17 contradições e o fim do capitalismo

David Harvey · Capítulo 1 de 48

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17 contradições e o fim do capitalismo

Prólogo – A crise atual do capitalismo

Prólogo

 

A crise atual do capitalismo

 

Crises são essenciais para a reprodução do capitalismo. É no desenrolar das

crises que as instabilidades capitalistas são confrontadas, remodeladas e

reformuladas para criar uma nova versão daquilo em que consiste o

capitalismo. Muita coisa é derrubada e destruída para dar lugar ao novo.

Terras produtivas são transformadas em desertos industriais, velhas fábricas

são demolidas ou usadas para novas finalidades, bairros onde mora a classe

trabalhadora são gentrificados. Por toda parte, pequenas fazendas e terras

cultivadas por camponeses são substituídas por agricultura industrializada

em larga escala ou fábricas novinhas em folha. Parques empresariais,

centros de pesquisa e desenvolvimento, armazéns e centros de distribuição

se alastram em meio a conjuntos residenciais, interligados por trevos

rodoviários. Grandes cidades competem pela altura e sofisticação a que

podem chegar suas torres comerciais e construções icônicas; galerias e

shopping centers monstruosos proliferam igualmente nas cidades e nos

subúrbios, e alguns chegam a funcionar como aeroportos pelos quais

transitam multidões de turistas e executivos em um mundo que se tornou

espontaneamente cosmopolita. Campos de golfe e condomínios fechados,

vistos pela primeira vez nos Estados Unidos, agora são encontrados na

China, no Chile e na Índia, contrastando com assentamentos e ocupações

irregulares, formalmente chamados de cortiços, favelas ou barrios pobres.

Contudo, o que há de tão notável nas crises não é tanto a ampla

reconfiguração da paisagem física, mas as mudanças drásticas no modo de

pensar e entender, nas instituições e ideologias dominantes, nos processos,

alianças e subjetividades políticas, nas tecnologias e formas

organizacionais, nas relações sociais, nos costumes e nas preferências

culturais que permeiam a vida cotidiana. As crises abalam profundamente

nossas concepções de mundo e do lugar que ocupamos nele. E nós, como

participantes e habitantes inquietos desse mundo que vem surgindo, temos

de nos adaptar, por coerção ou consentimento, a um novo estado de coisas,

ao mesmo tempo que, por meio de nossas ações e do modo como pensamos

e nos comportamos, damos nossa pequena contribuição às complicações

desse mundo.

É difícil ver a saída no meio de uma crise. Crises não são

acontecimentos isolados. Embora tenham gatilhos óbvios, as mudanças

tectônicas que representam levam anos para se desenvolver. A longa e

persistente crise que se iniciou com a quebra do mercado de ações em 1929

só se resolveu por completo nos anos 1950, depois que o mundo passou

pela depressão dos anos 1930 e pela guerra mundial dos anos 1940. Da

mesma maneira, a crise sinalizada pela turbulência dos mercados de câmbio

internacionais, no fim dos anos 1960, e pelos protestos de rua de 1968 em

cidades tão diversas como Paris, Chicago, Cidade do México e Bangcoc só

se resolveu em meados dos anos 1980, depois do colapso, no começo da

década de 1970, do sistema monetário internacional de Bretton Woods,

iniciado em 1944, da turbulenta década de 1970 no que diz respeito às lutas

trabalhistas, do advento e da consolidação das políticas neoliberais sob os

governos Reagan, Thatcher, Kohl, Pinochet e, por fim, Deng na China.

Com o benefício da visão retrospectiva, não é difícil distinguir sinais

abundantes de problemas iminentes muito antes da explosão de uma crise.

As crescentes desigualdades de riqueza e renda nos anos 1920 e a bolha do

mercado imobiliário que estourou em 1928, nos Estados Unidos,

pressagiaram o colapso de 1929, por exemplo. Com efeito, a saída de uma

crise contém em si as sementes das crises que virão. O desfecho da

financeirização global hiperendividada e cada vez mais desregulamentada

que começou nos anos 1980 como um modo de resolver conflitos trabalhistas (facilitando a mobilidade e a dispersão geográfica) foi a

falência do banco de investimentos Lehman Brothers em 15 de setembro de

2008.

Já se passaram mais de cinco anos desde esse evento, que desencadeou

uma cascata de colapsos financeiros. Se o passado nos serve de guia, seria

estupidez esperar, a esta altura, qualquer indicação clara de como seria um

capitalismo renovado – se é que isso é possível –, mas deveria haver uma

profusão de diagnósticos conflitantes sobre o que está errado e uma

proliferação de propostas para colocar as coisas nos eixos. O que

surpreende é a parcimônia de novas políticas ou pensamentos. Em termos

gerais, o mundo está polarizado entre a continuação ou até o

aprofundamento das soluções neoliberais, baseadas na oferta [supply-side] e

monetaristas, enfatizando a austeridade como remédio apropriado para

curar nossos males (caso da Europa e dos Estados Unidos), e a retomada de

uma versão em geral diluída de uma expansão keynesiana baseada na

demanda e financiada pela dívida (como na China), ignorando a ênfase de

Keynes na redistribuição de renda para as classes mais baixas como um de

seus componentes-chave. Não importa qual política é seguida: o resultado é

o favorecimento do clube de bilionários que constitui hoje uma plutocracia

cada vez mais poderosa, tanto dentro dos países como no cenário mundial

(como Rupert Murdoch). Em toda a parte, os ricos estão cada vez mais

ricos. Os cem maiores bilionários do mundo (tanto da China, da Rússia, da

Índia, do México e da Indonésia como dos centros tradicionais de riqueza

na América do Norte e na Europa) juntaram US$ 240 bilhões a mais em

seus cofres só em 2012 (o suficiente, calcula a Oxfam, para acabar com a

pobreza mundial da noite para o dia). Em contrapartida, o bem-estar das

massas estagna, na melhor das hipóteses, ou, mais provavelmente, sofre

uma degradação crescente, se não catastrófica (como na Grécia e na

Espanha).

