17 contradições e o fim do capitalismo
10. Monopólio e competição: centralização e descentralização
Contradição 10
Monopólio e competição: centralização e
descentralização
Em qualquer texto de economia ou defesa popular do capitalismo, não é
difícil encontrar a palavra “concorrência”. Tanto em apologias como em
trabalhos teóricos mais sérios, uma das grandes histórias de sucesso do
capitalismo é que ele supostamente parte da tendência natural dos seres
humanos à competição, liberta essa tendência das restrições sociais e tira
proveito dela mediante o mercado para produzir um sistema social
dinâmico e progressista que pode funcionar em benefício de todos. O poder
de monopólio (do tipo praticado por Google, Microsoft e Amazon) e seus
cognatos oligopólio (do tipo exercido pelas principais companhias
petrolíferas conhecidas como “as Sete Irmãs”) e monopsônio (o poder que
Apple e Walmart exercem sobre seus fornecedores) tendem a ser
apresentados (quando são mencionados) como aberrações, desvios
lamentáveis de um estado de equilíbrio feliz que deveria ser atingido num
mercado puramente competitivo.
Essa visão tendenciosa – como acredito que seja – é apoiada pela
existência de leis e comissões antitruste e antimonopólio que proclamam
que os monopólios são ruins e, de tempos em tempos, tentam quebrá-los
para proteger o público de seus efeitos negativos. No início do século XX,
por exemplo, houve uma onda antitruste nos Estados Unidos liderada pela figura indômita de Teddy Roosevelt. Na década de 1980, o monopólio da
AT&T na área das telecomunicações foi quebrado nos Estados Unidos, e
hoje, tanto na Europa quanto na América do Norte, surgem
questionamentos sobre o poder excessivo de mercado de Google, Microsoft
e Amazon. No caso dos chamados “monopólios naturais” (em especial
serviços públicos e vias de transporte, como canais e ferrovias, que não
podem ser organizados de forma competitiva), Adam Smith aconselhava
que houvesse a regulamentação do governo para evitar preços exorbitantes.
O objetivo declarado da política pública é evitar os preços de monopólio e
garantir os benefícios da inovação, o aumento da produtividade e os preços
baixos que supostamente derivam da concorrência capitalista. A
manutenção de um ambiente competitivo mediante a ação estatal é
geralmente elogiada como uma postura política essencial para qualquer
economia capitalista saudável. Em particular, é dito com frequência que um
objetivo central das políticas públicas é atingir uma posição competitiva no
comércio internacional. Se ao menos existisse um mercado competitivo
puro e perfeito, livre das distorções do poder de monopólio, tudo
funcionaria muito bem.
Essa história assombrosamente influente prevalece há mais de dois
séculos, desde que Adam Smith a contou com tanto brilhantismo e
persuasão em A riqueza das nações. É o mito fundador da teoria econômica
liberal. Desde o fim do século XVIII, os economistas liberais organizaram
uma cruzada contra as intervenções do Estado nos mecanismos de fixação
de preços de mercado e contra o poder do monopólio. Keynes não estava
muito longe disso. Mais surpreendente é o fato que essa história tenha sido
aceita como um credo em O capital, embora no caso de Marx o raciocínio
leve à conclusão de que, se a história utópica de Adam Smith estivesse
correta, o resultado não seria o bem de todos, mas um aprofundamento da
divisão de riqueza e poder em termos de classe, o que garantiria ao capital
ser cada vez mais propenso a crises, assim como mais poderoso.
Depois da crise de 2007-2009, tornou-se muito difícil para os
economistas se manterem fiéis à narrativa com a qual estavam
acostumados. Banqueiros correndo atrás de seus próprios interesses não
contribuíam para o bem-estar geral, e, nos Estados Unidos, o Federal Reserve socorreu os bancos, não as pessoas. Isso levou ao reconhecimento
de que o poder de monopólio é mais do que uma aberração, é um problema
sistêmico que surge do que os economistas chamam de “busca de renda”.
