17 contradições e o fim do capitalismo
Capítulo 4
O argumento libertário, que não é implausível, é que a partir do século
XVII isso subverteu a possibilidade de uma democracia burguesa genuína,
caracterizada pela máxima liberdade individual. Além disso, esse sistema
impõe o crescimento exponencial, incita “a destruição ambiental e destrói o
tecido social enquanto aumenta a concentração de poder e riqueza. Cria
instabilidades econômicas e políticas que se manifestam nos ciclos
recorrentes de depressão e inflação, conflitos nacionais e internacionais e
deslocamento social”[4]. Por isso, tanto a direita quanto a esquerda
estadunidenses tendem a ser contrárias a instituições como o Federal
Reserve e o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Nos últimos anos, a balança da contradição entre, de um lado, os
interesses privados e as liberdades individuais e, de outro, o poder estatal
pendeu decisivamente para os centros antidemocráticos, autocráticos e
despóticos do aparelho estatal, onde têm o apoio da centralização e da
militarização cada vez maiores do controle social. Isso não significa que os
poderes descentralizados dos detentores da propriedade individual se
dissolveram ou correm perigo. Na verdade, esses poderes aumentam à
medida que o capital é protegido contra todas as formas de oposição social:
por exemplo, do trabalho ou dos ambientalistas. De todo modo, a
descentralização costuma ser uma ótima estratégia para manter o controle
centralizado. Nos últimos anos, os chineses aplicaram conscientemente esse
princípio de maneira bastante eficaz. Em nenhum outro lugar isso é mais
evidente do que na organização estatal do poder monetário nos mercados de
commodities.
Como nos capítulos anteriores citei várias vezes como exemplo o
mercado habitacional e a crise no mercado imobiliário, devo explicar
rapidamente como as coisas funcionam nesse contexto. Os direitos de
propriedade privada sustentam a casa própria, e os estados capitalistas
apoiaram por diversos meios (desde os subsídios ativos até a propaganda e
a retórica do sonho da casa própria), de maneira sistemática e crescente, a
expansão da casa própria a mais setores da população. O objetivo desse
apoio é, em parte, garantir o crescimento contínuo do mercado imobiliário
como terreno de acumulação ativa e lucrativa de capital, mas ele também
tem uma função ideológica crucial, consolidando o apoio popular e populista à estratégia de fornecer valores de uso por meio dos mecanismos
de valor de troca: em outras palavras, o apoio à via capitalista. O apoio
ativo do governo à aquisição da casa própria nos Estados Unidos, por
razões políticas e econômicas, cumpriu, portanto, um papel importante na
promoção da crise das hipotecas de risco, responsável pela quebra de
algumas das principais instituições privadas de investimento, mas também
levou instituições semipúblicas (como Fannie Mae e Freddie Mac) à
margem da falência, da qual tiveram de ser resgatadas por uma
nacionalização temporária.
Então qual estratégia política deve ser adotada em relação à contradição
entre Estado e propriedade privada? O argumento de tentar simplesmente
restabelecer o equilíbrio e reforçar as liberdades individuais (como muitos
parecem defender, tanto à direita quanto à esquerda do espectro político)
não basta, em parte porque a balança pendeu radicalmente para o poder
estatal arbitrário, mas em parte também porque se perdeu a fé no Estado
como agente potencialmente benévolo. O retorno do Estado ao papel de
puro “vigia noturno” só serviria para desencadear os poderes daquilo que já
é um capital muito desregulado, permitindo que aja como quiser, sem
nenhuma restrição social ou de longo prazo.
A única estratégia política viável é a que resolve a contradição entre os
interesses privados e individuais, de um lado, e os interesses e poderes
estatais, de outro, substituindo-a por outra coisa. É nesse contexto que
parece fazer muito sentido a preocupação atual da esquerda com o
restabelecimento e a recuperação dos “bens comuns”. A absorção dos
direitos de propriedade privada em um projeto abrangente de gestão
coletiva dos bens comuns e a dissolução dos poderes estatais autocráticos e
despóticos em estruturas democráticas de gestão coletiva são os únicos
objetivos válidos de longo prazo.
Esses objetivos fazem sentido quando aplicados ao dinheiro e ao
crédito. A recuperação do dinheiro e do crédito como bens comuns
regulados democraticamente é imperativa para reverter a tendência à
autocracia e ao despotismo monetário. Dissociar do aparelho estatal as
atividades de criação do dinheiro é imperativo para fortalecer e
democratizar as liberdades e autonomias coletivas. Como o poder do Estado capitalista repousa em parte sobre os pilares gêmeos do monopólio sobre o