17 contradições e o fim do capitalismo
5. Capital e trabalho
Contradição 5
Capital e trabalho
O fato de alguns seres humanos se apropriarem da força de trabalho de
outros e a explorarem é característica antiga da organização humana. O
exercício do poder para essa finalidade levou à construção de diferentes
relações sociais, desde escravidão, servidão e tráfico de mulheres (e às
vezes crianças), vistas como meros bens móveis submetidos à vontade de
adoradores para realizar a obra de Deus ou deuses nas sociedades
teocráticas, até a submissão de súditos leais que vão para a guerra ou
constroem pirâmides, por exemplo, em nome de um líder, patriarca,
monarca ou senhor local. Também é antiga a prática da racialização,
etnicização, generização das relações sociais de dominação, apropriação e
exploração de seres humanos supostamente inferiores cultural, religiosa ou
biologicamente – e, obviamente, todas elas podiam ser monetizadas e
mercantilizadas. Escravos podiam ser comprados e vendidos, dotes
(avaliados em mercadorias essenciais, como gado ou dinheiro) estavam
ligados ao tráfico de mulheres, e exércitos mercenários dispensavam
aqueles que se importavam com as crenças religiosas ou com as lealdades
pessoais. Além disso, o endividamento crescente (servidão por dívida ou
forma paralela de parceria rural) era, e continua sendo, uma das maneiras
mais traiçoeiras pelas quais os detentores do poder financeiro, político e
social se apropriam do trabalho ou dos produtos do trabalho.
Mas aquilo que é negociado como mercadoria pelo capital, e distingue
esse modo de produção, é a força de trabalho. O trabalhador dispõe e vende
essa mercadoria para o capitalista em um mercado de trabalho
supostamente “livre”. O comércio da prestação de serviços antecede o
advento do capitalismo, é claro, e é bem possível que esse tipo de atividade
continue existindo muito depois de o capital deixar de existir como modo
viável de produção e consumo. Mas o capital entendeu que poderia criar a
base para sua própria reprodução – com a esperança de que fosse
permanente – pelo uso sistemático e contínuo da força de trabalho para
produzir um mais-valor sobre aquilo que o trabalhador precisava para
sobreviver com dado padrão de vida. Esse excedente está na raiz do lucro
monetário.
É interessante nesse sistema que ele não parece se basear em trapaça,
roubo ou espoliação, porque o trabalhador pode receber um valor de
mercado “justo” (o “salário padrão”), ao mesmo tempo que trabalha para
gerar o mais-valor que o capital precisa para sobreviver. Essa “justiça” se
baseia na ideia de que os trabalhadores têm direito de propriedade privada
individualizada sobre a força de trabalho que fornecem para o capital na
forma de mercadoria (uma mercadoria cujo valor de uso para o capital é ser
capaz de produzir valor e mais-valor) e são “livres” para vender essa força
de trabalho para quem quiserem. É mais conveniente para o capital, é claro,
que os trabalhadores sejam “liberados” de qualquer acesso à terra ou
qualquer meio de produção. Desse modo, não lhes resta opção exceto
vender a própria força de trabalho para sobreviver. Quando essa estrutura se
põe em funcionamento, os capitalistas garantem que os trabalhadores
produzam mais em valores de mercadoria do que o valor de mercado de sua
força de trabalho. Em suma, para que o capital seja criado e reproduzido, os
trabalhadores devem criar mais valor do que recebem. O capital então
embolsa como lucro esse valor criado e pode acumulá-lo cada vez mais
como concentração de poder financeiro.
A mercantilização da força de trabalho é a única maneira de resolver
uma contradição aparentemente insolúvel na circulação do capital. Em um
sistema de mercado de funcionamento adequado, sem espaço para coerção,
trapaça e roubo, as trocas deveriam se basear no princípio da igualdade – trocamos valores de uso uns pelos outros e o valor desses valores de uso
deve ser mais ou menos o mesmo. Isso contradiz a suposição de que haverá
mais valor para todos os capitalistas, porque, num sistema capitalista de
funcionamento adequado, todos os capitalistas devem obter lucro. Então de
onde vem o valor extra que garante o lucro, se em princípio o sistema de
mercado depende da igualdade de trocas? É preciso que haja uma
mercadoria capaz de criar mais valor do que ela mesma tem. Essa
mercadoria é a força de trabalho, e é dela que o capital depende para se
reproduzir.