“Para ser franco”, diz o economista Joseph Stiglitz, “há duas maneiras de
enriquecer: criando riqueza ou tirando riqueza dos outros. A primeira
contribui para a sociedade. A segunda subtrai dela, porque, no processo de
retirar a riqueza, parte dela é destruída.” [1] “Busca de renda” nada mais é do
que uma maneira educada e vagamente neutra de se referir ao que chamo de
“acumulação por espoliação”.
A virtude da explicação um tanto truncada de Stiglitz sobre a busca de
renda, ou acumulação por espoliação, é reconhecer o paralelismo perfeito
entre o poder de monopólio nas transações econômicas e o poder de
monopólio nos processos políticos. Tomemos os Estados Unidos como
exemplo. Impostos regressivos e perdão de dívidas; captura regulatória
(quando se põe a raposa para vigiar o galinheiro); aquisição ou aluguel de
ativos estatais ou privados a preços especiais; contratos superfaturados com
agências estatais; criação de leis para proteger ou subsidiar interesses
particulares (energia e agronegócios); compra de influência política em
troca de contribuições de campanha – todas essas práticas políticas dão
liberdade de ação aos grandes interesses econômicos monopolistas, ao
mesmo tempo que lhes permitem saquear o tesouro público à custa do
contribuinte. Essas práticas políticas complementam a busca convencional
de renda no mercado de terra e propriedade imobiliária, recursos e patentes,
licenças e direitos de propriedade intelectual, além dos ganhos excessivos
com preços de monopólio. E há ainda todas as formas quase legais de se
obter lucros excessivos. A criação de mercados financeiros sem nenhuma
transparência, ou nos quais falta informação adequada, gera uma névoa de
incompreensão na qual é impossível refrear as práticas desonestas.
Consegue-se dinheiro real por meio de práticas contábeis fictícias (como a
Enron mostrou de forma tão dramática). Quando acrescentamos a
proliferação de práticas abusivas – como os empréstimos predatórios no
mercado habitacional que transferiram bilhões de dólares em ativos para o
bolso dos financistas –, as práticas abusivas das operadoras de cartão de
crédito, as cobranças ocultas (nas faturas médicas e telefônicas), assim como as práticas que burlam a lei (quando não a violam), o que temos é um
amplo cenário de práticas abusivas em que a riqueza das grandes empresas
e dos interesses financeiros cresce rapidamente, mesmo que a economia
como um todo entre em colapso e estagne. Como afirma Stiglitz:
Algumas das inovações mais importantes nos negócios nos últimos trinta anos se
concentraram não em como tornar a economia mais eficaz, mas em como garantir o
poder de monopólio e contornar as regulamentações governamentais que pretendiam
alinhar benefícios sociais e retornos privados.[2]
O que falta na análise de Stiglitz sobre a busca de renda como estratégia
(embora não falte em sua análise sobre os resultados sociais) é a demolição
de uma ampla variedade de direitos democráticos, inclusive dos direitos
econômicos a aposentadoria e assistência médica, e o livre acesso a serviços
vitais, como educação, polícia, proteção contra incêndios e programas
financiados pelo Estado (como bolsas-alimentação [a], no caso dos Estados
Unidos), que até agora ajudaram a população de baixa renda a manter um
nível de vida adequado. O ataque neoliberal a esses direitos e serviços é
uma forma de espoliação que transfere a poupança gerada pelo corte do
gasto público para a classe “não necessitada, mas gananciosa” dos chefes de
empresa e bilionários. E tudo isso foi feito com o recurso a um poder de
classe consolidado, que monopoliza tanto a economia quanto o processo
político, além de grande parte dos meios de comunicação, reduzindo um
suposto “livre mercado de ideias” a uma série de lutas partidárias em torno
de trivialidades. Mesmo assim, a ortodoxia econômica continua afirmando
que o livre mercado é o deus em que devemos confiar, e que o monopólio é
uma aberração infeliz que poderíamos evitar, se nos esforçássemos.
