17 contradições e o fim do capitalismo
Parte III – As contradições perigosas
Parte III
As contradições perigosas
As contradições mutáveis evoluem de modo diferente e fornecem grande
parte da força dinâmica que está por trás da evolução histórica e
geográfica do capital. Em alguns casos, seu movimento tende a ser
progressivo (mas nunca sem um contratempo aqui ou um revés ali). A
mudança tecnológica, de modo geral, é cumulativa, assim como a produção
geográfica do espaço, embora nos dois casos haja fortes contracorrentes e
reveses. Tecnologias viáveis são abandonadas e desaparecem, espaços e
lugares que antes eram centros vigorosos de atividade capitalista tornam-se
cidades-fantasma ou entram em decadência. Em outros casos, o movimento
é como o de um pêndulo: oscila entre o monopólio e a concorrência ou se
equilibra entre a pobreza e a riqueza. E em outros, como sucede com a
liberdade e a dominação, o movimento é mais caótico e aleatório, e
depende do fluxo e refluxo de forças políticas lutando umas com as outras,
enquanto em outros ainda, como no campo complexo da reprodução social,
as interseções entre a evolução histórica do capitalismo e as exigências
específicas do capital são tão indeterminadas e entrelaçadas que a direção
e a força do movimento se tornam episódicas e raramente consistentes. Os
avanços (pois é isso que são) nos direitos das mulheres, das pessoas com
deficiência, das minorias sexuais (o grupo social LGBT), assim como de
grupos religiosos com códigos estritos sobre várias facetas da reprodução
social (como casamento, família, criação de filhos etc.), tornam difícil
precisar até que ponto o capital e o capitalismo trabalham contra ou a
favor um do outro em termos de contradições fundamentais. E se isso é verdadeiro em relação às contradições da reprodução social, é ainda mais
verdadeiro no caso complexo da dominação e da liberdade.
A configuração das contradições mutáveis fornece grande parte da
energia e da força inovadora da coevolução de capital e capitalismo, e
abre uma riqueza (e utilizo deliberadamente essa palavra para me referir a
um florescimento potencial das capacidades humanas, e não das simples
possessões) de possibilidades para novas iniciativas. Essas são as
contradições e os espaços em que se encontra latente a esperança de uma
sociedade melhor, e é deles que devem surgir arquiteturas e construções
alternativas.
Como no caso das contradições fundamentais, as contradições
mutáveis se cruzam, interagem e interferem entre si de maneira intrigante
dentro do capital. A produção de espaço e as dinâmicas do
desenvolvimento geográfico desigual foram profundamente impactadas
pelas mudanças tecnológicas nas formas organizacionais (por exemplo,
aparelhos de Estado e formas territoriais de organização) e nas tecnologias
de transporte e produção do espaço. É no campo do desenvolvimento
geográfico desigual que florescem as diferenciações na reprodução social e
no equilíbrio entre liberdade e dominação, até se tornarem parte da
produção do espaço e do desenvolvimento desigual. A criação de espaços
heterotópicos, onde formas radicalmente diferentes de produção,
organização social e poder político podem florescer durante algum tempo,
implica um terreno de possibilidades anticapitalistas que se abre e se fecha
perpetuamente. É também aqui que as questões de monopólio e
centralização de poder versus descentralização e concorrência influenciam
o dinamismo tecnológico e organizacional e estimulam a concorrência
geopolítica por vantagem econômica. É desnecessário dizer que o
equilíbrio entre pobreza e riqueza é constantemente modificado pela
concorrência interterritorial, pelos fluxos migratórios e pelas inovações
competitivas relacionadas à produtividade do trabalho e à criação de novas
linhas de produtos.
É no quadro referencial dessas contradições interativas e dinâmicas
que encontramos múltiplos projetos políticos alternativos. Muitos desses
projetos constituem-se como respostas distintas do capital a suas próprias contradições e, por isso, visam sobretudo facilitar a reprodução do capital
sob condições de incerteza e risco perpétuos, quando não de crises gerais.
