17 contradições e o fim do capitalismo

David Harvey · Capítulo 47 de 48

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17 contradições e o fim do capitalismo

Apêndice – O livro mais perigoso que já escrevi

Apêndice

 

O livro mais perigoso que já escrevi [a]

 

17 contradições... é o livro mais perigoso que já escrevi. É também o mais

recente (e talvez o último) de uma série de livros à qual me refiro, em

retrospecto, como “Projeto Marx”. Digo “em retrospecto” porque só

recentemente me dei conta de que esse projeto estava em andamento. Uma

combinação de mudanças históricas radicais com a lógica do que eu vinha

fazendo me estimulou a passar de um assunto ou de um livro para outro,

depois outro e mais outro.

O projeto começou no fim dos anos 1990, mas tornou-se mais explícito

depois de 2000. Eu aguardava com ansiedade aquele ano, não por ser o

começo de um novo milênio, mas porque imaginava que nele me

aposentaria. Hoje, quinze anos e uns doze livros depois, eis-me aqui

perguntando o que aconteceu. Em parte, atribuo isso à minha transferência

para o Graduate Center de Nova York, em 2001, que se revelou o melhor

movimento que já fiz na carreira. Saí da miséria de uma vida de extremo

isolamento no elitista Johns Hopkins para uma posição privilegiada na

atmosfera confusa, turbulenta e politicamente carregada de uma grande

universidade pública, com colegas formidáveis (mais notadamente Cindi

Katz e Neil Smith, bem como os bons amigos da antropologia) e alunos de

pós-graduação politizados. Foram esses alunos que insistiram para que eu

fizesse uma série de vídeos sobre O capital, de Marx; e foram eles também

que realizaram o trabalho habilidoso de gravar os vídeos, criar o site e mantê-lo no ar. Tenho uma dívida imensa para com esses alunos, em

particular Chris Caruso.

Mas do que se trata esse “Projeto Marx”? Estava claro há tempos que

Marx não era bem compreendido, muito menos adotado, e era preciso

trabalhar duro para tornar sua obra mais acessível. Não só por causa da

ignorância geral, fundada na rejeição e nas distorções da direita, mas

também pelas apresentações mais dogmáticas da esquerda sectária. E, ao

mesmo tempo, o marxismo acadêmico parecia empenhado em tornar o

pensamento de Marx ainda mais complicado do que já era. Eu, de certa

forma, contribuí para isso quando escrevi Os limites do capital [b] (uma obra

que, na época de sua publicação, em 1982, foi definida por um crítico como

“mais um marco para a geografia e mais uma pedra de moinho pendurada

no pescoço dos estudantes de pós-graduação”). Nitidamente havia um

espaço onde eu poderia fazer bom uso da experiência de ter ensinado o

Livro I de O capital pelo menos uma vez por ano desde 1971. Na década de

1970, ensinei o livro três vezes ou mais em alguns anos, tanto na

universidade quanto fora dela (na universidade, era sempre como

complemento à minha carga horária, por isso ninguém podia dizer que eu

estava negligenciando meus deveres acadêmicos em favor da política!).

Nesses anos, meu objetivo era facilitar e esclarecer os argumentos de Marx,

sem reduzi-los nem recorrer a simplificações. Tentei não impor nenhuma

leitura específica de Marx, embora seja impossível, obviamente, não basear

os ensinamentos na nossa própria interpretação (minha leitura é apenas uma

entre muitas plausíveis). Queria abrir uma porta para o pensamento de

Marx, de modo que os leitores pudessem transpô-la e, uma vez do outro

lado, pudessem chegar a seus próprios entendimentos. Foi nesse espírito

que a série de vídeos e os livros Para entender O Capital [c] foram

construídos.

Também senti necessidade de ilustrar a importância contemporânea do

pensamento de Marx para a política. Essa necessidade trazia em si uma

obrigação de identificar não apenas o que deveríamos aprender com Marx,

mas também o que ele deixou incompleto, desconsiderou inadvertidamente

ou apenas (Deus me livre!) entendeu errado – mas não só isso. Ela também

implicava o reconhecimento do que estava ou não desatualizado em seu pensamento. A pergunta que não me saía da cabeça era: o que é possível

