17 contradições e o fim do capitalismo
6. Capital como processo ou como coisa?
Contradição 6
Capital como processo ou como coisa?
No passado, os físicos debatiam interminavelmente se a melhor maneira de
conceituar a luz seria em termos de partículas ou de ondas. No século XVII,
Isaac Newton desenvolveu uma teoria corpuscular da luz, ao mesmo tempo
que Christiaan Huygens defendia a teoria das ondas. As opiniões
posteriores variaram entre um e outro, até que Niels Bohr, o pai da
mecânica quântica, resolveu a famosa “dualidade onda-partícula”
recorrendo a um princípio de complementaridade. Por essa interpretação, a
luz é tanto partícula quanto onda. Precisamos das duas descrições para
entendê-la, mas não precisamos usar as duas ao mesmo tempo. Alguns
físicos, no entanto, consideravam que essa dualidade era simultânea, e não
complementar. E houve uma discussão considerável sobre a dualidade ser
inerente na natureza ou refletir as limitações do observador. Qualquer que
seja o caso, está claro que, hoje, dualidades desse tipo são aceitas como
fundamentais para a construção de teorias em muitas áreas das ciências
naturais. A dualidade mente-cérebro, para citar outro exemplo, está
enraizada no pensamento da neurociência contemporânea. Não se pode
dizer, portanto, que as ciências naturais são inerentemente hostis a certo tipo
de raciocínio dialético ou imunes à ideia de contradição (embora, devo
acrescentar, a natureza de seu raciocínio dialético seja muito diferente da
versão rígida e embrutecedora de dialética defendida por Engels e, depois, Stalin). É uma pena que a economia convencional, que aspira à condição de
ciência, não tenha seguido o exemplo!
O capital deve ser visto como um processo ou como uma coisa? Em
minha opinião, deve ser visto como ambos, e defendo uma interpretação
simultânea, e não complementar, do funcionamento dessa dualidade,
mesmo que, para propósitos de exposição, muitas vezes uma perspectiva
deva prevalecer sobre a outra. A unidade do capital que circula
continuamente como processo e fluxo, de um lado, e as diferentes formas
materiais que ele assume (principalmente dinheiro, atividades produtivas e
mercadorias), de outro, formam uma unidade contraditória. O enfoque de
nossa investigação, portanto, tem de ser a natureza dessa contradição e o
modo pelo qual ela pode ser um lugar de criatividade e mudança, bem como
de instabilidades e crises.
Consideremos um modelo de fluxo simples do modo de proceder de um
capitalista honesto e bem-comportado, respeitador das leis que um Estado
capitalista perfeitamente regulado impõe ao comportamento no mercado. O
capitalista começa o dia com uma quantia de dinheiro (não importa se
próprio ou emprestado). Ele usa esse dinheiro para comprar meios de
produção (uso de terra e todos os recursos nela existentes, bem como
insumos parcialmente finalizados, energia, maquinário etc.). Também
contrata trabalhadores no mercado de trabalho por um período determinado
(digamos, oito horas por dia, cinco dias por semana, em troca de um salário
semanal). A aquisição desses meios de produção e da força de trabalho
precede o momento da produção. A força de trabalho, no entanto,
geralmente é remunerada depois de realizada a produção, ao passo que os
meios de produção costumam receber antes de iniciada a produção (a não
ser quando são pagos a crédito). Claramente, a produtividade dos
trabalhadores depende da tecnologia (máquinas, por exemplo), da forma de
organização (divisão do trabalho no processo de trabalho e formas de
cooperação, por exemplo) e da intensidade/eficácia do processo de trabalho
conforme projetado pelo capitalista. O resultado desse processo de
produção é uma nova mercadoria (coisas sobretudo, mas às vezes
processos, como meios de transporte e serviços), que é colocada no
mercado e vendida para os consumidores a um preço que deve render ao capitalista uma quantia de dinheiro equivalente à que ele dispunha
inicialmente mais um adicional que constitui o lucro.