Dessa vez, a grande diferença institucional parece ser o papel

desempenhado pelos bancos centrais, e, obviamente, o papel principal, ou

até dominante, no cenário mundial é do Federal Reserve, dos Estados

Unidos. Mas, desde os primórdios dos bancos centrais (em 1694, no caso

britânico), o papel deles tem sido proteger e socorrer os banqueiros, não cuidar do bem-estar das pessoas. O fato de que, estatisticamente, os Estados

Unidos conseguiram sair da crise em meados de 2009 e os mercados de

ações conseguiram recuperar suas perdas em quase todo o mundo teve tudo

a ver com as políticas do Federal Reserve. Será que isso é o prenúncio de

um capitalismo global administrado pela ditadura dos banqueiros centrais

do mundo, cuja principal missão é proteger o poder dos bancos e

plutocratas? Se sim, parece haver pouca possibilidade de resolvermos o

atual problema das economias estagnadas e do padrão de vida cada vez

mais baixo da massa da população mundial.

Há também muita conversa fiada sobre a possibilidade de uma solução

tecnológica para o mal-estar econômico atual. Embora a integração de

novas tecnologias e formas organizacionais sempre tenha desempenhado

um papel importante para facilitar a saída das crises, esse papel nunca foi

determinante. Atualmente, as esperanças estão concentradas no capitalismo

“baseado no conhecimento” (em primeiro plano, a engenharia biomédica, a

engenharia genética e a inteligência artificial). Mas inovação é sempre uma

faca de dois gumes: a automação da década de 1980 trouxe a

desindustrialização, e empresas como a General Motors (que empregava

trabalhadores sindicalizados e bem pagos na década de 1960) foram

suplantadas por outras como o Walmart (composta por uma ampla mão de

obra não sindicalizada e mal paga), que hoje são as maiores empregadoras

privadas dos Estados Unidos. Se o surto atual de inovação aponta em

alguma direção é na de uma diminuição das oportunidades de emprego para

os trabalhadores e na de um aumento da importância da renda extraída de

direitos de propriedade intelectual no que se refere ao capital. Mas, se todos

tentassem viver de renda e ninguém investisse na fabricação de nada,

certamente o capitalismo se encaminharia para uma crise totalmente

diferente.

Não são apenas as elites capitalistas e seus seguidores intelectuais e

acadêmicos que parecem incapazes de romper radicalmente com o passado

ou definir uma saída viável para a lamuriosa crise de baixo crescimento,

estagnação, alta taxa de desemprego e perda da soberania estatal para o

poder dos credores privados. As forças da esquerda tradicional (partidos

políticos e sindicatos) são nitidamente incapazes de configurar uma oposição sólida ao poder do capital. Há trinta anos elas são derrotadas pelos

ataques ideológicos e políticos da direita, enquanto o socialismo

democrático é desacreditado. O colapso estigmatizado do comunismo

realmente existente e a “morte do marxismo” depois de 1989 pioraram

ainda mais a situação. Hoje, o que resta da esquerda radical atua

amplamente fora dos canais de oposição institucionais ou organizados, com

a esperança de que as ações em pequena escala e o ativismo local possam

contribuir para alguma alternativa satisfatória em grande escala. Essa

esquerda, que estranhamente faz eco a uma ética libertária e até neoliberal

do antiestatismo, é fomentada intelectualmente por pensadores como

Michel Foucault e todos aqueles que reuniram os fragmentos pós-modernos

sob a bandeira de um pós-estruturalismo amplamente incompreensível que

favorece a política identitária e evita a análise de classes. Perspectivas e

ações autonomistas, anarquistas e localistas estão em evidência por toda

parte. Mas uma vez que essa esquerda tenta mudar o mundo sem tomar o

poder, uma classe capitalista plutocrática cada vez mais consolidada

permanece inconteste em sua capacidade de dominar o mundo sem

restrições. Essa nova classe dominante é apoiada por um Estado de

segurança e vigilância que não é em absoluto contrário ao uso do poder de

polícia para dominar qualquer forma de dissidência em nome do

antiterrorismo.

Foi nesse contexto que escrevi este livro. A abordagem que adotei é

pouco convencional, visto que segue o método de Marx, mas não

necessariamente seus preceitos, e receio que, por conta disso, os leitores se

sintam desestimulados a aceitar zelosamente os argumentos expostos aqui.

Mas está claro que, se quisermos fugir do hiato atual no pensamento

econômico, nas políticas públicas e na política tout court, precisamos de

métodos investigativos e concepções diferentes nestes tempos

intelectualmente estéreis. Afinal, o motor econômico do capitalismo está

nitidamente passando por dificuldades. Oscila entre soltar faíscas e parar de

repente ou explodir esporadicamente sem nenhum alerta. Há inúmeros

sinais de perigo a cada curva da estrada, em meio aos prognósticos de uma

vida copiosa para todos. Ninguém parece entender de forma coerente como

e por que o capitalismo é tão turbulento. Mas ele sempre foi assim. Como disse Marx certa vez, as crises mundiais sempre foram “a concentração real