17 contradições e o fim do capitalismo
8. Tecnologia, trabalho e descartabilidade humana
evolução do capital de hoje.
[1] W. Brian Arthur, The Nature of Technology: What It Is and How It Evolves (Nova York, Free Press, 2009, p. 202).
Contradição 8
Tecnologia, trabalho e descartabilidade
humana
A principal contradição que a concepção marxista tradicional de
socialismo/comunismo deveria resolver é aquela entre o aumento
inacreditável nas forças produtivas (amplamente entendidas como
capacidades e potencialidades tecnológicas) e a incapacidade do capital de
utilizar essa produtividade para o bem-estar comum, em razão de seu
comprometimento com as relações de classe vigentes e seus mecanismos
associados de reprodução, dominação e controle de classes. Abandonado a
si mesmo – prossegue o argumento –, o capital está fadado a produzir uma
estrutura de classe oligárquica e plutocrática cada vez mais vulnerável, sob
a qual a massa da população mundial deve se virar para ganhar a vida ou
morrer de fome. Frustrado com essa desigualdade crescente em meio à
abundância, surgirá das massas um movimento revolucionário
anticapitalista, conscientemente organizado (conduzido, nos termos
leninistas, por um partido de vanguarda), capaz de derrubar o domínio de
classe e reorganizar a economia global, proporcionando a toda a população
do planeta os benefícios prometidos pela maravilhosa produtividade do
capital.
Embora haja bem mais do que um pingo de verdade nessa análise
(parecemos bastante adiantados hoje na produção de uma plutocracia global, por exemplo), acompanhado de mais do que uma lufada de fervor
revolucionário com esperanças no mecanismo de transição, sempre tive a
sensação de que essa fórmula é simplista demais, ou até fundamentalmente
falha. Está claro que os aumentos drásticos de produtividade do capital são
apenas um dos polos de um movimento contraditório que está sempre
ameaçado de explodir em uma crise. O que não está claro, no entanto, é
qual seria sua antítese correta. Vamos tratar aqui dessa questão.
A tecnologia pode ser definida como o uso de processos e coisas
naturais na fabricação de produtos para propósitos humanos. Em sua base, a
tecnologia define uma relação específica, dinâmica e contraditória, com a
natureza. Retornaremos a essa importantíssima contradição em outro
capítulo (Contradição 16). O que nos interessa aqui é reconhecer sua
existência, fluidez e dinamismo. O propósito imediato e distintivo do
capital (em oposição, digamos, às Forças Armadas, ao aparelho estatal e a
várias outras instituições da sociedade civil) é o lucro, que se traduz
socialmente na acumulação perpétua do capital e na reprodução do poder da
classe capitalista. Esse é o objetivo do consumo do capital. Para alcançá-lo,
os capitalistas adaptam e reformulam o hardware da tecnologia (máquinas e
computadores), o software (programas usados pelas máquinas) e suas
formas de organização (estruturas de comando e controle sobre o uso do
trabalho, em particular). O propósito imediato do capital é aumentar a
produtividade, a eficiência e as taxas de lucro, bem como criar novas linhas
de produtos, se possível ainda mais lucrativas.
Ao considerar a trajetória das mudanças tecnológicas, é fundamental
nos lembrarmos de que o software e as formas organizacionais são tão
importantes quanto o hardware. As formas organizacionais, como as
estruturas de controle da empresa moderna, o sistema de crédito, os
sistemas de entrega just-in-time, além do software incorporado na robótica,
na administração de dados, na inteligência artificial e nas transações
bancárias eletrônicas, são tão cruciais para a lucratividade quanto o
hardware representado pelas máquinas. Se tomarmos um exemplo atual, a
computação em nuvem é a forma organizacional, o Word é o software e o
Mac em que escrevo é o hardware. Esses três elementos – hardware,
software e forma organizacional – estão combinados na tecnologia computacional. De acordo com essa definição, o dinheiro, as transações
bancárias, o sistema de crédito e o mercado são tecnologias. Tal definição
pode parecer excessivamente ampla, mas acredito que seja essencial mantê-
la assim.
A tecnologia do capital foi submetida de início a transformações
internas por causa da concorrência entre produtores individuais (essa, pelo
menos, era a teoria). As empresas capitalistas, em competição umas com as
outras, procuravam aumentar sua eficácia individual e produtividade para
obter lucros maiores em relação às concorrentes. As que conseguiram
prosperaram, enquanto as outras ficaram para trás. Mas vantagens
competitivas (lucros maiores) de formas organizacionais melhores (como
máquinas ou controles mais rígidos de estoque) não duravam. Empresas
concorrentes podiam adotar novos métodos (a menos, é claro, que a
tecnologia fosse patenteada ou protegida pelo poder do monopólio). O
resultado foram inovações progressivas nas tecnologias de diferentes
setores.