aprender lendo Marx hoje, e o que precisamos fazer por nós mesmos para

entender o mundo que nos cerca? Foi assim que comecei a ilustrar a

utilidade do método de Marx, bem como de suas teorizações concretas,

pondo em prática o meu entendimento acerca deles na análise de eventos e

problemas contemporâneos – daí os livros sobre o novo imperialismo, a

breve história do neoliberalismo, a dinâmica espacial do desenvolvimento

geográfico desigual, as interpretações da crise de 2007-2008 (O enigma do

capital) e a análise da urbanização capitalista, tema que abordei em

Espaços de esperança[d] e Cidades rebeldes; também tive muito tempo para

pensar e repensar no livro sobre a Paris do Segundo Império [e]. Esse último

livro, um exercício daquilo que chamo de materialismo histórico-

geográfico, esclarece o período entre a análise de Marx sobre a chegada de

Luís Bonaparte ao poder, na esteira da fracassada revolução de 1848 (O 18

de brumário de Luís Bonaparte [f]), e o que aconteceu na Comuna de Paris

de 1871 (A guerra civil na França [g]). Não foi uma escolha consciente da

minha parte estudar Paris com isso em mente (comecei a trabalhar no

assunto em 1976 porque estava interessado na obra de Haussmann). Apenas

muito tempo depois é que percebi que fiz a ponte entre duas obras políticas

seminais de Marx!

Cada um dos meus livros explorou um aspecto específico da análise de

Marx em relação a um assunto ou situação particular. Eu esperava que o

efeito cumulativo fosse um estímulo a ler Marx de maneira aberta e

cuidadosa, como um caminho para os estudos práticos.

Isso nos leva a 17 contradições... Nesse livro, eu tinha dois objetivos. O

primeiro era definir o que pode implicar o anticapitalismo. Achei que essa

análise era necessária porque, embora muitas pessoas se digam fiéis a uma

posição política anticapitalista, não está nada claro o que poderiam ou

deveriam querer dizer com isso. O segundo era oferecer razões racionais

para se tornar anticapitalista à luz do estado atual das coisas.

Decidi abordar tais questões a partir da análise das contradições em

parte porque Marx, em seus escritos, enfatizou diversas vezes que crises do

tipo que o mundo viveu em 2007-2008 são manifestações superficiais de

contradições internas do capital. “Crises mundiais devem ser vistas como a concentração real e o ajuste forçoso de todas as contradições da economia

burguesa”, escreveu ele. “As contradições existentes na produção burguesa

são conciliadas por um processo de ajuste que, ao mesmo tempo, no

entanto, manifesta-se como crise, como uma fusão violenta de fatores

desconectados, que funcionam independentemente uns dos outros, mas são

correlatos.” No entanto, não encontrei nenhuma explicação sistemática

dessas contradições. Mao e Althusser elaboraram de forma poderosa o tema

da contradição em geral, mas não desenvolveram nada sobre as análises de

Marx a respeito das contradições internas do capital. De vez em quando, a

literatura marxista evocava uma ou outra contradição em bases ad hoc ou,

pior, respondia a uma situação que desafiava o entendimento fácil,

afirmando: “Muito bem, essa é uma contradição típica do capital!”.

Frequentemente, a ideia de contradição era usada como ponto final nas

conversas. Meu objetivo era inverter isso e fazer da ideia de contradição o

início da conversa, em particular sobre o que seria uma política

anticapitalista e como poderíamos entender as crises. Embora a forma de

manifestação de algumas contradições tenha se desenvolvido desde a época

de Marx, descobri que a estrutura das contradições do capital é

surpreendentemente constante.

Retornar às obras de Marx (sobretudo aos Grundrisse) para procurar as

contradições do capital se revelou uma tarefa hercúlea, e logo ficou claro

que eu teria de reduzir as contradições a uma estrutura sistêmica com que

pudesse lidar. Daí o mágico número 17. Não tenho nenhuma pretensão

exclusiva de que as minhas escolhas sejam as certas, ou as únicas possíveis.

Outras pessoas certamente chegarão a conclusões diferentes. Mas o que

também aprendi escrevendo 17 contradições... é que as contradições do

capital são interligadas e interagem (às vezes se apoiam) mutuamente. O

que aparece também é um retrato muito mais descentralizado do capital do

que se costuma pintar. Isso vai muito além da ideia de que “a história de

todas as sociedades até hoje existentes é a história das lutas de classes” ou

da ideia de uma contradição primária entre forças produtivas e relações

sociais (apenas para nomear as duas contradições mais conhecidas às quais

tanto se costuma reduzir a lógica do capital). Mas existe uma armadilha

nessa lógica descentralizada: ela pode levar ao que posso caracterizar como concepções dos capitalismos “adjetivados”: “capitalismo financeiro”,

“capitalismo rentista”, “capitalismo cognitivo”, “capitalismo tecnológico”,

“capitalismo de cadeias produtivas”, e até mesmo oximoros como

“capitalismo consciente” ou “capitalismo ético” – cada um pretende definir

um estágio histórico novo e particular do capitalismo. Prefiro manter intacta

a definição holística e singular do capital, ao mesmo tempo reconhecendo

nele a “fusão violenta de fatores desconectados, que funcionam

independentemente uns dos outros, mas são correlatos”.