Mas mesmo nesses casos há inúmeras possibilidades para iniciativas que
modifiquem o funcionamento do capital ou abram perspectivas com relação
ao que poderia ser uma alternativa anticapitalista. Acredito, assim como
Marx acreditava, que o futuro já está largamente presente no mundo que
nos rodeia, e que a inovação política (como a inovação tecnológica) é uma
questão de juntar de maneira diferente as possibilidades políticas
existentes, que até agora se encontram isoladas e separadas. Os
desenvolvimentos geográficos desiguais não podem senão gerar “espaços
de esperança” e situações heterotópicas em que devem florescer novos
modos de cooperação, pelo menos por algum tempo, antes de serem
reabsorvidos pelas práticas dominantes do capital. As novas tecnologias
(como a internet) abrem novos espaços de liberdade potencial que podem
fazer avançar a causa da governança democrática. Iniciativas no campo da
reprodução social podem produzir novos sujeitos políticos que queiram
revolucionar e humanizar as relações sociais e cultivar uma abordagem
mais esteticamente sensível e satisfatória da nossa relação metabólica com
a natureza. Descrever essas possibilidades não é dizer que todas darão
frutos, mas sim sugerir que qualquer política anticapitalista tem de ser
persistente para perseguir as contradições e deslindar seu caminho rumo à
construção de um universo alternativo, usando os recursos e as ideias
disponíveis.
Isso nos leva às contradições perigosas, talvez até potencialmente
fatais. Marx teria dito que o capital acabaria ruindo sob o peso de suas
próprias contradições internas. Não consigo identificar em que obra Marx
teria dito isso e, pela leitura que faço dele, acredito que é extremamente
improvável que dissesse uma coisa dessas. Isso pressuporia um colapso
mecânico do motor econômico do capitalismo, sem que nenhum agente
humano jogasse areia na máquina ou militantemente interrompesse seu
funcionamento e a substituísse. A posição de Marx, e nesse caso concordo
plenamente com ele (contra certas correntes da tradição
marxista/comunista e certas opiniões que muitos críticos atribuem a ele), é
que provavelmente o capital continuará funcionando para sempre, mas provocará uma degradação progressiva da terra e um empobrecimento em
massa, aumentando radicalmente a desigualdade social e a desumanização
de grande parte da humanidade, a qual se verá submetida a uma negação
cada vez mais repressiva e autocrática de seu potencial de florescimento
humano individual (em outras palavras, uma intensificação da vigilância
policial totalitária promovida pelo Estado, do sistema de controle
militarizado e da democracia totalitária que já vivemos hoje em larga
escala).
A negação intolerável do livre desenvolvimento das potencialidades e
capacidades criativas humanas que resultará disso equivale a jogar fora a
cornucópia de possibilidades que o capital nos transmitiu e desperdiçar a
verdadeira riqueza das possibilidades humanas em nome de um aumento
perpétuo da riqueza monetária e da satisfação de estreitos interesses
econômicos de classe. Diante dessa perspectiva, a única política sensata é
buscar transcender o capital e os limites de uma estrutura cada vez mais
autocrática e oligárquica do poder de classe capitalista, bem como
reconstruir as possibilidades imaginativas da economia com uma nova
configuração, muito mais igualitária e democrática.
O Marx que defendo é, em suma, um humanista revolucionário, e não
um determinista teleológico. Em sua obra há declarações que apoiam essa
segunda posição, mas acredito que o conjunto de seus escritos, tanto os
históricos quanto os político-econômicos, defendem a primeira
interpretação. É por isso que rejeito a ideia de contradições “fatais” e
prefiro defini-las como “perigosas”, porque qualificá-las como fatais
conotaria um aspecto falso de inevitabilidade e ruína cancerosa, ou mesmo
de um fim apocalíptico. Certas contradições, no entanto, são mais
perigosas do que outras, tanto para o capital quanto para a humanidade, e
variam de lugar para lugar, de época para época. Se tivéssemos escrito
sobre o futuro do capital e da humanidade há cinquenta ou cem anos, muito
provavelmente teríamos nos concentrado em contradições diferentes das
que cito aqui. A questão ambiental e o desafio de manter o crescimento
exponencial não teriam chamado tanta atenção em 1945, quando era muito
mais importante resolver as rivalidades geopolíticas e racionalizar os
processos do desenvolvimento geográfico desigual, reequilibrando ao mesmo tempo (mediante intervenções do Estado) a unidade contraditória
entre produção e realização. As três contradições que analiso aqui são
mais perigosas no presente imediato, não só para a capacidade do motor
econômico do capitalismo de se manter funcionando, mas também para a
reprodução da vida humana sob condições minimamente razoáveis. Uma
delas, e somente uma delas, é potencialmente fatal, mas será fatal apenas
se surgir um movimento revolucionário que mude o caminho evolutivo
ditado pela acumulação infinita do capital. Não está escrito nas estrelas se
esse espírito revolucionário se consolidará a ponto de determinar
mudanças radicais no modo como vivemos: isso depende totalmente da
vontade humana. O primeiro passo para exercitar essa vontade é ter plena
consciência da natureza dos perigos e das escolhas que temos.