A ideia que defendo aqui, no entanto, é que o poder de monopólio não é
uma aberração; ao contrário, é fundamental para o funcionamento do
capital e forma uma unidade contraditória com a concorrência. Trata-se de
uma posição bastante incomum, que vai além da análise de Stiglitz, mas há
uma boa razão para acreditarmos que a formulação é correta. Ela não
apenas está de acordo com o fato singular de que, quando têm
oportunidade, quase todos os capitalistas preferem ser monopolistas em vez de competidores, sempre se esforçando para adquirir o máximo possível de
poder de monopólio, como também chega ao núcleo da unidade
contraditória entre concorrência e monopólio na história do capital.
Então como devemos entender essa unidade contraditória? O mais
óbvio é partir do ponto em que os dois elementos da contradição são
indistinguíveis, ou melhor, em que se fundem, e a contradição não é
antagônica, mas latente. Esse ponto é a natureza da propriedade privada,
que confere ao dono da mercadoria o monopólio sobre seu uso. O poder de
monopólio inerente à propriedade privada constitui a base do intercâmbio e,
por extensão, da concorrência. Isso pode parecer elementar, talvez até
trivial, mas não quando reconhecemos que o poder de classe do capital
depende da reunião de todos esses direitos de propriedade individuais e
monopolistas numa ordem social em que a classe capitalista pode ser
definida, em comparação com o trabalho, por seu monopólio coletivo sobre
os meios de produção (ou, na versão atualizada, sobre os meios de
financiamento). O que falta na discussão sobre o monopólio é o conceito e a
realidade do poder de monopólio de classe (poder coletivo do capital),
incluídas as rendas do monopólio de classe, como aplicados nos processos
econômicos e políticos.
Desse modo, o papel da explicação-padrão, na qual a concorrência
aparece muito e o monopólio muito pouco, fica mais claro. Ela oculta a
base monopolista do poder de classe na propriedade privada e,
convenientemente, foge da questão do poder de classe e da luta de classes
(como acontece em quase todos os manuais de economia). O capital é
idealmente construído como uma série magnífica de colisões moleculares e
concorrenciais entre capitalistas individuais, que se movem livremente e
buscam oportunidades de lucro no caótico oceano da atividade econômica.
A realidade da concorrência internacional, enaltecida como tão benéfica
para todos, é que ela exerce uma pressão descendente sobre os salários em
benefício do capital!
Ao contrário do caso da mudança tecnológica em geral, que se pode
descrever plausivelmente como progressiva e irreversível, o equilíbrio entre
monopólio e concorrência oscila erraticamente de um lado para o outro. Às
vezes parece mais cíclico do que unidirecional, e está sujeito às vontades e inclinações políticas da gestão e intervenção do Estado. Marx acreditava
que o ponto final da concorrência seria inevitavelmente o poder de
monopólio, e que deveria haver leis distintas para governar a centralização
do capital, mas não elaborou seu raciocínio. Na virada do século XX, Lenin
viu o capital seguir para uma nova fase de poder de monopólio associada ao
imperialismo, quando os grandes cartéis industriais se uniram ao capital
financeiro para dominar as principais economias nacionais (os trustes contra
os quais Teddy Roosevelt lutou). Essa ideia ressurgiu na década de 1960
nos Estados Unidos com o livro Capitalismo monopolista, de Paul Baran e
Paul Sweezy, e na obra de vários teóricos dos partidos comunistas
europeus [3]. O poder crescente dos monopólios foi associado mais uma vez
às fortes correntes de um imperialismo centralizado. Na década de 1960, as
grandes corporações (como as três grandes fábricas de automóveis em
Detroit e as empresas estatais na Europa) é que dominavam os mercados
nacionais, e acreditava-se que exerciam um poder de monopólio excessivo.
