17 contradições e o fim do capitalismo
Capítulo 5
de riquezas para uma classe rentista cada vez mais poderosa. Os chamados
recursos “naturais” também podem ser comprados, mesmo que não sejam
um produto do trabalho social. Mas a mercantilização da natureza tem
certos limites, porque algumas coisas (como a atmosfera e os agitados
oceanos) não podem ser facilmente cercadas e privatizadas. Se os peixes
tirados do oceano podem facilmente ser mercantilizados, as águas em que
nadam representam um problema muito diferente. No entanto, é possível
criar mercados em torno dos direitos de usufruto, por exemplo, da poluição
do ar e dos oceanos, ou dos direitos exclusivos de arrendamento da pesca
em determinadas zonas (apenas barcos de arrasto espanhóis pescam na
parte do sul do Oceano Atlântico reivindicada pela Argentina como sua).
O cercamento e a divisão da terra, do trabalho (pela extensão da divisão
social e detalhada do trabalho) e do poder monetário (em especial dinheiro
fictício e capital monetário creditício) como mercadorias foram cruciais
para essa transição ao sistema de direitos de propriedade privada que
confere base legal para as operações do capital. A contradição entre Estado
e propriedade privada, portanto, substitui uma concepção viva e fluida da
relação com a natureza pela ideia de que a natureza deve ser interpretada
como “um imenso posto de gasolina”, como Heidegger lamentou certa
vez [5]. Ela também deslocou todos os pressupostos culturais vinculados aos
regimes de propriedade comum e aos direitos consuetudinários mais
característicos dos modos anteriores de produção (devo ressaltar que isso
não justifica certo sentimento nostálgico pela ordem social na qual esses
direitos e práticas se inseriam). Substituiu os variados modos de ser e de
viver no mundo por uma doutrina de “direitos humanos” universais,
evidentes e individualizados, voltados à produção de valor, que esconde por
trás de uma doutrina legal universalista e naturalizada o rastro de violência
que acompanhou a espoliação das populações indígenas. Até hoje, no
entanto, é mais provável que dissidentes e opositores – vistos cada vez mais
como terroristas – sejam mais propensos a ser encarcerados em prisões do
que a viver a miniutopia dos bairros burgueses.
Nesse mundo construído, certas verdades se sobressaem como
evidentes. A principal é que tudo que existe no planeta deve, em princípio e sempre que tecnicamente possível, ser submetido a mercantilização,
monetização e privatização. Já tivemos oportunidade de comentar que
habitação, educação, assistência médica e serviços públicos penderam nessa
direção; agora podemos acrescentar a esse grupo as atividades bélicas e até
as governamentais, na medida em que esses setores são cada vez mais
terceirizados. Os abençoados com poder monetário podem comprar (ou
roubar) quase tudo, excluindo a massa da população que não tem poder
monetário, malícia subversiva ou influência política/militar para competir.
Mas o fato de hoje ser possível comprar desde direitos de propriedade até
sequências genéticas, créditos de carbono e derivativos climáticos deveria
ser motivo de reflexão, considerando-se os alertas de Polanyi. O problema,
no entanto, é que isso aparenta estar tão entranhado na ordem burguesa
“natural” e inabalável das coisas que parece não só compreensível, mas
também inevitável que essa situação rotineira seja capaz de dominar a vida
social em esferas da atividade cultural e social nas quais isso não deveria
acontecer. Em todos os lugares, o valor de troca é o mestre e o de uso, o
escravo. É nesse contexto que se torna imperativa a revolta da massa da
população contra o acesso inadequado a valores de uso fundamentais.
Esse imperativo se une à crítica sistêmica e à revolta contra a política
continuada de apropriação e acumulação por espoliação, baseada numa
relação confusa e contraditória com as doutrinas jurídicas universais dos
direitos de propriedade privada que deveriam regular as relações entre
Estado e indivíduo de tal maneira que espoliações coercitivas, roubos,
assaltos e trapaças não tenham lugar. A constitucionalidade e a legalidade
do capital, aparentemente, baseiam-se em uma mentira ou, na melhor das
hipóteses, em ficções confusas, se nos guiarmos pelos eventos ocorridos
nos últimos anos no mercado financeiro e habitacional. No entanto, não
temos ainda uma percepção comum sobre qual seria exatamente a natureza
dessa mentira. O resultado é que reduzimos o problema da acumulação pela
espoliação à incapacidade de aplicar, pôr em prática e regulamentar de
maneira satisfatória os comportamentos do mercado.
Ainda podemos fazer duas observações a partir dessa formulação. Em
primeiro lugar, o que garante que os indivíduos que saqueiam e abusam da
riqueza comum agirão coletivamente para garantir a reprodução dessa riqueza comum? Pessoas ou empresas que agem por interesses imediatistas