A consequência é que o trabalho social – trabalho que fazemos para os
outros – é transformado em trabalho social alienado. Trabalho e mão de
obra são organizados exclusivamente em torno da produção de valores de
troca de mercadorias que geram o retorno monetário sobre o qual o capital
constrói seus poderes sociais de dominação de classe. Os trabalhadores, em
suma, são colocados numa posição em que não podem fazer nada, exceto
reproduzir pelo trabalho as condições de sua própria dominação. Para eles,
esse é o sentido de liberdade sob o domínio do capital.
Embora a relação entre trabalhador e capitalista seja sempre uma
relação contratual individual (em virtude do caráter de propriedade privada
da força de trabalho), não é difícil entender que, tanto no mercado de
trabalho quanto no processo de trabalho, haverá uma relação geral de
classes entre o capital e o trabalho que inevitavelmente – como todas as
relações de propriedade privada – envolverá o Estado e a lei como árbitros,
reguladores ou executores. Isso acontece em virtude da contradição
sistêmica entre direitos de propriedade privada individual e poder estatal.
Nada impede que os trabalhadores, individual ou coletivamente, se
organizem e lutem por condições melhores, e nada impede que os
capitalistas se esforcem, também individual ou coletivamente, para pagar
aos trabalhadores menos do que o valor justo de mercado ou reduzir o valor
da força de trabalho (fazendo cortes na cesta básica de produtos
considerados necessários para a sobrevivência do trabalhador ou baixando
os custos da cesta básica vigente). Tanto o capital quanto o trabalho estão
no direito de lutar por essas questões e, como disse Marx em uma frase bem
conhecida, “entre direitos iguais, quem decide é a força”[1].
Quanto mais bem-sucedida for a luta do capital contra o trabalho,
maiores serão seus lucros. Quanto maior for o êxito dos trabalhadores,
maiores serão seu padrão de vida e suas opções no mercado de trabalho.
Estabelecendo um paralelo, podemos dizer que o capitalista luta em geral
para aumentar a intensidade, a produtividade e/ou o tempo de trabalho
dedicado ao processo de trabalho, enquanto os trabalhadores lutam para
diminuir tanto as horas e a intensidade da atividade laboral quanto os danos
físicos nela implícitos. O poder regulador do Estado – por exemplo, uma
legislação para limitar a jornada de trabalho ou a exposição a condições de
trabalho e materiais perigosos – com frequência está envolvido nessas
relações.
As formas e a efetividade da relação contraditória entre capital e
trabalho têm sido muito estudadas e há muito tempo têm um papel
fundamental na definição da necessidade de lutas políticas revolucionárias e
reformistas. Felizmente posso ser breve aqui, porque presumo que a maioria
de meus leitores esteja familiarizada com o assunto. Para alguns analistas
de esquerda (marxistas em particular), a contradição entre capital e trabalho
é a primeira contradição do capital. Por isso, ela costuma ser considerada o
sustentáculo de todas as lutas políticas significativas e a sementeira de todas
as organizações e movimentos revolucionários anticapitalistas. Também é
citada por alguns como a única fonte básica de todas as formas de crise.
Certamente houve épocas e lugares em que a chamada teoria da crise por
“esmagamento de lucros” parecia fazer sentido. Quando os trabalhadores
ganham poder em relação ao capital, podem fazer pressão por um aumento
salarial a ponto de reduzir os lucros do capital. Nessas condições, a resposta
típica do capital é entrar em greve, recusar-se a investir ou reinvestir e
deliberadamente criar desemprego para disciplinar o trabalho. Um
argumento desse tipo seria apropriado para a situação que América do
Norte, Grã-Bretanha e Europa viram do fim dos anos 1960 até os anos
1970[2]. Mas o capital também costuma passar por dificuldades quando
domina o trabalho com muita facilidade, como mostram os desdobramentos
da crise de 2008.
