17 contradições e o fim do capitalismo
Epílogo – Ideias para a prática política
Epílogo
Ideias para a prática política
O que esse raio X das contradições do capital nos diz sobre a prática
política anticapitalista? Obviamente, não nos mostra com exatidão o que
fazer em lutas ferozes e sempre complicadas em torno dessa ou daquela
questão. No entanto, pode nos ajudar a planejar uma direção geral para a
luta anticapitalista, ao mesmo tempo que defende e fortalece a causa da
política anticapitalista. Quando os pesquisadores de opinião fazem sua
pergunta predileta: “Você acha que o país está na direção certa?”, presumem
que as pessoas tenham noção de qual deveria ser a direção certa. Sendo
assim, o que nós, que acreditamos que o capital está na direção errada,
consideramos ser a direção certa, e como devemos avaliar nosso progresso
rumo à realização de nossos objetivos? Ou, ainda, de que modo devemos
apresentar esses objetivos como propostas sensatas e modestas (porque é
isso que são), em comparação com os argumentos absurdos para aumentar o
poder do capital como resposta às necessidades gritantes da humanidade?
Apresentamos aqui algumas diretrizes (derivadas das dezessete
contradições) para construir e, esperançosamente, animar a prática política.
Devemos lutar por um mundo em que:
1. A provisão direta de valores de uso adequados para todos (habitação,
educação, segurança alimentar etc.) tenha precedência sobre a provisão
desses valores por intermédio de um sistema de mercado que
maximize os lucros, concentre os valores de troca em poucas mãos
privadas e distribua bens com base na capacidade de pagamento.
2. Seja criado um meio de troca que facilite a circulação de bens e
serviços, mas limite ou elimine a capacidade de pessoas privadas
acumularem dinheiro como forma de poder social.
3. A oposição entre propriedade privada e poder público seja substituída
tanto quanto possível por regimes de direitos comuns – com particular
ênfase no conhecimento humano e na terra como bens comuns mais
fundamentais – cuja criação, gestão e proteção sejam feitas por
assembleias e associações populares.
4. A apropriação do poder social por pessoas privadas seja não apenas
impedida por barreiras econômicas e sociais, mas também malvista no
mundo inteiro como um desvio patológico.
5. A oposição de classe entre capital e trabalho se dissipe em associações
de produtores que decidam livremente o que, como e quando produzir,
em colaboração com outras associações, considerando a satisfação das
necessidades sociais comuns.
6. A vida cotidiana seja desacelerada – a locomoção seja lenta e
agradável – para maximizar o tempo dedicado às atividades livres,
realizadas num ambiente estável e bem cuidado, protegido dos
episódios dramáticos da destruição criativa.
7. Populações associadas avaliem e informem mutuamente suas
necessidades a fim de criar a base para as decisões relacionadas à
produção (no curto prazo, considerações relativas à realização devem
dominar as decisões relativas à produção).
8. Sejam criadas novas tecnologias e formas de organização para aliviar o
peso de todas as formas de trabalho social, eliminar as distinções
desnecessárias das divisões técnicas do trabalho, liberar tempo para
atividades livres individuais e coletivas e diminuir a pegada ecológica
das atividades humanas.
9. As divisões técnicas do trabalho sejam reduzidas pelo uso de
automação, robotização e inteligência artificial. As divisões técnicas
do trabalho restantes que forem consideradas essenciais sejam
dissociadas tanto quanto possível das divisões sociais do trabalho.
Haja rodízio nas funções de administração, liderança e policiamento
entre todos os indivíduos da população. Sejamos liberados do domínio
dos especialistas.
10. O monopólio e o poder centralizado sobre o uso dos meios de
produção sejam dados a associações populares, através das quais as
capacidades competitivas descentralizadas dos indivíduos e dos grupos
sociais sejam mobilizadas para produzir diferenciações nas inovações
técnicas, sociais, culturais e de estilo de vida.
11. Exista a maior diversificação possível nos modos de viver e ser, nas
relações sociais e com a natureza, nos hábitos culturais e nas crenças
dentro das associações territoriais, comuns e coletivas. Os
representantes das associações se reúnam regularmente para avaliar,
planejar e realizar tarefas comuns, assim como para resolver
problemas comuns em diferentes escalas: biorregional, continental e
global.
12. Todas as desigualdades de provisão material sejam abolidas, exceto as
implícitas no princípio “de cada um ou uma segundo suas capacidades,
e a cada um ou uma segundo suas necessidades”.
13. Seja gradualmente eliminada a distinção entre trabalho necessário
realizado para pessoas distantes e trabalho realizado para a reprodução
de si, da unidade familiar e da comunidade, de modo que o trabalho
social seja incorporado no trabalho familiar e comum, e o trabalho
familiar e comum torne-se a principal forma de trabalho social
inalienado e não monetizado.
14. Todos tenhamos o mesmo direito a educação, saúde, habitação,
segurança alimentar, produtos básicos e acesso livre ao transporte para
garantir a base material que assegure que não haja carências e nos dê
liberdade de ação e movimento.
15. A economia convirja para o crescimento zero (mas com espaço para
desenvolvimentos geográficos desiguais) num mundo em que o
máximo desenvolvimento das capacidades e dos poderes humanos
individuais e coletivos e a contínua busca de novidade prevaleçam
como normas sociais e suplantem a mania do crescimento exponencial
perpétuo.
16. A apropriação e a produção de energias naturais para atender às
necessidades humanas prossiga em ritmo acelerado, mas com o
máximo de respeito pelos ecossistemas, com o máximo de atenção
para com a reciclagem de nutrientes, energia e matéria física em seus
locais de origem e com um grande sentido de reencantamento pela
beleza do mundo natural, do qual fazemos parte e com o qual podemos
contribuir e já contribuímos com nosso trabalho.
17. Seres humanos inalienados e pessoas criativas inalienadas surjam
munidos de um novo e confiante sentido de si e de ser coletivo. Da
experiência das relações sociais íntimas adquiridas livremente e da
empatia por diferentes modos de vida e produção surja um mundo em
que todos serão igualmente considerados merecedores de dignidade e
respeito, mesmo que haja conflito sobre a definição apropriada de boa
vida. Esse mundo social evolua continuamente por meio de revoluções
permanentes das capacidades e dos poderes humanos. A busca
perpétua da novidade continue.
É desnecessário dizer que nenhuma dessas diretrizes transcende ou substitui
a importância de lutar contra todas as formas de discriminação, opressão e
repressão violenta do capitalismo. Da mesma maneira, nenhuma dessas
lutas deveria transcender ou substituir a luta contra o capital e suas
contradições. Obviamente, alianças de interesse se fazem necessárias.