Digo isso em tom cético, porque a história do capital tem uma queda
não pela concorrência, mas pelo monopólio, e isso não é muito favorável à
inovação. Ao contrário, vemos que há entre os capitalistas uma forte
preferência geral e coletiva – uma cultura, por assim dizer – por eficácia e
produtividade crescentes de todos os empreendimentos, com ou sem a força
motriz da concorrência. Se o objetivo fosse melhorar a produtividade geral,
inovações em determinado ponto da cadeia produtiva (por exemplo, a
produção de tecidos de algodão em teares mecânicos) exigiriam inovações
em todos os pontos dela (por exemplo, descaroçadores de algodão). Mas a
reorganização de todo um setor da atividade econômica sobre uma nova
base tecnológica levava tempo – e ainda leva. Por último, mas não menos
importante, os capitalistas individuais e as grandes empresas acabaram
reconhecendo a importância da inovação dos produtos como uma forma de
ganhar lucros de monopólio, ainda que por um tempo determinado, e uma
renda monopólica, quando protegidos por uma lei de patentes.
O capital não foi e não é o único agente envolvido na busca de
vantagens tecnológicas. Diferentes ramos do aparelho estatal sempre se
envolveram profundamente nessa busca. O mais notável, obviamente, é o exército na busca de melhores armas e formas de organização. A guerra e as
ameaças de guerra (corrida armamentista) estão fortemente ligadas às ondas
de inovação tecnológica. No início da história do capitalismo, essa fonte de
inovação teve provavelmente um papel importante. Mas várias outras áreas
da administração estatal, relacionadas à arrecadação e ao pagamento de
impostos, à definição de direitos sobre bens imóveis e formas legais de
contrato, além do desenvolvimento de tecnologias de governança, gestão
financeira, mapeamento, vigilância, policiamento e outros procedimentos
de controle da população, também se envolveram de forma significativa no
desenvolvimento de novas formas de tecnologia, talvez até mais do que
empresas e corporações capitalistas. É enorme a colaboração em pesquisa e
desenvolvimento entre Estado e setores privados, no que diz respeito a
tecnologias militares, médicas, sanitárias e energéticas. E são inúmeros os
benefícios das inovações da esfera pública para as práticas do capital, e
vice-versa.
As mudanças tecnológicas do capitalismo, para as quais contribui e das
quais se alimenta com voracidade, derivam, em suma, da atividade de
vários agentes e instituições. Essas inovações criam um amplo domínio de
possibilidades mutáveis para sustentar ou aumentar a lucratividade do
capital.
O caráter dos processos de mudança tecnológica mudou ao longo do
tempo. A tecnologia se tornou um campo especial de negócios. Isso
sucedeu claramente no século XIX, com o advento da indústria de
máquinas-ferramentas. Tecnologias genéricas, como as máquinas a vapor e
seus derivados, desenvolveram-se de maneiras que poderiam se aplicar a
múltiplas indústrias. O que importava era a lucratividade dos fabricantes de
máquinas a vapor, e não tanto a das diferentes indústrias que empregavam a
energia a vapor (por exemplo, transporte, fábricas de algodão e
mineradoras), embora a lucratividade dos primeiros não fosse obtida sem a
lucratividade das segundas. A busca de máquinas a vapor novas e melhores,
bem como de aplicações para sua força e energia, rapidamente ganhou
impulso.
A busca de tecnologias genéricas que pudessem ser aplicadas a quase
tudo passou a ser importante – como aconteceu nos últimos anos com computadores, sistemas just-in-time e teorias da organização. Surgiu um
vasto campo empresarial de invenção e inovação que atendia a todos,
fornecendo novas tecnologias de consumo, produção, circulação,
governança, poder militar, vigilância e administração. A inovação
tecnológica se tornou um grande negócio, não necessariamente “grande” no
sentido de uma corporação consolidada (embora haja exemplos abundantes
desse tipo nos setores energético, farmacêutico e de agronegócio), mas
“grande” no sentido de múltiplas empresas, muitas delas de risco e startups
que exploram a inovação pela inovação. A cultura capitalista se tornou
obcecada pelo poder da inovação. A inovação tecnológica se tornou um
objeto de fetiche do desejo capitalista.
A partir de meados do século XIX, essa pulsão fetichista por novas
formas de tecnologia a qualquer preço promoveu a fusão entre ciência e
tecnologia. Depois disso, ambas evoluíram num abraço dialético. Se, por
um lado, o desenvolvimento científico sempre dependeu de novas
tecnologias, como o telescópio e o microscópio, por outro, a incorporação
do conhecimento científico a novas tecnologias tornou-se o cerne da
atividade empresarial da inovação tecnológica.
Esse grande setor empresarial se revelou cada vez mais competente para
impor inovações tecnológicas, às vezes muito onerosas, a consumidores
relutantes, auxiliado com frequência por regulações estatais que tendiam a
favorecer grandes empresas, em detrimento de pequenos negócios, uma vez
que os custos da conformidade regulatória costumam diminuir com a escala
da operação. As regulações da União Europeia, por exemplo, obrigaram
pequenos comerciantes e restaurantes a utilizar máquinas eletrônicas em
suas transações para fazer o registro fiscal e contábil, deixando-os em
desvantagem em relação às cadeias de lojas. A difusão de novas tecnologias
ocorre por uma combinação de consentimento e coerção. O
desenvolvimento de tecnologias militares, por outro lado, tornou-se nada
menos que uma fraude, pela qual um vasto complexo militar-industrial se
alimenta dos cofres públicos enquanto promove a inovação pela inovação.