Contudo, a contradição entre capital e trabalho não pode ser a única
explicação para as crises, seja em termos analíticos, seja, em última análise, em termos políticos. Ela está entranhada na relação com as outras
contradições do capital (mesmo que seja, por exemplo, a contradição entre
valor de uso e valor de troca) e depende dela. Sob essa óptica, tanto a
natureza quanto a concepção da tarefa política em qualquer movimento
anticapitalista precisam mudar, porque as restrições circundantes – como as
vastas concentrações de poder monetário que o capital acumula para
concretizar sua agenda e garantir seus interesses – costumam limitar as
condições de possibilidade de transformação radical na relação entre capital
e trabalho no ambiente de trabalho. Mesmo que a derradeira supressão da
contradição entre capital e trabalho e o esforço para estabelecer as
condições para um trabalho não alienado (em oposição ao alienado) sejam a
essência e a finalidade de uma ambição política alternativa, esses objetivos
não podem ser realizados se não se enfrentar outras contradições com as
quais estão associados, como entre a forma-dinheiro e a capacidade privada
de apropriação da riqueza social.
A consideração da contradição entre capital e trabalho certamente
aponta para a ambição política de suplantar a dominação do capital sobre o
trabalho, tanto no mercado de trabalho como no ambiente de trabalho, por
intermédio de formas de organização em que trabalhadores associados
coletivamente controlam seu tempo, seus processos de trabalho e seu
produto. O trabalho social para os outros não desaparece, mas o trabalho
social alienado sim. A longa história de tentativas de criar uma alternativa
desse tipo (por cooperativas de trabalhadores, autogestão, controle de
funcionários e, mais recentemente, economias solidárias) sugere que o
sucesso dessa estratégia será sempre limitado, pelas razões que já citamos.
Alternativas organizadas pelo Estado, derivadas da nacionalização dos
meios de produção e do planejamento centralizado, também são
problemáticas, quando não equivocadamente utópicas. A dificuldade de pôr
em prática com êxito qualquer uma dessas estratégias deriva, acredito, da
maneira como a contradição entre capital e trabalho está ligada e
incorporada a outras contradições do capital. Se o objetivo dessas formas
não capitalistas de organização do trabalho é ainda a produção de valores de
troca, por exemplo, e se a capacidade das pessoas privadas de se apropriar
do poder social do trabalho permanece incontrolada, então os trabalhadores associados, as economias solidárias e os regimes de produção planificada
fracassam ou se tornam cúmplices de sua própria autoexploração. O esforço
para estabelecer as condições para o trabalho não alienado se frustra.
Existem também alguns equívocos na interpretação do complexo
terreno em que se desenrola a contradição entre capital e trabalho. A
tendência do pensamento de esquerda é privilegiar o mercado e o ambiente
de trabalho como os principais domínios afins da luta de classes. Esses são,
portanto, os espaços privilegiados para a construção de alternativas às
formas capitalistas de organização. É aí que supostamente a vanguarda
proletária se configura para abrir caminho para uma revolução socialista.
Como veremos em breve, quando examinarmos a unidade contraditória
entre produção e realização na circulação do capital, há outros terrenos de
luta que podem ter igual importância ou ser, talvez, até mais consistentes.
Por exemplo, a classe trabalhadora nos Estados Unidos gasta em geral
cerca de um terço de sua renda com moradia. A provisão habitacional,
como vimos, costuma ser movida por operações de valor de troca cada vez
mais especulativas e é uma atividade para extração de renda (tanto da terra
quanto dos imóveis), juros (basicamente na forma de prestações
hipotecárias) e impostos sobre as propriedades, bem como de lucro sobre o
capital industrial empregado na construção de moradias. Também é um
mercado caracterizado por muita atividade predatória (como taxas e
encargos legais). Os trabalhadores, que podem ter obtido ganhos salariais
significativos com lutas travadas no mercado de trabalho e nos pontos de
produção, talvez precisem sacrificar quase todos esses ganhos para adquirir
uma moradia como valor de uso sob condições do mercado habitacional
orientadas pela especulação e depois de confrontos inevitáveis com práticas
predatórias. O que o trabalhador adquire no domínio da produção é roubado
de volta por proprietários, comerciantes (como companhias telefônicas),
banqueiros (através das tarifas de cartão de crédito, por exemplo),
advogados e corretores, e boa parte do que resta vai para o pagamento de
impostos. Assim como acontece com a habitação, a privatização e a
provisão mercantilizada de saúde, educação, água e saneamento básico,
além de outros serviços, diminuem a renda discricionária dos trabalhadores
e recuperam valor para o capital.
