17 contradições e o fim do capitalismo
4. Apropriação privada e riqueza comum
[3] Thomas Greco, The End of Money and the Future of Civilization (White River Junction, Chelsea Green, 2009).
[4] Idem.
Contradição 4
Apropriação privada e riqueza comum
A riqueza comum criada pelo trabalho social aparece em uma variedade
infinita de valores de uso, desde facas e garfos até desmatamentos, cidades
inteiras, o avião em que viajamos, os carros que dirigimos, a comida que
ingerimos, as casas em que vivemos e as roupas que usamos. A apropriação
e a acumulação privada dessa riqueza comum e o trabalho social nela
cristalizado ocorrem de duas maneiras muito diferentes. Em primeiro lugar,
há uma vasta gama do que poderíamos chamar hoje de atividades ilegais,
como roubo, assalto, fraude, corrupção, usura, predação, violência e
coerção, além de uma série de práticas suspeitas e duvidosas no mercado,
como monopolização, manipulação, controle de mercado, fixação de
preços, esquemas Ponzi etc. Em segundo lugar, as pessoas acumulam
riqueza por meio de trocas legalmente sancionadas, sob condições não
coercitivas de comércio e em mercados de funcionamento livre. Teóricos da
circulação e da acumulação do capital costumam não considerar as
atividades do primeiro tipo por julgá-las excrescências externas ao
funcionamento “normal” e legítimo do mercado capitalista. Constroem seus
modelos de circulação e acumulação do capital baseados no pressuposto de
que apenas o segundo tipo de apropriação privada e acúmulo de riqueza
social é legítimo e relevante.
Acredito que está na hora de subvertermos essa ficção conveniente, mas
profundamente equivocada, promovida pelos manuais de economia e reconhecer a relação simbiótica entre essas duas formas de apropriação
tanto do trabalho social como dos produtos desse trabalho. Defendo esse
argumento baseado, em parte, na simples razão empírica de que é estupidez
tentar entender o mundo do capital sem levar em conta os cartéis de drogas,
os traficantes de armas e as várias máfias e outras formas criminosas de
organização que desempenham um papel tão significativo no mercado
mundial. É impossível deixar de lado, como simples excrescências
acidentais, a vasta gama de práticas predatórias tão facilmente identificáveis
na quebra recente do mercado habitacional nos Estados Unidos (além das
recentes revelações de fraude sistemática no sistema bancário, como
falsificação de avaliações de ativos, lavagem de dinheiro, esquemas Ponzi,
manipulação das taxas de juros etc.).
Mas, além dessas razões empíricas óbvias, há fundamentos teóricos
sólidos para acreditarmos que, no centro daquilo que define
fundamentalmente o capital, existe uma economia baseada na espoliação. A
espoliação direta do valor que o trabalho social produz no local de produção
é apenas um fio (embora essencial) da trama de espoliação que nutre e
sustenta a apropriação e a acumulação de grande parcela da riqueza comum
por “pessoas” privadas (ou seja, entidades legais, inclusive corporações).
Em princípio, os banqueiros não se importam, por exemplo, que seus
lucros e bônus exagerados tenham origem em empréstimos a proprietários
de terras que extraem aluguéis exorbitantes de inquilinos oprimidos, em
comerciantes que enfiam a faca em seus clientes, em operadoras de cartões
de crédito e companhias telefônicas que enganam os consumidores, em
caixas hipotecárias que executam ilegalmente um imóvel ou fabricantes que
exploram impiedosamente seus trabalhadores. Embora os teóricos da
esquerda política, inspirados no que entendem da economia política de
Marx, privilegiem a última dessas três formas de apropriação como mais
fundamental do que as outras, a evolução histórica do capital revela uma
imensa flexibilidade em sua capacidade de apropriação da riqueza comum.
Os altos salários obtidos pelos trabalhadores graças à luta de classes podem
facilmente ser tomados pelos proprietários de terras, pelas operadoras de
cartão de crédito e pelos comerciantes, para não falar dos coletores de
impostos. Os banqueiros inventam até seus próprios jogos de escamoteação, e lucram imensamente com eles; mesmo quando são pegos, são os bancos
(isto é, os acionistas) que são sacrificados, não os banqueiros (só na Islândia
os banqueiros vão presos).
