17 contradições e o fim do capitalismo
15. Crescimento exponencial infinito
Contradição 15
Crescimento exponencial infinito
O capital gira sempre em torno do crescimento e cresce necessariamente a
uma taxa composta. Essa condição da reprodução do capital é hoje, como
pretendo argumentar, uma contradição extremamente perigosa, mas em
ampla medida não é nem reconhecida nem analisada.
A maioria das pessoas não entende a matemática dos juros compostos,
tampouco o fenômeno do crescimento exponencial (ou composto) e o
perigo potencial que ele representa. Nem a ciência lúgubre da economia
convencional, como Michael Hudson mostrou em um comentário recente,
reconheceu a importância dos juros compostos para o endividamento
crescente[1]. O resultado é que uma parte fundamental da explicação das
turbulências financeiras que abalaram o mundo em 2008 foi obliterada. O
crescimento exponencial perpétuo é, então, possível?
Em tempos recentes, houve um grande rebuliço entre alguns
economistas que se perguntavam se a fé na antiga suposição do crescimento
perpétuo fazia sentido. Robert Gordon, por exemplo, sugeriu que o
crescimento econômico vivido nos últimos 250 anos “podia muito bem ser
um episódio único na história humana, e não uma garantia de progresso
infinito no mesmo ritmo”. Sua argumentação se baseia amplamente numa
visão geral da trajetória e dos efeitos das inovações sobre a produtividade
do trabalho que sustentaram o crescimento da renda per capita. Gordon se
une a vários outros economistas quando afirma que as ondas de inovação do passado foram muito mais fortes que a onda mais recente, iniciada por volta
de 1960 com base na eletrônica e na informatização. Segundo ele, essa
última onda teve efeitos mais fracos do que se imagina e, seja como for, já
se esgotou (o ápice foi a bolha da internet na década de 1990). Partindo
desses argumentos, Gordon prevê que:
o crescimento futuro do PIB real per capita será mais lento do que o registrado em
qualquer outro período prolongado desde o fim do século XIX, e o crescimento do
consumo real per capita será ainda mais lento para os 99% menos favorecidos no que
se refere à distribuição de renda.
No caso dos Estados Unidos, a debilidade inerente da última onda de
inovação é agravada por uma série de “ventos contrários”, como a
desigualdade social cada vez maior, os problemas derivados do custo
crescente e da qualidade decrescente da educação, os impactos da
globalização, a regulação ambiental, as condições demográficas
(envelhecimento da população), as cargas tributárias cada vez mais pesadas
e o “excesso” de endividamento público e privado [2]. Mas, segundo
Gordon, mesmo na ausência desses “ventos contrários” o futuro ainda seria
de relativa estagnação, em comparação com os últimos duzentos anos.
No momento em que escrevo, um dos componentes desses “ventos
contrários” (a dívida pública) tornou-se um jogo de futebol político nos
Estados Unidos, com repercussões em outros países. E tem sido foco de
declarações e argumentos exagerados e pungentes na mídia e no Congresso.
A carga supostamente enorme e monstruosa da dívida sobre as gerações
futuras é evocada para promover cortes draconianos no orçamento público e
no salário social (como sempre, é claro, em benefício da oligarquia). Na
Europa, o mesmo argumento é usado para justificar a imposição de uma
austeridade desastrosa para alguns países (como a Grécia), apesar de não
precisarmos pensar muito para entender como essa austeridade pode
beneficiar os países mais ricos (como a Alemanha) e, de modo mais geral,
os abastados portadores de títulos. Na Europa, os governos eleitos
democraticamente na Grécia e na Itália foram derrubados de forma pacífica e substituídos por “tecnocratas” que contavam com a confiança dos
mercados de ações.
Tudo isso tornou particularmente difícil chegar a uma visão clara da
relação entre o aumento das obrigações de dívida, o crescimento
exponencial da acumulação de capital e o perigo que os dois representam.
Note-se que Gordon estava preocupado principalmente com o PIB per
capita, o que é muito diferente do PIB agregado. Ambos são sensíveis às
condições geográficas, mas de modo muito diferente. Uma análise
superficial dos dados históricos disponíveis sobre o PIB total sugere que,
apesar da relação pouco rígida entre riqueza e acúmulo de dívidas em toda a
história do capital, o acúmulo de riquezas desde a década de 1970 está
muito mais estritamente associado ao acúmulo de dívida pública,
empresarial e privada. Suspeita-se de que, hoje, o acúmulo de dívidas é
precondição para a acumulação de capital. Se essa suspeita for correta, isso
quer dizer que o acúmulo de dívidas produz um resultado curioso: o esforço
dos republicanos, de direita, e de grupos análogos na Europa (como o
governo alemão) para reduzir ou eliminar a dívida é uma ameaça mais
grave para o futuro do capital do que foi o movimento da classe
trabalhadora.
O crescimento exponencial é, em essência, muito simples. Deposito
US$ 100 numa poupança que rende 5% de juros anuais. No fim de um ano,
tenho US$ 105, que, a uma taxa de juros constante, torna-se US$ 110,25 no
ano seguinte (o número será maior se a acumulação for diária ou mensal). A
diferença entre a soma no fim do segundo ano e uma progressão aritmética
de juros, não composta, é muito pequena (apenas US$ 0,25). A diferença é
tão pequena que nem vale a pena se preocupar com ela, por isso passa
facilmente despercebida. Mas, depois de 30 anos de juros compostos a 5%
ao ano, tenho US$ 432,19, contra os US$ 250 que teria se os juros
seguissem uma progressão aritmética de 5%. Depois de 60 anos, tenho US$
1.867,00, contra os US$ 400, e, depois de 100 anos, US$ 13.150, em vez de
US$ 600. Prestemos atenção nesses números. A curva dos juros compostos
sobe bem lentamente no início (ver figuras 1 e 2), começa a acelerar e, no
fim, torna-se o que os matemáticos chamam de singularidade: sobe ao
infinito. Qualquer pessoa que tenha feito uma hipoteca experimenta o inverso disso. Durante os primeiros vinte anos de uma hipoteca de trinta
anos, o capital principal diminui muito lentamente; depois a queda se
acelera e, nos últimos dois ou três anos, diminui rapidamente.
Há uma série de anedotas clássicas sobre essa qualidade dos juros
compostos e do crescimento exponencial. Certa vez, um rei indiano quis
recompensar o inventor do jogo de xadrez. O inventor pediu o equivalente a
um grão de arroz no primeiro quadrado do tabuleiro e que a quantia
dobrasse de quadrado em quadrado até cobrir todo o tabuleiro. O rei
concordou de imediato, porque o preço parecia baixo. O problema é que, ao
chegar ao vigésimo primeiro quadrado, eram necessários mais de um
milhão de grãos e, depois do quadragésimo primeiro quadrado (mais de um
trilhão de grãos), não havia mais arroz no mundo para dar conta dos
quadrados restantes. Outra versão da história diz que o rei ficou com tanta
raiva por ter sido enganado que mandou decapitar o inventor. Essa versão
da história é preciosa: mostra o caráter ardiloso dos juros compostos e como
é fácil subestimar seu poder oculto. Nos últimos estágios do crescimento
exponencial, a aceleração nos pega de surpresa.