O lucro, afinal de contas, é o motivo por que o capitalista enfrenta todas
as dificuldades desse processo. No dia seguinte, ele repete todo o processo
para continuar ganhando a vida. Mas, no terceiro dia, usa uma parte do
lucro obtido no dia anterior para aumentar a produção. Essa expansão se dá
por uma série de razões, entre elas cobiça e ganância por um maior poder
financeiro, mas também por medo de que novos concorrentes capitalistas o
expulsem do mercado, caso uma parte dos lucros dos dias anteriores não
seja reinvestida em expansão.
Há versões ilegais desse processo. O dinheiro inicial pode ser obtido por
roubo e violência. O acesso a terras e recursos pode ser obtido por coerção,
e os insumos podem ser roubados, ao invés de comprados honestamente no
mercado aberto. As condições contratuais impostas aos trabalhadores
podem violar legalmente as normas estabelecidas, e violações de todos os
tipos, como falta de pagamento de salário, cumprimento forçado de horas
extras e descontos por suposta má conduta, podem ser comuns. As
condições de trabalho podem se tornar insuportáveis ou até nocivas
(exposição a substâncias tóxicas, aumento forçado da intensidade de
trabalho além da capacidade humana). Pode haver trapaça no mercado,
como falsificação, monopólio de preços e venda de mercadorias com
defeito ou até perigosas. O reconhecimento de que tudo isso pode acontecer
leva a intervenções e políticas de Estado, como leis reguladoras de
segurança e saúde no trabalho, medidas de proteção ao consumidor e outras
(tais medidas de proteção perderam força sob os regimes neoliberais,
personificados por Ronald Reagan e Margaret Thatcher e predominantes há
pelo menos trinta anos).
Para onde se olhe no mundo capitalista, há provas tangíveis de
ilegalidade generalizada. Aparentemente, a definição do que é normal na
circulação legal do capital é fortemente influenciada, e talvez até definida,
pelo campo da ilegalidade. Essa dualidade legal-ilegal, portanto, tem um
papel importante no funcionamento do capital. Claramente, é necessário
que haja o envolvimento do poder estatal para conter os comportamentos
individuais. Um capitalismo sem Estado é impensável (ver Contradição 3). Mas a forma como o Estado intervém depende de controles de classe e
influência sobre o aparelho estatal. As ilegalidades praticadas por Wall
Street só aconteceram porque houve uma mistura de negligência e
cumplicidade por parte do aparelho estatal.
Mas o ponto fundamental aqui é a definição do capital como processo,
como fluxo contínuo de valor que atravessa vários momentos e várias
transições de uma forma material para outra. Em dado momento, o capital
assume a forma de dinheiro; em outro, é um conjunto de meios de produção
(inclusive terra e recursos) ou uma massa de trabalhadores atravessando os
portões de uma fábrica. Dentro da fábrica, o capital está na mão de obra
concreta e na confecção de uma mercadoria na qual se cristaliza o valor
latente e ainda não realizado (trabalho social) e o mais-valor. Quando a
mercadoria é vendida, o capital retorna a sua forma-dinheiro. Nesse fluxo
contínuo, o processo e as coisas mantêm uma relação de dependência.
A dualidade processo-coisa não é exclusiva do capital. Eu diria que se
trata de uma condição universal de existência na natureza e, como os seres
humanos fazem parte da natureza, trata-se também de uma condição
universal da atividade social e da vida social em todos os modos de
produção. Vivo minha vida como um processo, embora tenha qualidades de
coisa pelas quais o Estado define o que sou (nome e número!). Mas o
capital enfrenta e mobiliza essa dualidade de uma maneira particular, e é
nisso que devemos atentar. O capital existe como fluxo contínuo de valor
que passa pelos diferentes estados físicos que identificamos (além de outros
que devem ser considerados). A continuidade do fluxo é condição primária
da existência do capital. Este deve circular continuamente, do contrário
morre. A velocidade de sua circulação também é importante. Se consigo
fazer meu capital circular mais rápido do que você faz circular o seu, tenho
uma vantagem competitiva. Assim, existe uma pressão competitiva
considerável para acelerar a rotatividade do capital. A tendência à
aceleração é facilmente identificável na história do capital. A lista de
inovações tecnológicas e organizacionais criadas para aumentar a
velocidade de circulação e reduzir as barreiras impostas pela distância física
é longa.
