17 contradições e o fim do capitalismo
Conclusão – Perspectivas de um futuro feliz, mas controverso: a promessa do
Conclusão
Perspectivas de um futuro feliz, mas
controverso: a promessa do humanismo
revolucionário
Desde tempos imemoriais há seres humanos que acreditam que são capazes
de construir, individual ou coletivamente, um mundo melhor do que aquele
que herdaram. Muitos acreditam que, no decurso dessa construção, poderão
se refazer como pessoas diferentes, talvez até melhores. Incluo-me no grupo
que acredita nas duas proposições. Em Cidades rebeldes, por exemplo,
argumentei:
a questão sobre o tipo de cidade que queremos não pode ser separada da questão sobre
o tipo de pessoas que queremos ser, o tipo de relações sociais que buscamos, as
relações com a natureza que estimamos, o estilo de vida que desejamos, os valores
estéticos que sustentamos. O direito à cidade [...] é muito mais do que o direito de
acesso individual ou grupal aos recursos que a cidade detém: é o direito de mudar e
reinventar a cidade de acordo com o que deseja nosso coração [...] A liberdade de
fazer e refazer a nós mesmos e a nossa cidade é [...] um dos direitos humanos mais
preciosos e mais negligenciados. [1]
Talvez por essa razão intuitiva, ao longo de toda a sua história a cidade
tem sido uma imensa demonstração de desejos utópicos por um futuro mais feliz e épocas menos alienantes.
A crença de que podemos, pelo pensamento consciente e pela ação,
mudar para melhor o mundo em que vivemos e também a nós mesmos
define certa tradição humanista. A versão secular dessa tradição coincide e
se inspira muitas vezes no ensinamento religioso sobre dignidade,
tolerância, compaixão, amor e respeito pelos outros. O humanismo, tanto
religioso quanto secular, é uma visão de mundo que mede seu êxito em
termos de liberação das potencialidades, capacidades e poderes humanos.
Defende a visão aristotélica do florescimento desinibido dos indivíduos e da
construção da “boa vida”. Ou, como define o homem do Renascimento
contemporâneo Peter Buffett, um mundo que garanta aos indivíduos “o
verdadeiro florescimento de sua natureza, ou a oportunidade de viver uma
vida feliz e realizada”[2].
Essa tradição de pensamento e ação teve altos e baixos, conforme a
época e o lugar, mas parece nunca morrer. Teve de competir, é claro, com
doutrinas mais ortodoxas que, de modos diversos, atribuem nosso destino e
nossa sorte aos deuses, a um criador ou deidade específicos, às forças cegas
da natureza, às leis sociais evolutivas impostas por herança genética e
mutações, pelas leis férreas da economia que ditam a evolução tecnológica,
ou outra tecnologia oculta ditada pelo espírito do mundo. O humanismo
também tem seus excessos e seu lado obscuro. O caráter um tanto libertino
do humanismo renascentista fez Erasmo, um de seus principais defensores,
temer que a tradição judaico-cristã fosse substituída pelo epicurismo. O
humanismo caiu algumas vezes numa visão prometeica e antropocêntrica
das capacidades e potencialidades humanas em relação a tudo que existe
(inclusive a natureza), a ponto de alguns iludidos acreditarem que nós,
sendo próximos de Deus, somos Übermenschen [super-homens] que
dominam o universo. Essa forma de humanismo se torna ainda mais nociva
quando determinados grupos são vistos como indignos de serem
considerados humanos. Esse foi o destino de muitas populações indígenas
nas Américas quando enfrentaram os colonizadores. Rotulados de
“selvagens”, foram considerados parte da natureza, e não da humanidade.
Tais tendências continuam vivas e ativas em certos círculos, o que levou a
radical feminista Catherine MacKinnon a escrever um livro sobre a questão,
Are Woman Human?[3]. O fato de que, aos olhos de muitas pessoas, essas
exclusões tenham um caráter sistemático e genérico na sociedade moderna
é indicado pela popularidade da formulação de Giorgio Agamben sobre o
“estado de exceção” em que muitas pessoas vivem hoje no mundo (o
principal exemplo são os residentes de Guantánamo)[4].