Um exemplo dos perigos dos juros compostos é ilustrado pelo caso de
Peter Thelluson, um rico banqueiro suíço que morava em Londres. Ele
criou um fundo fiduciário de 600 mil libras que só poderia ser tocado 100
anos depois de sua morte, ocorrida em 1797. Com rendimento a juros
compostos de 7,5%, o fundo chegaria a 19 milhões de libras (um valor
maior do que a dívida nacional da Grã-Bretanha) em 1897, quando o
dinheiro poderia ser dividido entre os afortunados descendentes de
Thelluson. Mesmo se rendesse 4%, o governo da época calculou que a
herança seria equivalente a toda a dívida pública de 1897. Os juros
compostos poriam um imenso poder financeiro em mãos privadas. Para
evitar isso, em 1800 o governo britânico aprovou uma lei que limitava esse
tipo de fundo a períodos de 21 anos. O testamento foi contestado pelos
herdeiros imediatos de Thelluson e quando o caso foi finalmente resolvido,
em 1859, depois de muitos anos de processo, descobriu-se que toda a
herança tinha sido engolida pelos custos legais[3]. Essa história inspirou o
famoso caso Jarndyce contra Jarndyce no livro A casa soturna, de Charles
Dickens[a].
No fim do século XVIII, o poder dos juros compostos era efusivamente
comentado. Em 1772, o matemático Richard Price, num tratado que depois
chamou a atenção de Marx, escreveu:
O dinheiro que rende juros compostos cresce a princípio lentamente, mas, como a taxa
de crescimento se acelera progressivamente, ela se torna tão rápida que ultrapassa toda
fantasia. Um penny emprestado a juros compostos de 5% na época do nascimento de
Cristo ter-se-ia hoje multiplicado numa soma maior que a que estaria contida em 150
milhões de planetas como a Terra, todos de ouro maciço. Emprestado a juros simples,
porém, esse mesmo penny, no mesmo período de tempo, não teria ultrapassado 7
xelins e 41 [4] / pence. 2
Note-se mais uma vez a surpresa com o resultado produzido pelo
crescimento exponencial, que “ultrapassa toda fantasia”. Será que também
ficaríamos chocados com o resultado do crescimento exponencial?
Curiosamente, o principal argumento de Price (em oposição à atual safra de
alarmistas) é que seria fácil acabar com a dívida interna (como também
mostrou o exemplo de Thelluson) recorrendo-se aos juros compostos!
Angus Maddison tentou a duras penas calcular a taxa de crescimento de
toda a produção econômica global ao longo de séculos. Obviamente, quanto
mais ele avançava no passado, mais incertos eram os dados.
Significativamente, os dados anteriores a 1700 se basearam cada vez mais
em estimativas populacionais para substituir a produção econômica total.
Mas, mesmo em nossa época, há boas razões para se contestar os dados
brutos, porque incluem uma série de “maus produtos nacionais brutos”
(como consequências econômicas de acidentes de trânsito e furacões).
Alguns economistas insistem em mudar a base da contabilidade nacional,
argumentando que muitas das medidas utilizadas são equivocadas. No
entanto, se partirmos das descobertas de Maddison, veremos que o capital
vem crescendo, desde aproximadamente 1820, a uma taxa composta de
2,25%. Essa é a média mundial[5]. É óbvio que houve momentos (por
exemplo, a Grande Depressão) e lugares (por exemplo, o Japão
contemporâneo) em que a taxa de crescimento foi insignificante ou
negativa, e outros momentos (como as décadas de 1950 e 1960) e lugares
(como a China dos últimos vinte anos) em que o crescimento foi muito
maior do que isso. Essa média está ligeiramente abaixo da média aceita em
geral na imprensa econômica e em outros lugares (uma taxa mínima de
crescimento de 3%). Quando o crescimento fica abaixo dessa norma, a
economia é descrita como letárgica e, quando chega a níveis abaixo de zero, isso é considerado um indicador de recessão, ou, quando se prolonga, de
depressão. Um crescimento muito acima de 5%, por outro lado, é visto nas
“economias maduras” (ou seja, não na China contemporânea) como um
sinal de “superaquecimento”, que está sempre acompanhado da ameaça de
inflação descontrolada. Nos últimos tempos, mesmo no período da “quebra”
de 2007-2009, o crescimento global se manteve firmemente estável em
torno de 3%, em grande parte nos mercados emergentes (como Brasil,
Rússia, Índia e China – em suma, nos Brics). As “economias capitalistas
avançadas” tiveram um crescimento de 1% ou menos entre 2008 e 2012.
Maddison calcula que a produção global em 1820 foi de 694 bilhões de
dólares constantes de 1990 (“bilhão” na escala dos Estados Unidos,
equivalente a mil milhões). Em 1913, subiu para US$ 2,7 trilhões (na escala
dos Estados Unidos, um trilhão é mil bilhões); em 1973, chegou a US$ 16
trilhões e, em 2003, quase US$ 41 trilhões. Bradford DeLong faz uma
estimativa diferente, começando com US$ 359 bilhões em 1850 (em dólares
constantes de 1990), subindo para US$ 1,7 trilhão em 1920, US$ 3 trilhões
em 1940, US$ 12 trilhões em 1970, US$ 41 trilhões em 2000 e US$ 45
trilhões em 2012. Os números de DeLong sugerem uma base inicial mais
baixa e uma taxa de crescimento exponencial um pouco mais alta. Embora
os números sejam muito diferentes (sinal de como essas estimativas são
difíceis e muitas vezes arbitrárias), nos dois casos o efeito do crescimento
exponencial (com uma variação temporal e geográfica considerável) é
claramente visível [6].
Tomemos como normal uma taxa de crescimento exponencial de 3%.
Essa é a taxa de crescimento que permite que a maioria dos capitalistas, ou
talvez todos, tenham uma taxa de retorno positiva sobre o capital. Manter
uma taxa de crescimento satisfatória hoje em dia significa encontrar
oportunidades de investimento lucrativo para quase US$ 2 trilhões
adicionais, em comparação com os “meros” US$ 6 bilhões necessários em
1970. Por volta de 2030, quando as estimativas sugerem que a economia
global será de mais de US$ 96 trilhões, serão necessárias oportunidades de
investimento lucrativo de mais ou menos US$ 3 trilhões. Depois os
números se tornam astronômicos. É como se estivéssemos no vigésimo
primeiro quadrado do tabuleiro de xadrez e não pudéssemos sair dele. E, no ponto em que estamos agora, essa não parece ser uma trajetória de
crescimento possível. Se pensarmos em termos materiais, para manter a
taxa composta de acumulação de capital, a enorme expansão em
infraestrutura física, urbanização, força de trabalho, consumo e capacidade
de produção ocorrida desde a década de 1970 até hoje teria de ser
insignificante em comparação com a da próxima geração. Se dermos uma
olhada no mapa da cidade mais próxima de nós em 1970 e o compararmos
com um mapa atual, poderemos imaginar o que será dessa cidade se nos
próximos vinte anos ela quadruplicar de tamanho e densidade.
