17 contradições e o fim do capitalismo

David Harvey · Capítulo 26 de 48

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17 contradições e o fim do capitalismo

Capítulo 8

ludistas contra a introdução de máquinas na produção até a revolta dos

físicos contra as armas nucleares. Atualmente há uma grande controvérsia

em torno da ética e da imprudência da engenharia genética e dos alimentos

geneticamente modificados. Tais questões, no entanto, não parecem impedir

a trajetória evolutiva das mudanças tecnológicas. É por isso que defino esse

tipo de contradição como “mutável” – ela não é estável ou permanente, mas

está sempre mudando de lugar. Por isso, é crucial avaliar onde os processos

de mudança tecnológica estão e para onde podem se deslocar no futuro.

Arthur pergunta, por exemplo: “Esse processo de constante evolução da

tecnologia e reconfiguração da economia poderia ser detido?”. Em

princípio, sua resposta é “sim”. Mas a probabilidade efetiva dessa

interrupção é extremamente remota. A dinâmica descentralizada da

evolução tecnológica é forte demais, e o campo de possíveis descobertas da

novidade incessante na natureza é amplo demais para que a evolução

tecnológica e econômica seja interrompida no futuro imediato.

 

A avalanche de tecnologias que virá na próxima década é razoavelmente previsível. E

os caminhos para melhorar futuramente as tecnologias atuais são mais ou menos

previsíveis. Mas, de modo geral, assim como é impossível prever o conjunto de

espécies biológicas de um futuro distante a partir do conjunto de espécies atuais, é

impossível prever qual será o conjunto de tecnologias do futuro econômico. Assim

como não podemos prever quais combinações serão feitas, não podemos prever quais

nichos de oportunidade serão criados. E como as combinações potenciais crescem

exponencialmente, essa indeterminação aumenta à medida que o acervo se desenvolve.

Se há 3 mil anos poderíamos dizer com segurança que as tecnologias usadas dali a

cem anos lembrariam aquelas usadas naquele momento, hoje mal conseguimos prever

qual será a forma da tecnologia daqui a cinquenta anos.[8]

 

Qual é então a contradição ou as contradições que poderiam ameaçar a

lucratividade e a acumulação infindável do capital nesse processo de

“evolução combinatória”? Acredito que há duas contradições de grande

importância para as futuras perspectivas do capital. A primeira diz respeito

à relação dinâmica da tecnologia com a natureza (tema da Contradição 16).

A segunda diz respeito à relação entre a mudança tecnológica, o futuro do trabalho e o papel da mão de obra para com o capital. Essa é a contradição

que examinaremos agora.

O controle sobre o processo de trabalho e o trabalhador sempre foi

crucial para a capacidade do capital de sustentar a lucratividade e a

acumulação de capital. Durante toda a sua história, o capital inventou,

inovou e adotou formas tecnológicas cujo principal objetivo é melhorar seu

controle sobre o trabalho, tanto no processo do trabalho quanto no mercado

de trabalho. Essa tentativa de controle envolve não só a eficiência física,

mas também a autodisciplina dos trabalhadores empregados, a qualidade da

mão de obra disponível no mercado, os hábitos culturais e a mentalidade

dos trabalhadores em relação às tarefas que se espera que realizem e os

salários que esperam receber.

O objetivo principal de muitos inovadores era o controle do trabalho.

Na França do Segundo Império, um industrial famoso por suas inovações

na indústria de máquinas-ferramentas declarou que seus três objetivos eram

aumentar a precisão do processo de trabalho, ampliar a produtividade e tirar

poder do trabalhador. É por isso, sem dúvida, que Marx argumentou que a

inovação tecnológica era uma arma crucial na luta de classes, e que muitas

inovações foram adotadas pelo capital com o objetivo único de impedir as

greves. Foi assim, certamente, que surgiu a crença fetichista do capital de

que a solução para obter uma lucratividade sempre crescente era a constante

inovação tecnológica voltada para o disciplinamento e o desempoderamento

dos trabalhadores. O sistema fabril, o taylorismo (que tentou reduzir o

trabalhador a um “gorila treinado”), a automação, a robotização e a

substituição do trabalho humano pela máquina correspondem a esse desejo.

Os robôs não reclamam, não respondem, não processam ninguém, não

ficam doentes, não desaceleram, não se desconcentram, não fazem greve,

não exigem aumentos de salário, não se preocupam com as condições de

trabalho, não querem intervalos para o café nem faltam ao trabalho (a não

ser nas histórias de ficção científica).

A fantasia capitalista do controle total sobre o trabalho e o trabalhador

tem suas raízes nas circunstâncias materiais, principalmente na dinâmica da

luta de classes em todas as suas manifestações, tanto dentro quanto fora do

processo de produção. O papel do desemprego tecnologicamente induzido na regulação dos salários, a busca de produtos cada vez mais baratos para

sustentar a mão de obra (fenômeno Walmart), a fim de tornar mais

aceitáveis os baixos salários, a crítica a qualquer proposta de salário social

(como se fosse um incentivo ao ócio) e outras manobras semelhantes

constituem um domínio da luta de classes em que as invenções e mediações

tecnológicas são cruciais. E é isso que torna tão estranha a apresentação de

Arthur, pois esses fatos históricos óbvios e elementares (tão

maravilhosamente satirizados em Tempos modernos, de Charlie Chaplin)

não entram em sua explicação da evolução combinatória, que tem de fato

um papel crítico nos detalhes da mudança tecnológica.

Temos aqui a contradição central: se o trabalho social é a grande fonte

de valor e lucro, substituí-lo por máquinas ou trabalho robótico não faz

sentido, nem política nem economicamente. Mas percebemos com muita

clareza qual mecanismo leva essa contradição a um ponto de crise.

Empreendedores ou empresas individuais consideram que as inovações que

poupam trabalho são decisivas para a lucratividade perante os concorrentes.

Coletivamente, isso destrói a possibilidade de lucro.

Em um livro recente, Martin Ford apresenta um argumento justamente

sobre esse problema. Segundo ele, à medida que a vanguarda do dinamismo

tecnológico passa dos sistemas mecânicos e biológicos para a inteligência

artificial, há um enorme impacto na disponibilidade de emprego não só na

indústria e na agricultura, mas também nos serviços e até nas profissões.

Consequentemente, a demanda agregada por bens e serviços entra em

colapso, enquanto emprego e renda desaparecem. Isso terá efeitos

catastróficos na economia, a menos que o Estado descubra uma maneira

intervir com estímulos redistributivos aos setores da população que se

tornaram redundantes e descartáveis.

André Gorz apresentou exatamente o mesmo argumento, porém de uma

perspectiva política diferente:

 

A lógica microeconômica preferiria que as economias de tempo de trabalho se

traduzissem em economias de salários para as empresas que as realizam: produzindo a

um custo menor, essas empresas serão mais “competitivas” e poderão (sob certas

condições) vender mais. Mas, do ponto de vista macroeconômico, uma economia que

distribui cada vez menos salários, porque usa cada vez menos trabalho, escorrega