Há inúmeros sinais de que a tradição humanista esclarecida está viva e
ativa, talvez até ensaiando um retorno. Esse é claramente o espírito que
anima a multidão de pessoas no mundo inteiro que trabalham em ONGs e
instituições de caridade cuja missão é melhorar as chances e perspectivas de
vida dos menos afortunados. Também há tentativas inúteis de disfarçar o
próprio capital com o traje humanista do “capitalismo consciente”, como
gostam de chamá-lo alguns presidentes de empresa, uma espécie de ética
empreendedora que mais parece uma lavagem de consciência,
acompanhada de propostas sensíveis para melhorar a eficiência dos
trabalhadores, fingindo ser boas para eles [5]. Tudo de sórdido que acontece
é absorvido como dano colateral não intencional de um sistema econômico
motivado pelas melhores das intenções éticas. O humanismo, no entanto, é
o espírito que inspira inúmeros indivíduos a se entregarem generosamente,
muitas vezes sem recompensa material, para contribuir de maneira altruísta
para o bem-estar dos outros. Humanismos cristãos, judeus, islâmicos e
budistas têm gerado muitas organizações religiosas e caritativas, além de
figuras icônicas como Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Madre Teresa
e Desmond Tutu. Na tradição secular, há muitas variedades de pensamento
e prática humanistas, inclusive correntes explícitas de humanismo
cosmopolita, liberal, socialista e marxista. E, é claro, filósofos morais e
políticos conceberam nos últimos séculos uma enorme variedade de
sistemas éticos rivais de pensamento que se baseiam em uma variedade de
ideais de justiça, razão cosmopolita e liberdade emancipatória que, de
tempos em tempos, oferecem um lema revolucionário. “Liberdade,
igualdade e fraternidade” era o lema da Revolução Francesa. A primeira
Declaração de Independência dos Estados Unidos, seguida da Constituição
e, talvez mais significativamente, daquele comovente documento chamado
Declaração de Direitos foram importantes para a motivação de movimentos
políticos e formas constitucionais subsequentes. As constituições notáveis que Bolívia e Equador adotaram recentemente mostram que a arte de
escrever constituições progressistas como base para a regulação da vida
humana não morreu. E a extensa literatura que essa tradição nos legou não
foi perdida para quem busca uma vida com mais sentido. Basta pensarmos
na influência de Os direitos do homem, de Thomas Paine[a], ou
Reivindicação dos direitos da mulher, de Mary Wollstonecraft [b], sobre o
mundo anglófono para entender o que estou dizendo (quase toda tradição no
mundo tem textos análogos para celebrar).
Há dois lados negativos bem conhecidos nisso tudo, com os quais já nos
deparamos. O primeiro é que, por mais nobres que sejam os sentimentos
universais demonstrados de início, muitas vezes é difícil evitar que a
universalidade das reivindicações humanistas seja desvirtuada em benefício
de interesses, grupos e classes particulares. É isso que produz o
colonialismo filantrópico do qual Peter Buffett se queixa com tanta
eloquência. É isso que transforma o nobre cosmopolitismo e a busca de paz
perpétua de Kant em ferramenta de dominação cultural imperialista e
colonial, representada atualmente pelo cosmopolitismo à la Hotel Hilton da
CNN e pelo turista inveterado de classe executiva. É isso que contamina as
doutrinas dos direitos humanos consagradas em uma declaração da ONU
que privilegia os direitos individuais e a propriedade privada da teoria
liberal à custa das relações coletivas e das reivindicações culturais. É isso
que transforma os ideais e as práticas da liberdade em ferramenta de
governamentalidade para reproduzir e perpetuar a riqueza e o poder da
classe capitalista. Outro problema é que a imposição de qualquer sistema
particular de crenças e direitos sempre implica um poder disciplinador,
exercido em geral pelo Estado ou por alguma outra autoridade
institucionalizada apoiada pela força. A dificuldade aqui é óbvia. A
declaração da ONU implica o cumprimento dos direitos humanos
individuais por parte do Estado, mas o Estado é muito frequentemente o
primeiro a violar esses direitos.