No entanto, seria um tremendo erro supor que a evolução social humana
é governada por fórmulas matemáticas. Foi esse o grande erro de Thomas
Malthus quando defendeu pela primeira vez seu princípio da população em
1798 (quase ao mesmo tempo que Richard Price e outros comemoravam –
se é que essa é a palavra correta – o poder do crescimento exponencial nas
questões humanas). Os argumentos de Malthus são diretamente relevantes
para a questão tratada aqui, mas também servem de lição. Ele afirmava que
as populações humanas, como todas as espécies, têm tendência a crescer a
uma taxa exponencial (ou seja, composta), ao passo que a produção de
alimentos só pode crescer, na melhor das hipóteses, em progressão
aritmética, dadas as condições de produtividade agrícola na época. O
rendimento decrescente do trabalho agrícola geraria um abismo cada vez
maior entre a taxa de crescimento populacional e a taxa de oferta de
alimentos. A divergência crescente entre as duas curvas era vista como um
indicador da pressão crescente da população sobre os recursos, e as
consequências disso para a humanidade, segundo Malthus, seriam fome,
pobreza, epidemias, guerra e patologias de todos os tipos, agindo como um
freio brutal para manter o crescimento populacional dentro dos limites
ditados por uma suposta capacidade biótica natural. As predições distópicas
de Malthus não aconteceram. Reconhecendo o fato, Malthus ampliou seus
princípios e incluiu mudanças no comportamento demográfico humano, as
chamadas “restrições morais”, como casamento em idade avançada,
abstinência sexual e (tacitamente) outras técnicas de limitação populacional.
Isso refrearia ou reverteria a tendência de crescimento exponencial da
população [7]. Malthus também errou lastimavelmente quando não previu a industrialização da agricultura e a rápida expansão da produção global de
alimentos pela colonização de terras improdutivas (em especial nas
Américas).
Ao evocarmos a tendência da acumulação do capital ao crescimento
exponencial, será que corremos o risco de repetir o erro de Malthus quando
supôs que a evolução humana não reflete comportamentos humanos fluidos
e adaptáveis, mas obedece a fórmulas matemáticas? Se sim, de que maneira
o capital se adaptou e ainda se adapta para conciliar as disparidades entre o
processo de acumulação, que é necessariamente exponencial (se é que esse
é o caso), e as condições que podem limitar a capacidade de crescimento
exponencial?
Há, no entanto, uma consideração prévia que devemos abordar. Se a
população cresce exponencialmente (como supôs Malthus), então a
economia tem de crescer a taxas iguais para que o padrão de vida possa se
sustentar. Sendo assim, qual é a relação entre as trajetórias demográficas e a
dinâmica de acumulação do capital?
Hoje, as únicas regiões em que a população cresce a uma taxa composta
de 3% ou mais são a África, o sul da Ásia e o Oriente Médio. As taxas de
crescimento populacional são negativas no Leste Europeu e tão baixas no
Japão e em grande parte da Europa que a população apenas se mantém.
Nesse caso, os problemas econômicos são causados por falta de oferta
interna de trabalho e pelo ônus crescente da manutenção da população mais
velha. Uma força de trabalho cada vez menor, que não para de diminuir,
precisa produzir valor suficiente para pagar a aposentadoria de uma
população idosa cada vez maior. Essa relação ainda é importante em
algumas regiões do mundo. No início da história do capital, o rápido
crescimento populacional ou a vasta reserva de mão de obra inexplorada,
que ainda precisava ser urbanizada, ajudou inquestionavelmente a
impulsionar a rápida acumulação de capital. De fato, podemos argumentar
que o crescimento populacional, a partir do início do século XVII, foi
precondição para a acumulação do capital. O papel daquilo que Gordon
chama de “dividendo demográfico” para a promoção do crescimento
populacional foi e continua sendo muito importante. Um bom exemplo foi a
ampla incorporação das mulheres à força de trabalho na América do Norte e na Europa depois de 1945, mas isso não pode ser repetido. A força de
trabalho mundial cresceu 1,2 bilhão entre 1980 e 2009, e metade desse
crescimento se deveu apenas à China e à Índia. Isso também não vai se
repetir com facilidade. Em muitas partes do mundo, porém, essa relação
entre rápido crescimento populacional e rápida acumulação do capital está
se rompendo, porque o crescimento populacional vem seguindo uma curva
em “S”, começando estável, acelerando-se exponencialmente e caindo
lentamente até se estabilizar, o que indica um crescimento nulo ou negativo
(por exemplo, na Itália e no Leste Europeu). É esse vácuo demográfico de
crescimento zero em alguns países que atrai fortes fluxos de imigração (não
sem perturbações sociais, resistências políticas e uma série de conflitos
culturais).
Embora as projeções populacionais – mesmo de médio prazo – sejam
particularmente ardilosas (e mudem rapidamente de ano para ano), espera-
se que a população mundial se estabilize durante este século, atinja um
máximo de 12 bilhões de pessoas (ou talvez menos, em torno de 10 bilhões)
até o fim do século e, a partir de então, mantenha uma taxa estável de
crescimento zero. Claramente, essa é uma questão importante para a
dinâmica de acumulação do capital. Nos Estados Unidos, por exemplo, a
criação de empregos desde 2008 não acompanhou a expansão da força de
trabalho. A queda nas taxas de desemprego corresponde a um encolhimento
da população em idade produtiva, que tenta participar da força de trabalho.
Mas, haja o que houver, está muito claro que no futuro a acumulação de
capital terá de se apoiar cada vez menos no crescimento demográfico para
se manter ou impulsionar seu crescimento exponencial, e as dinâmicas de
produção, consumo e realização do capital terão de se ajustar às novas
condições demográficas. É difícil dizer quando isso vai acontecer, mas a
maioria das estimativas sugere que será difícil repetir o amplo incremento
da força de trabalho assalariada global ocorrido a partir de 1980, uma vez
que estará esgotado por volta de 2030. De certo modo, isso não é tão ruim,
pois, como vimos, a mudança tecnológica tende a produzir cada vez mais
populações redundantes e até descartáveis entre os menos qualificados [8]. A
lacuna entre os poucos trabalhadores altamente qualificados e a gigantesca
reserva de trabalhadores de baixa e média qualificação desempregados e cada vez mais descartáveis parece estar aumentando, enquanto a definição
das qualificações evolui rapidamente.
Desse modo, seria possível que a acumulação de capital abandonasse o
crescimento exponencial dos últimos dois séculos e seguisse uma trajetória
em “S”, como ocorreu com a demografia de muitos países, culminando
numa economia estável de crescimento zero? A resposta a essa pergunta é
um retumbante “não”, e é importantíssimo entender por quê. A razão mais
simples é que capital é busca de lucros. Para todos os capitalistas, realizar
lucro positivo é ter mais valor no fim do dia do que tinha no início. Isso
significa uma expansão da produção total do trabalho social. Sem essa
expansão, o capital não existe. Uma economia capitalista de crescimento
zero é uma contradição lógica e excludente, simplesmente impossível. É
por isso que crescimento zero define uma condição de crise para o capital.