A vida econômica, diz Marx no posfácio da segunda edição do Livro I

de O capital, “oferece um fenômeno análogo ao da história da evolução em

outros domínios da biologia”. Seu propósito é tomar o fenômeno

econômico e seguir “a lei de sua modificação, de seu desenvolvimento, isto

é, a transição de uma forma a outra, de uma ordem de inter-relação a outra”.

Essa ideia de que o capital deve ser entendido como um todo (ou totalidade)

orgânico em desenvolvimento é muito mais fácil de compreender por meio

de uma análise da interseção e da inter-relação das contradições através de

um sistema descentralizado de acumulação do capital. Desse modo, torna-se

muito mais fácil entender a surpreendente evolução do capital à medida que

ele busca enfrentar (e se adaptar a) suas diferentes contradições internas e

as fusões dessas contradições nos momentos de crise que o forçam a

assumir novas configurações. As principais ameaças à reprodução do

capital nos nossos tempos (que são bem diferentes daquelas com as quais

Marx teve de lidar) se tornaram mais proeminentes. A partir daí, tornou-se

muito mais fácil também mostrar por que precisamos enfrentar e, em última

instância, substituir o capital por um modo alternativo de produção.

Por que, então, sou anticapitalista? Não sou anticapitalista por um

estranho defeito do meu DNA. Não sou anticapitalista porque sofri lavagem

cerebral na juventude (li O capital pela primeira vez quando tinha trinta

anos!), porque fui seduzido pelas bajulações de algum partido marxista-

leninista ou trotskista/maoista (nunca fui membro de partido nenhum), ou

porque em algum momento da minha vida sofri um trauma físico ou mental

causado por algum malefício capitalista. Na verdade, admiro (mas não

acriticamente) muito do que o capital produziu, e não só as novas

tecnologias. Não, sou anticapitalista por razões puramente racionais. Depois de pensar muito no assunto, cheguei à conclusão de que o capital se tornou

perigoso demais para ele mesmo, bem como para nós e para todos os

outros. É simplesmente insano o que está acontecendo hoje. Qualquer

pessoa razoável que analise as evidências, desde que esteja em seu juízo

perfeito, necessária e racionalmente se torna anticapitalista.

É um tanto incomum hoje em dia apelar para a racionalidade. Fazer isso

parece antiquado, ou mesmo uma falha séria. Talvez não seja por acaso que

os apelos à racionalidade sejam criticados exatamente no estágio em que o

capital só pode sobreviver por meios insanos. Para tomarmos apenas um

exemplo, por que nos empenhamos tanto na construção de cidades para os

ricos investirem, em vez de nos empenharmos em construir cidades para as

pessoas viverem de maneira adequada, quiçá felizes? Todos deveríamos

subir no topo do próximo prédio de apartamentos de luxo que estiver sendo

construído para ninguém morar, ou num daqueles prédios absurdos de

Dubai, e estender uma faixa dizendo: “ISTO É INSANO”. Antigamente,

esse tipo de loucura acontecia uma vez ou outra e tinha o claro objetivo de

ser uma loucura, mas hoje é a regra. Para onde mais pode ir a

superacumulação do capital excedente?

Evitarei entrar em detalhes desse tipo aqui, mas o propósito de

identificar as três contradições perigosas no final de 17 contradições é

destacar aquelas que, para mim, encerram o caso da acumulação infinita e

cruelmente antagônica do capital. A primeira é a trajetória de crescimento

exponencial. Isso não era problema na época de Marx, porque boa parte do

mundo ainda estava se abrindo para os negócios. Hoje, no entanto, outro

século de crescimento exponencial é simplesmente inconcebível, com a

maior parte do mundo, de China e Índia a Rússia, Brasil e África do Sul,

subordinada à lógica opressora da acumulação infinita do capital. As

consequências do crescimento exponencial para o meio ambiente são

visivelmente perigosas e ameaçadoras, apesar de eu relutar em evocar

cenários apocalípticos e reconhecer que o capital é historicamente adaptável

às limitações do meio e dos recursos naturais. Por fim, há sinais

profundamente perturbadores no mundo inteiro daquilo que chamo de

“alienação universal”, em que a perda de sentido e de possibilidades futuras

em todos os aspectos da vida física e mental (tanto em casa quanto no trabalho) produz formas incipientes, e muitas vezes estranhas, de

