17 contradições e o fim do capitalismo

David Harvey · Capítulo 46 de 48

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17 contradições e o fim do capitalismo

Epílogo – Ideias para a prática política

Epílogo

 

Ideias para a prática política

 

O que esse raio X das contradições do capital nos diz sobre a prática

política anticapitalista? Obviamente, não nos mostra com exatidão o que

fazer em lutas ferozes e sempre complicadas em torno dessa ou daquela

questão. No entanto, pode nos ajudar a planejar uma direção geral para a

luta anticapitalista, ao mesmo tempo que defende e fortalece a causa da

política anticapitalista. Quando os pesquisadores de opinião fazem sua

pergunta predileta: “Você acha que o país está na direção certa?”, presumem

que as pessoas tenham noção de qual deveria ser a direção certa. Sendo

assim, o que nós, que acreditamos que o capital está na direção errada,

consideramos ser a direção certa, e como devemos avaliar nosso progresso

rumo à realização de nossos objetivos? Ou, ainda, de que modo devemos

apresentar esses objetivos como propostas sensatas e modestas (porque é

isso que são), em comparação com os argumentos absurdos para aumentar o

poder do capital como resposta às necessidades gritantes da humanidade?

Apresentamos aqui algumas diretrizes (derivadas das dezessete

contradições) para construir e, esperançosamente, animar a prática política.

Devemos lutar por um mundo em que:

 

1. A provisão direta de valores de uso adequados para todos (habitação,

educação, segurança alimentar etc.) tenha precedência sobre a provisão

desses valores por intermédio de um sistema de mercado que

maximize os lucros, concentre os valores de troca em poucas mãos

privadas e distribua bens com base na capacidade de pagamento.

2. Seja criado um meio de troca que facilite a circulação de bens e

serviços, mas limite ou elimine a capacidade de pessoas privadas

acumularem dinheiro como forma de poder social.

3. A oposição entre propriedade privada e poder público seja substituída

tanto quanto possível por regimes de direitos comuns – com particular

ênfase no conhecimento humano e na terra como bens comuns mais

fundamentais – cuja criação, gestão e proteção sejam feitas por

assembleias e associações populares.

4. A apropriação do poder social por pessoas privadas seja não apenas

impedida por barreiras econômicas e sociais, mas também malvista no

mundo inteiro como um desvio patológico.

5. A oposição de classe entre capital e trabalho se dissipe em associações

de produtores que decidam livremente o que, como e quando produzir,

em colaboração com outras associações, considerando a satisfação das

necessidades sociais comuns.

6. A vida cotidiana seja desacelerada – a locomoção seja lenta e

agradável – para maximizar o tempo dedicado às atividades livres,

realizadas num ambiente estável e bem cuidado, protegido dos

episódios dramáticos da destruição criativa.

7. Populações associadas avaliem e informem mutuamente suas

necessidades a fim de criar a base para as decisões relacionadas à

produção (no curto prazo, considerações relativas à realização devem

dominar as decisões relativas à produção).

8. Sejam criadas novas tecnologias e formas de organização para aliviar o

peso de todas as formas de trabalho social, eliminar as distinções

desnecessárias das divisões técnicas do trabalho, liberar tempo para

atividades livres individuais e coletivas e diminuir a pegada ecológica

das atividades humanas.

9. As divisões técnicas do trabalho sejam reduzidas pelo uso de

automação, robotização e inteligência artificial. As divisões técnicas

do trabalho restantes que forem consideradas essenciais sejam

dissociadas tanto quanto possível das divisões sociais do trabalho.

Haja rodízio nas funções de administração, liderança e policiamento

entre todos os indivíduos da população. Sejamos liberados do domínio

dos especialistas.

10. O monopólio e o poder centralizado sobre o uso dos meios de

produção sejam dados a associações populares, através das quais as

capacidades competitivas descentralizadas dos indivíduos e dos grupos

sociais sejam mobilizadas para produzir diferenciações nas inovações

técnicas, sociais, culturais e de estilo de vida.

11. Exista a maior diversificação possível nos modos de viver e ser, nas

relações sociais e com a natureza, nos hábitos culturais e nas crenças

dentro das associações territoriais, comuns e coletivas. Os

representantes das associações se reúnam regularmente para avaliar,

planejar e realizar tarefas comuns, assim como para resolver

problemas comuns em diferentes escalas: biorregional, continental e

global.

12. Todas as desigualdades de provisão material sejam abolidas, exceto as

implícitas no princípio “de cada um ou uma segundo suas capacidades,

e a cada um ou uma segundo suas necessidades”.

13. Seja gradualmente eliminada a distinção entre trabalho necessário

realizado para pessoas distantes e trabalho realizado para a reprodução

de si, da unidade familiar e da comunidade, de modo que o trabalho

social seja incorporado no trabalho familiar e comum, e o trabalho

familiar e comum torne-se a principal forma de trabalho social

inalienado e não monetizado.

14. Todos tenhamos o mesmo direito a educação, saúde, habitação,

segurança alimentar, produtos básicos e acesso livre ao transporte para

garantir a base material que assegure que não haja carências e nos dê

liberdade de ação e movimento.

15. A economia convirja para o crescimento zero (mas com espaço para

desenvolvimentos geográficos desiguais) num mundo em que o

máximo desenvolvimento das capacidades e dos poderes humanos

individuais e coletivos e a contínua busca de novidade prevaleçam

como normas sociais e suplantem a mania do crescimento exponencial

perpétuo.

16. A apropriação e a produção de energias naturais para atender às

necessidades humanas prossiga em ritmo acelerado, mas com o

máximo de respeito pelos ecossistemas, com o máximo de atenção

para com a reciclagem de nutrientes, energia e matéria física em seus

locais de origem e com um grande sentido de reencantamento pela

beleza do mundo natural, do qual fazemos parte e com o qual podemos

contribuir e já contribuímos com nosso trabalho.

17. Seres humanos inalienados e pessoas criativas inalienadas surjam

munidos de um novo e confiante sentido de si e de ser coletivo. Da

experiência das relações sociais íntimas adquiridas livremente e da

empatia por diferentes modos de vida e produção surja um mundo em

que todos serão igualmente considerados merecedores de dignidade e

respeito, mesmo que haja conflito sobre a definição apropriada de boa

vida. Esse mundo social evolua continuamente por meio de revoluções

permanentes das capacidades e dos poderes humanos. A busca

perpétua da novidade continue.

 

É desnecessário dizer que nenhuma dessas diretrizes transcende ou substitui

a importância de lutar contra todas as formas de discriminação, opressão e

repressão violenta do capitalismo. Da mesma maneira, nenhuma dessas

lutas deveria transcender ou substituir a luta contra o capital e suas

contradições. Obviamente, alianças de interesse se fazem necessárias.