17 contradições e o fim do capitalismo

David Harvey · Capítulo 15 de 48

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17 contradições e o fim do capitalismo

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uso legítimo da violência e do monopólio sobre as questões monetárias e a

moeda corrente, a ruptura deste segundo acabaria implicando uma

dissolução (e não um “esmagamento”) do poder estatal capitalista. Uma vez

que o Estado é destituído de seu poder sobre os recursos monetários, sua

capacidade de recorrer à violência militarizada contra uma população

indócil também é anulada. Embora essa ideia pareça absurda, parte dela se

concretizou quando o poder dos portadores de títulos foi utilizado em países

como Grécia, Itália e Espanha para impor políticas estatais ao povo. Se

substituirmos o poder dos portadores de títulos pelo poder do povo, essa

tendência mais do que visível poderia ser revertida com a mesma facilidade.

Como observamos, o poder do Estado é genérico, e não particular. Por

isso a política teria de dissolver todas as instituições monetárias

internacionais (como o FMI) criadas para dar suporte ao imperialismo do

dólar estadunidense e que hoje servem para manter sua hegemonia

financeira no sistema mundial. O aparelho disciplinar que destrói a vida

cotidiana dos gregos, bem como a de muitos outros que sofreram as

intervenções do FMI (em geral combinado com outros poderes estatais

multilaterais, como o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia, no

caso da Grécia), também precisaria ser extinto para dar lugar a práticas e

instituições de gestão coletiva da riqueza comum da população. Essa

solução pode parecer abstrata e utópica em relação às práticas correntes,

mas é vital que a política alternativa tenha em mente esse tipo de visão e

ambição de longo prazo. Agendas radicais, sejam revolucionárias ou

reformistas, devem ser formuladas para impedir que a civilização se afogue

na contradição entre uma propriedade privada insensível e desregulada e

poderes estatal-policiais cada vez mais autocráticos e militarizados, que se

dedicam a dar apoio ao capital, e não ao bem-estar das pessoas.

 

[1] Silvio Gesell, The Natural Economic Order, cit., p. 81.

[2] David Harvey, O enigma do capital e as crises do capitalismo (trad. João Alexandre Peschanski, São Paulo, Boitempo, 2011), p. 54.