Em suma, o problema da tradição humanista é que ela não tem uma boa
compreensão de suas próprias contradições internas inevitáveis, o que se
evidencia com mais clareza na contradição entre liberdade e dominação. O
resultado é que, hoje, as tendências e os sentimentos humanistas são apresentados de maneira um tanto precipitada e constrangida, exceto
quando têm o apoio da autoridade e da doutrina religiosa.
Consequentemente, não existe uma defesa vigorosa das proposições ou
perspectivas de um humanismo secular, apesar de inúmeras obras
individuais que defendem a tradição ou discutem suas virtudes óbvias
(como acontece no mundo das ONGs). Suas armadilhas perigosas e
contradições fundamentais – em especial questões sobre coerção, violência
e dominação – são evitadas porque é muito complicado abordá-las. O
resultado é o que Frantz Fanon caracterizou como “humanitarismo
insípido”. Há muitos indícios disso evidentes em sua recente retomada. A
tradição burguesa e liberal do humanismo secular forma uma base ética
piegas para uma ação moralizadora altamente ineficaz sobre o triste estado
em que se encontra o mundo e para a formulação de campanhas igualmente
ineficazes contra a pobreza crônica e a degradação ambiental. É
provavelmente por isso que o filósofo francês Louis Althusser lançou uma
influente e feroz campanha na década de 1960 para que fosse eliminado da
tradição marxista todo o falatório sobre o humanismo socialista e a
alienação. Althusser afirmava que o humanismo do jovem Marx, tal como
era expresso nos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, se afastava do
Marx científico de O capital por uma “ruptura epistemológica” que não
podemos ignorar. O humanismo marxista, escreveu ele, é pura ideologia,
teoricamente vazio e politicamente enganoso, se não perigoso. A devoção
ao “humanismo absoluto da história humana”, como a de um marxista
dedicado como Antonio Gramsci, que passou tantos anos encarcerado, era,
na opinião de Althusser, completamente inapropriada [6].
O aumento enorme e a natureza das atividades cúmplices das ONGs
humanistas nas últimas décadas parecem sustentar as críticas de Althusser.
O crescimento do complexo beneficente-industrial reflete sobretudo a
necessidade de ampliar a “lavagem de consciência” de uma oligarquia
mundial que, apesar da estagnação econômica que vivemos, duplicou sua
riqueza e seu poder em poucos anos. O trabalho dessas ONGs tem feito
muito pouco ou quase nada para resolver a degradação e a espoliação dos
indivíduos ou a proliferação da degradação ambiental. Isso é um problema
estrutural, porque se exige que as organizações que combatem a pobreza façam seu trabalho sem intervir na acumulação perpétua de riqueza, da qual
tiram seu próprio sustento. Se todo mundo que trabalha para uma
organização de combate à pobreza assumisse da noite para o dia uma
política contra a riqueza, em pouco tempo estaríamos vivendo num mundo
muito diferente. Haveria poucos doadores para financiar isso – suspeito que
nem Peter Buffett. E as ONGs, que hoje estão no centro do problema, não
aceitariam a mudança (apesar de que muitos indivíduos no mundo das
ONGs estariam dispostos a aceitá-la, mas simplesmente não poderiam fazê-
lo).
Então de que tipo de humanismo precisamos para transformar
progressivamente o mundo em um lugar diferente, povoado por pessoas
diferentes, por uma ação anticapitalista?
Acredito que necessitamos urgentemente de um humanismo
revolucionário secular que possa se aliar aos humanismos religiosos
(articulados mais claramente nas versões protestante e católica da Teologia
da Libertação, bem como nos movimentos análogos dentro das culturas
religiosas hindus, islâmicas, judaicas e indígenas) para enfrentar a alienação
em suas muitas formas e mudar radicalmente o mundo a partir de suas bases
capitalistas. O humanismo revolucionário secular tem uma tradição forte e
poderosa, embora problemática, em relação à teoria e à prática política.
