17 contradições e o fim do capitalismo

David Harvey · Capítulo 29 de 48

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17 contradições e o fim do capitalismo

Capítulo 12

disparidades entre oferta e procura imaginando um sistema tributário estatal

para recuperar os ganhos de produtividade criados pelas novas tecnologias.

Os fundos obtidos seriam redistribuídos como poder de compra para a

população despossuída, na forma de incentivo, com a esperança de que, em

retorno, as pessoas se engajem em atividades criativas ou sociais valiosas e

contribuam para o bem comum. Programas desse tipo já existem. Os

auxílios contra a pobreza na Argentina e no Brasil redistribuem dinheiro a

famílias pobres, desde que provem que seus filhos frequentam a escola.

Estruturar essas redistribuições pode ser difícil, mas, na visão de Ford, é

fundamental para evitar a cultura da dependência geralmente associada ao

pagamento de benefícios diretos, ou a uma renda mínima garantida, quer

funcionem ou não. No entanto, as redistribuições e a criação de poder de

compra são os únicos meios de criar uma demanda suficiente que

corresponda à oferta cada vez maior de bens e serviços. Essa redistribuição,

como concorda André Gorz, “é a única maneira de dar sentido à queda do

volume de trabalho socialmente necessário” [12].

Marx, por sua vez, via diversos antídotos possíveis para a tendência de

queda das taxas de lucro resultante das inovações que poupam trabalho: a

abertura de linhas de produto absolutamente novas, que exigissem mão de

obra intensiva; um padrão de inovação dedicado tanto à economia de capital

quanto à economia de trabalho; uma taxa de exploração crescente da mão

de obra ainda empregada; a existência prévia ou a formação de uma classe

de consumidores que não produzem nada; uma taxa de crescimento

fenomenal da mão de obra total, o que aumentaria a massa de capital

produzido, mesmo que a taxa de retorno individual caísse. O que não está

claro é se Marx acreditava que essas forças de compensação seriam

suficientes para protelar indefinidamente a queda do valor de produção e

dos lucros.

Vias de desenvolvimento desse tipo têm evitado há algum tempo a

queda dos lucros. A incorporação dos camponeses da China, da Índia e de

boa parte do sudeste da Ásia (além de Turquia, Egito, alguns países da

América Latina e outros da África, um continente com uma reserva

gigantesca de mão de obra não aproveitada) à força de trabalho mundial desde a década de 1980, além da integração do que foi o Bloco Soviético,

significou um grande aumento (e não uma queda) da força de trabalho

assalariada mundial, muito além daquela fornecida pelo crescimento

populacional. Também é nítido o aumento das taxas de exploração

decorrente das condições de trabalho tenebrosas na China, em Bangladesh,

no Vietnã etc., enquanto o problema da demanda é amplamente enfrentado

com uma vasta expansão do crédito.

Desse modo, seja do ponto de vista da produção ou da realização,

parece não haver nenhum motivo imediato para pânico. Mas, do ponto de

vista do futuro do capital a longo prazo, parece que estamos na “última

fronteira” da absorção da mão de obra no capitalismo global. Nos últimos

cinquenta anos, houve um movimento maciço de incorporação das

mulheres à força de trabalho nos países capitalistas avançados, e

internacionalmente há poucas regiões onde ainda existem reservas

gigantescas de força de trabalho (em especial na África e na Ásia Central e

Meridional). É impossível que ocorra novamente uma grande expansão da

força de trabalho global como a que ocorreu recentemente. Por outro lado, a

aceleração que houve nos últimos anos da automação e da aplicação de

inteligência artificial a serviços rotineiros (como check-ins em aeroportos e

caixas de supermercado) parece ser apenas o começo. Hoje, já há

automação no ensino superior e em diagnósticos médicos, e as empresas

aéreas estão testando aviões sem piloto. A contradição entre a produção de

valor, de um lado, e a inovação tecnológica desmedida que economiza

trabalho, de outro, está entrando num território cada vez mais perigoso.

Esse perigo ameaça não só uma crescente população descartável, que não

vê oportunidades de emprego imediatas, mas também (como reconhece

claramente Ford) a reprodução do próprio capital.

As últimas três recessões dos Estados Unidos, por exemplo, desde o

início da década de 1990, foram seguidas do que chamamos

eufemisticamente de “recuperação sem emprego”. A recessão mais recente

levou à criação de desemprego de longo prazo em uma escala que não se

via nos Estados Unidos desde a década de 1930. Fenômeno semelhante é

observado na Europa, e a capacidade de absorção da mão de obra na China

– principal orientação das políticas do Partido Comunista – parece ser limitada. Tanto as provas das tendências recentes quanto a avaliação das

perspectivas futuras apontam para uma única direção: um gigantesco

excedente de populações redundantes potencialmente rebeldes.