Grandes empresas como a United Fruit, na América Central, e a ITT, no
Chile, tinham poder de monopólio internacional e estavam por trás de
golpes e regimes militares (como o do Chile), agindo em conformidade com
os interesses das potências imperiais.
O capital oscila, como afirmou Giovanni Arrighi, entre dois extremos:
de um lado, os efeitos supostamente nocivos da concorrência desregulada,
de outro, os poderes centralizadores excessivos de monopólios e
oligopólios [4]. A crise dos anos 1970 (cuja superfície exibia uma
combinação singular de estagnação e inflação) foi amplamente interpretada
como uma crise típica do capital monopolista, enquanto a crise
deflacionária dos anos 1930, pode-se dizer, foi provocada por uma
concorrência nociva. A situação de unidade contraditória entre monopólio e
concorrência, em qualquer fase da história, tem de ser estabelecida, não
presumida. Enquanto a virada neoliberal que se iniciou na década de 1970
inaugurou novas formas de competição internacional pela globalização, a
situação atual em muitos setores da economia (farmacêutico, petrolífero,
aéreo, bancário, de agronegócio, softwares, meios de comunicação e redes
sociais em particular, e até mesmo o comércio varejista) sugere forte
tendência ao oligopólio, e talvez até ao monopólio. Talvez ateste o caráter mutável dessa contradição o fato de que certo nível de poder de monopólio
(como do Google) seja considerado hoje, em certos círculos, um desvio
valioso de uma situação de pura concorrência, pois permite o cálculo
racional, a padronização e o planejamento antecipado, em vez do caos das
coordenações de mercado instáveis num mundo incerto. Por outro lado, o
fato de o Google ter abusado de sua posição de monopólio (permitindo o
acesso da Agência de Segurança dos Estados Unidos aos dados pessoais dos
usuários) ilustra as potencialidades negativas que acompanham tal
concentração de poder.
O exemplo da propriedade privada como poder de monopólio é
particularmente esclarecedor no caso da terra e da propriedade imobiliária.
O que se monopoliza não é a terra ou o imóvel, mas uma localização
espacial única. Ninguém pode construir uma fábrica onde já está a minha.
Uma localização vantajosa (com acesso privilegiado a vias de transporte,
recursos ou mercados) me dá certo poder de monopólio na concorrência
com os outros. O resultado, como os economistas tradicionais tiveram de
reconhecer ao estudar o assunto, é um tipo peculiar de concorrência
denominado “concorrência monopolista”. O termo é adequado porque
descreve uma condição em que toda atividade econômica é
competitivamente fundamentada em espaços particulares com qualidades
únicas. Naturalmente, essa forma de competição é tratada como nota de
rodapé na teoria econômica, e não como fundamental para a vida
econômica, embora toda atividade econômica produtiva ocorra, em última
instância, no espaço. O pensamento econômico padrão prefere um modelo
em que a atividade econômica ocorre em uma cabeça de alfinete e não há
monopólios decorrentes da localização espacial. Qualidades espaciais
diferenciais – solo mais fértil, recursos de melhor qualidade, vantagens
locacionais superiores – parecem não importar. Tampouco a estrutura
eternamente mutável das relações espaciais, provocada sobretudo pelos
investimentos em infraestrutura, como sistema de transporte.
Essas ausências têm sérias consequências para o entendimento de como
funciona a unidade contraditória de competição e monopólio. Costuma-se
supor, por exemplo, que a existência de múltiplas pequenas empresas
produzindo um produto semelhante é sinal de intensa concorrência, o que não acontece em determinadas condições espaciais. Duas padarias a uma
distância de trezentos metros uma da outra é algo que pode sugerir uma
intensa concorrência, mas, se existe um rio caudaloso entre elas, cada um
dos padeiros terá poder de monopólio de um lado do rio. O poder de
monopólio acaba se o rei constrói uma ponte sobre o rio, mas é
restabelecido se um senhor local impõe um pedágio abusivo à travessia da
ponte, ou se o rio se torna fronteira política e passa a ser cobrado um
imposto alto para o comércio de pão entre uma margem e outra. Foi por
essa razão que os economistas políticos do século XVIII fizeram campanha
contra taxas e tarifas alfandegárias, entendendo que esse tipo de cobrança
era um obstáculo à concorrência. O regime global de livre comércio
almejado pelos Estados Unidos depois de 1945, que culminou nos acordos
da Organização Mundial do Comércio, é uma continuação dessa política.
