17 contradições e o fim do capitalismo
Parte II – As contradições mutáveis
Parte II
As contradições mutáveis
As contradições fundamentais do capital não existem isoladas umas das
outras. Elas se interligam de diversas maneiras para fornecer uma
arquitetura básica para a acumulação de capital. A contradição entre valor
de uso e valor de troca (1) depende da existência do dinheiro, que se
encontra em relação contraditória com o valor enquanto trabalho social
(2). O valor de troca e sua medida (o dinheiro) presume certa relação
jurídica entre aqueles que estão envolvidos na troca: daí o fato de os
indivíduos terem direitos de propriedade privada adquiridos e um quadro
de leis ou costumes para proteger esses direitos. Isso fundamenta uma
contradição entre a propriedade privada individualizada e a coletividade
do Estado capitalista (3). O Estado tem o monopólio sobre o uso legítimo
da violência, bem como sobre a emissão da moeda fiduciária, meio básico
de troca. Há uma ligação profunda entre a perpetuidade da forma dinheiro
e a perpetuidade dos direitos de propriedade privada (as duas coisas
implicam-se mutuamente). Pessoas físicas podem se apropriar, legal e
livremente, dos frutos do trabalho social (bens comuns) pela troca (4). Isso
constitui a base monetária para a formação do poder da classe capitalista.
Mas o capital só pode se reproduzir sistematicamente pela mercantilização
da força de trabalho, a qual resolve o problema de como criar a
desigualdade de lucros em um sistema de troca mercantil baseado na
igualdade. Essa solução implica converter o trabalho social – trabalho que
fazemos para os outros – em trabalho social alienado – trabalho dedicado
exclusivamente para a produção e reprodução do capital. O resultado é
uma contradição fundamental entre capital e trabalho (5). Postas em movimento, essas contradições definem um processo contínuo de circulação
do capital que assume diferentes formas materiais, o que, por sua vez,
implica uma tensão cada vez maior entre fixidez e movimento na paisagem
do capital (6). Na circulação do capital há necessariamente uma unidade
contraditória entre produção e realização do capital (7).
Essas contradições definem um terreno político no qual podemos
delimitar uma alternativa para o mundo criado pelo capital. A orientação
política deve se voltar para os valores de uso, e não para os valores de
troca, para uma forma-dinheiro que iniba tanto o acúmulo privado de
riquezas e poder como a dissolução do elo entre Estado e propriedade
privada em regimes múltiplos e sobrepostos, com direitos de propriedade
comum geridos coletivamente. A capacidade das pessoas privadas de se
apropriar da riqueza comum tem de ser controlada, e a base monetária
para o poder de classe tem de ser destruída. A contradição entre capital e
trabalho precisa ser deslocada pelo fortalecimento do poder dos
trabalhadores associados de se envolver no trabalho inalienado e
determinar seu próprio processo de trabalho enquanto produzem valores de
uso necessários para terceiros. A relação entre fixidez e movimento (que
não pode ser abolida, uma vez que é condição universal da existência
humana) deve ser gerida de modo a neutralizar os poderes do rentista e
facilitar a satisfação contínua e segura das necessidades básicas de todos.
Por fim, em vez de uma produção pela produção que leva a um mundo de
consumo maníaco e alienado, a produção deveria se organizar
racionalmente a fim de fornecer os valores de uso necessários para todos
terem um nível de vida adequado. A realização deveria ser convertida numa
demanda baseada em carências e necessidades, à qual corresponde a
produção.
Essas são orientações gerais ao pensamento político de longo prazo
sobre como se deveria constituir uma alternativa ao capital. É preciso
avaliar estratégias e propostas específicas contra o pano de fundo dessas
orientações.
As contradições fundamentais são características constantes do capital
em qualquer época ou lugar. O único aspecto constante dessas
contradições que consideraremos a seguir é o fato de serem instáveis e mudarem o tempo todo. Isso contribui para um entendimento da economia
política que se afasta radicalmente do modelo das ciências naturais, donde
podemos assumir que os princípios elucidados são verdadeiros para
qualquer época e lugar. Como afirma Brian Arthur em The Nature of
Technology [A natureza da tecnologia], um livro penetrante e instrutivo, os
meios pelos quais se expressam as “leis básicas” (ou, em meu modo de
dizer, as “contradições fundamentais”) “mudam com o tempo, e os padrões
formados por elas mudam e assumem novas formas com o passar do tempo.
Desse modo, cada novo padrão, cada novo conjunto de arranjos,
proporciona uma nova estrutura para a economia, fazendo desaparecer a
estrutura antiga, mas os componentes básicos que a formam – as leis
básicas – permanecem sempre os mesmos”[1]
No caso das contradições mutáveis, é preciso descrever a natureza
básica da contradição antes de fornecer uma avaliação geral de sua nova
forma. Entendendo parte de sua trajetória evolutiva, é possível dizer
alguma coisa sobre perspectivas e possibilidades futuras. Essa evolução
não é predeterminada, tampouco aleatória ou acidental. Mas como o ritmo
da mudança evolutiva tende a ser relativamente lento – coisa de décadas, e
não de anos (embora haja indícios de que ele esteja se acelerando) –, é
possível dizer algo tanto sobre as perspectivas futuras quanto sobre os
dilemas atuais.
Capturar o sentido do movimento é politicamente vital, pois a
instabilidade e o movimento oferecem oportunidades políticas, ao mesmo
tempo que apresentam problemas críticos. Ideias e estratégias políticas que
fazem sentido em determinado lugar e momento não necessariamente se
aplicam a outro lugar e momento. Muitos movimentos políticos
fracassaram porque recorreram a ideias e ambições ultrapassadas. Não
podemos formular nossas estratégias políticas atuais e estabelecer nossas
ambições políticas contemporâneas para que se encaixem em ideias
defuntas de um teórico político que faleceu tempos atrás. Isso não significa
que não temos nada a aprender com um estudo do passado, ou que não há
vantagem nenhuma na busca por inspiração em tradições e memórias
antigas. Ao contrário, isso implica a obrigação de escrever a poesia do nosso próprio futuro contra o pano de fundo das contradições em rápida