No centro do processo de apropriação privada da riqueza comum reside
o modo contraditório como o dinheiro, conforme vimos, representa e
simboliza o trabalho social (valor). O fato de que o dinheiro, em oposição
ao valor social que ele representa, seja inerentemente apropriável por
pessoas privadas significa que o dinheiro (dado que funciona muito bem
como reserva de valor e medida de valor) pode ser acumulado sem limite
por pessoas privadas. E na medida em que o dinheiro armazena poder
social, sua acumulação e centralização por um grupo de indivíduos são
decisivas tanto para a construção social da ganância pessoal quanto para a
formação de um poder de classe capitalista mais ou menos coerente.
Reconhecendo o perigo para o mundo social, as sociedades pré-
capitalistas trataram de erguer barreiras contra a apropriação privada
temerária e o uso da riqueza comum, ao mesmo tempo que resistiram à
mercantilização e à monetização de tudo. Essas sociedades perceberam
corretamente que a monetização impedia outras maneiras de constituir as
comunidades, e o resultado, como disse Marx, é que “o próprio dinheiro é a
comunidade”[1]. Ainda vivemos as consequências dessa transição. O fato de
as sociedades mais antigas terem perdido a batalha não pode nos impedir de
considerar caminhos para refrear essa apropriação privada da riqueza
comum, pois ela continua representando um grande perigo em termos de
apropriações e investimentos temerários, indiferente às consequências
ambientais ou sociais, e ameaça as condições da própria reprodução do
capital.
Embora tudo isso seja evidente por si só, algo ainda mais sinistro está
em jogo no cálculo monetário, algo que imprime sua marca na política e nas
práticas de acumulação por espoliação como uma característica
fundamental do que define o capital. Na análise do funcionamento do
dinheiro, vimos que a distinção entre valor e preço abre uma lacuna entre a
realidade do trabalho social e a capacidade de pendurar uma etiqueta fictícia
de preço em qualquer coisa, independentemente de se tratar ou não de um
produto do trabalho social. Tanto terras não cultivadas quanto a consciência podem ser vendidas por dinheiro! A lacuna entre valores e preços, portanto,
é um problema não só quantitativo (os preços podem subir ou baixar como
resposta a um desequilíbrio entre oferta e procura), mas também qualitativo
(é possível atribuir preços a coisas tão imateriais quanto honra, lealdade e
fidelidade). Essa lacuna se tornou um abismo, à medida que o capital se
expandia em alcance e profundidade com o passar do tempo.
De todos os teóricos, o socialista Karl Polanyi, historiador da economia
e antropólogo de origem húngara que trabalhou nos Estados Unidos no auge
da perseguição macarthista, talvez tenha entendido com mais clareza a
natureza desse fenômeno e os “riscos à sociedade” que representava. Seu
influente livro A grande transformação foi publicado pela primeira vez em
1944 e é um marco até hoje. Mercados de trabalho, terra e dinheiro são,
segundo ele, essenciais para o funcionamento do capital e a produção de
valor.
Todavia, o trabalho, a terra e o dinheiro obviamente não são mercadorias. [...]
Trabalho é apenas um outro nome para atividade humana que acompanha a própria
vida que, por sua vez, não é produzida para venda, mas por razões inteiramente
diversas, e essa atividade não pode ser destacada do resto da vida, não pode ser
armazenada ou mobilizada. Terra é apenas outro nome para a natureza, que não é
produzida pelo homem. Finalmente, o dinheiro é apenas um símbolo do poder de
compra e, como regra, ele não é produzido mas adquire vida através do mecanismo
dos bancos e das finanças estatais. Nenhum deles é produzido para a venda. A
descrição do trabalho, da terra e do dinheiro como mercadorias é inteiramente fictícia.
[2]
Na visão de Polanyi, respaldar sem restrições a ficção de que terra,
trabalho e dinheiro são mercadorias resultaria “no desmoronamento da
sociedade”.