Mas o papel do custo do transporte como forma de “proteção” para os
monopólios locais vem diminuindo há muito tempo. A redução desse tipo
de custo tem sido importantíssima para a história do capital. A utilização de
contêineres a partir da década de 1960 foi fundamental para mudar o
alcance geográfico da concorrência, assim como fez a redução das barreiras
políticas ao comércio. A indústria automobilística dos Estados Unidos, com
três grandes empresas localizadas em Detroit, parecia ser um oligopólio
superpoderoso na década de 1960, mas esse poder foi destruído na década
de 1980 pela concorrência da Alemanha Ocidental e do Japão, quando as
condições espaciais das relações comerciais mudaram radicalmente, em
termos físicos e políticos. Os anos 1980 assistiram ao surgimento do carro
global: suas peças podiam ser produzidas em partes diferentes do mundo e
montadas em algum lugar como Detroit. O advento de uma concorrência
internacional acirrada, somada à automação, transformaram Detroit num
deserto. A história do comércio de cerveja é outro dos meus exemplos
prediletos. Altamente localizado no século XVIII, ele se regionalizou em
meados do século XIX, graças às estradas de ferro, nacionalizou-se na
década de 1960 e globalizou-se na década de 1980, dessa vez graças aos
contêineres.
O campo da concorrência monopolista está mudando e, como no caso
do desenvolvimento geográfico desigual, a própria organização espacial e geográfica da produção, da distribuição e do consumo é uma maneira de
orquestrar a relação contraditória entre monopólio e concorrência. Hoje,
como vegetais da Califórnia em Paris e tomo cerveja importada de todo o
mundo em Pittsburgh. À medida que as barreiras espaciais diminuíram em
virtude da tendência capitalista de “destruição do espaço pelo tempo”,
muitas indústrias e serviços locais perderam suas proteções e seus
privilégios de monopólio e viram-se forçados a concorrer com produtores
de outros lugares, primeiro relativamente próximos e depois cada vez mais
distantes.
Supostamente, os capitalistas deveriam receber de braços abertos
tamanha restauração da concorrência. Mas, como já dissemos, a maioria dos
capitalistas, quando pode, prefere ser monopolista. Assim, eles tiveram de
encontrar outras maneiras de construir e preservar uma posição de
monopólio muito cobiçada.
A solução óbvia consiste em centralizar o capital em megacorporações,
ou estabelecer alianças mais flexíveis (como fizeram as companhias aéreas
ou as fábricas de automóveis) que dominem o mercado. E já vimos isso às
centenas. A segunda via consiste em garantir mais firmemente os direitos
de monopólio da propriedade privada por meio de leis internacionais que
regulem todo o mercado global. As patentes e os chamados “direitos de
propriedade intelectual” tornaram-se, consequentemente, o principal campo
de batalha para afirmar os poderes de monopólio de maneira mais geral. A
indústria farmacêutica, para citar um exemplo paradigmático, adquiriu
poderes extraordinários de monopólio em parte graças a centralizações
maciças de capital e em parte graças à proteção de patentes e aos contratos
de licença. E continua avidamente em busca de mais poderes de monopólio
à medida que tenta estabelecer direitos de propriedade sobre todos os tipos
de material genético (inclusive de plantas raras das florestas tropicais,
tradicionalmente coletadas por habitantes nativos). A terceira via é a da
“marca”, que permite cobrar preços de monopólio por um tênis com o
símbolo “swoosh” ou por um vinho com o nome de certo château no rótulo.