Quando se prolonga, um crescimento zero como o que predominou em
grande parte do mundo na década de 1930 é uma sentença de morte para o
capitalismo.
Como então o capital pode continuar a se acumular e se expandir
perpetuamente a taxas compostas? Como fará, se isso parece implicar a
duplicação ou até a triplicação do tamanho das estonteantes mudanças
físicas que vêm acontecendo no mundo nos últimos quarenta anos? A
industrialização e a urbanização excepcionais da China nos últimos anos
são uma antecipação do que teria de ser feito para se manter a acumulação
do capital no futuro. Durante grande parte do século passado, muitos países
tentaram imitar a trajetória de crescimento dos Estados Unidos. No século
por vir, boa parte do mundo terá de imitar a trajetória da China (com todas
as suas terríveis consequências para o meio ambiente), o que seria
impossível para os Estados Unidos e a Europa, e impensável para quase
todos os outros países (exceto, talvez, para a Turquia, o Irã e algumas partes
da África). Também vale lembrar que nos últimos quarenta anos houve
muitas crises traumáticas, geralmente locais, com efeito cascata no mundo
inteiro, do Sudeste Asiático e da Rússia em 1998, passando pela Argentina
em 2001, até o grandioso crash global de 2008, que abalou as raízes do
mundo capitalista.
Mas é aqui que devemos parar para refletir sobre a lição dada pela visão
distópica e equivocada de Malthus. Precisamos fazer a seguinte pergunta:
como a acumulação do capital pode mudar seu funcionamento para se
adaptar ao que parece ser uma situação crítica e assim se reproduzir? Na
verdade, há uma série de adaptações já em andamento. É possível evitar as
dificuldades e, se sim, é possível evitá-las indefinidamente? Que adaptações
comportamentais, como aquelas “restrições morais” de Malthus (embora o
termo “moral” seja pouco apropriado), podem remodelar a dinâmica
acumulativa do capital e, ao mesmo tempo, preservar sua essência
necessária de crescimento exponencial?
Há uma forma do capital que permite a acumulação sem limites: a
forma-dinheiro. Isso acontece apenas porque a forma-dinheiro não se
prende a nenhuma limitação física, como aquelas impostas pela mercadoria-
dinheiro (o dinheiro metálico, como ouro e prata, que originalmente deu
representação física à imaterialidade do trabalho social e cuja oferta global
é amplamente fixa). O dinheiro fiduciário emitido pelo Estado pode ser
criado sem limites. Hoje, a expansão da oferta monetária se realiza numa
mistura de atividade privada e ação estatal (via o nexo Estado-finanças
constituído por ministérios da Fazenda e bancos centrais). Nos Estados
Unidos, quando o Federal Reserve se envolve na flexibilização quantitativa,
simplesmente cria tanto dinheiro e liquidez quanto quer. Acrescentar alguns
zeros à quantidade de dinheiro em circulação não é problema. O perigo,
evidentemente, é que o resultado será uma crise inflacionária. Isso não está
acontecendo porque o Federal Reserve tapou grande parte do buraco
deixado no sistema bancário quando a confiança entre os bancos privados
se perdeu e os empréstimos interbancários (que alavancaram a gigantesca
criação de dinheiro no sistema bancário) colapsaram em 2008. A inflação
não está no horizonte também por um segundo motivo: a organização
sindical tem poder quase nulo (dadas as reservas disponíveis de trabalho
descartável) para aumentar os salários e pressionar os preços (embora as
lutas de classes na China tenham aumentado marginalmente o custo da mão
de obra no país).
No entanto, é quase certo que a acumulação perpétua de capital a taxas
exponenciais mediante a criação exponencial de dinheiro acabará em desastre, a não ser que venha acompanhada de outras adaptações. Vamos
examinar algumas dessas adaptações, antes de decidir se elas têm relevância
para o que poderia ser um futuro sustentável para a reprodução do capital
sob certas condições de crescimento exponencial perpétuo.
O capital não consiste apenas em produção e circulação de valor. Ele é
também destruição e desvalorização de capital. Certa proporção do capital é
destruída no curso normal de sua circulação, à medida que se tornam
disponíveis maquinaria e capital fixo novos e mais baratos. Em geral,
grandes crises se caracterizam por uma destruição criativa, o que significa
desvalorização em massa de mercadorias, equipamentos e instalações
produtivas, dinheiro e trabalho. Sempre há desvalorização quando novas
instalações substituem antigas antes do fim de sua vida útil, ou itens mais
caros são substituídos por outros mais baratos em virtude das mudanças
tecnológicas. A rápida desindustrialização dos antigos distritos industriais
nas décadas de 1970 e 1980, tanto na América do Norte quanto na Europa,
é um exemplo óbvio. Em tempos de crise, guerras ou desastres naturais, a
desvalorização pode ser gigantesca. Na década de 1930 e na Segunda
Guerra Mundial, as perdas foram consideráveis. Estimativas do FMI
sugerem que a perda líquida global em 2008, durante a crise financeira,
chegou quase ao valor de um ano inteiro de produção de bens e serviços em
todo o mundo. Mas essas perdas, por maiores que tenham sido, causaram
apenas uma breve interrupção na trajetória do crescimento exponencial. Em
todo caso, assim como o valor das propriedades imobiliárias se recuperou,
em especial nos Estados Unidos e no Reino Unido, onde a crise foi mais
forte, outros valores ativos também se recuperaram (embora, como sempre,
estejam agora nas mãos dos ricos, contribuindo para uma redistribuição
regressiva maciça de riquezas que, na ausência de intervenções
revolucionárias, sempre ocorre nos períodos de crise). A desvalorização
teria de ser muito maior e mais duradoura do que foi em 2008 (mais
próxima, talvez, das de 1930 e 1940) para realmente fazer alguma
diferença.
O problema do desenvolvimento desigual da desvalorização e das lutas
geopolíticas em torno de quem deve arcar com o custo da desvalorização é
importante, em parte porque está relacionado com frequência à propagação da inquietação social e da instabilidade política. Assim, embora a
desvalorização não funcione muito bem como antídoto para o crescimento
exponencial global, suas concentrações geográficas têm uma influência
significativa sobre a dinâmica do sentimento e da luta anticapitalistas. As
duas “décadas perdidas” do desenvolvimento em quase toda a América
Latina geraram um clima político de oposição ao neoliberalismo (mas não
necessariamente ao capital) que serviu para proteger a região contra os
piores impactos da crise de desvalorização de 2008. A imposição
diferenciada de perdas, por exemplo, na Grécia e no sul da Europa equivale
a uma versão geográfica da redistribuição de riqueza que ocorre entre ricos
e pobres.