Ao dispor da força de trabalho de um homem, o sistema disporia também,
incidentalmente, da entidade física, psicológica e moral do “homem” ligado a essa
etiqueta. Despojados da cobertura protetora das instituições culturais, os seres
humanos sucumbiriam sob os efeitos do abandono social; morreriam vítimas de um
agudo transtorno social, através do vício, da perversão, do crime e da fome. A natureza
seria reduzida a seus elementos mínimos, conspurcadas as paisagens e os arredores,
poluídos os rios, a segurança militar ameaçada e destruído o poder de produzir
alimentos e matérias-primas. Finalmente [...] as faltas e os excessos de dinheiro seriam
tão desastrosos para os negócios como as enchentes e as secas nas sociedades
primitivas. [...] Nenhuma sociedade suportaria os efeitos de um tal sistema de
grosseiras ficções, mesmo por um período muito curto, a menos que a sua substância
humana natural, assim como a sua organização de negócios, fosse protegida contra os
assaltos desse moinho satânico.[3]
Na medida em que, nas últimas décadas, as políticas neoliberais
desmantelaram grande parte das proteções criadas com tanto esmero
durante décadas de luta, estamos cada vez mais expostos a alguns dos
piores aspectos desse “moinho satânico” que o capital, por si só,
inevitavelmente cria. Além de vermos ao redor provas abundantes de
muitos dos colapsos que Polanyi temia, uma forte sensação de alienação
universal surge de maneira cada vez mais ameaçadora à medida que uma
parcela cada vez maior da humanidade se afasta indignada da barbárie que
sustenta a civilização criada pelo próprio capital. Isso constitui, como
argumentarei à guisa de conclusão, uma das três contradições mais
perigosas, talvez até fatais, para a perpetuação do capital e do capitalismo.
A forma como historicamente se deu a mercantilização do trabalho, da
terra e do dinheiro é em si uma história longa e dolorosa, como mostra
Marx ao falar da chamada “acumulação primitiva” em O capital. A
transformação do trabalho, da terra e do dinheiro em mercadorias baseou-se
em violência, traição, roubo, fraude e coisas do tipo. Terras comuns foram
cercadas, divididas e postas à venda como propriedade privada. O ouro e a
prata que constituíram as primeiras mercadorias-dinheiro foram roubados
das Américas. Os trabalhadores foram obrigados a abandonar a terra e
receberam o título de trabalhadores assalariados “livres”, podendo ser
explorados livremente pelo capital, quando não diretamente contratados ou
escravizados. Essas formas de espoliação foram fundamentais para a
criação do capital. Mas é importantíssimo notar que elas nunca
desapareceram. Não só foram centrais para os aspectos mais vis do
colonialismo, como até hoje as políticas de espoliação (administradas em
grande parte por uma aliança terrível entre o poder corporativo e o poder
estatal) do acesso à terra, à água e aos recursos naturais geram movimentos
maciços de inquietação global. O chamado “assenhoramento de terras” em toda a África, América Latina e boa parte da Ásia (como as espoliações em
massa que vêm ocorrendo na China) é apenas o sintoma mais óbvio de uma
política descontrolada de acumulação por espoliação como nem Polanyi
teria imaginado. Nos Estados Unidos, as táticas de domínio eminente –
junto com a onda brutal de execuções que levou a perdas inestimáveis não
só de valores de uso (milhões de pessoas ficaram desabrigadas), mas
também de economias conquistadas com muito esforço e valores atrelados
ao mercado habitacional, sem falar da perda de direitos e benefícios de
pensão, assistência médica e educação – indicam que a economia política
da espoliação total continua sã e salva no coração do mundo capitalista. A
ironia é que essas formas de espoliação são cada vez mais aplicadas sob o
disfarce virtuoso de uma política da austeridade necessária para recuperar a
suposta saúde de um capitalismo doente.
Isolar a natureza “e com ela formar um mercado foi talvez o
empreendimento mais fantástico dos nossos ancestrais”, observa Polanyi,
enquanto “separar o trabalho das outras atividades da vida e sujeitá-lo às
leis do mercado foi o mesmo que aniquilar todas as formas orgânicas da
existência e substituí-las por um tipo diferente de organização, uma
organização atomista e individualista” [4]. Essa última consequência foi
crucial para o funcionamento da estrutura das contradições que examinamos
aqui. Claramente, a unidade contraditória entre Estado e propriedade
privada que constitui a terceira contradição fundamental do capital é
significativa não como ferramenta fundamental para facilitar a acumulação
por espoliação, mas como uma legitimação post facto e uma racionalização
institucional dos resultados da violência da espoliação. Uma vez que a terra,
o trabalho e o dinheiro foram coisificados, pulverizados e arrancados de seu
enraizamento nos fluxos mais amplos da vida cultural e da matéria viva,
eles puderam ser reunificados sob a proteção dos direitos e das leis
constitucionais, baseados nos princípios do direito individual à propriedade
privada garantidos pelo Estado.
A terra, por exemplo, não é uma mercadoria produzida pelo trabalho
social. Mas a atividade central do movimento de cercamento na Grã-
Bretanha e das práticas de colonização em todo o mundo era dividi-la,
privatizá-la e transformá-la em mercadoria para que o mercado de terras pudesse se tornar o campo primário da acumulação do capital e da extração