17 contradições e o fim do capitalismo

David Harvey · Capítulo 25 de 48

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17 contradições e o fim do capitalismo

Capítulo 6

época do Esclarecimento. Trata-se de nada menos do que uma regressão

(talvez “recuperação” seja um termo melhor) a formas mais antigas de

compreensão da relação entre tecnologia e natureza. Mas essa regressão não

é conservadora ou nostálgica, e evita o sentimentalismo e o misticismo do

pensamento cultural da chamada “Nova Era”. Os “novos princípios” que

devem entrar na economia, sugere Arthur, são formas orgânicas e

processuais de pensar e teorizar. Ironicamente (e Arthur sem dúvida ficaria

chocado se ouvisse isto), essa forma de economia política foi proposta por

Marx, pioneiramente, nos Grundrisse! Só dessa maneira, sugere Arthur,

seremos capazes de apreender as “qualidades da tecnologia moderna, sua

conectividade, sua capacidade de adaptação, sua tendência à evolução, sua

qualidade orgânica. Sua vitalidade desordenada”[5].

As implicações dessa análise da tecnologia para o modo como

entendemos o caráter evolutivo do capital como motor econômico são

profundas:

 

A chegada de novas tecnologias não perturba apenas o status quo pela descoberta de

novas combinações que são versões melhores de bens e métodos que utilizamos. Ela

também põe em marcha uma série de adaptações tecnológicas e de novos problemas, e

assim cria novos nichos de oportunidade que exigem novas combinações, que por sua

vez introduzem novas tecnologias e novos problemas [...] A economia, portanto, está

continuamente aberta para a mudança – uma novidade incessante. Ela se dá

continuamente num processo de autocriação. Está sempre insatisfeita [...] A economia

está continuamente construindo a si mesma.[6]

 

Novas configurações tecnológicas substituem as antigas e, ao fazê-lo,

iniciam fases daquilo que o economista Joseph Schumpeter chamou, de

forma memorável, de “vendavais de destruição criativa”[7]. Modos de viver,

ser e pensar são drasticamente modificados para abarcar o novo em

detrimento do velho. Um bom exemplo é a história recente da

desindustrialização e de sua associação com configurações tecnológicas

excepcionais. A mudança tecnológica nunca é gratuita ou indolor, e o custo

e a dor que produzem não são uniformemente repartidos. Devemos sempre nos perguntar: quem ganha com a criação e quem arca com o impacto da

destruição?

Qual é então o papel das necessidades e exigências do capital nesse

processo? Curiosamente, Arthur ignora as especificidades dessa questão em

seu estudo, muito eficaz em outros aspectos. Eu diria que, na história e na

lógica do capital, há cinco imperativos tecnológicos dominantes, mas

sobrepostos. Vamos considerá-los brevemente.

1. Organização da cooperação e das divisões de trabalho a fim de

maximizar a eficácia, a lucratividade e a acumulação. Desde os primórdios

no exemplo da fábrica de alfinetes de Adam Smith, essa organização

cresceu com o tempo até abarcar boa parte do que hoje cobrem a teoria da

gestão e da organização e a articulação das técnicas de gestão corporativa

otimizadora. A complexidade e a fluidez crescentes de que fala Arthur são

muito evidentes aqui, e as tecnologias envolvidas estão em fluxo perpétuo,

enfatizando cada vez mais o software e as formas organizacionais

assumidas nos últimos tempos pelo capital. A combinação entre comando e

controle, de um lado, e coordenação de mercado, de outro, é instável, mas

eficaz.

2. Necessidade de facilitar a aceleração da circulação do capital em

todas as suas fases e, concomitantemente, necessidade de “destruição do

espaço pelo tempo”, o que tem gerado uma variedade impressionante de

revoluções tecnológicas. Encurtar o tempo de circulação do capital na

produção e no mercado e encurtar o tempo de vida dos produtos de

consumo (culminando na passagem da produção de coisas duráveis para a

produção de espetáculos efêmeros) são imperativos na história do capital,

amplamente reforçados pela competição. É aqui que a relação da tecnologia

com a produção da natureza é mais evidente: criam-se ovelhas para gerar

cordeirinhos com um ano, em vez de três, e a procriação de porcos ocorre

em ritmo acelerado. A velocidade crescente dos meios de transporte e

comunicação diminui o atrito e a barreira da distância geográfica, tornando

a espacialidade e a temporalidade do capital uma característica da ordem

social mais dinâmica do que fixa. O capital cria literalmente seu espaço e

seu tempo, além de sua natureza distinta. A mobilidade das diferentes

formas do capital (produção, mercadorias, dinheiro) e da força de trabalho também é perpetuamente submetida à transformação revolucionária.