Reciprocamente, a privatização dos ativos públicos, a criação de novos
mercados e novos cercamentos de bens comuns (de terra e água a direitos
de propriedade intelectual) expandiram o terreno em que o capital atua
livremente. A privatização do fornecimento de água, habitação social,
educação, saúde e até atividades bélicas, a criação de um comércio de
emissões de carbono e o patenteamento de material genético deram ao
capital o poder de entrar em áreas da vida econômica, social e política que,
até então, estavam fechadas. Essas oportunidades adicionais de mercado são
importantes para manter o crescimento exponencial, mas, assim como
acontece com a desvalorização, não acredito que tenham potencial para
absorver o crescimento exponencial, particularmente no futuro (creio, no
entanto, que tiveram um papel importante nas décadas de 1980 e 1990).
Além disso, quando tudo – absolutamente tudo – é mercantilizado e
monetizado, há um limite além do qual esse processo de expansão não
consegue prosseguir. É difícil precisar se chegamos a esse limite, mas quase
quatro décadas de estratégias neoliberais de privatização já fizeram muito, e
em muitas partes do mundo não sobrou muita coisa para privatizar e cercar.
Além disso, há muitos sinais de resistência política à imposição de novos
cercamentos e mercantilizações das formas de vida além do que vemos
agora, e algumas dessas lutas – por exemplo, contra a privatização da água
na Itália e contra a patente de material genético – têm sido bem-sucedidas.
Consideremos, em terceiro lugar, os limites que podem ser encontrados
em relação ao consumo final e à realização do capital. Uma das formas que o capital encontrou para manter o crescimento exponencial foram as
transformações radicais na natureza, na forma, no estilo e no volume do
consumo final (ajudado, é claro, pelo aumento populacional). Os limites
econômicos disso são impostos pela demanda efetiva agregada (grosso
modo, pagamentos e salários mais a renda disponível da burguesia). Nos
últimos quarenta anos, essa demanda tem sido fortemente suplementada
pela criação de dívida pública e privada. O que me interessa aqui, no
entanto, é um importante limite físico determinado pela vida útil dos bens
de consumo: quanto tempo eles duram e com que rapidez têm de ser
substituídos?
O capital tem sistematicamente encurtado a vida útil dos bens de
consumo, produzindo mercadorias que não duram, forçando uma
obsolescência programada e às vezes instantânea, criando rapidamente
novas linhas de produtos (como tem acontecido ultimamente com os
aparelhos eletrônicos), acelerando a rotatividade pela mobilização da moda
e da propaganda para enfatizar o valor da novidade e a falta de elegância do
velho. O capital fez isso nos últimos duzentos anos ou mais e
concomitantemente produziu uma quantidade gigantesca de lixo. Mas essa
tendência se acelerou, capturando e infectando os hábitos de consumo de
massa nos últimos quarenta anos, em especial nas economias capitalistas
avançadas. As mudanças no consumo da classe média em países como
China e Índia também são notáveis. O setor de publicidade e vendas é um
dos maiores da economia estadunidense, e boa parte de sua atividade se
dedica à redução da vida útil dos bens de consumo.
Mas ainda há limites físicos para a duração da vida útil de roupas e
telefones celulares, por exemplo. Mais significativo, no entanto, é o
movimento da produção e do consumo de espetáculos, uma forma efêmera
de mercadoria que é consumida instantaneamente. Em 1967, Guy Debord
escreveu um livro premonitório, A sociedade do espetáculo, e parece que os
representantes do capital leram com muita atenção sua obra e adotaram suas
teses como fundamento de suas estratégias de consumo [9]. Tudo está aí:
programas de TV e produtos similares, filmes, shows, exposições, eventos
esportivos e megaculturais e, é claro, turismo. Essas atividades dominam
hoje o campo do consumo. Mais interessante, no entanto, é como o capital faz os consumidores produzirem seu próprio espetáculo via YouTube,
Facebook, Twitter e outras redes sociais. Tudo isso pode ser consumido
instantaneamente, ao mesmo tempo que absorve uma quantidade imensa do
tempo livre das pessoas. Além disso, os consumidores produzem
informação que depois é apropriada pelos donos da mídia para finalidades
próprias. O público é simultaneamente constituído como produtor e
consumidor, ou o que Alvin Toffler chamou de “prossumidor” [10]. Há um
corolário importante aqui, e este leva a um tema que encontramos em outros
âmbitos: o capital lucra não porque investe em produção nesses campos,
mas porque se apropria da renda e dos royalties gerados pelo uso da
informação, do software e das redes que ele constrói. Essa é apenas uma das
diversas indicações contemporâneas de que o futuro do capital está mais nas
mãos dos rentistas e da classe rentista do que na dos capitalistas industriais.
Essas transformações no campo do consumo são o que Hardt e Negri
parecem buscar quando propõem uma mudança grandiosa do campo do
trabalho material para o campo do trabalho imaterial nas operações do
capital[11]. Eles argumentam que a relação entre o capital e os consumidores
não é mais mediada pelas coisas, mas pelas informações, imagens e
mensagens, pela proliferação e comercialização de formas simbólicas que
têm relação com a subjetividade política das populações e agem sobre elas.
Isso resulta numa tentativa do capital e do Estado de se envolver na
manipulação biológica das populações e na produção de novos sujeitos
políticos. É claro que o tipo de gente que somos sempre foi moldado pelo
mundo de mercadorias que habitamos. Os moradores dos subúrbios
residenciais são um grupo especial de pessoas cuja subjetividade política é
moldada por suas experiências diárias de vida, da mesma maneira que o
líder comunista italiano Antonio Gramsci, preso durante anos, defendia que
o que chamava de americanismo e fordismo produzia um novo tipo de
sujeito humano por meio do trabalho fabril[12]. Não há dúvida de que a
produção contemporânea de “novos” sujeitos políticos por meio de tudo, da
propaganda subliminar à propaganda direta, gera um vasto campo de
investimento capitalista. Denominá-lo “trabalho imaterial” é um pouco
infeliz, dada a enorme quantidade de trabalho material (e a importância
crucial da infraestrutura material) que sustenta esse tipo de atividade, mesmo quando se realiza no ciberespaço e produz efeito primeiro na mente
e na crença das pessoas. A produção de espetáculos implica uma imensa
quantidade de trabalho social material (como as cerimônias de abertura dos
Jogos Olímpicos, que com passar dos anos se agigantaram de forma
bastante consistente com os argumentos que apresentamos aqui).
Essas ideias que circulam hoje sobre uma revolução interna na forma
predominante da acumulação do capital são muito semelhantes aos
comentários contemporâneos sobre o advento de uma “sociedade da
informação” e o desenvolvimento de um capitalismo “baseado no
conhecimento”. Muitos críticos parecem ter uma necessidade urgente de
mostrar que o capital mudou de rumo nos últimos tempos. Talvez seja
reconfortante explicar os conflitos recentes do capital como se estivéssemos
lidando com as dores de parto de uma ordem capitalista totalmente nova, na
qual o conhecimento e a cultura (e a biopolítica, seja lá o que ela for) sejam
os produtos principais, e não as coisas. Embora em parte isso seja verdade,
seria um erro imaginar qualquer ruptura radical com o passado e um erro
duplo presumir que as novas formas escapam às contradições do
crescimento exponencial. O espetáculo, por exemplo, sempre foi um
veículo importante de acumulação de capital; afinal de contas, quando
houve uma forma de capital em que o conhecimento e a informação não
foram uma fonte de lucros excessivos? Além disso, quando a dívida e as
finanças foram irrelevantes e por que essa fase de financeirização é tão
diferente da que ocorreu, digamos, no fim do século XIX? Embora seja
verdade que o consumo de espetáculo, imagem, informação e conhecimento
seja qualitativamente diferente do consumo de mercadorias materiais (como
casas, carros, pão e roupas da moda), é um erro não reconhecer que a rápida
expansão da atividade nessas esferas está enraizada na necessidade fútil (e
explico mais adiante por que uso essa palavra) de escapar dos limites
materiais do crescimento exponencial. Todas essas formas alternativas
pertencem à luta do capital para resolver a necessidade de crescimento
exponencial permanente.
