17 contradições e o fim do capitalismo
Prólogo – A crise atual do capitalismo
Prólogo
A crise atual do capitalismo
Crises são essenciais para a reprodução do capitalismo. É no desenrolar das
crises que as instabilidades capitalistas são confrontadas, remodeladas e
reformuladas para criar uma nova versão daquilo em que consiste o
capitalismo. Muita coisa é derrubada e destruída para dar lugar ao novo.
Terras produtivas são transformadas em desertos industriais, velhas fábricas
são demolidas ou usadas para novas finalidades, bairros onde mora a classe
trabalhadora são gentrificados. Por toda parte, pequenas fazendas e terras
cultivadas por camponeses são substituídas por agricultura industrializada
em larga escala ou fábricas novinhas em folha. Parques empresariais,
centros de pesquisa e desenvolvimento, armazéns e centros de distribuição
se alastram em meio a conjuntos residenciais, interligados por trevos
rodoviários. Grandes cidades competem pela altura e sofisticação a que
podem chegar suas torres comerciais e construções icônicas; galerias e
shopping centers monstruosos proliferam igualmente nas cidades e nos
subúrbios, e alguns chegam a funcionar como aeroportos pelos quais
transitam multidões de turistas e executivos em um mundo que se tornou
espontaneamente cosmopolita. Campos de golfe e condomínios fechados,
vistos pela primeira vez nos Estados Unidos, agora são encontrados na
China, no Chile e na Índia, contrastando com assentamentos e ocupações
irregulares, formalmente chamados de cortiços, favelas ou barrios pobres.
Contudo, o que há de tão notável nas crises não é tanto a ampla
reconfiguração da paisagem física, mas as mudanças drásticas no modo de
pensar e entender, nas instituições e ideologias dominantes, nos processos,
alianças e subjetividades políticas, nas tecnologias e formas
organizacionais, nas relações sociais, nos costumes e nas preferências
culturais que permeiam a vida cotidiana. As crises abalam profundamente
nossas concepções de mundo e do lugar que ocupamos nele. E nós, como
participantes e habitantes inquietos desse mundo que vem surgindo, temos
de nos adaptar, por coerção ou consentimento, a um novo estado de coisas,
ao mesmo tempo que, por meio de nossas ações e do modo como pensamos
e nos comportamos, damos nossa pequena contribuição às complicações
desse mundo.
É difícil ver a saída no meio de uma crise. Crises não são
acontecimentos isolados. Embora tenham gatilhos óbvios, as mudanças
tectônicas que representam levam anos para se desenvolver. A longa e
persistente crise que se iniciou com a quebra do mercado de ações em 1929
só se resolveu por completo nos anos 1950, depois que o mundo passou
pela depressão dos anos 1930 e pela guerra mundial dos anos 1940. Da
mesma maneira, a crise sinalizada pela turbulência dos mercados de câmbio
internacionais, no fim dos anos 1960, e pelos protestos de rua de 1968 em
cidades tão diversas como Paris, Chicago, Cidade do México e Bangcoc só
se resolveu em meados dos anos 1980, depois do colapso, no começo da
década de 1970, do sistema monetário internacional de Bretton Woods,
iniciado em 1944, da turbulenta década de 1970 no que diz respeito às lutas
trabalhistas, do advento e da consolidação das políticas neoliberais sob os
governos Reagan, Thatcher, Kohl, Pinochet e, por fim, Deng na China.
Com o benefício da visão retrospectiva, não é difícil distinguir sinais
abundantes de problemas iminentes muito antes da explosão de uma crise.
As crescentes desigualdades de riqueza e renda nos anos 1920 e a bolha do
mercado imobiliário que estourou em 1928, nos Estados Unidos,
pressagiaram o colapso de 1929, por exemplo. Com efeito, a saída de uma
crise contém em si as sementes das crises que virão. O desfecho da
financeirização global hiperendividada e cada vez mais desregulamentada
que começou nos anos 1980 como um modo de resolver conflitos trabalhistas (facilitando a mobilidade e a dispersão geográfica) foi a
falência do banco de investimentos Lehman Brothers em 15 de setembro de
2008.
Já se passaram mais de cinco anos desde esse evento, que desencadeou
uma cascata de colapsos financeiros. Se o passado nos serve de guia, seria
estupidez esperar, a esta altura, qualquer indicação clara de como seria um
capitalismo renovado – se é que isso é possível –, mas deveria haver uma
profusão de diagnósticos conflitantes sobre o que está errado e uma
proliferação de propostas para colocar as coisas nos eixos. O que
surpreende é a parcimônia de novas políticas ou pensamentos. Em termos
gerais, o mundo está polarizado entre a continuação ou até o
aprofundamento das soluções neoliberais, baseadas na oferta [supply-side] e
monetaristas, enfatizando a austeridade como remédio apropriado para
curar nossos males (caso da Europa e dos Estados Unidos), e a retomada de
uma versão em geral diluída de uma expansão keynesiana baseada na
demanda e financiada pela dívida (como na China), ignorando a ênfase de
Keynes na redistribuição de renda para as classes mais baixas como um de
seus componentes-chave. Não importa qual política é seguida: o resultado é
o favorecimento do clube de bilionários que constitui hoje uma plutocracia
cada vez mais poderosa, tanto dentro dos países como no cenário mundial
(como Rupert Murdoch). Em toda a parte, os ricos estão cada vez mais
ricos. Os cem maiores bilionários do mundo (tanto da China, da Rússia, da
Índia, do México e da Indonésia como dos centros tradicionais de riqueza
na América do Norte e na Europa) juntaram US$ 240 bilhões a mais em
seus cofres só em 2012 (o suficiente, calcula a Oxfam, para acabar com a
pobreza mundial da noite para o dia). Em contrapartida, o bem-estar das
massas estagna, na melhor das hipóteses, ou, mais provavelmente, sofre
uma degradação crescente, se não catastrófica (como na Grécia e na
Espanha).
