17 contradições e o fim do capitalismo
Capítulo 8
ludistas contra a introdução de máquinas na produção até a revolta dos
físicos contra as armas nucleares. Atualmente há uma grande controvérsia
em torno da ética e da imprudência da engenharia genética e dos alimentos
geneticamente modificados. Tais questões, no entanto, não parecem impedir
a trajetória evolutiva das mudanças tecnológicas. É por isso que defino esse
tipo de contradição como “mutável” – ela não é estável ou permanente, mas
está sempre mudando de lugar. Por isso, é crucial avaliar onde os processos
de mudança tecnológica estão e para onde podem se deslocar no futuro.
Arthur pergunta, por exemplo: “Esse processo de constante evolução da
tecnologia e reconfiguração da economia poderia ser detido?”. Em
princípio, sua resposta é “sim”. Mas a probabilidade efetiva dessa
interrupção é extremamente remota. A dinâmica descentralizada da
evolução tecnológica é forte demais, e o campo de possíveis descobertas da
novidade incessante na natureza é amplo demais para que a evolução
tecnológica e econômica seja interrompida no futuro imediato.
A avalanche de tecnologias que virá na próxima década é razoavelmente previsível. E
os caminhos para melhorar futuramente as tecnologias atuais são mais ou menos
previsíveis. Mas, de modo geral, assim como é impossível prever o conjunto de
espécies biológicas de um futuro distante a partir do conjunto de espécies atuais, é
impossível prever qual será o conjunto de tecnologias do futuro econômico. Assim
como não podemos prever quais combinações serão feitas, não podemos prever quais
nichos de oportunidade serão criados. E como as combinações potenciais crescem
exponencialmente, essa indeterminação aumenta à medida que o acervo se desenvolve.
Se há 3 mil anos poderíamos dizer com segurança que as tecnologias usadas dali a
cem anos lembrariam aquelas usadas naquele momento, hoje mal conseguimos prever
qual será a forma da tecnologia daqui a cinquenta anos.[8]
Qual é então a contradição ou as contradições que poderiam ameaçar a
lucratividade e a acumulação infindável do capital nesse processo de
“evolução combinatória”? Acredito que há duas contradições de grande
importância para as futuras perspectivas do capital. A primeira diz respeito
à relação dinâmica da tecnologia com a natureza (tema da Contradição 16).
A segunda diz respeito à relação entre a mudança tecnológica, o futuro do trabalho e o papel da mão de obra para com o capital. Essa é a contradição
que examinaremos agora.
O controle sobre o processo de trabalho e o trabalhador sempre foi
crucial para a capacidade do capital de sustentar a lucratividade e a
acumulação de capital. Durante toda a sua história, o capital inventou,
inovou e adotou formas tecnológicas cujo principal objetivo é melhorar seu
controle sobre o trabalho, tanto no processo do trabalho quanto no mercado
de trabalho. Essa tentativa de controle envolve não só a eficiência física,
mas também a autodisciplina dos trabalhadores empregados, a qualidade da
mão de obra disponível no mercado, os hábitos culturais e a mentalidade
dos trabalhadores em relação às tarefas que se espera que realizem e os
salários que esperam receber.
O objetivo principal de muitos inovadores era o controle do trabalho.
Na França do Segundo Império, um industrial famoso por suas inovações
na indústria de máquinas-ferramentas declarou que seus três objetivos eram
aumentar a precisão do processo de trabalho, ampliar a produtividade e tirar
poder do trabalhador. É por isso, sem dúvida, que Marx argumentou que a
inovação tecnológica era uma arma crucial na luta de classes, e que muitas
inovações foram adotadas pelo capital com o objetivo único de impedir as
greves. Foi assim, certamente, que surgiu a crença fetichista do capital de
que a solução para obter uma lucratividade sempre crescente era a constante
inovação tecnológica voltada para o disciplinamento e o desempoderamento
dos trabalhadores. O sistema fabril, o taylorismo (que tentou reduzir o
trabalhador a um “gorila treinado”), a automação, a robotização e a
substituição do trabalho humano pela máquina correspondem a esse desejo.
Os robôs não reclamam, não respondem, não processam ninguém, não
ficam doentes, não desaceleram, não se desconcentram, não fazem greve,
não exigem aumentos de salário, não se preocupam com as condições de
trabalho, não querem intervalos para o café nem faltam ao trabalho (a não
ser nas histórias de ficção científica).
A fantasia capitalista do controle total sobre o trabalho e o trabalhador
tem suas raízes nas circunstâncias materiais, principalmente na dinâmica da
luta de classes em todas as suas manifestações, tanto dentro quanto fora do
processo de produção. O papel do desemprego tecnologicamente induzido na regulação dos salários, a busca de produtos cada vez mais baratos para
sustentar a mão de obra (fenômeno Walmart), a fim de tornar mais
aceitáveis os baixos salários, a crítica a qualquer proposta de salário social
(como se fosse um incentivo ao ócio) e outras manobras semelhantes
constituem um domínio da luta de classes em que as invenções e mediações
tecnológicas são cruciais. E é isso que torna tão estranha a apresentação de
Arthur, pois esses fatos históricos óbvios e elementares (tão
maravilhosamente satirizados em Tempos modernos, de Charlie Chaplin)
não entram em sua explicação da evolução combinatória, que tem de fato
um papel crítico nos detalhes da mudança tecnológica.
Temos aqui a contradição central: se o trabalho social é a grande fonte
de valor e lucro, substituí-lo por máquinas ou trabalho robótico não faz
sentido, nem política nem economicamente. Mas percebemos com muita
clareza qual mecanismo leva essa contradição a um ponto de crise.
Empreendedores ou empresas individuais consideram que as inovações que
poupam trabalho são decisivas para a lucratividade perante os concorrentes.
Coletivamente, isso destrói a possibilidade de lucro.
Em um livro recente, Martin Ford apresenta um argumento justamente
sobre esse problema. Segundo ele, à medida que a vanguarda do dinamismo
tecnológico passa dos sistemas mecânicos e biológicos para a inteligência
artificial, há um enorme impacto na disponibilidade de emprego não só na
indústria e na agricultura, mas também nos serviços e até nas profissões.
Consequentemente, a demanda agregada por bens e serviços entra em
colapso, enquanto emprego e renda desaparecem. Isso terá efeitos
catastróficos na economia, a menos que o Estado descubra uma maneira
intervir com estímulos redistributivos aos setores da população que se
tornaram redundantes e descartáveis.
André Gorz apresentou exatamente o mesmo argumento, porém de uma
perspectiva política diferente:
A lógica microeconômica preferiria que as economias de tempo de trabalho se
traduzissem em economias de salários para as empresas que as realizam: produzindo a
um custo menor, essas empresas serão mais “competitivas” e poderão (sob certas
condições) vender mais. Mas, do ponto de vista macroeconômico, uma economia que
distribui cada vez menos salários, porque usa cada vez menos trabalho, escorrega