Não me parece fortuito que os limites estabelecidos para a criação do
dinheiro, atrelando-o a mercadorias-dinheiro como ouro e prata, tenham
sido rompidos no início da década de 1970. A pressão da expansão exponencial sobre a oferta global fixa de metal foi simplesmente invencível
naquele momento do desenvolvimento histórico do capital. Desde então,
vivemos em um mundo em que prevalece a ausência potencial de limites da
criação de dinheiro. Antes da década de 1970, a principal via de
investimento do capital era a produção de valor e mais-valor nos setores da
manufatura, mineração, agricultura e urbanização. Embora grande parte
dessa atividade fosse financiada por endividamento, o pressuposto geral,
que não estava equivocado, era de que a dívida acabaria sendo recuperada
com a aplicação do trabalho social na produção de mercadorias como casas,
carros, refrigeradores e similares. Mesmo no caso do financiamento de
infraestruturas de longo prazo (como estradas, obras públicas, urbanização),
havia uma presunção razoável de que a dívida seria paga com a
produtividade crescente do trabalho social envolvido na produção. Também
se poderia assumir que tudo isso geraria uma renda per capita crescente. O
sistema rodoviário interestadual dos Estados Unidos, construído nas três
décadas depois de 1960, teve um grande impacto sobre a produtividade
agregada do trabalho e rendeu muitos frutos. Segundo Robert Gordon, essa
foi a onda de inovação mais forte da história do capital[13].
Sempre existiram ciclos significativos daquilo que podemos chamar de
“capital fictício” – investimento em hipotecas, dívida pública, infraestrutura
urbana e nacional etc. De tempos em tempos, perde-se o controle sobre
esses fluxos de capital fictício, formam-se bolhas especulativas que
explodem e geram sérias crises financeiras e comerciais. As famosas altas e
baixas econômicas ligadas às ferrovias no século XIX, assim como o boom
no mercado imobiliário na década de 1920 nos Estados Unidos, foram
exemplos no passado. Ao promover essas atividades especulativas, os
financistas criaram frequentemente maneiras tortas e inovadoras (e muitas
vezes suspeitas) de juntar e canalizar capitais fictícios para realizar ganhos
de curto prazo (os fundos de hedge, por exemplo, existem há muito tempo),
mesmo quando os investimentos a longo prazo iam mal. Surgiram todos os
tipos de esquemas financeiros malucos, o que levou Marx a falar do sistema
de crédito como “a matriz de todas as formas absurdas de capital” e dizer
que Émile Pereire, proeminente banqueiro do Segundo Império francês,
tinha o “agradável caráter híbrido de vigaristas e profetas”[14]. Essa não é uma descrição ruim dos mestres do universo de Wall Street, de homens
como Lloyd Blankfein, diretor-executivo da Goldman Sachs, que, ao ser
criticado por um comitê do Congresso por não cuidar adequadamente dos
negócios do povo, disse que eles estavam apenas fazendo o trabalho de
Deus.
O fim da criação de dinheiro atrelado à mercadoria-dinheiro no início
da década de 1970 ocorreu num momento em que as perspectivas de lucro
em atividades produtivas eram particularmente baixas, um momento em
que o capital começou a experimentar o impacto de um ponto de inflexão
na trajetória do crescimento exponencial. Para onde iria o dinheiro
excedente? Parte da resposta está no empréstimo como dívida pública aos
países em desenvolvimento – uma forma muito particular de circulação de
capital fictício –, porque, como afirmou Walter Wriston de forma
memorável, “países não desaparecem, nós sempre sabemos onde encontrá-
los”. Mas Estados não são criados para ser empresas produtivas. O
resultado foi que, alguns anos depois, estourou a crise da dívida no Terceiro
Mundo, que se prolongou de 1982 até o início dos anos 1990. É importante
notar que essa crise foi resolvida com troca das obrigações de dívida reais –
que jamais seriam pagas – por obrigações do chamado “Plano Brady”,
recomendadas pelo FMI e pelo Departamento do Tesouro dos Estados
Unidos, que depois seriam reembolsadas. As instituições de crédito, com
poucas exceções, decidiram que era melhor receber o que podiam, em vez
de esperar para recuperar a dívida total em suaves prestações. Os portadores
de títulos, nesse caso, aceitaram fazer um bom desconto, em geral entre
30% e 50%, sobre o capital fictício posto em circulação [15].
Outro caminho era investir o capital excedente não na produção, mas na
compra de ativos (inclusive títulos de dívida). Um ativo é simplesmente um
título de propriedade capitalizado, e seu valor é estabelecido por
antecipação de certa corrente futura de rendimentos ou por algum estado
futuro de escassez (por exemplo, de ouro ou de quadros de Picasso). O
resultado dos fluxos de investimento nessas áreas foi um aumento geral no
valor dos ativos – de terras a imóveis, de recursos naturais (petróleo em
particular, é claro) à dívida urbana e ao mercado de artes. Paralelamente,
surgiram mercados de ativos totalmente novos dentro do sistema financeiro – câmbio futuro, swaps, CDOs e uma série de instrumentos financeiros que
deveriam dispersar o risco, mas que na verdade o aumentaram a tal ponto
que fez a volatilidade das negociações de curto prazo se tornar um campo
para ganhos especulativos engenhosos. Assim, o capital fictício se
alimentou e gerou ainda mais capital fictício, sem se preocupar com a base
de valor social da transação. Essa desconexão pôde florescer justamente
porque a representação do valor (dinheiro) se distanciava cada vez mais do
valor do trabalho social que deveria representar. O problema não foi a
circulação do capital fictício – que sempre foi importante para a história da
acumulação do capital –, mas o fato de que os novos canais pelos quais
passava o capital fictício eram um labirinto de demandas compensatórias
quase impossíveis de valorar, exceto por uma mistura de expectativas
futuras, crenças e apostas de curto prazo completamente malucas nos
mercados não regulamentados, sem nenhuma perspectiva de pagamento a
longo prazo (a famosa história da Enron, que se repetiu na quebra do
Lehman e do sistema financeiro global em 2008).