sociabilidade e revolta. A proliferação de fundamentalismos religiosos e a

ameaça crescente de novos movimentos fascistas devem ser levadas a sério,

porque estão transformando a sociedade civil em um vasto campo de

batalha em torno do futuro tanto do capital quanto da humanidade e, nesse

momento, apenas um aparelho de Estado ultramilitarizado parece ser capaz

de controlá-la, com muita força bruta e assombrosas tecnologias de

vigilância e repressão. Nunca antes a escolha entre o socialismo e a barbárie

se colocou de forma tão incisiva numa conjuntura histórica, e nunca antes a

ampla esquerda foi tão fraca. Hoje, o imperativo para que sejamos

anticapitalistas e enfrentemos o aparelho de Estado ultramilitarizado vai de

encontro à “globalização da indiferença” e às confusões do ceticismo e da

descrença enraizadas na alienação universal.

No entanto, os argumentos e as evidências que reúno em 17

contradições... são apenas parciais, porque me restrinjo ao estudo das

contradições íntimas ou internas do capital. Separo essas contradições da

questão mais ampla e complicada das contradições que determinam o

capitalismo como um todo. Faço um exercício de abstração e, como todas

as abstrações, ela contraria o entendimento que temos das realidades que

nos cercam. Muitas vezes, abstrações desse tipo podem se tornar alvo de

críticas acaloradas. Podem surgir objeções sérias, a ponto da total rejeição

de qualquer coisa que seja revelada pelas abstrações por causa de sua

irrealidade. As rejeições costumam ser consideradas mais importantes do

que aquilo que é revelado pelas abstrações. Tentei me antecipar a essas

críticas em 17 contradições..., procurando ser o mais claro possível no que

diz respeito ao que podemos aprender com tais abstrações e ao que seria

necessário para entendermos as contradições do capitalismo como um todo.

Reconheci livremente as situações em que a separação entre capital e

capitalismo tornaram-se extremamente problemáticas porque a minha

intenção não era, como afirmaram alguns críticos, evitar ou suprimir as

muitas outras formas de contradição que constituem o capitalismo em geral

ou estão presentes nele. Meu objetivo é aprimorar nosso entendimento do

capitalismo, esclarecendo como a lógica da acumulação do capital funciona

ou não dentro desse quadro mais amplo.

Foi Adam Smith, sem dúvida, quem reconheceu claramente, em A

riqueza das nações, que, uma vez que o mercado se difunde e se torna

fundamental para a sobrevivência diária – o que indubitavelmente acontece

no capitalismo –, a mão invisível do mercado (que Marx identificou como a

mão invisível do trabalho social) age para tornar as identidades, as

subjetividades, os desejos e os objetivos pessoais irrelevantes para a lógica

geral da acumulação do capital. Na prática, é claro, existem muitas

tentativas de monopolizar mercados específicos com mercadorias (inclusive

o da força de trabalho), e os mercados de consumo certamente se dividem

em nichos de preferências de consumo, mas a proliferação da

mercantilização, das relações de troca e do poder monetário em geral

garante o fracasso completo dessas estratégias, mesmo que mercados

específicos (inclusive o do trabalho) fiquem prisioneiros de um ou outro

grupo de produtores ou consumidores. A única identidade fundamental para

a troca mercantil é a dos compradores e vendedores, garantidos por direitos

de propriedade privada para pessoas jurídicas (ver as três primeiras

contradições em 17 contradições...). O mercado abstrai de todas as outras

identidades. É por isso que Marx começa a sua análise em O capital com o

conceito de mercadoria, já que todos – independentemente de raça, classe,

gênero, etnia, religião, nacionalidade, orientação sexual ou qualquer outra

coisa – vivem sob o capitalismo (que não é de modo algum hegemônico em

todos os lugares) pela compra e venda de mercadorias (inclusive

mercadorias fictícias como terra, trabalho e poder monetário). Os

argumentos de Adam Smith sobre as consequências sociais e as

contradições inevitáveis que derivam da circulação do capital eram,

segundo Marx, fatalmente equivocados. A promessa de liberdade e

autonomia na teoria liberal e nos mercados tecnicamente igualitários

esconde uma realidade mais profunda de exploração perpétua do trabalho

apoiada pela acumulação por espoliação.

