17 contradições e o fim do capitalismo
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uso legítimo da violência e do monopólio sobre as questões monetárias e a
moeda corrente, a ruptura deste segundo acabaria implicando uma
dissolução (e não um “esmagamento”) do poder estatal capitalista. Uma vez
que o Estado é destituído de seu poder sobre os recursos monetários, sua
capacidade de recorrer à violência militarizada contra uma população
indócil também é anulada. Embora essa ideia pareça absurda, parte dela se
concretizou quando o poder dos portadores de títulos foi utilizado em países
como Grécia, Itália e Espanha para impor políticas estatais ao povo. Se
substituirmos o poder dos portadores de títulos pelo poder do povo, essa
tendência mais do que visível poderia ser revertida com a mesma facilidade.
Como observamos, o poder do Estado é genérico, e não particular. Por
isso a política teria de dissolver todas as instituições monetárias
internacionais (como o FMI) criadas para dar suporte ao imperialismo do
dólar estadunidense e que hoje servem para manter sua hegemonia
financeira no sistema mundial. O aparelho disciplinar que destrói a vida
cotidiana dos gregos, bem como a de muitos outros que sofreram as
intervenções do FMI (em geral combinado com outros poderes estatais
multilaterais, como o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia, no
caso da Grécia), também precisaria ser extinto para dar lugar a práticas e
instituições de gestão coletiva da riqueza comum da população. Essa
solução pode parecer abstrata e utópica em relação às práticas correntes,
mas é vital que a política alternativa tenha em mente esse tipo de visão e
ambição de longo prazo. Agendas radicais, sejam revolucionárias ou
reformistas, devem ser formuladas para impedir que a civilização se afogue
na contradição entre uma propriedade privada insensível e desregulada e
poderes estatal-policiais cada vez mais autocráticos e militarizados, que se
dedicam a dar apoio ao capital, e não ao bem-estar das pessoas.
[1] Silvio Gesell, The Natural Economic Order, cit., p. 81.
[2] David Harvey, O enigma do capital e as crises do capitalismo (trad. João Alexandre Peschanski, São Paulo, Boitempo, 2011), p. 54.