À medida que diminuem os privilégios de monopólio de uma fonte, há
tentativas de preservá-los e reuni-los por outros meios. Continuam
existindo, no entanto, certos mercados circunscritos espacialmente que facilitam a cobrança de preços de monopólio para certas atividades: uma
cirurgia na bacia custa US$13.360 na Bélgica (com passagem de ida e volta,
a partir dos Estados Unidos), e o mesmo procedimento nos Estados Unidos
custa mais de US$78.000! Obviamente, existe um preço de monopólio nos
Estados Unidos que não existe na Bélgica (quase certamente em razão de
regulamentações diferentes). Serviços pessoais continuam parcialmente
imunes à concorrência espacial, apesar do turismo médico e da terceirização
de centrais de atendimento, como as da Índia. No entanto, esses mercados
protegidos podem desmoronar com o uso da inteligência artificial.
Podemos concluir que o capital é apaixonado pelo monopólio. Ele
prefere certezas, vida mansa e mudanças lentas e cautelosas, que têm lugar
com um estilo monopolista de trabalho e de vida, longe da brutalidade e da
confusão da concorrência. Também por essa razão, o capital ama
mercadorias únicas, tão singulares que podem ter preço de monopólio. O
capital faz um grande esforço para se apropriar dessas mercadorias e
fomentar sua produção, vestindo-as muitas vezes com trajes de puro prazer
estético. A classe capitalista constrói um mercado de arte como esfera de
investimentos na qual reina supremo o preço de monopólio, assim como
acontece com os investimentos em esportes profissionais (futebol, hóquei e
basquete, por exemplo). Quando pode, ainda mercantiliza as qualidades
únicas da natureza, atribuindo-lhes valor monetário sujeito ao regime de
propriedade privada. Como lamentou o geógrafo anarquista Elisée Reclus
em 1866:
Na costa, os penhascos mais pitorescos e as praias mais charmosas estão nas mãos de
proprietários avarentos ou especuladores que apreciam as belezas naturais com o
mesmo espírito que um cambista aprecia um lingote de ouro [...] Cada curiosidade
natural, seja uma rocha, uma gruta, uma catarata ou a fissura de uma geleira – tudo, até
mesmo o som do eco – pode se tornar propriedade individual. Os empresários
arrendam as cataratas e as fecham com cercas de madeira para evitar que viajantes
contemplem as águas turbulentas sem pagar por isso. Depois, com uma avalanche de
publicidade, a luz que brinca com as gotículas difusas e as rajadas de vento que abrem
a cortina dos nevoeiros são transformadas no tinido ressoante da prata.[5]
O mesmo se aplica a objetos culturais únicos e a tradições históricas e
culturais. A mercantilização da história, da cultura e da tradição pode
parecer censurável, mas sustenta um amplo mercado turístico em que a
autenticidade e a exclusividade são extremamente valorizadas, mesmo que
estejam sujeitas à hegemonia do valor de mercado. Mais significativo, no
entanto, é a rotulação sistemática de mercadorias de consumo como únicas
e especiais (mesmo quando tais pretensões são, no mínimo, duvidosas) para
permitir que lhes seja aplicado um preço de monopólio. Os artigos ou
efeitos produzidos não podem ser tão únicos ou especiais a ponto de
escapar completamente ao cálculo monetário, então até quadros de Picasso,
artefatos arqueológicos e objetos de arte aborígene precisam ter um preço.
Para mercadorias mais comuns, o objetivo é diferenciar uma marca, como
se o creme dental, o carro ou o xampu fosse superior. A ideia é usar a
diferenciação do produto como forma de assegurar um preço de monopólio.
A reputação e a imagem pública de uma mercadoria são tão, ou até mais,
importantes como seu valor de uso material. Daí a imensa relevância da
publicidade, que nada mais é do que uma indústria lutando para extrair
preços de monopólio de uma situação em geral competitiva. Quase um
sexto dos empregos nos Estados Unidos está vinculado a publicidade ou
vendas. É uma indústria dedicada à produção de rendas de monopólio por
intermédio da produção de imagem e reputação de mercadorias específicas.