O caminho da evolução tecnológica não foi aleatório ou acidental.
Como afirma Brian Arthur em The Nature of Technology, as novas tecnologias se tornaram essenciais “para a construção de outras novas
tecnologias”:
Desse modo, com o lento passar do tempo, muitas tecnologias se formaram a partir de
umas poucas tecnologias e assumiram formas mais complexas, empregando como
componentes tecnologias mais simples. A coleção geral de tecnologias supera a si
mesma partindo do pouco para o muito e do simples para o complexo. Podemos dizer
que a tecnologia se cria a partir de si mesma.
Arthur chama esse processo de “evolução combinatória”, o que, para
mim, é uma excelente denominação. As novas tecnologias, no entanto, são
“criadas mentalmente antes de ser construídas fisicamente”, e quando
observamos os processos mentais e conceituais envolvidos, vemos a
evolução tecnológica como resolução mental de problemas posta em
prática. Um problema surge e é identificado, uma solução se faz necessária
e invariavelmente combina em uma nova configuração soluções dadas a
outros problemas. A nova configuração costuma ter efeitos secundários que
se propagam a outros campos, porque cria o que Arthur chama de “nichos
de oportunidade”, em que uma inovação originária de um campo pode ser
aplicada a outro[1].
O desenvolvimento espontâneo de centros de inovação (algumas regiões
ou cidades têm índices notáveis de inovação) ocorre porque, como há muito
tempo observaram Jane Jacobs e outros analistas, é mais provável que a
coincidência fortuita de diferentes habilidades e conhecimentos, do tipo que
Arthur considera necessário para a inovação, surja de uma economia
aparentemente caótica, caracterizada por uma multiplicidade de pequenas
empresas e divisões de trabalho [2]. Historicamente, esses ambientes têm
uma probabilidade muito maior de gerar novas combinações tecnológicas
do que cidades cuja vida econômica gira em torno de uma única empresa.
Mais recentemente, no entanto, a organização deliberada de universidades,
institutos, grupos de discussão e unidades militares de pesquisa e
desenvolvimento em determinada área se tornou um modelo básico de
negócio pelo qual o Estado capitalista e as empresas capitalistas fomentam
a inovação em busca de vantagens competitivas.
Mas é estranho que a exposição de Arthur, que de modo geral é bastante
esclarecedora sobre a lógica da evolução tecnológica, fuja de qualquer
discussão crítica a respeito do conjunto de propósitos humanos aos quais as
tecnologias supostamente devem servir. Ele se entusiasma, por exemplo,
com o design sofisticado do avião de combate F-35 Lightning II, mas não
menciona sua relação com a guerra e o “propósito humano” de dominação
geopolítica. Para Arthur, o avião apresenta simplesmente um conjunto
particular de complicados desafios tecnológicos que devem ser resolvidos.
De maneira semelhante, ele não critica a forma capitalista específica
que a economia assume, e certamente não questiona o esforço intencional
do capital para maximizar os lucros, facilitar a acumulação infindável de
capital e reproduzir o poder da classe capitalista. No entanto, sua teoria a
respeito da evolução tecnológica relativamente autônoma tem profundas
implicações para a compreensão do funcionamento do motor econômico do
capital. Ela lança luz sobre as contradições geradas pelas mudanças
tecnológicas para a perpetuação e a reprodução do capital. Há algumas
transições importantes em andamento.
A passagem de um modelo mecânico para um modelo orgânico da
economia tem implicações para a teoria econômica. “A ordem, o
isolamento e o equilíbrio como modos de organizar explicações estão dando
lugar à abertura, à indeterminação e ao surgimento de novidades
incessantes.”[3] Aqui, Arthur faz eco à arguta observação de Alfred North
Whitehead de que a própria natureza (e a natureza humana não é exceção)
consiste em uma busca perpétua pela novidade[4]. Consequentemente,
continua Arthur:
as tecnologias estão adquirindo propriedades que associamos aos organismos vivos. À
medida que sentem e reagem ao seu entorno, à medida que se auto-organizam,
autoconfiguram, autorregeneram e tornam-se “cognitivas”, assemelham-se cada vez
mais a organismos vivos. Quanto mais sofisticadas e “de ponta”, mais biológicas elas
se tornam. Estamos começando a notar que a tecnologia é tanto um metabolismo
quanto um mecanismo.
Essa passagem de uma metáfora mecânica para uma metáfora orgânica
(ou química) é significativa. A “nova economia” vista por Arthur parece mais natural do que a racionalidade mecânica sobreposta ao mundo desde a