17 contradições e o fim do capitalismo

David Harvey · Capítulo 24 de 48

Páginas do PDF

17 contradições e o fim do capitalismo

8. Tecnologia, trabalho e descartabilidade humana

evolução do capital de hoje.

 

[1] W. Brian Arthur, The Nature of Technology: What It Is and How It Evolves (Nova York, Free Press, 2009, p. 202).

Contradição 8

 

Tecnologia, trabalho e descartabilidade

 

humana

 

A principal contradição que a concepção marxista tradicional de

socialismo/comunismo deveria resolver é aquela entre o aumento

inacreditável nas forças produtivas (amplamente entendidas como

capacidades e potencialidades tecnológicas) e a incapacidade do capital de

utilizar essa produtividade para o bem-estar comum, em razão de seu

comprometimento com as relações de classe vigentes e seus mecanismos

associados de reprodução, dominação e controle de classes. Abandonado a

si mesmo – prossegue o argumento –, o capital está fadado a produzir uma

estrutura de classe oligárquica e plutocrática cada vez mais vulnerável, sob

a qual a massa da população mundial deve se virar para ganhar a vida ou

morrer de fome. Frustrado com essa desigualdade crescente em meio à

abundância, surgirá das massas um movimento revolucionário

anticapitalista, conscientemente organizado (conduzido, nos termos

leninistas, por um partido de vanguarda), capaz de derrubar o domínio de

classe e reorganizar a economia global, proporcionando a toda a população

do planeta os benefícios prometidos pela maravilhosa produtividade do

capital.

Embora haja bem mais do que um pingo de verdade nessa análise

(parecemos bastante adiantados hoje na produção de uma plutocracia global, por exemplo), acompanhado de mais do que uma lufada de fervor

revolucionário com esperanças no mecanismo de transição, sempre tive a

sensação de que essa fórmula é simplista demais, ou até fundamentalmente

falha. Está claro que os aumentos drásticos de produtividade do capital são

apenas um dos polos de um movimento contraditório que está sempre

ameaçado de explodir em uma crise. O que não está claro, no entanto, é

qual seria sua antítese correta. Vamos tratar aqui dessa questão.

A tecnologia pode ser definida como o uso de processos e coisas

naturais na fabricação de produtos para propósitos humanos. Em sua base, a

tecnologia define uma relação específica, dinâmica e contraditória, com a

natureza. Retornaremos a essa importantíssima contradição em outro

capítulo (Contradição 16). O que nos interessa aqui é reconhecer sua

existência, fluidez e dinamismo. O propósito imediato e distintivo do

capital (em oposição, digamos, às Forças Armadas, ao aparelho estatal e a

várias outras instituições da sociedade civil) é o lucro, que se traduz

socialmente na acumulação perpétua do capital e na reprodução do poder da

classe capitalista. Esse é o objetivo do consumo do capital. Para alcançá-lo,

os capitalistas adaptam e reformulam o hardware da tecnologia (máquinas e

computadores), o software (programas usados pelas máquinas) e suas

formas de organização (estruturas de comando e controle sobre o uso do

trabalho, em particular). O propósito imediato do capital é aumentar a

produtividade, a eficiência e as taxas de lucro, bem como criar novas linhas

de produtos, se possível ainda mais lucrativas.

Ao considerar a trajetória das mudanças tecnológicas, é fundamental

nos lembrarmos de que o software e as formas organizacionais são tão

importantes quanto o hardware. As formas organizacionais, como as

estruturas de controle da empresa moderna, o sistema de crédito, os

sistemas de entrega just-in-time, além do software incorporado na robótica,

na administração de dados, na inteligência artificial e nas transações

bancárias eletrônicas, são tão cruciais para a lucratividade quanto o

hardware representado pelas máquinas. Se tomarmos um exemplo atual, a

computação em nuvem é a forma organizacional, o Word é o software e o

Mac em que escrevo é o hardware. Esses três elementos – hardware,

software e forma organizacional – estão combinados na tecnologia computacional. De acordo com essa definição, o dinheiro, as transações

bancárias, o sistema de crédito e o mercado são tecnologias. Tal definição

pode parecer excessivamente ampla, mas acredito que seja essencial mantê-

la assim.

A tecnologia do capital foi submetida de início a transformações

internas por causa da concorrência entre produtores individuais (essa, pelo

menos, era a teoria). As empresas capitalistas, em competição umas com as

outras, procuravam aumentar sua eficácia individual e produtividade para

obter lucros maiores em relação às concorrentes. As que conseguiram

prosperaram, enquanto as outras ficaram para trás. Mas vantagens

competitivas (lucros maiores) de formas organizacionais melhores (como

máquinas ou controles mais rígidos de estoque) não duravam. Empresas

concorrentes podiam adotar novos métodos (a menos, é claro, que a

tecnologia fosse patenteada ou protegida pelo poder do monopólio). O

resultado foram inovações progressivas nas tecnologias de diferentes

setores.