Mas isso pressupõe que as transições de um momento para o outro não
são problemáticas, o que não é verdade. Tenho dinheiro e quero fabricar
aço, então preciso ter imediatamente à mão todo o material (força de
trabalho e meios de produção) para criar aço. Mas o minério de ferro e o
carvão estão debaixo da terra e é demorado extraí-los. Não há trabalhadores
suficientes nas redondezas que queiram me vender sua força de trabalho.
Preciso construir um alto-forno, o que também leva tempo. Enquanto isso, o
dinheiro-capital que reservei para a produção de aço continua inativo e não
produz nenhum valor. A transição do dinheiro para as mercadorias
necessárias à produção é obstruída por todos esses tipos de barreiras, e o
tempo perdido é capital que se desvaloriza ou se perde. Somente quando
todas essas barreiras são transpostas é que o capital pode finalmente fluir
para a produção efetiva.
Na produção também surgem todos os tipos de problemas e barreiras. A
produção do aço é demorada, e a intensidade do processo de trabalho afeta
o tempo necessário à produção. Embora se possa recorrer a diferentes
inovações organizacionais e tecnológicas para diminuir o tempo de
trabalho, existem barreiras físicas à redução desse tempo a zero. Além do
mais, os trabalhadores não são robôs. Eles podem largar as ferramentas ou
diminuir o ritmo de trabalho. Para a continuidade do processo, é preciso que
haja controle e colaboração com a força de trabalho.
O aço precisa ser vendido depois de produzido, e mais uma vez a
mercadoria pode ficar parada algum tempo no mercado até aparecer um
comprador. Se todos os possíveis compradores tiverem aço suficiente
alguns anos, o produto pode ficar parado e o capital-mercadoria se torna
capital morto por falta de circulação. O produtor tem interesse pessoal em
assegurar e acelerar o ciclo do consumo. Uma das maneiras de fazer isso é
produzir um aço que enferruje rápido e precise ser logo substituído.
Diminuir o ciclo do consumo é mais fácil no caso de telefones celulares e
dispositivos eletrônicos. A obsolescência programada, a inovação, o
modismo e coisas assim estão profundamente enraizados na cultura
capitalista.
Todo tipo de estratégia e atalho surge à medida que o capital busca
transcender ou ultrapassar as barreiras de circulação, aplainar e acelerar o tempo de rotação. Os produtores, por exemplo, podem não querer esperar
que a mercadoria seja vendida: é mais fácil passá-la com desconto aos
comerciantes (o que dá oportunidade a estes últimos de obter sua parte do
mais-valor). Os comerciantes (atacadistas e varejistas) assumem tanto os
custos quanto os riscos de venda do produto ao consumidor final. Ao buscar
eficiência e economia de escala (enquanto exploram a mão de obra que
empregam), podem conectar os produtores aos consumidores finais a um
custo menor do que se os produtores diretos assumissem eles mesmos a
comercialização. Isso facilita o fluxo e oferece um mercado mais seguro aos
produtores. Em compensação, os comerciantes podem acabar exercendo
uma pressão considerável sobre os produtores diretos para forçá-los a
aceitar taxas mais baixas de retorno (como faz o Walmart).
Alternativamente, os produtores podem buscar crédito sobre os produtos
não vendidos. Mas aqui entra em jogo o poder autônomo de banqueiros,
financistas e lojas de desconto como fator ativo na circulação e acumulação
do capital. As estratégias sociais para manter a continuidade do fluxo do
capital são uma faca de dois gumes: embora alcancem seu propósito
imediato de facilitar o processo de circulação, podem criar blocos de poder
entre comerciantes (por exemplo, Walmart) e financistas (por exemplo,
Goldman Sachs) mais preocupados em perseguir seus próprios interesses do
que servir aos interesses do capital em geral.