Assim, não aceito a tese de um capitalismo inerentemente racializado,

porque, embora em algumas partes do mundo (como Estados Unidos e

Américas em geral) o capitalismo seja enfaticamente racializado (sobretudo

pelo legado contundente da escravidão), em outras ele não o é (ou o é

apenas de maneira fraca e indireta). Em certas partes do mundo (como Irlanda do Norte e Oriente Médio), a separação é determinada pela religião,

e a questão do nacionalismo e da identidade nacional é extremamente

importante (por exemplo, no Extremo Oriente ou no Leste Europeu) dentro

do capitalismo em geral. Tudo isso transborda para rivalidades geopolíticas

que não são redutíveis às contradições internas do capital, ainda que sejam

influenciadas por elas e às vezes se correlacionem com elas. Por fim, há as

questões de gênero e orientações sexuais, que, ao contrário das questões de

raça, etnia, religião, nacionalismo e afins, são universais. No entanto, a

natureza das questões de gênero e orientação sexual varia muito de uma

região para outra. A importância das mulheres no Partido dos Trabalhadores

do Curdistão (PKK) e em seu braço militar contrasta radicalmente, por

exemplo, com a condição reprimida e “tradicional” das mulheres no

Curdistão iraquiano. E, como descobriram as feministas estadunidenses,

com decepção, a emancipação das mulheres em certa região não

necessariamente se repete com as mulheres de outras regiões.

O desenvolvimento autônomo dessas outras contradições – expressando

versões diferentes do papel flutuante da alteridade humana dentro do

capitalismo em geral – não pode ser reduzido às funções das contradições

internas do capital. Em nenhum momento, em 17 contradições..., faço

afirmações reducionistas como essa. Mas as contradições do capital

tampouco podem ser reduzidas a questões de raça, gênero, identidade

nacional, teoria queer ou afins. Esse simples fato também estabelece outra

coisa importante. Ser anticapitalista não necessariamente é ser adepto da

teoria queer, ou feminista, ou antirracista, ou ou antinacionalista. Todo isso

foi apropriadamente afirmado repetidas vezes e – infelizmente –

demonstrado com muita frequência na história das lutas de classes travadas

pela ampla esquerda. Do mesmo modo, ser feminista, teórico queer ou

antirracista não é necessariamente ser anticapitalista. A maioria dos

antirracistas negros que conheci durante os anos que vivi em Baltimore

defendiam o capitalismo. Os conflitos que ocorreram recentemente em

Ferguson, no Missouri, tinham como foco a situação da população negra

diante das instituições excludentes da sociedade civil e do braço repressor

do aparelho estatal local. O conteúdo desses conflitos não era anticapitalista

(embora certos indivíduos e grupos dessem essa impressão), mesmo que seja difícil entender sua forma sem evocar a posição de classe. No entanto,

existe uma abundância de teóricos queer, feministas e antirracistas

extremamente pró-capitalistas no mundo. Alguns segmentos indígenas

(como os aimarás, na Bolívia) participam com sucesso das atividades

capitalistas mercantis e artesanais e, ao mesmo tempo, mantêm muitos dos

aspectos de sua vida cultural. Existe uma grande diferença entre essa forma

de indigeneidade e os grupos indígenas isolados na Amazônia, que não

querem nada, ou muito pouco, com a modernidade capitalista, mas sofrem

com a invasão de seu espaço. Grande parte da esquerda acreditava que

todas as lutas anticoloniais eram anticapitalistas, mas a verdadeira história

da economia política pós-colonial contraria essa suposição. Qualquer

conversa sobre esses temas, no entanto, pressupõe que sabemos o que

significa ser anticapitalista; e é exatamente essa questão que meu estudo das

contradições internas do capital (e não do capitalismo) quer esclarecer. Com

o que teriam de se identificar feministas, teóricos queer, antirracistas,

antinacionalistas, seculares (em oposição aos religiosos) ou o que teriam de

afirmar com suas ideias e práticas para serem anticapitalistas? Podemos

generalizar essa questão e perguntar o que um teórico autonomista,

anarquista ou pós-colonial tem de defender para levar adiante seus projetos

anticapitalistas? Não digo que 17 contradições... tenha as respostas certas,

mas acredito que faça a pergunta correta.

Quero enfatizar mais uma vez que concluo o livro dizendo que

nenhuma das propostas políticas derivadas das dezessete contradições

transcende ou substitui a importância de lutar contra todas as formas de

discriminação, opressão e repressão violenta do capitalismo. Da mesma

maneira, nenhuma dessas lutas deveria transcender ou substituir a luta

contra o capital e suas contradições. Obviamente, alianças de interesse se

fazem necessárias.