Grande parte do crescimento exponencial que ocorreu até a crise
financeira de 2008 se deveu a ganhos especulativos oriundos das sucessivas
bolhas de ativos (a alta e a queda das empresas ponto-com na década de
1990, a alta e a queda do mercado imobiliário nos anos 2000 nos Estados
Unidos). No entanto, essa onda especulativa escondia algumas transações
reais muito importantes para o comportamento dos investimentos desde a
década de 1970. Alguns ativos que estavam sendo comprados (terras,
imóveis, recursos naturais) eram seguros, lastreados e podiam ser
conservados para a obtenção de ganhos a longo prazo. Isso tornou as altas e
as quedas particularmente úteis para os investidores de longo prazo, que
podiam comprar ativos a um preço muito baixo na esteira de uma crise com
a perspectiva de obter bastante lucro no longo prazo. Foi o que fizeram
muitos bancos e investidores internacionais na crise de 1997-1998 no
Sudeste Asiático, e é o que fazem agora os investidores, comprando barato
imóveis executados na Califórnia, por exemplo, para alugá-los enquanto o
mercado imobiliário não volta ao normal. É isso que fazem os fundos de
hedge, embora sob condições muito diferentes, quando vendem a
descoberto nos mercados de capital fictício.
Mas isso significa que cada vez mais capital é investido em busca de
renda, lucros e royalties, e menos na atividade produtiva. Essa tendência a
uma forma rentista de capital é reforçada pelo imenso poder de extração de
renda a partir de direitos de propriedade intelectual sobre material genético,
sementes, atividades que exigem licença etc. Não surpreende que o governo
dos Estados Unidos tenha lutado tanto, por intermédio de instituições
internacionais, para proteger e impor à força um regime de direitos de
propriedade intelectual (com os chamados acordos Trips[b], no âmbito da
Organização Mundial do Comércio).
Mas isso é mesmo capaz de absorver o crescimento exponencial?
Teorias baseadas numa mudança completa para a produção imaterial
vendem a perigosa ilusão de que o crescimento exponencial infinito é
possível, sem que isso acarrete dificuldades materiais mais sérias. Hoje,
quantidades cada vez maiores de capital circulam em forma fictícia, e a
criação de dinheiro eletrônico é, em princípio, ilimitada (são apenas
números numa tela). Portanto, não há barreiras para o crescimento
ilimitado. A economia do espetáculo e da produção de conhecimento como
forma de realização do capital reduz nitidamente a taxa de expansão da
demanda por recursos e bens materiais. Mas a infraestrutura física exigida e
a necessidade de gerar mais e mais energia em forma utilizável inviabilizam
a ideia de que a produção pode se tornar imaterial. Se o consumo é limitado
a essa forma imaterial, então o poder do dinheiro não pode ser transferido
para as populações de baixa renda, que precisam de bens materiais básicos
para viver. Ele tem de se concentrar numa fração relativamente pequena da
população que seja capaz de consumir nessa forma fictícia. Provavelmente,
a única forma política que o capital poderia assumir seria uma oligarquia
repressiva. É aí que os mercados emergentes, como os que surgiram na
esteira da crise financeira de 2008, levam vantagem: nos países de renda
média, os mercados que se formam em consequência do crescimento da
produção e da renda concentram-se muito mais nas carências e
necessidades tangíveis de uma população em expansão. Como afirmou
André Gorz há muito tempo, a tendência à produção imaterial e ao
espetáculo parece muito mais o último suspiro do capital do que a abertura
de um novo horizonte para a acumulação infinita.
Como ficamos, então, diante da necessidade de crescimento econômico
exponencial infinito, sem o apoio de uma base material? Como vimos, há
vários ajustes em andamento, porém, quanto mais detalhadamente eles são
analisados, mais parecem sintomas de um problema subjacente, e não sinais
ou caminhos para soluções de longo prazo. É claro que o capital pode
construir uma economia (e, até certo ponto, já fez isso) a partir de um
mundo fetichista de fantasia e imaginação assentado em ficções piramidais
que não duram. Um cenário possível é um esquema de Ponzi que ofusque
todos os outros. Ironicamente, as inovações disponíveis hoje são mais
facilmente empregadas para aumentar a atividade especulativa, e não para
diminuí-la, como ilustra o caso das nanotransações na bolsa de valores.
Esse tipo de economia, antes de qualquer desenlace, estará sujeito a crises
periódicas e erupções vulcânicas. Nesse cenário, o capital não acabará com
um estrondo ou uma lamúria, mas ao som de incontáveis bolhas de ativos
estourando na paisagem geográfica desigual de uma acumulação de capital
apática. É quase certo que tais rompimentos se misturem às revoltas
provocadas pelo descontentamento popular, e que de modo geral borbulham
sob a superfície da sociedade capitalista. Erupções vulcânicas pontuais,
geradas pela fúria popular (como vimos em Londres em 2011, Estocolmo
em 2013, Istambul em 2013, em dezenas de cidades brasileiras em 2013
etc.) já estão bastante em evidência. O descontentamento, deve-se notar,
não visa unicamente a incapacidade técnica do capital de cumprir a
promessa de um paraíso de emprego e consumo para todos, mas contesta
cada vez mais as consequências degradantes para todos que têm de se
submeter a regras e códigos sociais desumanos ditados pelo capital e por
um Estado capitalista cada vez mais autocrático.
Existe, no entanto, um lado particularmente obscuro nessa análise,
referente ao efeito contagioso que o crescimento exponencial
provavelmente terá em muitas ou talvez em todas as contradições aqui
identificadas. O impacto sobre as contradições ambientais provavelmente
será imenso, como veremos em breve. A capacidade do capital de
reequilibrar as relações entre produção e realização, bem como entre
pobreza e riqueza, será menos ágil, e a lacuna entre o dinheiro e o trabalho
social que ele supostamente representa aumentará à medida que mais capital fictício tiver de ser criado, com riscos cada vez maiores, para
sustentar o crescimento exponencial. Da mesma forma, será extremamente
difícil, ou talvez até impossível, reverter a mercantilização, a monetização e
a comercialização de todos os valores de uso sem limitar consideravelmente
o campo de acumulação do capital. Será mais difícil conter o temerário
impulso à aceleração e as consequentes desvalorizações, em razão da
crescente volatilidade dos desenvolvimentos geográficos desiguais. E por aí
vai! As contradições, longe de conter os excessos umas das outras, como
aconteceu algumas vezes no passado, serão muito mais propensas a
explodir e contagiar umas às outras sob a pressão crescente de um
crescimento exponencial necessário. Os valores de uso estarão fadados a ser
uma consideração cada vez mais trivial num cenário de explosão de
considerações sobre o valor de troca provocada pelas febres especulativas.
Disso devem resultar alguns resultados bastante surpreendentes.