Há problemas mais puramente físicos que exacerbam a tensão entre a
fixidez e o movimento na circulação do capital, sobretudo na categoria dos
investimentos de longo prazo no capital fixo. Para que o capital circule
livremente no tempo e no espaço, as infraestruturas físicas e os ambientes
construídos devem ser fixos no espaço (ancorados na terra sob a forma de
ruas, estradas, torres de comunicação e cabos de fibra óptica, aeroportos e
portos, fábricas, escritórios, casas, escolas, hospitais etc.). Outras formas
mais móveis de capital fixo (navios, caminhões, aviões e locomotivas, além
de maquinário e equipamento de escritório, e até facas e garfos, pratos e
utensílios de cozinha que usamos no dia a dia) têm uma vida longa. A
massa formada por tudo isso – quando observamos uma paisagem urbana
como São Paulo, Xangai ou Manhattan – é simplesmente gigantesca, em
boa parte imóvel, e a parte móvel não pode ser substituída durante sua vida útil sem perda de valor. Um dos paradoxos da acumulação de capital é que,
com o tempo, a simples massa desse capital de vida longa – e muitas vezes
fisicamente imóvel, tanto para a produção quanto para o consumo –
aumenta em relação ao capital que está em fluxo constante. O capital corre
o eterno risco de se tornar mais esclerosado com o passar do tempo por
causa da quantidade cada vez maior de capital fixo necessário.
O capital fixo e o capital circulante se contradizem mutuamente, mas
um não pode existir sem o outro. O fluxo daquela parte do capital que
facilita a circulação tem de ser desacelerado se o movimento do capital
circulante tiver de ser acelerado. Mas o valor do capital fixo imóvel (como
um terminal de carga portuário) só pode ser realizado por seu uso. Um
terminal de carga portuário que não recebe navios é inútil, e o capital
investido nele está perdido. Por outro lado, as mercadorias não poderiam
chegar ao mercado sem navios e terminais de carga. O capital fixo constitui
um mundo de coisas que dão apoio ao processo de circulação do capital,
enquanto o processo de circulação fornece os meios pelos quais o valor
investido no capital fixo é recuperado.
Dessa contradição básica entre fixidez e movimento surge outra camada
de dificuldades. Quando as manobras sociais destinadas a facilitar o fluxo
de capital (por exemplo, as atividades dos capitalistas comerciais, ou dos
financistas, que são ainda mais poderosas) combinam-se com os problemas
físicos da fixidez na terra, abre-se espaço para os bens de raiz capturarem
uma parte do excedente. Essa fração definida do capital extrai rendas e
configura investimentos na terra, mesmo que sua impiedosa especulação
esteja relacionada à terra, aos recursos naturais ou ao valor da propriedade.
Na década de 1930, Keynes vislumbrou com felicidade o que chamou
de “eutanásia do rentier [rentista]” [1]. Essa ambição política, que Keynes
aplicou a todos os donos do capital, obviamente não se realizou. A terra,
por exemplo, tornou-se ainda mais importante como forma de capital
fictício cujos títulos de propriedade (ou partes de renda futura) podem ser
negociados internacionalmente. O conceito de “terra” inclui hoje todas as
infraestruturas e modificações humanas acumuladas desde épocas passadas
(por exemplo, os túneis de metrô construídos há mais de um século em
Londres e Nova York), bem como investimentos recentes ainda não amortizados. O potencial domínio do rentista e dos interesses dos
proprietários de terra sobre a atividade econômica tornou-se uma ameaça
ainda maior, sobretudo porque é amparado pelo poder das instituições
financeiras, que desfrutam do rendimento obtido com preços e aluguéis
cada vez mais altos da terra e dos imóveis. Os booms e as quedas no preço
da moradia, sobre os quais já comentamos, são exemplos típicos. O que é
interessante é que essas práticas não desapareceram. Elas se transformaram
nos espantosos “assenhoramentos de terras” que ocorrem em todo o mundo
(desde as regiões ricas em recursos do nordeste da Índia até a África e boa
parte da América Latina), enquanto instituições e indivíduos tentam garantir
seu futuro financeiro pela propriedade de terra e de todos os recursos
inseridos nela (tanto os “naturais” como os criados pelo homem). Isso
sugere a chegada de um regime de escassez de terra e de recursos (uma
condição amplamente autorrealizável, baseada no monopólio e no poder
especulativo como os que as empresas petrolíferas exercem há muito
tempo).
