si. O corpo dele balançava ante o peso dos golpes, vindo de homens que estavam próximos demais para conseguir bater direito e cujas pancadas caíam sobre Steve meio abafadas.

De repente, ele perdeu a bengala. Num segundo, tinha o bastão nas mãos e girava-o. No instante seguinte, seu punho estava fechado sobre o vazio – e a bengala de ébano desaparecera como num passe de mágica. Steve lançou a garota por cima da porta do carro, enfiando-a lá dentro – empurrando-a sobre as pernas de um homem que estava ali –, ouviu um estalo de osso e viu o homem desabar. Mãos o agarravam de todos os lados. Mãos o golpeavam. Ele deu um grito de alegria quando viu que a garota, espremida no chão do carro, tentava, com suas mãos ridiculamente pequenas, dar a partida no motor.

O carro começou a andar. Segurando-se com as duas mãos, Steve chutou para fora e para trás com as pernas. Depois pulou de volta no estribo. Com a mão aberta, porque não tivera tempo nem de fechar o punho, deu um golpe por cima da cabeça da garota, atingindo com a ponta dos dedos uma cara larga e vermelha.

O automóvel se movia. Uma das mãos da garota conseguiu se esgueirar para cima e agarrar o volante, mantendo o carro em linha reta pela rua que ela não enxergava. Caiu um homem em cima dela. Steve tirou-o fora – arrancando-lhe pedaços, arrancando cabelos e pele. O automóvel deu uma guinada, raspou a parede de um prédio.

Os homens que estavam daquele lado caíram todos. As mãos que estavam seguras em Steve se desprenderam dele, levando com elas boa parte de sua roupa. Steve arrancou um homem do banco de trás e atirou-o na rua, que passava sob eles. E só então sentou-se no carro, ao lado da garota.

Tiros de pistola explodiram atrás deles. De uma casa, alguns metros à frente, um rifle foi esvaziado, com estrondo, na direção dos dois, crivando o pára-choques de balas. Então, de repente, o deserto – branco e macio como uma gigantesca cama de hospital – estava em torno deles. Fosse o que fosse que os perseguia, havia ficado para trás.

Depois de um tempo, a garota diminuiu a marcha e parou o carro.

– Você está bem? – perguntou Steve.

– Estou. Mas você...

– Está tudo no lugar – garantiu ele. – Deixe que eu dirijo.

– Não, não – protestou a moça. – Você está sangrando e...

– Não, não! – debochou ele, imitando a garota. – É melhor irmos andando, até chegarmos a algum lugar. Não estamos longe o suficiente de Izzard para ter certeza de que estamos seguros.

Steve tinha medo de que, se a moça tentasse cuidar de seu ferimento, ele acabasse se desfazendo em seus braços. Era o que tinha vontade de fazer.

Ela deu partida no carro e foram em frente. Steve sentiu uma sonolência. Que luta! Que luta!

– Olhe só para o céu – disse a moça.

Steve abriu os olhos pesados. À frente e acima deles, o céu estava se iluminando – de azul-escuro para violeta, então para malva e cor-de-rosa. Steve virou-se e olhou para trás. No ponto em que ficava Izzard, queimava uma gigantesca fogueira, pintando o céu com um brilho de jóia.

– Adeus, Izzard – disse Steve, sonolento, afundando no banco do carro.

Deu mais uma espiada no céu rosado à frente.

– Minha mãe cultiva prímulas em seu jardim em Delaware que parecem um pouco com isso – disse, já meio dormindo. – Você vai gostar de vê-las.

Sua cabeça escorregou para o ombro da garota e ele adormeceu.

 

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