 

Então o que 17 contradições revela de tão interessante? Como escritor, em

geral começo achando que sei o que quero dizer, mas sempre me

surpreendo com o tanto que descubro no decorrer da escrita e como o

produto final é diferente daquilo que concebi no início. Permitam-me dar

um exemplo do que aconteceu em 17 contradições... Percebi há muito tempo que os dois primeiros livros de O capital foram construídos com

base em suposições radicalmente distintas, e produziram duas explicações

muito diferentes para o funcionamento do capital. O Livro I trata da

produção de valor e mais-valor, enquanto o principal foco (embora não

exclusivo) do retalhado e incompleto Livro II é o problema da realização.

No Livro I, Marx define o valor como tempo de trabalho socialmente

necessário, mas diz em seguida que, se não há carência, necessidade ou

desejo (sustentados pela capacidade de pagar, como descobrimos depois),

então não há valor. A teoria construída no Livro I supõe que todas as

mercadorias podem ser negociadas por seu valor e que não existe nenhuma

barreira para a realização dos valores no mercado. Essa, é claro, é uma

suposição forte. Mas foi essa abstração que permitiu a Marx definir as

condições criadas pela produção contínua de valor e mais-valor e

necessárias a ela. Tais condições incluíam a produção de um exército

industrial de reserva de desempregados e o empobrecimento cada vez maior

das classes trabalhadoras empregadas. O Livro II de O capital, por outro

lado, dá como constantes muitas das forças motrizes, como a mudança

tecnológica, estudada no Livro I. Ele assume que não há problemas para

produzir valor. Marx, então, examina as condições necessárias para a

realização dos valores nos mercados e vê que, para absorver o valor

produzido, é necessária uma demanda agregada efetiva adequada por parte

dos trabalhadores. Nitidamente, os dois livros indicam uma grave

contradição entre o empobrecimento crescente das classes trabalhadoras e a

capacidade dos salários para gerar uma demanda suficiente de mercado. Se

do ponto de vista do Livro I tudo vai bem, do ponto de vista do Livro II

tudo vai muito mal, e vice-versa.

Percebi isso desde o início, mas nunca me aprofundei nas implicações

do que Marx chamou nos Grundrisse de “unidade contraditória entre

produção e realização”[h]. Para começar, a maioria dos marxistas lê com

cuidado o Livro I de O capital, mas pouquíssimos leem ou estudam o Livro

II. Ao escrever a introdução de Para entender O Capital: Livros II e III,

enfatizei como é importante dar o mesmo peso aos dois livros, mas, a julgar

pelas vendas na Amazon, é evidente a tendência a dar mais valor ao Livro I

do que ao Livro II. O resultado é a propensão a uma leitura “produtivista” de O capital na história do pensamento marxista, enquanto as questões

relativas à realização são consideradas de importância secundária. Aliás,

dedicar muito tempo ao Livro II, como fez Rosa Luxemburgo, leva à

acusação de uma leitura “subconsumista” de Marx, que, por alguma razão

inexplicável, é considerada não marxista e secretamente keynesiana. Contra

isso, posso apenas enfatizar que negligenciar a unidade contraditória entre

produção e realização, e não atribuir o mesmo peso ao conteúdo dos dois

livros, leva a uma leitura seriamente equivocada da teoria do capital de

Marx. Ironicamente, a economia política pela demanda, consistente com a

perspectiva do Livro II de O capital, dominou o mundo capitalista depois

de 1945 (com a ajuda das teorias keynesianas), mas destruiu as condições

necessárias para a produção de mais-valor na década de 1960. A partir de

meados da década de 1970, ela foi substituída (com a ajuda de Milton

Friedman e Hayek) por uma economia política pelo lado da oferta e por

políticas consistentes com o Livro I de O capital. Esta última,

previsivelmente, produziu múltiplas crises localizadas ao redor do mundo

até culminar no crash mundial de 2007-2008, à medida que a realização se

tornava cada vez mais dependente de cartões de crédito e financiamentos

para compensar a bem-sucedida campanha neoliberal a favor da repressão

salarial.