Existe uma versão geográfica interessante desse mesmo fenômeno.
Cidades como Barcelona, Istambul, Melbourne e Nova York são rotuladas,
por exemplo, como destinos turísticos ou centros comerciais em virtude de
suas características únicas e suas qualidades culturais especiais. Se não
existem características particularmente exclusivas, contrata-se um arquiteto
famoso, como Frank Gehry, para construir um edifício diferenciado (como
o museu Guggenheim, em Bilbao) e preencher essa lacuna[6]. História,
cultura, singularidade e autenticidade são mercantilizadas e vendidas para
turistas, possíveis empreendedores e chefes de empresas, proporcionando
renda monopólica a proprietários de terra, construtores e especuladores
imobiliários. O papel da renda monopólica de classe que se obtém do valor
crescente das terras e propriedades em cidades como Barcelona, Hong
Kong, Londres, Nova York e Xangai é extremamente importante para o capital em geral. O processo de gentrificação desencadeado com isso é, em
todo o mundo, um elemento decisivo de uma economia baseada tanto na
acumulação por espoliação quanto na criação de riquezas por meio de
novos investimentos urbanos.
Cultivando o poder de monopólio, o capital efetua um amplo controle
da produção e da comercialização. Ele pode estabilizar o mundo
empresarial para permitir o cálculo racional e o planejamento de longo
prazo, a redução de riscos e incertezas. A “mão visível” da corporação,
como diz Alfred Chandler, foi e continua sendo tão importante para a
história capitalista quanto a “mão invisível” de Adam Smith[7]. A “mão
pesada” do poder estatal, amplamente usada para sustentar o capital,
também é importante.
O poder de monopólio está fortemente associado à centralização do
capital. Por outro lado, a competição geralmente implica a descentralização.
Será útil considerarmos aqui essa relação cognata entre centralização e
descentralização das atividades político-econômicas como um subconjunto
da unidade contraditória de monopólio e concorrência. Nesse exemplo,
também é importante compreender a relação entre centralização e
descentralização nos termos de uma unidade contraditória. Vemos com
frequência, por exemplo, que a descentralização é um dos melhores meios
de preservar um poder altamente centralizado, porque esconde a natureza
desse poder por trás de uma capa de autonomia e liberdade individual. De
certo modo, era isso que Adam Smith defendia: um Estado centralizado
pode acumular muito mais riqueza e poder dando rédeas a liberdades de
mercado individualizadas e descentralizadas. Isso é uma coisa que o Estado
chinês reconheceu nas últimas décadas. Nesse caso, a descentralização foi
política (a descentralização de poderes para regiões, depois para cidades,
municípios e, por fim, vilarejos) e econômica (liberação das empresas
estatais e locais e do sistema bancário em relação à criação de riquezas e à
busca de renda). O livro Adam Smith em Pequim, de Giovanni Arrighi, trata
extensivamente dessa questão [8]. Mas, nesse exemplo, devemos questionar
seriamente a suposição crua de que a descentralização é inerentemente mais
democrática, já que não há sinais de que o Partido Comunista centralizado
abdicou de seus poderes.
Há duas maneiras de pensar a unidade contraditória entre
descentralização e centralização na vida político-econômica. A primeira é
setorial, enfoca sobretudo o poder de capitais associados – a mão visível da
corporação capitalista em particular – e a acumulação do capital monetário
como “capital comum de classe” (nas palavras de Marx), especialmente no
sistema financeiro e de crédito[9]. No entanto, este último não pode
funcionar sem o apoio singular do poder estatal. O “nexo Estado-finanças”
(unidade entre o Banco Central e o Departamento do Tesouro, no caso dos
Estados Unidos) está no vértice dessa estrutura. Ele é dotado de um poder
de monopólio supremo cujo objetivo é apoiar o setor bancário e o sistema
financeiro, se necessário à custa do resto, inclusive das pessoas.