Digo isso em tom cético, porque a história do capital tem uma queda

não pela concorrência, mas pelo monopólio, e isso não é muito favorável à

inovação. Ao contrário, vemos que há entre os capitalistas uma forte

preferência geral e coletiva – uma cultura, por assim dizer – por eficácia e

produtividade crescentes de todos os empreendimentos, com ou sem a força

motriz da concorrência. Se o objetivo fosse melhorar a produtividade geral,

inovações em determinado ponto da cadeia produtiva (por exemplo, a

produção de tecidos de algodão em teares mecânicos) exigiriam inovações

em todos os pontos dela (por exemplo, descaroçadores de algodão). Mas a

reorganização de todo um setor da atividade econômica sobre uma nova

base tecnológica levava tempo – e ainda leva. Por último, mas não menos

importante, os capitalistas individuais e as grandes empresas acabaram

reconhecendo a importância da inovação dos produtos como uma forma de

ganhar lucros de monopólio, ainda que por um tempo determinado, e uma

renda monopólica, quando protegidos por uma lei de patentes.

O capital não foi e não é o único agente envolvido na busca de

vantagens tecnológicas. Diferentes ramos do aparelho estatal sempre se

envolveram profundamente nessa busca. O mais notável, obviamente, é o exército na busca de melhores armas e formas de organização. A guerra e as

ameaças de guerra (corrida armamentista) estão fortemente ligadas às ondas

de inovação tecnológica. No início da história do capitalismo, essa fonte de

inovação teve provavelmente um papel importante. Mas várias outras áreas

da administração estatal, relacionadas à arrecadação e ao pagamento de

impostos, à definição de direitos sobre bens imóveis e formas legais de

contrato, além do desenvolvimento de tecnologias de governança, gestão

financeira, mapeamento, vigilância, policiamento e outros procedimentos

de controle da população, também se envolveram de forma significativa no

desenvolvimento de novas formas de tecnologia, talvez até mais do que

empresas e corporações capitalistas. É enorme a colaboração em pesquisa e

desenvolvimento entre Estado e setores privados, no que diz respeito a

tecnologias militares, médicas, sanitárias e energéticas. E são inúmeros os

benefícios das inovações da esfera pública para as práticas do capital, e

vice-versa.

As mudanças tecnológicas do capitalismo, para as quais contribui e das

quais se alimenta com voracidade, derivam, em suma, da atividade de

vários agentes e instituições. Essas inovações criam um amplo domínio de

possibilidades mutáveis para sustentar ou aumentar a lucratividade do

capital.

O caráter dos processos de mudança tecnológica mudou ao longo do

tempo. A tecnologia se tornou um campo especial de negócios. Isso

sucedeu claramente no século XIX, com o advento da indústria de

máquinas-ferramentas. Tecnologias genéricas, como as máquinas a vapor e

seus derivados, desenvolveram-se de maneiras que poderiam se aplicar a

múltiplas indústrias. O que importava era a lucratividade dos fabricantes de

máquinas a vapor, e não tanto a das diferentes indústrias que empregavam a

energia a vapor (por exemplo, transporte, fábricas de algodão e

mineradoras), embora a lucratividade dos primeiros não fosse obtida sem a

lucratividade das segundas. A busca de máquinas a vapor novas e melhores,

bem como de aplicações para sua força e energia, rapidamente ganhou

impulso.

A busca de tecnologias genéricas que pudessem ser aplicadas a quase

tudo passou a ser importante – como aconteceu nos últimos anos com computadores, sistemas just-in-time e teorias da organização. Surgiu um

vasto campo empresarial de invenção e inovação que atendia a todos,

fornecendo novas tecnologias de consumo, produção, circulação,

governança, poder militar, vigilância e administração. A inovação

tecnológica se tornou um grande negócio, não necessariamente “grande” no

sentido de uma corporação consolidada (embora haja exemplos abundantes

desse tipo nos setores energético, farmacêutico e de agronegócio), mas

“grande” no sentido de múltiplas empresas, muitas delas de risco e startups

que exploram a inovação pela inovação. A cultura capitalista se tornou

obcecada pelo poder da inovação. A inovação tecnológica se tornou um

objeto de fetiche do desejo capitalista.

A partir de meados do século XIX, essa pulsão fetichista por novas

formas de tecnologia a qualquer preço promoveu a fusão entre ciência e

tecnologia. Depois disso, ambas evoluíram num abraço dialético. Se, por

um lado, o desenvolvimento científico sempre dependeu de novas

tecnologias, como o telescópio e o microscópio, por outro, a incorporação

do conhecimento científico a novas tecnologias tornou-se o cerne da

atividade empresarial da inovação tecnológica.

