17 contradições e o fim do capitalismo

David Harvey · Capítulo 41 de 48

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17 contradições e o fim do capitalismo

Parte III – As contradições perigosas

Parte III

 

 

As contradições perigosas

As contradições mutáveis evoluem de modo diferente e fornecem grande

parte da força dinâmica que está por trás da evolução histórica e

geográfica do capital. Em alguns casos, seu movimento tende a ser

progressivo (mas nunca sem um contratempo aqui ou um revés ali). A

mudança tecnológica, de modo geral, é cumulativa, assim como a produção

geográfica do espaço, embora nos dois casos haja fortes contracorrentes e

reveses. Tecnologias viáveis são abandonadas e desaparecem, espaços e

lugares que antes eram centros vigorosos de atividade capitalista tornam-se

cidades-fantasma ou entram em decadência. Em outros casos, o movimento

é como o de um pêndulo: oscila entre o monopólio e a concorrência ou se

equilibra entre a pobreza e a riqueza. E em outros, como sucede com a

liberdade e a dominação, o movimento é mais caótico e aleatório, e

depende do fluxo e refluxo de forças políticas lutando umas com as outras,

enquanto em outros ainda, como no campo complexo da reprodução social,

as interseções entre a evolução histórica do capitalismo e as exigências

específicas do capital são tão indeterminadas e entrelaçadas que a direção

e a força do movimento se tornam episódicas e raramente consistentes. Os

avanços (pois é isso que são) nos direitos das mulheres, das pessoas com

deficiência, das minorias sexuais (o grupo social LGBT), assim como de

grupos religiosos com códigos estritos sobre várias facetas da reprodução

social (como casamento, família, criação de filhos etc.), tornam difícil

precisar até que ponto o capital e o capitalismo trabalham contra ou a

favor um do outro em termos de contradições fundamentais. E se isso é verdadeiro em relação às contradições da reprodução social, é ainda mais

verdadeiro no caso complexo da dominação e da liberdade.

A configuração das contradições mutáveis fornece grande parte da

energia e da força inovadora da coevolução de capital e capitalismo, e

abre uma riqueza (e utilizo deliberadamente essa palavra para me referir a

um florescimento potencial das capacidades humanas, e não das simples

possessões) de possibilidades para novas iniciativas. Essas são as

contradições e os espaços em que se encontra latente a esperança de uma

sociedade melhor, e é deles que devem surgir arquiteturas e construções

alternativas.

Como no caso das contradições fundamentais, as contradições

mutáveis se cruzam, interagem e interferem entre si de maneira intrigante

dentro do capital. A produção de espaço e as dinâmicas do

desenvolvimento geográfico desigual foram profundamente impactadas

pelas mudanças tecnológicas nas formas organizacionais (por exemplo,

aparelhos de Estado e formas territoriais de organização) e nas tecnologias

de transporte e produção do espaço. É no campo do desenvolvimento

geográfico desigual que florescem as diferenciações na reprodução social e

no equilíbrio entre liberdade e dominação, até se tornarem parte da

produção do espaço e do desenvolvimento desigual. A criação de espaços

heterotópicos, onde formas radicalmente diferentes de produção,

organização social e poder político podem florescer durante algum tempo,

implica um terreno de possibilidades anticapitalistas que se abre e se fecha

perpetuamente. É também aqui que as questões de monopólio e

centralização de poder versus descentralização e concorrência influenciam

o dinamismo tecnológico e organizacional e estimulam a concorrência

geopolítica por vantagem econômica. É desnecessário dizer que o

equilíbrio entre pobreza e riqueza é constantemente modificado pela

concorrência interterritorial, pelos fluxos migratórios e pelas inovações

competitivas relacionadas à produtividade do trabalho e à criação de novas

linhas de produtos.

É no quadro referencial dessas contradições interativas e dinâmicas

que encontramos múltiplos projetos políticos alternativos. Muitos desses

projetos constituem-se como respostas distintas do capital a suas próprias contradições e, por isso, visam sobretudo facilitar a reprodução do capital

sob condições de incerteza e risco perpétuos, quando não de crises gerais.