Ideologicamente, é respaldado por inúmeros think tanks (Fundação
Heritage, Instituto Manhattan, Instituto Cato, Fundação Ohlin) que
promovem ideias pró-capitalistas e de direita. As críticas a essa vasta
centralização do poder de monopólio de classe são abundantes tanto na
esquerda quanto na extrema direita do espectro político. É inegável a
dedicação com que o Federal Reserve e o FMI protegem o poder de
monopólio de classe de uma oligarquia financeira. Embora as evidências
sejam mais do que nítidas, a máscara que os think tanks e os meios de
comunicação tecem em volta dessas instituições, apresentando-as como
grandes protetoras das liberdades de mercado individuais, consegue
esconder seu caráter de classe do público em geral. A organização do
“capital comum de classe” pela centralização do sistema financeiro nos leva
de volta às contradições centrais na forma-dinheiro.
A segunda esfera em que as poderosas forças de centralização e
descentralização colidem é geográfica. Isso leva ao desenvolvimento
geográfico desigual e à projeção do poder econômico, político e militar das
alianças de classe em determinado espaço sobre os de outro. Daí a relação
interna entre monopólio, centralização, imperialismo e neocolonialismo.
Investigaremos mais profundamente essa questão quando tratarmos do
desenvolvimento geográfico desigual.
As duas formas como as tendências de descentralização e centralização
do capital acontecem não são independentes entre si. A acumulação de
poderes financeiros reunidos nos principais centros da finança global (Nova York, Londres, Tóquio, Xangai, Frankfurt, São Paulo etc.) é importante,
assim como a longa história de florescimento de inovações em territórios
novos, como o Vale do Silício, a Bavária, a chamada “Terceira Itália” na
década de 1980 e assim por diante, nos quais a aparente liberdade de
manobra e a falta de controle regulador permitem que aconteçam coisas
que, de outro modo, seriam limitadas pelos poderes sufocantes e
dominantes do Estado e do obeso capital empresarial. Essa tensão tem sido
tão dominante e palpável que hoje os governantes tentam capturar as
possibilidades das economias culturais, criativas e baseadas no
conhecimento por meio de iniciativas centralizadas que apoiam a
descentralização e desregulação do poder econômico e político. Na China e
na Índia, o Estado central criou “zonas econômicas especiais” supostamente
com esse propósito. Em outros lugares, o desenvolvimento fica a cargo de
iniciativas locais de aparelhos metropolitanos regionais ou estatais cada vez
mais ligados à atividade empresarial. A esperança é conseguir reproduzir as
condições que desencadearam as inovações por trás da revolução
tecnológica e do advento da “nova economia” dos anos 1990, que, apesar
do fracasso no fim do século, deixaram em seu rastro uma reordenação
radical das tecnologias capitalistas. É isso que se espera da concentração
geográfica de capital de risco em regiões como o Vale do Silício. Embora
dê o que pensar, o sucesso cheio de altos e baixos dessas políticas é um
ótimo exemplo de como o capital se apodera de certas contradições, como
aquela entre centralização e descentralização, ou entre monopólio e
concorrência, usando-as em benefício próprio.
Quais são, então, as implicações políticas dessas descobertas para a
política anticapitalista? Em primeiro lugar, devemos reconhecer que o
capital tem tido êxito, em geral, na gestão das contradições entre monopólio
e concorrência, assim como entre centralização e descentralização, para
benefício próprio, mesmo que use as crises para isso. Está claro para mim
que nenhuma ordem social alternativa será capaz de abolir essas
contradições. O que interessa, portanto, é como lidar com elas. No entanto,
devemos evitar pensar as oposições como unidades independentes em vez
de contraditórias. É falso supor, por exemplo, que a descentralização é
democrática e a centralização, não. Quando se persegue a quimera da pura descentralização (como querem fazer hoje algumas pessoas de esquerda),