O Livro II de O capital trata dos processos de circulação,

principalmente do tempo de rotação, produção e circulação (com alusões

esporádicas às relações de espaço e tempo de consumo). A coordenação da

produção de mercadorias (o que hoje chamamos de cadeia produtiva) que

requerem tempos de rotação, produção e circulação radicalmente diferentes

– com ênfase particular no problema da formação e circulação do capital

fixo – é problemática. Para lidar com tempos radicalmente diferentes, seria

preciso acumular grandes quantidades de capital (que se tornaria inativo e

não produziria valor). Essa dificuldade só pode ser superada com um

sistema de crédito. Para Marx, crédito e dívida não são categorias

primordialmente morais (como são considerados em muitas apresentações

contemporâneas do assunto, por exemplo no livro Dívida: os primeiros

5.000 anos, de David Graeber[i]), mas necessidades técnicas para sustentar a

continuidade e o fluxo do capital. Marx, porém, só investiga o sistema de crédito no Livro III, por isso não temos um quadro funcional das relações

entre dívida e crédito no Livro II. Não obstante, podemos inferir que crédito

e dívida são fundamentais para o funcionamento do capital. Sem eles,

grande parte do capital teria de se acumular, travando todo o

desenvolvimento capitalista futuro.

No Livro II também vemos como a concorrência obriga o capital a

acelerar os tempos de rotação. A aceleração de produção, circulação e

consumo torna-se uma característica importante na dinâmica do capital,

com implicações abrangentes para o modo como trabalhamos e vivemos.

Basta pensar em como o consumismo contemporâneo funciona – moda,

propaganda, rápida obsolescência, economia política do espetáculo (em que

produção e consumo se fundem) – para perceber que as inovações

tecnológicas e organizacionais atuam juntas para acelerar a vida.

Paradoxalmente, isso requer infraestruturas cada vez mais elaboradas, com

tempos de rotação lentos (capital fixo incorporado na terra), para funcionar

efetivamente (o tráfego flui mais rápido à medida que as estradas

proporcionam maior segurança). Daí a relação entre duas contradições: a

contradição entre produção e realização ao lado da contradição entre fixidez

e movimento do capital empregado.

Marx não diz muita coisa sobre o espaço (em oposição ao tempo) da

relação entre produção e realização, mas o que diz tem implicações de

longo alcance. O lugar onde o valor é produzido pode ser distante dos

mercados em que é realizado. Os computadores da Apple produzidos na

China têm uma taxa de lucro muito baixa lá (a Foxconn fica com 3%), mas

a Apple tem uma margem de lucro de 27% na venda deles nos Estados

Unidos. Do mesmo modo, o Walmart lucra nos Estados Unidos com

mercadorias feitas na China e em outros países. Capitalistas comerciais e

financeiros se tornam parte do problema porque, quanto mais poderosos

são, mais valor conseguem extrair das várias facetas do processo de

realização. A realização, portanto, não está livre da exploração, e a luta

entre vendedores e consumidores torna-se parte vital da luta de classes. Na

verdade, uma classe trabalhadora mais rica, que obtém concessões salariais

no local de produção, pode ver toda a sua demanda efetiva extra tirada de

volta por capitalistas mercantis, capitalistas financeiros e proprietários de terra. O que os trabalhadores ganham no local de produção é

frequentemente recuperado por outras partes do capital no local de

realização. Marx e Engels trataram dessa possibilidade em várias ocasiões,

mas nunca a investigaram em detalhes (provavelmente porque, na época,

era um problema menos visível). Mais tarde, a tradição marxista ou ignorou

o problema, ou o encarou como uma forma secundária de exploração. Mas,

do ponto de vista da unidade contraditória entre produção e realização, o

problema não só deve ser levado a sério, como também deve ser colocado

no mesmo nível da exploração do trabalho na produção. No entanto,

algumas consequências são desastrosas. Para começar, o caráter de classe

das lutas de realização é muito mais mal definido. Segmentos da classe

média, ou até mesmo da classe alta, podem ser vítimas da extração de valor

pela realização, embora a história das execuções de hipotecas nos Estados

Unidos mostre que foram as minorias pobres e vulneráveis (hispânicos e

negros) que sofreram as maiores perdas proporcionais em seus ativos. Por

outro lado, foram os ricos que mais perderam dinheiro no esquema Ponzi de

Bernie Madoff e nas ficções contábeis da Enron. A acumulação por

espoliação é uma tática vigorosa no momento da realização. Mas é muito

mais difícil integrar a relação entre espoliadores e espoliados na política de

classes, mesmo que ela tenha uma forte ressonância em localidades urbanas

e com frequência seja o centro de resistência dos movimentos sociais

urbanos (voltados, por exemplo, para as condições de habitação). No

entanto, se formos levar a sério a unidade contraditória entre produção e

realização, temos de encarar os múltiplos e cada vez mais importantes

descontentamentos com uma vida cotidiana progressivamente mais

urbanizada como um pilar para a nossa política anticapitalista, no mesmo

nível das lutas dentro e em torno dos processos de trabalho impostos pelo

capital.