Esse grande setor empresarial se revelou cada vez mais competente para

impor inovações tecnológicas, às vezes muito onerosas, a consumidores

relutantes, auxiliado com frequência por regulações estatais que tendiam a

favorecer grandes empresas, em detrimento de pequenos negócios, uma vez

que os custos da conformidade regulatória costumam diminuir com a escala

da operação. As regulações da União Europeia, por exemplo, obrigaram

pequenos comerciantes e restaurantes a utilizar máquinas eletrônicas em

suas transações para fazer o registro fiscal e contábil, deixando-os em

desvantagem em relação às cadeias de lojas. A difusão de novas tecnologias

ocorre por uma combinação de consentimento e coerção. O

desenvolvimento de tecnologias militares, por outro lado, tornou-se nada

menos que uma fraude, pela qual um vasto complexo militar-industrial se

alimenta dos cofres públicos enquanto promove a inovação pela inovação.

O caminho da evolução tecnológica não foi aleatório ou acidental.

Como afirma Brian Arthur em The Nature of Technology, as novas tecnologias se tornaram essenciais “para a construção de outras novas

tecnologias”:

 

Desse modo, com o lento passar do tempo, muitas tecnologias se formaram a partir de

umas poucas tecnologias e assumiram formas mais complexas, empregando como

componentes tecnologias mais simples. A coleção geral de tecnologias supera a si

mesma partindo do pouco para o muito e do simples para o complexo. Podemos dizer

que a tecnologia se cria a partir de si mesma.

 

Arthur chama esse processo de “evolução combinatória”, o que, para

mim, é uma excelente denominação. As novas tecnologias, no entanto, são

“criadas mentalmente antes de ser construídas fisicamente”, e quando

observamos os processos mentais e conceituais envolvidos, vemos a

evolução tecnológica como resolução mental de problemas posta em

prática. Um problema surge e é identificado, uma solução se faz necessária

e invariavelmente combina em uma nova configuração soluções dadas a

outros problemas. A nova configuração costuma ter efeitos secundários que

se propagam a outros campos, porque cria o que Arthur chama de “nichos

de oportunidade”, em que uma inovação originária de um campo pode ser

aplicada a outro[1].

O desenvolvimento espontâneo de centros de inovação (algumas regiões

ou cidades têm índices notáveis de inovação) ocorre porque, como há muito

tempo observaram Jane Jacobs e outros analistas, é mais provável que a

coincidência fortuita de diferentes habilidades e conhecimentos, do tipo que

Arthur considera necessário para a inovação, surja de uma economia

aparentemente caótica, caracterizada por uma multiplicidade de pequenas

empresas e divisões de trabalho [2]. Historicamente, esses ambientes têm

uma probabilidade muito maior de gerar novas combinações tecnológicas

do que cidades cuja vida econômica gira em torno de uma única empresa.

Mais recentemente, no entanto, a organização deliberada de universidades,

institutos, grupos de discussão e unidades militares de pesquisa e

desenvolvimento em determinada área se tornou um modelo básico de

negócio pelo qual o Estado capitalista e as empresas capitalistas fomentam

a inovação em busca de vantagens competitivas.

Mas é estranho que a exposição de Arthur, que de modo geral é bastante

esclarecedora sobre a lógica da evolução tecnológica, fuja de qualquer

discussão crítica a respeito do conjunto de propósitos humanos aos quais as

tecnologias supostamente devem servir. Ele se entusiasma, por exemplo,

com o design sofisticado do avião de combate F-35 Lightning II, mas não

menciona sua relação com a guerra e o “propósito humano” de dominação

geopolítica. Para Arthur, o avião apresenta simplesmente um conjunto

particular de complicados desafios tecnológicos que devem ser resolvidos.

De maneira semelhante, ele não critica a forma capitalista específica

que a economia assume, e certamente não questiona o esforço intencional

do capital para maximizar os lucros, facilitar a acumulação infindável de

capital e reproduzir o poder da classe capitalista. No entanto, sua teoria a

respeito da evolução tecnológica relativamente autônoma tem profundas

implicações para a compreensão do funcionamento do motor econômico do

capital. Ela lança luz sobre as contradições geradas pelas mudanças

tecnológicas para a perpetuação e a reprodução do capital. Há algumas

transições importantes em andamento.

A passagem de um modelo mecânico para um modelo orgânico da

economia tem implicações para a teoria econômica. “A ordem, o

isolamento e o equilíbrio como modos de organizar explicações estão dando

lugar à abertura, à indeterminação e ao surgimento de novidades

incessantes.”[3] Aqui, Arthur faz eco à arguta observação de Alfred North

Whitehead de que a própria natureza (e a natureza humana não é exceção)

consiste em uma busca perpétua pela novidade[4]. Consequentemente,

continua Arthur:

 

as tecnologias estão adquirindo propriedades que associamos aos organismos vivos. À

medida que sentem e reagem ao seu entorno, à medida que se auto-organizam,

autoconfiguram, autorregeneram e tornam-se “cognitivas”, assemelham-se cada vez

mais a organismos vivos. Quanto mais sofisticadas e “de ponta”, mais biológicas elas

se tornam. Estamos começando a notar que a tecnologia é tanto um metabolismo

quanto um mecanismo.

 

Essa passagem de uma metáfora mecânica para uma metáfora orgânica

(ou química) é significativa. A “nova economia” vista por Arthur parece mais natural do que a racionalidade mecânica sobreposta ao mundo desde a