Essa é uma forma de humanismo totalmente rejeitada por Althusser. Mas,
apesar da influente intervenção deste, tal humanismo tem uma expressão
forte e articulada nas tradições marxistas e radicais, bem como além delas.
Ele é muito diferente do humanismo liberal burguês. Recusa a ideia de que
exista uma “essência” humana imutável, ou dada de antemão, que nos
obriga a refletir profundamente sobre como podemos nos tornar um novo
tipo de ser humano. Alia o Marx de O capital com o Marx dos Manuscritos
econômico-filosóficos de 1844 e mira no centro das contradições daquilo
que qualquer programa humanista deve estar disposto a abraçar para mudar
o mundo. Reconhece claramente que as perspectivas de um futuro feliz para
a maioria são invariavelmente frustradas pela inevitabilidade de se causar
infelicidade a outros. Em um mundo mais igualitário, a oligarquia
financeira despossuída, que não vai mais poder comer caviar e tomar
champanhe em iates ancorados nas Bahamas, sem dúvida vai reclamar de seu destino e da diminuição de sua fortuna. Como bons humanistas liberais
que somos, podemos até nos condoer por eles. Os humanistas
revolucionários não sentem a mínima pena. Podemos não concordar com
essa forma bruta de lidar com tais contradições, mas temos de reconhecer a
honestidade fundamental e a autoconsciência de seus praticantes.
Consideremos, como exemplo, o humanismo revolucionário de uma
figura como Frantz Fanon. Fanon era psiquiatra e trabalhou em hospitais
em meio a uma guerra amarga e violenta contra o colonialismo (retratada de
forma memorável em A batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo – um filme,
aliás, que o exército dos Estados Unidos usa em treinamentos contra
insurgência). Fanon escreveu extensivamente sobre a luta pela liberdade e
autonomia dos povos colonizados contra os colonizadores. Sua análise,
embora específica ao caso argelino, ilustra as questões que surgem em
qualquer luta libertária, inclusive aquelas entre capital e trabalho. Contudo,
seus termos são resolutamente mais dramáticos e facilmente
compreensíveis, porque incorpora a dimensão da opressão e da degradação
racial, cultural e colonial que conduz a uma situação revolucionária
ultraviolenta para a qual parece não existir saída pacífica. Para Fanon, a
questão fundamental é como recuperar o sentido de humanidade a partir das
práticas e experiências desumanizadoras da dominação colonial. Escreve
ele em Os condenados da terra:
Uma vez que nós e os nossos semelhantes somos liquidados como cães, não nos resta
senão utilizar todos os meios para restabelecermos nosso peso de homem. Cumpre,
portanto, que pesemos da maneira mais opressiva possível sobre o corpo do nosso
carrasco para que seu espírito extraviado reencontre enfim sua dimensão universal.
[Desse modo,] o homem reivindica e afirma a um só tempo sua humanidade ilimitada.
[7]
Sempre há “lágrimas a serem derramadas, atitudes inumanas a serem
combatidas, modos condescendentes de discurso a serem descartados,
homens a serem humanizados”. A revolução, para Fanon, não era apenas
uma transferência de poder de um grupo da sociedade para outro. Ela
implicava a reconstrução da humanidade – no caso de Fanon, uma
humanidade pós-colonial distinta – e uma mudança radical no sentido dado ao ser humano. “A descolonização é, em verdade, criação de homens novos.
Mas esta criação não recebe sua legitimidade de nenhum poder
sobrenatural; a ‘coisa’ colonizada se faz no processo mesmo pelo qual se
liberta” [8]. Portanto, numa situação colonial, argumenta Fanon, era
inevitável que a luta pela libertação se constituísse em termos nacionalistas.
Mas “o nacionalismo, se não se torna explícito, se não é enriquecido e
aprofundado, se não se transforma rapidamente em consciência política e
social, em humanismo, conduz a um beco sem saída”[9].