Por trás disso, existe outra grande questão: como o capital pode

continuar sendo realizado se a demanda efetiva exercida pelas classes

trabalhadoras é refreada por uma política de repressão salarial? Mais uma

vez, podemos encontrar uma resposta no sistema de crédito. O agiota e o

prestamista sempre foram figuras importantes, e com frequência muito

malvistas, na vida da classe trabalhadora, mas a criação de uma vasta rede de instituições de crédito para gerenciar e manipular o processo de

realização tem contradições que podem sustentar, e sustentaram, a formação

de crises em escala gigantesca como a de 2007-2008. Quando os financistas

conseguem bancar a atividade dos construtores, bem como a demanda por

moradia, com financiamento hipotecário, criam-se as condições para que

haja uma bolha de ativos do tipo que se formou no mercado habitacional

desde 2001. É extremamente preocupante que esse tenha sido um dos

principais recursos usados pela China para escapar dos efeitos da crise de

2007-2008.

Essas são as principais constatações a que chegamos ao considerar a

concepção de unidade contraditória entre produção e realização,

estendendo-a além do limite a que o próprio Marx chegou para conectá-la a

alguns dos problemas mais urgentes do capital contemporâneo. O objetivo é

descentralizar as noções de luta de classes e definir um terreno mais amplo

da ação política não só como desejável, mas também como necessário para

a luta anticapitalista, mesmo que algumas pessoas achem isso perigoso para

a antiga clareza da teorização e das práticas políticas marxistas. O campo de

ação potencial pode se tornar mais difuso, mas isso tem a virtude de

salientar a ligação interna entre os múltiplos, difusos e aparentemente

fragmentados campos de luta já existentes. Neste período histórico

caracterizado por revoltas urbanas, em que a qualidade da vida urbana

cotidiana é alvo de múltiplos descontentamentos, faz sentido adotar uma

leitura teórica das contradições do capital que integre tais preocupações a

um quadro teórico mais coerente.

Devemos claramente descobrir novas formas de fazer política

anticapitalista. Há muitas experiências sendo feitas, mas a crítica universal

que se faz a essas experiências é a incapacidade de superar as

fragmentações e ampliar a luta para além dos efêmeros momentos de

protesto e das revoltas ocasionais baseadas em descontentamentos

múltiplos. Embora não possa oferecer soluções para esses problemas, a

reflexão teórica pode sugerir formas de enquadrar nossas concepções

mentais sobre a melhor maneira de articular as lutas anticapitalistas nas

condições atuais. Se as ideias neoliberais e a teoria monetarista

conseguiram se tornar, como tão nitidamente se tornaram, forças materiais que ajudaram a mudar a trajetória do desenvolvimento capitalista e da

história da humanidade mais ou menos a partir dos anos 1970, então ideias

coerentes à esquerda também podem reivindicar um potencial semelhante

para o futuro. As ideias dominantes das classes dominantes não estão

conseguindo servir aos interesses da massa da população em praticamente

nenhum lugar, mesmo que garantam e fortaleçam o poder de uma oligarquia

dominante. As contradições são óbvias e desmedidas. O crescimento

exponencial infinito é simplesmente impossível. Qual momento seria

melhor do que este para propor uma despedida do capital e começar a

construir uma alternativa e um modo de produção muito mais saudável?

Essa é a proposta que, espero, faz de 17 contradições... um livro

potencialmente perigoso, mas fertilmente provocador.

 

[a] Versão reduzida do texto apresentado pelo autor em debate na Associação de Geógrafos Estadunidenses, publicada em 19 maio 2015. (N. E.)

[b] Ed. bras.: trad. Magda Lopes, São Paulo, Boitempo, 2013. (N. E.)

[c] Ed. bras.: Para entender O Capital: Livro I e Para entender O Capital: Livros II e III (trad. Rubens Enderle, São Paulo, Boitempo, 2013-2014). (N. E.)

[d] Ed. bras.: trad. Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonçalves, 7. ed., São Paulo, Loyola, 2015. (N. E.)

[e] Ed. bras.: Paris, capital da modernidade (trad. Magda Lopes, São Paulo, Boitempo, 2015). (N. E.)

[f] Ed. bras.: trad. Nélio Schneider, São Paulo, Boitempo, 2011. (N. E.)

[g] Ed. bras.: trad. Rubens Enderle, São Paulo, Boitempo, 2011. (N. E.)

[h] Karl Marx, Grundrisse, cit. p. 331; com modificações. (N. E.)

[i] Ed. bras.: trad. Rogério Bettoni, São Paulo, Três Estrelas, 2016. (N. E.)