Isso tem implicações sérias, tanto teóricas quanto políticas, que

precisam ser mais bem elaboradas. O dinheiro (ver Contradição 3) é uma

representação do valor do trabalho social (entendido este último como a

quantidade de trabalho que fornecemos para os outros através do sistema de

mercado baseado no valor de troca). Se estamos caminhando na direção de

um mundo em que esse tipo de trabalho social não existe mais, então não há

valor para representar. A representação histórica do valor – a forma-

dinheiro – ficará totalmente livre da obrigação de representar algo que não

seja ela mesma. Os economistas neoclássicos argumentavam (isso quando

se davam ao trabalho de tratar da questão) que a teoria do valor-trabalho

proposta por Marx é irrelevante, porque o capital responde apenas aos

sinais monetários, não às relações de valor. Segundo eles, não havia por que

se incomodar com a ideia de valor, ainda que fosse um conceito plausível (a

maioria achava que não). Acredito que estavam errados. Por outro lado, se

os desenvolvimentos esboçados anteriormente ocorrem de fato, então o

argumento neoclássico contra a teoria do valor será cada vez mais correto, a

ponto de os marxistas mais ortodoxos terem de renunciar à teoria do valor.

Os economistas convencionais certamente soltarão gargalhadas de alegria.

Mas o que não percebem é que isso significa o fim da única restrição que

tem evitado a queda do capital numa completa ausência de leis. As

evidências recentes de uma ausência de leis contagiosa e predatória no

capitalismo é apenas um sinal do enfraquecimento do papel regulador do

trabalho social. Esse enfraquecimento já vem ocorrendo há algum tempo.

Houve uma ruptura importante quando se abandonou a base metálica do

sistema monetário mundial, no início da década de 1970: desde então, a

relação do dinheiro mundial com o trabalho social se tornou, na melhor das

hipóteses, tangencial; como prova disso, temos a longa série de crises

financeiras e comerciais mundiais a partir de meados da década de 1970.

A forma-dinheiro adquiriu muita autonomia nos últimos quarenta anos.

Os valores fiduciários e fictícios criados pelos bancos centrais de todo o

mundo conquistaram a primazia. Isso nos leva de volta a certas reflexões sobre a relação entre o caminho da evolução tecnológica que descrevemos

aqui e o das tecnologias monetárias. O advento das moedas virtuais, como o

bitcoin, em alguns casos criadas aparentemente para lavar dinheiro de

atividades ilegais, é apenas o começo de uma queda inexorável do sistema

monetário no caos.

O desafio político que a questão da tecnologia representa para a luta

anticapitalista talvez seja o mais difícil de enfrentar. Por um lado, sabemos

que a evolução da tecnologia (marcada por uma boa dose de lógica

“combinatória” autônoma como a que Arthur descreve) é um grande

negócio em que a luta de classes e a competição intercapitalista e

interestatal teve um papel central para o “propósito humano” de sustentar o

domínio militar, o poder de classes e a perpétua acumulação do capital.

Também observamos que as ações do capital se aproximam cada vez mais

do abismo da perda do trabalho social como princípio regulador subjacente

que impede o mergulho do capital na anarquia. Por outro lado, sabemos que

qualquer luta contra a degradação do meio ambiente em escala mundial, as

desigualdades sociais e o empobrecimento, as dinâmicas perversas de

população, os déficits globais em saúde, educação e nutrição e as tensões

geopolíticas e militares implicará a mobilização de muitas das tecnologias

disponíveis atualmente para se atingir propósitos sociais, ecológicos e

políticos não capitalistas. O pacote atual de tecnologias, impregnadas da

mentalidade e da prática da busca do capital pela dominação de classes,

contém potencialidades emancipatórias que, de certo modo, têm de ser

mobilizadas na luta anticapitalista.

A curto prazo, é claro, a esquerda está fadada a defender os empregos e

as qualificações sob ameaça; mas, como mostra a infeliz história das nobres

ações contra a desindustrialização nas décadas de 1970 e 1980, essa será

provavelmente uma batalha perdida contra uma nova configuração

tecnológica. Na conjuntura atual, qualquer movimento anticapitalista deve

reorganizar seu pensamento sobre a ideia de que o trabalho social está se

tornando cada vez mais insignificante para o modo como funciona o motor

econômico do capitalismo. Muitos dos empregos nos setores de serviços,

administrativos e profissionais que a esquerda tenta defender estão

desaparecendo. A maioria da população mundial está se tornando descartável e irrelevante do ponto de vista do capital, o que ampliará