Evidentemente, Fanon choca muitos humanistas liberais por endossar
uma violência necessária e rejeitar o consenso. Como é possível a não
violência, pergunta ele, numa situação estruturada pela violência sistemática
praticada pelos colonizadores? Qual é o sentido de uma população faminta
fazer greve de fome? Por que, como perguntava Herbert Marcuse,
deveríamos ser persuadidos pelas virtudes da tolerância para com o
intolerável? Em um mundo dividido, onde o poder colonial define os
colonizados como sub-humanos e maus por natureza, é impossível haver
consenso. “Não se negocia com o mal”, disse de forma memorável Dick
Cheney, vice-presidente de Bush. Ao qual Fanon tinha uma resposta pronta:
O trabalho do colono é tornar impossíveis até os sonhos de liberdade do colonizado. O
trabalho do colonizado consiste em imaginar todas as combinações eventuais para
aniquilar o colono. [...] A teoria do “indígena mal absoluto” corresponde à teoria do
“colono mal absoluto”.[10]
Nesse mundo dividido, não há espaço para negociação ou consenso. É
isso que mantém os Estados Unidos e o Irã separados desde a Revolução
Iraniana. “A zona habitada pelos colonizados”, diz Fanon, “não é
complementar da zona habitada pelos colonos. Estas duas zonas [...],
regidas por uma lógica puramente aristotélica, obedecem ao princípio da
exclusão recíproca”.[11] Na falta de uma relação dialética entre as duas, a
única maneira de acabar com a diferença é pela violência. “Destruir o
mundo colonial é, nem mais nem menos, abolir uma zona, enterrá-la
profundamente no solo ou expulsá-la do território.” [12] Não há nada de
piegas num programa assim. Como observou claramente Fanon:
Para o povo colonizado, essa violência, porque constitui seu único trabalho, reveste
caracteres positivos formadores. Essa práxis violenta é totalizante, visto que cada um
se transforma em um elo violento da grande cadeia, do grande organismo surgido
como reação à violência primordial do colonialista. [...] Ao nível dos indivíduos, a
violência desintoxica. Desembaraça o colono de seu complexo de inferioridade, de
suas atitudes contemplativas ou desesperadas. Torna-o intrépido, reabilita-o a seus
próprios olhos. Mesmo que a luta armada seja simbólica, e mesmo que seja
desmobilizado por uma descolonização rápida, o povo tem tempo de se convencer de
que a libertação foi o assunto de todos e de cada um.[13]
No entanto, o que mais impressiona em Os condenados da terra, ou o
que o torna tão dolorosamente humano e enche nossos olhos de lágrimas
quando fazemos uma leitura mais atenta, é a segunda metade do livro, na
qual o autor faz uma descrição devastadora dos traumas psíquicos daqueles
que, dos dois lados, foram obrigados pelas circunstâncias a participar de
uma luta violenta pela libertação. Hoje temos muito mais conhecimento
sobre os danos psíquicos sofridos pelos soldados dos Estados Unidos e de
outros países envolvidos nas ações militares no Vietnã, Afeganistão e
Iraque, e do terrível flagelo causado em sua vida pelo estresse pós-
traumático. É sobre isso que Fanon escreveu com tanta compaixão durante
a luta revolucionária contra o sistema colonial na Argélia. Depois da
descolonização, há muito trabalho não só para recuperar a psique de
pessoas cujo espírito foi prejudicado, mas também para amenizar o que
Fanon via claramente como os perigos dos efeitos persistentes (e até da
replicação) do modo colonial de ser e pensar.