Mas mesmo nesses casos há inúmeras possibilidades para iniciativas que

modifiquem o funcionamento do capital ou abram perspectivas com relação

ao que poderia ser uma alternativa anticapitalista. Acredito, assim como

Marx acreditava, que o futuro já está largamente presente no mundo que

nos rodeia, e que a inovação política (como a inovação tecnológica) é uma

questão de juntar de maneira diferente as possibilidades políticas

existentes, que até agora se encontram isoladas e separadas. Os

desenvolvimentos geográficos desiguais não podem senão gerar “espaços

de esperança” e situações heterotópicas em que devem florescer novos

modos de cooperação, pelo menos por algum tempo, antes de serem

reabsorvidos pelas práticas dominantes do capital. As novas tecnologias

(como a internet) abrem novos espaços de liberdade potencial que podem

fazer avançar a causa da governança democrática. Iniciativas no campo da

reprodução social podem produzir novos sujeitos políticos que queiram

revolucionar e humanizar as relações sociais e cultivar uma abordagem

mais esteticamente sensível e satisfatória da nossa relação metabólica com

a natureza. Descrever essas possibilidades não é dizer que todas darão

frutos, mas sim sugerir que qualquer política anticapitalista tem de ser

persistente para perseguir as contradições e deslindar seu caminho rumo à

construção de um universo alternativo, usando os recursos e as ideias

disponíveis.

Isso nos leva às contradições perigosas, talvez até potencialmente

fatais. Marx teria dito que o capital acabaria ruindo sob o peso de suas

próprias contradições internas. Não consigo identificar em que obra Marx

teria dito isso e, pela leitura que faço dele, acredito que é extremamente

improvável que dissesse uma coisa dessas. Isso pressuporia um colapso

mecânico do motor econômico do capitalismo, sem que nenhum agente

humano jogasse areia na máquina ou militantemente interrompesse seu

funcionamento e a substituísse. A posição de Marx, e nesse caso concordo

plenamente com ele (contra certas correntes da tradição

marxista/comunista e certas opiniões que muitos críticos atribuem a ele), é

que provavelmente o capital continuará funcionando para sempre, mas provocará uma degradação progressiva da terra e um empobrecimento em

massa, aumentando radicalmente a desigualdade social e a desumanização

de grande parte da humanidade, a qual se verá submetida a uma negação

cada vez mais repressiva e autocrática de seu potencial de florescimento

humano individual (em outras palavras, uma intensificação da vigilância

policial totalitária promovida pelo Estado, do sistema de controle

militarizado e da democracia totalitária que já vivemos hoje em larga

escala).

A negação intolerável do livre desenvolvimento das potencialidades e

capacidades criativas humanas que resultará disso equivale a jogar fora a

cornucópia de possibilidades que o capital nos transmitiu e desperdiçar a

verdadeira riqueza das possibilidades humanas em nome de um aumento

perpétuo da riqueza monetária e da satisfação de estreitos interesses

econômicos de classe. Diante dessa perspectiva, a única política sensata é

buscar transcender o capital e os limites de uma estrutura cada vez mais

autocrática e oligárquica do poder de classe capitalista, bem como

reconstruir as possibilidades imaginativas da economia com uma nova

configuração, muito mais igualitária e democrática.

O Marx que defendo é, em suma, um humanista revolucionário, e não

um determinista teleológico. Em sua obra há declarações que apoiam essa

segunda posição, mas acredito que o conjunto de seus escritos, tanto os

históricos quanto os político-econômicos, defendem a primeira

interpretação. É por isso que rejeito a ideia de contradições “fatais” e

prefiro defini-las como “perigosas”, porque qualificá-las como fatais

conotaria um aspecto falso de inevitabilidade e ruína cancerosa, ou mesmo

de um fim apocalíptico. Certas contradições, no entanto, são mais

perigosas do que outras, tanto para o capital quanto para a humanidade, e

variam de lugar para lugar, de época para época. Se tivéssemos escrito

sobre o futuro do capital e da humanidade há cinquenta ou cem anos, muito

provavelmente teríamos nos concentrado em contradições diferentes das

que cito aqui. A questão ambiental e o desafio de manter o crescimento

exponencial não teriam chamado tanta atenção em 1945, quando era muito

mais importante resolver as rivalidades geopolíticas e racionalizar os

processos do desenvolvimento geográfico desigual, reequilibrando ao mesmo tempo (mediante intervenções do Estado) a unidade contraditória

entre produção e realização. As três contradições que analiso aqui são

mais perigosas no presente imediato, não só para a capacidade do motor

econômico do capitalismo de se manter funcionando, mas também para a

reprodução da vida humana sob condições minimamente razoáveis. Uma

delas, e somente uma delas, é potencialmente fatal, mas será fatal apenas

se surgir um movimento revolucionário que mude o caminho evolutivo

ditado pela acumulação infinita do capital. Não está escrito nas estrelas se

esse espírito revolucionário se consolidará a ponto de determinar

mudanças radicais no modo como vivemos: isso depende totalmente da

vontade humana. O primeiro passo para exercitar essa vontade é ter plena

consciência da natureza dos perigos e das escolhas que temos.