17 contradições e o fim do capitalismo
1. Valor de uso e valor de troca
Contradição 1
Valor de uso e valor de troca
Nada poderia ser mais simples. Entro em um supermercado com dinheiro
no bolso e troco esse dinheiro por produtos alimentícios. Não posso comer
o dinheiro, mas posso comer os produtos alimentícios, que me são úteis de
uma maneira que o dinheiro não é. Pouco tempo depois, os produtos
alimentícios são consumidos e desaparecem, enquanto as cédulas e as
moedas são aceitas como dinheiro e continuam circulando. Parte do
dinheiro aceito no supermercado é distribuída como salário aos atendentes,
que a usam para comprar mais alimentos. Parte vai para os proprietários do
supermercado na forma de lucro, e eles a gastam com todo tipo de coisa.
Outra parte vai para os distribuidores e, por fim, para os produtores diretos
dos alimentos, que também a gastam. E isso não tem fim. Em uma
sociedade capitalista, milhões de transações desse tipo acontecem todos os
dias. Mercadorias como alimentos, roupas e telefones celulares vêm e vão,
enquanto o dinheiro continua circulando no bolso das pessoas (ou das
instituições). É assim que a maioria da população mundial vive diariamente.
Todas as mercadorias que compramos numa sociedade capitalista têm
um valor de uso e um valor de troca. A diferença entre essas duas formas de
valor é significativa. Como costumam estar em conflito uma com a outra,
elas constituem uma contradição que, de vez em quando, pode provocar
uma crise. Os valores de uso são infinitamente variados (até para um
mesmo item), enquanto o valor de troca (sob condições normais) é uniforme e qualitativamente idêntico (um dólar é um dólar, e mesmo
quando é um euro, este tem um valor de troca conhecido em relação ao
dólar).
Consideremos, como exemplo, o valor de uso e o valor de troca de uma
casa. Como valor de uso, a casa fornece abrigo; é um lugar onde se pode
construir um lar e uma vida afetiva; é um espaço de reprodução diária e
biológica (onde cozinhamos, fazemos amor, discutimos e criamos filhos);
oferece privacidade e segurança em um mundo instável. A casa também
pode funcionar como símbolo de status ou pertencimento social a um
subgrupo, como sinal de riqueza e poder, como memória histórica (tanto
pessoal quanto social), como algo arquitetonicamente importante; ou pode
simplesmente ser admirada e visitada por turistas como uma criação bela e
elegante (a Casa da Cascata, de Frank Lloyd Wright, por exemplo). Pode
ser uma oficina para um inventor ambicioso (como a famosa garagem que
foi o epicentro do que viria ser o Vale do Silício). Posso usar o porão da
casa para esconder uma confecção clandestina, ou abrigar imigrantes
perseguidos, ou transformá-lo em base para o tráfico de escravas sexuais.
Podemos fazer uma lista imensa dos usos que uma casa pode ter. Seus usos
potenciais são incontáveis, aparentemente infinitos e, muitas vezes,
puramente idiossincráticos.
E o valor de troca da casa? Na maior parte do mundo contemporâneo,
precisamos comprá-la, arrendá-la ou alugá-la para ter o privilégio de usá-la.
Precisamos gastar dinheiro com isso. A questão é: quanto valor de troca é
necessário para produzir os usos da casa e como esse “quanto” afeta nossa
capacidade de impor os usos particulares que queremos e dos quais
precisamos? Parece uma pergunta simples, mas a resposta é bastante
complicada.
Antigamente, os pioneiros construíam suas casas sem quase nenhum
custo monetário: a terra era livre, eles recorriam ao próprio trabalho (ou
conseguiam ajuda coletiva dos vizinhos com base na reciprocidade: você
me ajuda agora com o telhado e eu ajudo você na próxima semana com as
fundações) e conseguiam a maior parte da matéria-prima (madeira, adobe
etc.) nos arredores. As únicas transações monetárias eram realizadas para a
aquisição de machados, serras, pregos, martelos, facas, arreios e coisas desse tipo. Sistemas de construção semelhantes ainda podem ser
encontrados nos assentamentos informais que constituem as famosas
favelas dos países em desenvolvimento. As favelas brasileiras foram
construídas dessa maneira. A promoção da “autoconstrução habitacional”
feita pelo Banco Mundial a partir da década de 1970 identificou
formalmente esse sistema de provisão habitacional como apropriado para
populações de baixa renda em muitas partes do mundo. Os valores de troca
envolvidos são relativamente limitados.