O objetivo do colonizado [...] é provocar o fim da dominação. Mas deve ele também
velar pela liquidação de todas as mentiras cravadas em seu corpo pela opressão. Num
regime colonial como o que existia na Argélia, as ideias professadas pelo colonialismo
influenciavam não somente a minoria europeia como também o argelino. Libertação
total é a que diz respeito a todos os setores da personalidade. [...] A independência não
é uma palavra a exorcizar, mas uma condição indispensável à existência de homens e
mulheres verdadeiramente libertos, isto é, donos de todos os meios materiais que
tornam possível a transformação radical da sociedade.[14]
Não levanto a questão da violência aqui, como tampouco o fez Fanon,
porque eu ou ele sejamos a favor da violência. Ele deu destaque à violência porque muitas vezes a lógica das situações humanas se deteriora a ponto de
não restar opção. Até Gandhi reconheceu isso. Mas essa opção tem
consequências potencialmente perigosas. O humanismo revolucionário tem
de oferecer uma resposta filosófica para essa dificuldade, algum conforto
diante das tragédias incipientes. Embora a principal tarefa do humanista
seja “domar a ferocidade do homem e tornar agradável a vida no mundo”,
como disse Ésquilo há 2.500 anos, isso não pode ser feito sem enfrentarmos
e tratarmos a imensa violência que corrobora a ordem colonial e
neocolonial. Foi o que Mao e Ho Chin Minh tiveram de enfrentar, o que
Che Guevara tentou fazer, e o que muitos líderes e pensadores políticos –
como Amílcar Cabral em Guiné-Bissau, Julius Nyerere na Tanzânia,
Kwame Nkrumah em Gana e Aimé Césaire, Walter Rodney, C. L. R. James
e muitos outros – combateram com tanta convicção em palavras e ações nas
lutas pós-coloniais.
Mas será que a ordem social do capital é essencialmente diferente de
suas manifestações coloniais? Certamente, na metrópole, essa ordem tentou
se distanciar do cálculo mordaz da violência colonial (retratando-a como
algo que se deve necessariamente aplicar àqueles outros não civilizados “do
lado de lá”, para seu próprio bem). Na metrópole, teve de dissimular a
inumanidade ostensiva que demonstrava no exterior. “Do lado de lá” as
coisas podiam ser afastadas do nosso campo de visão e audição. Só agora,
por exemplo, está sendo plenamente reconhecida a cruel violência dos
britânicos contra o movimento Mau-Mau, no Quênia, na década de 1960.
Quando o capital se aproxima dessa inumanidade na metrópole, ele
tipicamente desperta uma resposta semelhante à dos colonizados. Quando
admite a violência racial na metrópole, como fez nos Estados Unidos,
produz movimentos como Panteras Negras e Nação do Islã, e líderes como
Malcolm X e, no fim de sua vida, Martin Luther King, que entendeu que
havia uma conexão entre raça e classe e sofreu as consequências disso. Mas
o capital aprendeu a lição. Quanto mais raça e classe se entrelaçam
organicamente, mais rápido queima o estopim da revolução. Mas o que
Marx deixa muito claro em O capital é a violência diária que se constitui na
dominação do capital sobre o trabalho no mercado e no ato de produção,
assim como no terreno da vida diária. É muito fácil encontrar relatos das condições contemporâneas de trabalho, por exemplo, nas fábricas de
eletrônicos de Shenzhen, nas confecções de Bangladesh ou nas fabriquetas
clandestinas de Los Angeles, e inseri-los no clássico capítulo sobre a
“jornada de trabalho” de O capital, sem notar nenhuma diferença. É
surpreendentemente fácil comparar as condições de vida das classes
trabalhadoras, dos desempregados e dos marginalizados de Lisboa, São
Paulo e Jacarta com a descrição clássica de 1844 de Engels, em A situação
da classe trabalhadora na Inglaterra, e não encontrar nenhuma diferença
substantiva [15].
O poder e o privilégio oligárquicos da classe capitalista estão
conduzindo o mundo todo a uma mesma direção. O poder político,
sustentado por uma vigilância, um policiamento e uma violência
militarizada que só fazem se intensificar, está sendo usado para atacar o
bem-estar de populações consideradas substituíveis e descartáveis.
