17 contradições e o fim do capitalismo
Capítulo 11
produção vai crescer, mas de onde virá o aumento correspondente de
demanda? Isso é o que mais preocupa Ford:
Quem vai se adiantar e comprar todo esse aumento de produção? [...] a automação está
a ponto de abarcar tudo – quase toda a indústria, uma ampla gama de ocupações e
trabalhadores com diploma universitário, mas também quem não se formou. A
automação chegará aos países desenvolvidos e aos países em desenvolvimento. Os
consumidores que movimentam nossos mercados são praticamente todas as pessoas
que têm emprego ou dependem de alguém que tem emprego. Se uma parcela
substancial dessas pessoas perder seu emprego, de onde virá a demanda do mercado?
[11]
Essa é uma pergunta tipicamente keynesiana sobre a gestão da
demanda, feita diante de uma ameaça de crise do capital como a que
arruinou a economia global na década de 1930. O que acontece quando
reformulamos as afirmações de Ford considerando o pano de fundo da
unidade contraditória entre produção e realização? Curiosamente, Marx
identifica uma dificuldade semelhante, mas parte da perspectiva da
produção. Quanto mais dispositivos de economia de trabalho são aplicados,
mais o agente que produz valor – o trabalho social – tende a declinar
quantitativamente, em última instância destruindo o trabalho socialmente
necessário, a produção de valor e, com ela, a base da lucratividade. O
resultado é o mesmo dos dois lados da unidade contraditória entre produção
e realização. Em ambos os casos, a lucratividade é erodida e a acumulação
infindável do capital entra em colapso. Em apêndice, Ford reconhece que
pode haver certa semelhança geral entre seu argumento e o de Marx, mas
não vê qual seja e, é claro, tenta se distanciar das consequências nocivas de
qualquer associação desse tipo. Contudo, o alcance potencial das forças e
soluções opostas parece muito diferente quando se parte das duas
perspectivas oferecidas por essa unidade contraditória.
Ford, por exemplo, parece desesperadamente preocupado em evitar que
o capital sucumba ao desastre potencial que o espreita. Na verdade, ele
defende a difusão do consumismo (por mais insensato e alienador que seja)
para absorver os produtos cada vez mais baratos que o capital totalmente automatizado pode produzir. Tenta encontrar a quadratura do círculo das