Voltaremos a falar desse assunto mais adiante (ver Contradição 12).

As transformações revolucionárias nos meios de comunicação são

paralelas às transformações ocorridas nos transportes e, nos últimos tempos,

ganharam um ritmo inacreditável. A informação instantânea e o acesso a

notícias se tornaram uma força notável, que afeta as políticas públicas e a

própria política. O controle dos meios de comunicação se tornou um

aspecto vital para a reprodução de poder da classe capitalista, e as novas

tecnologias midiáticas (em especial as redes sociais) são uma grande

oportunidade, e também uma armadilha, para a dinâmica da luta de classes,

como vimos nitidamente nas revoltas no Cairo, em Istambul e em outras

cidades ao redor do mundo.

3. Tecnologias de produção e disseminação do conhecimento, para

armazenamento e recuperação de dados e informação, são fundamentais

para a sobrevivência e perpetuação do capital. Não só fornecem tendências

de preço e outras informações que orientam decisões de investimento e

atividades de mercado, como também preservam e promovem concepções

mentais do mundo que facilitam a atividade produtiva, guiam as escolhas

dos consumidores e estimulam a criação de novas tecnologias.

Os bancos de memória do capital são indispensáveis, e já são vastos.

Seu crescimento exponencial se equipara àquele das sofisticadas

tecnologias necessárias para manejá-los, processá-los e atuar sobre eles. Há

muito tempo as informações básicas contidas em registros de terras,

contratos, sentenças jurídicas, registros escolares, prontuários médicos etc.

são fundamentais para o funcionamento do capital. Além disso,

informações desse tipo fornecem dados brutos que podem servir para a

construção de um modelo de economia nacional funcional (mas fictício em

muitos aspectos). Esses dados (desemprego, déficit comercial, oscilações do

mercado de ações, índices de crescimento, atividade industrial, utilização da

capacidade etc.) permitem que se avalie a saúde da economia nacional,

fornecendo uma base para que empresas e órgãos estatais tomem decisões

estratégicas (para o bem e para o mal). Às vezes organismos como o Banco

Mundial ou o FMI parecem se afogar no oceano de dados que produzem, e

uma infinidade de “especialistas” aparece para nos ajudar a compreender as tendências. A introdução de novas tecnologias de processamento de

informações, como as transações digitais em Wall Street (e o uso recente de

nanotecnologias), tem influenciado imensamente o modo de funcionamento

do capital.

4. As finanças e o dinheiro são um domínio crucial para o

funcionamento do capital (ver Contradição 2). Lucros e perdas só podem

ser calculados com exatidão em termos monetários, e a maioria das

decisões econômicas é tomada nesses termos. Embora as tecnologias do

dinheiro tenham permanecido razoavelmente constantes durante longos

períodos, não há dúvida de que a inovação nesse domínio se acelerou a

partir da década de 1930. Nos últimos anos, as inovações no sistema

financeiro e bancário mostraram uma tendência de crescimento exponencial

depois do advento da informatização, do dinheiro eletrônico e das

transações eletrônicas, além da proliferação de toda uma nova gama de

veículos de investimento. A tendência de criação de capitais fictícios de

livre circulação cresceu de forma considerável, junto com todos os tipos de

práticas predatórias no sistema de crédito que têm contribuído para a onda

de acumulação por espoliação e especulação com os valores patrimoniais.

Em nenhum outro campo vemos uma interação tão estreita entre as novas

possibilidades de hardware, a criação de novas formas de organização

(fundos de participação privada, hedge funds e uma série de complexas

agências estatais reguladoras) e, é claro, uma incidência impressionante de

desenvolvimento de softwares. As tecnologias do sistema monetário e

financeiro mundial são uma grande fonte de tensão e, ao mesmo tempo, um

campo de atividade capitalista insuperável em termos de importância e

“vitalidade desordenada”.

5. Por fim, temos a questão do controle do trabalho e da mão de obra.

Esse é um campo crucial para o capital e, por isso, tratarei do assunto em

detalhes mais adiante.

As tecnologias tinham de evoluir da forma como evoluíram? Está claro

que certas decisões liberaram a inovação tecnológica das restrições que

impediram o desenvolvimento de novas tecnologias em outras épocas e

lugares (a incapacidade da China de aplicar as descobertas tecnológicas é o

exemplo mais flagrante). Há também exemplos de resistência às novas configurações tecnológicas por razões éticas e morais, desde a luta dos