As casas também podem ser construídas “sob encomenda”. O
proprietário da terra paga arquitetos, construtores e pedreiros para erguer
uma casa de acordo com um projeto. O valor de troca é determinado pelo
custo do material, salários e pagamentos relativos aos serviços necessários à
construção da casa. O valor de troca não predomina, mas pode limitar as
possibilidades de criação de valores de uso (quando não há dinheiro
suficiente para construir uma garagem, ou uma ala inteira de uma mansão
aristocrática não é construída porque os recursos acabaram). Nas sociedades
capitalistas avançadas, muitas pessoas aumentam o valor de uso de uma
casa dessa maneira (construindo um anexo ou mais um andar, por exemplo).
Contudo, em grande parte do mundo capitalista avançado, a moradia é
construída especulativamente, como uma mercadoria que será vendida no
mercado para qualquer pessoa que precise e possa pagar por ela. Há muito
tempo esse tipo de provisão habitacional é evidente nas sociedades
capitalistas. Foi dessa forma que as famosas séries de casas geminadas em
estilo georgiano foram construídas em Bath, Bristol, Londres e outras
cidades, no fim do século XVIII. Mais tarde, essas práticas especulativas de
construção foram usadas para erguer os cortiços de Nova York, as vilas
operárias em cidades industriais como Filadélfia, Lille e Leeds e os
conjuntos residenciais típicos dos subúrbios estadunidenses. O valor de
troca é determinado pelos custos básicos de produção da casa (trabalho e
matéria-prima), mas nesse caso são agregados dois outros valores: a
margem de lucro do construtor, que disponibiliza o capital inicial necessário
e paga os juros de qualquer empréstimo envolvido; e o custo de aquisição,
aluguel ou arrendamento da terra. O valor de troca é estabelecido pelos
custos reais de produção mais lucro, juros sobre empréstimos e aluguel capitalizado (preço da terra). O objetivo do produtor é obter valor de troca,
não valor de uso. A criação de valor de uso para outras pessoas é um meio
de atingir esse fim. No entanto, a qualidade especulativa da atividade
significa que o que importa é o valor de troca potencial. Na verdade, o
construtor pode tanto ganhar como perder dinheiro. É claro que ele tenta
orquestrar as coisas, em particular a compra das habitações, para garantir
que isso não aconteça. Mas há sempre um risco. O valor de troca assume o
comando da provisão habitacional.
Ao perceber que a necessidade de valores de uso adequados continuava
não satisfeita, uma variedade de forças sociais – de empregadores ávidos
para manter sua força de trabalho domesticada e à disposição (como
Cadbury) a radicais e utópicos (como Robert Owen, os fourieristas e
George Peabody), passando pelo Estado em níveis local e nacional –
lançou, de tempos em tempos, uma série de programas de habitação com
financiamento público, filantrópico ou paternalista para suprir as
necessidades das classes mais baixas a um custo mínimo. Se é amplamente
aceito que todos têm direito a “moradia decente e ambiente adequado”
(como declara o preâmbulo da Lei de Habitação de 1949 dos Estados
Unidos), então, obviamente, as considerações de valor de uso voltam a ser
prioridade em relação à luta por provisão habitacional. Essa posição política
afetou muito as políticas de habitação no período social-democrático na
Europa, e seus efeitos se estenderam à América do Norte e a alguns países
em desenvolvimento. A participação do Estado na provisão habitacional,
obviamente, aumentou e diminuiu com o passar dos anos, assim como o
interesse pela habitação social. Mas as considerações do valor de troca
muitas vezes ressurgem na medida em que a capacidade fiscal do Estado é
colocada à prova pela necessidade de subsidiar moradias acessíveis com
cofres públicos cada vez mais escassos.
Houve, então, diversas maneiras de resolver a tensão entre os valores de
uso e os valores de troca na produção habitacional. Mas também houve
fases em que o sistema entrou em colapso e gerou crises como a que
ocorreu no mercado habitacional dos Estados Unidos, da Irlanda e da
Espanha entre 2007 e 2009. Essa crise teve precedentes. A crise do sistema
de crédito hipotecário, conhecido como savings and loan crisis, ocorrida nos Estados Unidos em 1986, o colapso do mercado imobiliário
escandinavo em 1992 e o fim do boom econômico japonês na década de
1980, com a queda do mercado de terras na década de 1990, são alguns
exemplos [1].