Mas a história não acaba aqui. Todas essas práticas formam um espaço
coletivo em que a política de acumulação por espoliação torna-se um meio
primário de extração de renda e riqueza das populações vulneráveis, entre
elas as classes trabalhadoras (seja lá como forem definidas). A subtração de
privilégios adquiridos (como o direito a aposentadoria, assistência médica,
educação gratuita e serviços adequados que amparam um salário social
satisfatório) tornou-se, no neoliberalismo, uma forma descarada de
espoliação racionalizada que agora é reforçada por uma política de
austeridade adotada em nome da retidão fiscal. A organização contra essa
forma de acumulação por espoliação (a formação de um movimento
antiausteridade, por exemplo) e a reivindicação de preços mais baixos e
maior eficácia em habitação, educação, saúde e serviços sociais, portanto,
são tão importantes para a luta de classes como a luta contra a exploração
no mercado e no ambiente de trabalho. Mas a esquerda, obcecada pela
figura do operário como portador da consciência de classe e símbolo da
ambição socialista, não consegue incorporar esse outro mundo das práticas
de classe a sua forma de pensar e suas estratégias políticas.
Aqui também aparecem com mais clareza as interações complexas entre
as contradições do capital e as do capitalismo. Adiante devo tratar dessa
questão de maneira mais detalhada, mas seria tolice e taticamente insensato
concluir qualquer discussão sobre a contradição entre capital e trabalho sem
salientar não só sua profunda relação com outras contradições do capital,
como também seu claro entrelaçamento com as contradições do
capitalismo, principalmente aquelas associadas à discriminação em virtude
de raça e gênero, entre outras. A segmentação e a segregação do mercado
de trabalho e habitação, baseadas em linhas raciais, étnicas ou de outro tipo,
por exemplo, são características notoriamente dominantes em todas as
formações sociais capitalistas.
Embora a contradição entre capital e trabalho seja inquestionavelmente
uma contradição fundamental e central do capital, ela não é – mesmo do
ponto de vista apenas do capital – uma contradição primária à qual, em
certo sentido, todas as outras são subordinadas. Do ponto de vista do
capitalismo, essa contradição central e fundamental do motor econômico
constituído pelo capital tem, claramente, um papel fundamental, mas suas manifestações tangíveis passam pelo filtro de outras formas de distinção
social, como raça, etnia, gênero e religião, de modo que a atual política de
luta no capitalismo torna-se uma questão muito mais complicada do que
seria do ponto de vista apenas da relação entre trabalho e capital.
Não digo isso para diminuir a importância da contradição entre capital e
trabalho dentro da panóplia de contradições do capital, porque ela é de fato
uma contradição-chave, de caráter e importância singulares. Afinal, é no
ambiente de trabalho e pelo mercado de trabalho que a força do capital afeta
diretamente o corpo dos trabalhadores, bem como aqueles cuja vida e bem-
estar dependem dos trabalhadores. Para muitas pessoas, a natureza alienante
e reluzente dessa experiência (o tratamento muitas vezes selvagem no
processo de trabalho e a experiência de fome intensa no lar dos
trabalhadores) é sempre uma fonte primordial de alienação de massa e,
consequentemente, um gatilho para explosões de fúria revolucionária. Mas
acredito que a ênfase excessiva e o tratamento que recebe como algo que
opera autônoma e independentemente das outras contradições do capital
tem sido prejudicial a uma busca revolucionária genuína de uma alternativa
ao capital e, com isso, ao capitalismo.
[1] Karl Marx, O capital: crítica da economia política, Livro I: O processo de produção do capital (trad. Rubens Enderle, São Paulo, Boitempo, 2013), p. 309.
[2] Andrew Glyn e Robert Sutcliffe, British Capitalism: Workers and the Profit Squeeze (Harmondsworth, Penguin, 1972).