Existe, por exemplo, uma tendência de ameaça que poderia ser uma
nota de rodapé na minha argumentação, mas tem uma curiosa ressonância
com os temores dos economistas políticos do passado em relação ao futuro
do capital. O capital vai acabar, diz Ricardo, quando a terra e os recursos
naturais se tornarem tão escassos que toda a renda será absorvida pelo
salário necessário para cobrir o elevado preço dos alimentos ou, então (o
que dá no mesmo), como rendimento de uma classe rentista poderosíssima,
mas improdutiva. Essa classe improdutiva espremerá tanto o capital
industrial que impossibilitará suas operações produtivas. Uma classe
parasitária de rentistas sugará o capital industrial até secá-lo, a tal ponto que
não será mais possível mobilizar o trabalho social nem produzir valor. Sem
a produção de valor social, o capital acabará. Para fazer essa previsão,
Ricardo se apoiou nas suposições equivocadas de Malthus sobre os ganhos
decrescentes do trabalho na terra. Por isso, os economistas que vieram
depois dele desconsideravam em geral a ideia de uma taxa decrescente de
lucro (embora Marx tenha tentado mantê-la viva, recorrendo a um
mecanismo diferente). Keynes, por exemplo, que viveu em circunstâncias
muito diferentes, aguardava com otimismo a eutanásia do rentista e a
construção de um regime de crescimento perpétuo apoiado pelo Estado (cujas possibilidades foram parcialmente realizadas no período posterior a
1945).
Hoje o que impressiona é o poder crescente dos rentistas improdutivos e
parasitários, não apenas os proprietários das terras e de todos os seus
recursos, mas os donos dos ativos, os todo-poderosos portadores de títulos,
os donos do poder monetário independente (que se tornou um meio de
produção fundamental em si mesmo) e os donos de patentes e direitos de
propriedade, que não passam de uma reivindicação do trabalho social livre
de qualquer obrigação de mobilizá-lo para um uso produtivo. As formas
parasitárias do capital estão em ascensão. Seus representantes andam pelas
ruas em limusines e povoam restaurantes e coberturas sofisticados em todas
as grandes cidades do mundo – Frankfurt, Londres, Nova York, São Paulo,
Sydney, Tóquio... Essas são as chamadas cidades criativas, onde a
criatividade é medida pelo êxito com que os “mestres do universo” sugam a
vida da economia global para sustentar uma classe cujo único objetivo é
multiplicar sua riqueza e seu poder, já gigantescos. Nova York tem uma
grande concentração de talento criativo: contadores e advogados
tributaristas criativos, financistas criativos armados com instrumentos
financeiros novinhos em folha, manipuladores de informações criativos,
vendedores de milagres e vigaristas criativos, assessores de imprensa
criativos, e todos transformam a cidade num maravilhoso lugar para se
estudar cada um dos fetiches que o capital é capaz de conceber. O fato de
que a única classe no mundo que se beneficiou da (fraca) recuperação
econômica depois de 2009 seja formada pelo 1% mais rico da população, e
não haja nenhum protesto visível da parte da população que ficou para trás
na depressão econômica, é um atestado do sucesso do projeto. Os parasitas
venceram a batalha. Os portadores de títulos e os banqueiros centrais
dominaram o mundo. Há poucas dúvidas de que esse sucesso só pode ser
ilusório e de que eles provavelmente não ganharão a guerra pela
sobrevivência do capital. Depois de “lavar a consciência” com seus colegas
filantropos, na tentativa de corrigir, como diz Peter Buffett, com a mão
direita os danos que foram causados com a esquerda, os oligarcas podem
dormir tranquilos. A incapacidade desses homens de ver como estão perto
do abismo lembra Luís XV da França dizendo profeticamente: “Après moi, le déluge” [“Depois de mim, o dilúvio”]. O capital pode não acabar num
dilúvio. O Banco Mundial adora nos garantir que uma maré de
desenvolvimento está prestes a salvar todos os barcos. Talvez seja mais
verdadeira a metáfora de que o nível exponencialmente maior do mar e as
tempestades cada vez mais intensas estejam prestes a afundar todos os
barcos.
[1] Michael Hudson, The Bubble and Beyond (Dresden, Islet, 2012). Esse é um dos únicos textos de economia que conheço que leva a sério a questão do crescimento exponencial. Nas páginas seguintes, baseio-me em parte no que ele diz. Em 2011, quando falei da questão do crescimento exponencial com dois experientes editores de economia de um jornal importante, um deles menosprezou o assunto, considerando-o trivial, ou mesmo risível, enquanto o outro disse que ainda havia muitas fronteiras tecnológicas para explorar, portanto não havia motivos para se preocupar.
[2] Robert Gordon, “Is U.S. Economic Growth Over? Faltering Innovation Confronts the Six Headwinds”, Working Paper 18315, Cambridge, National Bureau of Economic Research, 2012. A reação pública aos argumentos de Gordon é tratada em Thomas Edsall, “No More Industrial Revolutions”, New York Times, 15 out. 2012. A reação pública em geral considerava que provavelmente Gordon tinha razão, mas era muito pessimista em relação ao impacto futuro das inovações. Martin Wolf, influente economista do Financial Times, no entanto, aceitou boa parte dos argumentos de Gordon e concluiu que as elites econômicas dariam as boas-vindas ao futuro que Gordon descreveu, mas os outros gostariam “muito menos [dele]. Acostumem-se, isso não vai mudar”. Outras contribuições são encontradas em Tyler Cowen, The Great Stagnation: How America Ate all the Low-Hanging Fruit of Modern History, Got Sick and Will (Eventually) Feel Better, E-special from Dutton, 2011. Todos esses argumentos, contudo, são centrados nos Estados Unidos.
[3] O caso de Thelluson é descrito em Michael Hudson, The Bubble and Beyond, cit.
[a] Ed. bras.: trad. Oscar Mendes, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986. (N. E.)
[4] Citado em Karl Marx, O capital, Livro III, cit.
[5] Angus Maddison, Phases of Capitalist Development (Oxford, Oxford University Press, 1982); Contours of the World Economy, 1-2030 AD (Oxford, Oxford University Press, 2007).
[6] Bradford DeLong, “Estimating World GDP, One Million B.C.-Present”. As estimativas se encontram no verbete “Gross World Product” da Wikipédia.
[7] Thomas Malthus, Ensaio sobre o princípio da população (trad. Eduardo Saló, Mem Martins, Europa-América, 1999).
[8] McKinsey Global Institute, “The World at Work: Jobs, Pay and Skills for 3.5 Billion People”, Report of the McKinsey Global Institute, 2012.
[9] Guy Debord, A sociedade do espetáculo (trad. Estela dos Santos Abreu, Rio de Janeiro, Contraponto, 1997).
[10] Alvin Toffler, A terceira onda (trad. João Távora, 29. ed., Rio de Janeiro, Record, 2007).
[11] Michael Hardt e Antonio Negri, Commonwealth (Cambridge, Harvard University Press, 2009).
[12] Antonio Gramsci, Cadernos do cárcere (trad. Carlos Nelson Coutinho, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1999-2001), 2 v.
[13] Robert Gordon, “Is U.S. Economic Growth Over? Faltering Innovation Confronts the Six Headwinds”, cit.
[14] Karl Marx, O capital, Livro III, cit.
[15] Faço um resumo dessa questão em David Harvey, A Brief History of Neoliberalism (Oxford, Oxford University Press, 2005).
[b] Agreement on Trade-Related Aspects of Intellectual Property Rights, ou Acordos sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio. (N. E.)