No sistema de mercado privado que domina atualmente grande parte do
mercado capitalista, há questões adicionais que precisam ser tratadas. Para
começar, uma casa é uma “mercadoria de alto custo”, que será usada
durante muitos anos, e não consumida instantaneamente, como um produto
alimentício. Muitas pessoas podem não ter dinheiro para comprar uma casa
à vista. E, se não posso comprar uma casa em dinheiro, tenho duas escolhas
básicas. Posso alugá-la ou arrendá-la de um intermediário – um locador –
que, para viver de aluguéis, se especializou na compra de habitações
construídas especulativamente. Ou posso fazer um empréstimo, seja com
amigos ou parentes, seja contraindo um financiamento hipotecário com uma
instituição. No caso da hipoteca, tenho de pagar o valor de troca total da
casa mais os juros mensais até o fim das prestações. A casa se torna minha
depois de, digamos, uns trinta anos. Consequentemente, ela se torna uma
espécie de poupança, um bem cujo valor (ou pelo menos aquela parte do
valor que adquiri com os pagamentos mensais) posso receber em dinheiro a
qualquer momento. Parte do valor desse patrimônio é absorvida pelos
custos de manutenção (pintura, por exemplo) e pela necessidade de conserto
de itens deteriorados (telhado, por exemplo). Mesmo assim, posso esperar
aumentar o valor líquido do imóvel com o passar do tempo, ao liquidar a
hipoteca.
No entanto, o financiamento hipotecário de uma moradia é uma
transação muito peculiar. O total que se paga numa hipoteca de US$ 100
mil durante 30 anos a 5% é cerca de US$ 195 mil. Em outras palavras, o
mutuário, na verdade, paga um prêmio extra de US$ 95 mil para adquirir
um bem que vale US$ 100 mil. A transação praticamente não tem sentido.
Por que eu faria isso? A resposta, evidentemente, é que preciso do valor de
uso da casa como lugar para viver e pago US$ 95 mil para viver nela até ser
seu proprietário. É o mesmo que pagar US$ 95 mil de aluguel a um locador
durante 30 anos, mas nesse caso eu obtenho o valor de troca da casa toda. O imóvel torna-se uma forma de poupança, um depósito do valor de troca
feito para mim mesmo.
Mas o valor de troca da habitação não é fixo. Ele flutua com o tempo de
acordo com uma variedade de forças e condições sociais. Para começar, é
dependente do valor de troca das casas vizinhas. Se as casas ao meu redor
estiverem em mau estado ou as pessoas “erradas” se mudarem para lá, é
provável que o valor da minha casa diminua, mesmo que eu a mantenha em
perfeito estado de conservação. Inversamente, “melhorias” na vizinhança
(como a gentrificação, por exemplo) farão o valor da minha casa aumentar,
ainda que eu mesmo não tenha investido nada. O mercado habitacional é
caracterizado por aquilo que os economistas chamam de efeitos da
“externalidade”. Os proprietários das casas costumam tentar controlar essas
externalidades, tanto individual quanto coletivamente. Proponha construir
um centro de reabilitação para ex-presidiários em uma região residencial
“respeitável” e veja o que acontece! O resultado é uma série de políticas do
tipo “não no meu quintal”, exclusões de populações e atividades
indesejadas, associações de vizinhos cuja missão é quase exclusivamente
voltada para manter e aumentar o valor das casas da região (boas escolas no
bairro têm grande efeito, por exemplo). As pessoas tentam proteger o valor
do que pouparam, mas podem perdê-lo se o Estado ou os investidores
adquirem imóveis numa área de recuperação e deixam que se deteriorem,
acabando assim com o valor de mercado dos imóveis restantes.
Se invisto em melhorias, devo tomar o cuidado de fazer apenas aquelas
que aumentam o valor de troca da casa. Há diversos “manuais” para
proprietários tratando desse assunto (montar uma cozinha de última geração
agrega valor, mas colocar espelhos no teto ou um viveiro no quintal não).
A casa própria tornou-se importante para segmentos cada vez maiores
da população em muitos países do mundo. Manter e aumentar o valor
patrimonial de uma habitação tornaram-se objetivos políticos importantes
para segmentos cada vez maiores da população e uma questão política
prioritária, porque o valor de troca para os consumidores é tão importante
quanto o valor de troca obtido pelos produtores.
No entanto, nos últimos 30 anos, a habitação tornou-se objeto de
especulação. Compro uma casa por US$ 300 mil e 3 anos depois ela é avaliada em US$ 400 mil. Posso capitalizar o valor extra refinanciando meu