17 contradições e o fim do capitalismo

David Harvey · Capítulo 11 de 48

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17 contradições e o fim do capitalismo

Capítulo 3

toda a riqueza e todo o poder do mundo, então isso também define linhas

claras de lutas de classes cruciais para o futuro bem-estar da massa da

humanidade.

Mas isso é apenas a ponta visível do iceberg. O dinheiro, vale repetir, é

inseparável do valor, assim como o valor de troca é inseparável do dinheiro.

Os três estão fortemente entrelaçados. Se o valor de troca perde força e

desaparece como o meio que norteia a produção e distribuição dos valores

de uso na sociedade, a necessidade de dinheiro e todas as patologias

cobiçosas associadas a seu uso (como capital) e a sua posse (como fonte

suprema do poder social) também desaparecerão. Ainda que seja necessário

articular o objetivo utópico de uma ordem social sem valor de troca, o passo

intermediário para criar formas quase monetárias que facilitem a troca, mas

impeçam o acúmulo privado de riqueza e poder social, é imperativo. Isso

pode ser feito em princípio. Keynes, em seu influente Teoria geral do

emprego, do juro e da moeda, por exemplo, menciona “o estranho e

injustificadamente negligenciado profeta Silvio Gesell”, que há muito

tempo propôs a criação de formas de quase moeda que perdem o valor se

não forem usadas. É preciso retificar a desigualdade fundamental entre as

mercadorias (valores de uso) que se desgastam e uma forma-dinheiro (valor

de troca) que não se desgasta. “Somente o dinheiro que se torna obsoleto

como um jornal, apodrece como batatas ou evapora como éter é capaz de

passar no teste como instrumento de troca de batatas, jornais, ferro e éter”,

escreveu Gesell [3]. Hoje, graças ao dinheiro eletrônico, isso é viável de

maneiras que antes eram impossíveis. Pode-se estabelecer uma data de

validade para as contas correntes, de modo que o dinheiro não utilizado

(como milhas aéreas acumuladas) expira depois de determinado período.

Isso corta o elo entre o dinheiro como meio de circulação e o dinheiro como

medida e, ainda mais significativamente, como reserva de valor (e, por isso,

um meio primordial para o acúmulo de riquezas e poder).

É óbvio que uma iniciativa desse tipo exigiria ajustes que abrangem

amplamente outras facetas da economia. Se o dinheiro se deteriora, é

impossível poupá-lo para necessidades futuras. Os investimentos em fundos

de pensão, por exemplo, desapareceriam. Mas essa perspectiva não é tão assustadora quanto parece. Para começar, investimentos em fundos de

pensão também são vulneráveis à perda de valor (por financiamento

insuficiente, má gestão, inflação ou queda nas bolsas de valores). Muitos

pensionistas têm descoberto que o valor dos fundos de pensão, em termos

monetários, é contingente e nada seguro. A previdência social, por outro

lado, é uma forma de pensão que, em princípio, não deveria depender da

poupança para o futuro. Os trabalhadores de hoje sustentam os que os

antecederam. Seria muito melhor organizar as rendas futuras dessa maneira

do que poupar e esperar que os investimentos sejam compensadores. Uma

renda mínima garantida para todos (ou acesso mínimo a um fundo comum

de valores de uso gerido coletivamente) acabaria totalmente com a

necessidade de uma forma-dinheiro que permitiria poupanças privadas para

garantir uma segurança econômica futura.

O foco teria de ser no que realmente importa, ou seja, na criação

contínua de valores de uso pelo trabalho social e na erradicação do valor de

troca como principal meio de organização da produção de valores de uso.

Marx, por exemplo, acreditava que reformas no sistema monetário não

garantiriam por si sós a dissolução do poder do capital e que era ilusório

acreditar que uma reformulação das formas monetárias produziria uma

mudança revolucionária. Para mim, Marx estava certo nesse aspecto. Mas

acredito que sua análise também explicita que a evolução de uma

alternativa ao capital exigiria como condição necessária, mas não suficiente,

uma reconfiguração radical do modo como a troca é organizada e a

dissolução do poder do dinheiro não só em relação à vida social, mas

também, como indica Keynes, em relação a nossas concepções mentais e

morais do mundo. Imaginar uma economia sem dinheiro é uma forma de

avaliar como seria uma alternativa ao capitalismo. Essa possibilidade, dadas

as potencialidades do dinheiro eletrônico ou até mesmo dos substitutos do

dinheiro, pode não estar muito distante. O advento de novas formas de

moeda virtual, como o bitcoin, sugere que o próprio capital está a caminho

de inventar novas formas monetárias. Seria sábio e oportuno, portanto, se a

esquerda direcionasse as ambições políticas e o pensamento político para

esse objetivo final.

Uma política monetária alternativa torna-se imperativa quando

consideramos um problema imediato especialmente perigoso. A forma que

o dinheiro assumiu hoje atingiu a condição de duplo fetiche – uma

representação abstrata (puro número guardado na tela de um computador)

de uma representação concreta (como o ouro e a prata) da imaterialidade do

trabalho social. Quando o dinheiro assume a forma de puro número, sua

quantidade potencial torna-se ilimitada. Isso nutre a ilusão de que o

crescimento ilimitado e infinito do capital em sua forma-dinheiro não é só

possível, como também desejável. Contra isso, até mesmo um exame

informal das condições relativas ao desenvolvimento do trabalho social e ao

aumento de valor mostra que o crescimento exponencial sem fim é

impossível. Essa oposição, como veremos adiante, está na raiz de uma das

três contradições mais perigosas do capital: a do crescimento exponencial.

Quando o dinheiro era limitado porque era lastreado, ainda que

debilmente, na disponibilidade material e na relativa escassez da

mercadoria-dinheiro, havia uma restrição material na criação infinita do

dinheiro. O abandono da base metálica das moedas correntes no mundo

todo, no início da década de 1970, criou um novo mundo de contradições

possíveis. O dinheiro podia ser emitido ad infinitum por qualquer um que

tivesse autorização para isso. A oferta monetária passou para as mãos de

instituições humanas falíveis, como os bancos centrais, e o perigo era a

aceleração da inflação. Não é por acaso que depois de um breve período de

inflação crescente no fim da década de 1970 nos Estados Unidos, em

particular, os presidentes dos bancos centrais de todo o mundo (liderados

por Paul Volcker, do Federal Reserve) adotaram a política única de

contenção da inflação a qualquer custo, abandonando a responsabilidade

que tinham pelo emprego e pelo desemprego. Quando o Banco Central

Europeu foi criado para gerenciar o euro, sua única responsabilidade era

controlar a inflação. O fato de que essa política tenha se revelado

desastrosa, quando a crise da dívida soberana atingiu diversos países

europeus a partir de 2012, mostra uma incapacidade crônica, dentro das

instituições criadas pelo capital, para regular seus próprios excessos e

entender a lógica contraditória embutida na forma monetária que é

necessariamente assumida hoje pelo capital. Não é surpresa, portanto, que a crise de 2007-2008 tenha assumido, em primeira instância, a forma