A classe dos rentistas sustenta seu poder no controle da fixidez, ao
mesmo tempo que usa os poderes financeiros do movimento para mascatear
seus produtos internacionalmente. Como isso aconteceu no mercado
habitacional nos últimos tempos é um caso paradigmático. Os direitos de
propriedade referentes às casas em Nevada foram comercializados no
mundo todo para investidores que foram pegos de surpresa e perderam
milhões, enquanto Wall Street e outros predadores financeiros gozavam de
seus bônus e ganhos adquiridos ilicitamente.
A pergunta, portanto, é: quando e por que a tensão entre fixidez e
movimento, e entre processo e coisa, transforma-se em uma contradição
absoluta, particularmente sob a forma de um poder excessivo da classe
rentista, produzindo crises? Claramente, essa contradição é foco de crises e
estresses locais. Se as mercadorias não fluem, as coisas que facilitam o
fluxo tornam-se inúteis e têm de ser abandonadas, e a renda extraída de
aluguéis começa a cair. A longa e dolorosa história da desindustrialização
deixou cidades inteiras sem atividade (como Detroit), que por isso viraram
um poço de valor perdido; por outro lado, cidades como Shenzhen ou Daca
tornaram-se centros de atividade que, para prosperar, exigem investimentos maciços em capital fixo, além de extração de aluguel e booms no mercado
habitacional. A história do capital está cheia de casos de booms e crashes
em que há forte implicação da contradição entre capital fixo e capital
circulante, entre fixidez e movimento. Esse é o mundo em que o capital
como força de destruição criativa é mais visível na paisagem física que
habitamos. Nem sempre é fácil discernir o equilíbrio entre a criatividade e a
destruição, mas os custos que populações inteiras são obrigadas a pagar em
consequência de desindustrializações, oscilações de valor de imóveis e
renda de terra, desinvestimentos e construção especulativa emanam todos
da perpétua tensão subjacente entre fixidez e movimento – tensão que,
periodicamente e em localizações geográficas específicas, eleva-se a
contradição absoluta e, por isso, gera uma séria crise.
Sendo assim, que tipo de ambição política alternativa podemos derivar
dessa análise? Uma meta óbvia e imediata é a abolição da capacidade do
bem de raiz de extrair renda da fixidez comandada por ele. É preciso
controlar a capacidade dos rentistas de negociar livremente, em todo o
planeta, títulos legais sobre terras e outros bens imobiliários como
aconteceu recentemente, quando hipotecas embutidas em obrigações de
dívida colateralizadas foram negociadas em todo o mundo. A terra, os
recursos e o ambiente construído, já amortizado, deveriam ser categorizados
e administrados como propriedade comum das populações que os usam e
dependem deles. As pessoas, como um todo, não ganham nada com a
elevação do preço da terra e dos imóveis que caracteriza os tempos
recentes. O vínculo entre especulação financeira e investimento em
infraestrutura física e outras formas de capital físico também deve ser
extinto, para que considerações financeiras não ditem mais a produção e o
uso de infraestruturas físicas. Por fim, os aspectos relacionados ao valor de
uso da provisão de infraestrutura devem vir em primeiro lugar. Isso não
deixa outra opção à ordem social a não ser explorar o campo da prática do
planejamento racional por parte das coletividades políticas a fim de garantir
que possam ser produzidos e mantidos os valores de uso físicos necessários.
Dessa maneira, é possível orquestrar as relações sempre complexas entre
processos e coisas e entre fixidez e movimento para o bem comum, em vez
de mobilizá-las para a acumulação infinita de capital.
[1] John Maynard Keynes, A teoria geral do emprego, do juro e da moeda (trad. Mário R. da Cruz, São Paulo, Nova Cultural, 1996), p. 344.