Dessa vez, a grande diferença institucional parece ser o papel
desempenhado pelos bancos centrais, e, obviamente, o papel principal, ou
até dominante, no cenário mundial é do Federal Reserve, dos Estados
Unidos. Mas, desde os primórdios dos bancos centrais (em 1694, no caso
britânico), o papel deles tem sido proteger e socorrer os banqueiros, não cuidar do bem-estar das pessoas. O fato de que, estatisticamente, os Estados
Unidos conseguiram sair da crise em meados de 2009 e os mercados de
ações conseguiram recuperar suas perdas em quase todo o mundo teve tudo
a ver com as políticas do Federal Reserve. Será que isso é o prenúncio de
um capitalismo global administrado pela ditadura dos banqueiros centrais
do mundo, cuja principal missão é proteger o poder dos bancos e
plutocratas? Se sim, parece haver pouca possibilidade de resolvermos o
atual problema das economias estagnadas e do padrão de vida cada vez
mais baixo da massa da população mundial.
Há também muita conversa fiada sobre a possibilidade de uma solução
tecnológica para o mal-estar econômico atual. Embora a integração de
novas tecnologias e formas organizacionais sempre tenha desempenhado
um papel importante para facilitar a saída das crises, esse papel nunca foi
determinante. Atualmente, as esperanças estão concentradas no capitalismo
“baseado no conhecimento” (em primeiro plano, a engenharia biomédica, a
engenharia genética e a inteligência artificial). Mas inovação é sempre uma
faca de dois gumes: a automação da década de 1980 trouxe a
desindustrialização, e empresas como a General Motors (que empregava
trabalhadores sindicalizados e bem pagos na década de 1960) foram
suplantadas por outras como o Walmart (composta por uma ampla mão de
obra não sindicalizada e mal paga), que hoje são as maiores empregadoras
privadas dos Estados Unidos. Se o surto atual de inovação aponta em
alguma direção é na de uma diminuição das oportunidades de emprego para
os trabalhadores e na de um aumento da importância da renda extraída de
direitos de propriedade intelectual no que se refere ao capital. Mas, se todos
tentassem viver de renda e ninguém investisse na fabricação de nada,
certamente o capitalismo se encaminharia para uma crise totalmente
diferente.
Não são apenas as elites capitalistas e seus seguidores intelectuais e
acadêmicos que parecem incapazes de romper radicalmente com o passado
ou definir uma saída viável para a lamuriosa crise de baixo crescimento,
estagnação, alta taxa de desemprego e perda da soberania estatal para o
poder dos credores privados. As forças da esquerda tradicional (partidos
políticos e sindicatos) são nitidamente incapazes de configurar uma oposição sólida ao poder do capital. Há trinta anos elas são derrotadas pelos
ataques ideológicos e políticos da direita, enquanto o socialismo
democrático é desacreditado. O colapso estigmatizado do comunismo
realmente existente e a “morte do marxismo” depois de 1989 pioraram
ainda mais a situação. Hoje, o que resta da esquerda radical atua
amplamente fora dos canais de oposição institucionais ou organizados, com
a esperança de que as ações em pequena escala e o ativismo local possam
contribuir para alguma alternativa satisfatória em grande escala. Essa
esquerda, que estranhamente faz eco a uma ética libertária e até neoliberal
do antiestatismo, é fomentada intelectualmente por pensadores como
Michel Foucault e todos aqueles que reuniram os fragmentos pós-modernos
sob a bandeira de um pós-estruturalismo amplamente incompreensível que
favorece a política identitária e evita a análise de classes. Perspectivas e
ações autonomistas, anarquistas e localistas estão em evidência por toda
parte. Mas uma vez que essa esquerda tenta mudar o mundo sem tomar o
poder, uma classe capitalista plutocrática cada vez mais consolidada
permanece inconteste em sua capacidade de dominar o mundo sem
restrições. Essa nova classe dominante é apoiada por um Estado de
segurança e vigilância que não é em absoluto contrário ao uso do poder de
polícia para dominar qualquer forma de dissidência em nome do
antiterrorismo.
Foi nesse contexto que escrevi este livro. A abordagem que adotei é
pouco convencional, visto que segue o método de Marx, mas não
necessariamente seus preceitos, e receio que, por conta disso, os leitores se
sintam desestimulados a aceitar zelosamente os argumentos expostos aqui.
Mas está claro que, se quisermos fugir do hiato atual no pensamento
econômico, nas políticas públicas e na política tout court, precisamos de
métodos investigativos e concepções diferentes nestes tempos
intelectualmente estéreis. Afinal, o motor econômico do capitalismo está
nitidamente passando por dificuldades. Oscila entre soltar faíscas e parar de
repente ou explodir esporadicamente sem nenhum alerta. Há inúmeros
sinais de perigo a cada curva da estrada, em meio aos prognósticos de uma
vida copiosa para todos. Ninguém parece entender de forma coerente como
e por que o capitalismo é tão turbulento. Mas ele sempre foi assim. Como disse Marx certa vez, as crises mundiais sempre foram “a concentração real