Testemunhamos diariamente a desumanização sistemática de pessoas
descartáveis. Hoje, o poder implacável da oligarquia é exercido através de
uma democracia totalitária que se dedica a perturbar, fragmentar e suprimir
imediatamente qualquer movimento político coerente contra a riqueza
(como o Occupy). A arrogância e o desdém com que os abastados encaram
os menos afortunados – mesmo (em particular) quando rivalizam entre si
para mostrar quem é mais caridoso – são fatos notáveis da nossa condição
atual. A “lacuna de empatia” entre a oligarquia e o resto é imensa e está
aumentando. Os oligarcas confundem renda superior com valor humano
superior e êxito econômico com prova de conhecimento superior do mundo
(e não prova de controle superior das artimanhas jurídicas e contábeis). Eles
não sabem ouvir a dor do mundo porque não podem e não vão assumir
voluntariamente seu papel na construção dessa dor. Eles não veem e não
podem ver suas próprias contradições. Os bilionários irmãos Koch fazem
doações caridosas a uma universidade como o MIT, a ponto de construir
uma linda creche para o meritório corpo docente, e ao mesmo tempo gastam
milhões de dólares financiando um movimento político (liderado pelo Tea
Party) no Congresso dos Estados Unidos que faz cortes nos auxílios-
alimentação e nega assistência social, creches e bônus para alimentação a
milhões de pessoas que vivem na pobreza absoluta ou perto dela.
É nesse clima político que as revoltas imprevisíveis e violentas que vêm
ocorrendo pontualmente em todo o mundo (da Turquia e do Egito ao Brasil
e à Suécia apenas em 2013) se parecem cada vez mais com os tremores que
antecedem um terremoto: elas farão as lutas revolucionárias pós-coloniais
da década de 1960 parecerem brincadeira de criança. Se o capital tem um
fim, este virá certamente daí, e provavelmente suas consequências
imediatas não serão boas para ninguém. É isso que Fanon nos ensina com
tanta clareza.
A única esperança é que a humanidade veja o perigo antes que a
podridão avance e os danos humanos e ambientais sejam grandes demais
para se recuperar. Diante do que o papa Francisco chamou com toda a razão
de “globalização da indiferença”, é imperioso que, como diz Fanon, “as
massas europeias resolvam despertar, sacudir o cérebro e cessar de tomar
parte no jogo irresponsável da bela adormecida no bosque” [16]. Se a bela
adormecida despertar a tempo, talvez possamos ter um final mais parecido
com um conto de fadas. O “humanismo absoluto da história humana”,
escreveu Gramsci, “não visa a resolução pacífica das contradições
existentes na história e na sociedade, mas é a própria teoria dessas
contradições”. A esperança está latente nelas, disse Bertolt Brecht. Como
vimos, há contradições convincentes o bastante no campo do capital para
semear o solo da esperança.
[1] David Harvey, Rebel Cities, cit., p. 4.
[2] Peter Buffett, “The Charitable-Industrial Complex”, cit.
[3] Catherine MacKinnon, Are Women Human? And Other International Dialogues (Cambridge, Harvard University Press, 2007).
[4] Giorgio Agamben, Estado de exceção (trad. Iraci D. Poleti, São Paulo, Boitempo, 2004).
[5] John Mackey, Rajendra Sisodia e Bill George, Conscious Capitalism: Liberating the Heroic Spirit of Business (Cambridge, Harvard Business Review Press, 2013).
[a] Ed. bras.: trad. Jaime A. Clasen, Petrópolis, Vozes, 1989. (N. E.)
[b] Ed. bras.: trad. Ivania Pocinho Motta, São Paulo, Boitempo, 2016. (N. E.)
[6] Louis Althusser, The Humanist Controversy and Other Writings (Londres, Verso, 2003); Peter Thomas, The Gramscian Moment: Philosophy, Hegemony and Marxism (Chicago, Haymarket, 2010).
[7] Frantz Fanon, Os condenados da terra (trad. José Laurêncio de Melo, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968), p. 255.
[8] Ibidem, p. 26-7.
[9] Ibidem, p. 167.
[10] Ibidem, p. 73.
[11] Ibidem, p. 28.
[12] Ibidem, p. 30.
[13] Ibidem, p. 73-4.
[14] Ibidem, p. 266-7.
[15] Friedrich Engels, A situação da classe trabalhadora na Inglaterra (trad. B. A. Schumann, São Paulo, Boitempo, 2008).
[16] Frantz Fanon, Os condenados da terra, cit., p. 85.