17 contradições e o fim do capitalismo
7. A unidade contraditória entre produção e realização
Contradição 7
A unidade contraditória entre produção e
realização
À medida que flui, o capital passa por dois controles importantes, nos quais
é registrado seu desempenho no que diz respeito ao aumento quantitativo
que está na raiz do lucro. No processo de trabalho ou em seu equivalente, o
valor é agregado pelo trabalho. Mas esse valor agregado permanece latente,
efetivando-se apenas quando é realizado mediante venda no mercado. A
circulação contínua do capital depende da passagem bem-sucedida (o
sucesso é medido como taxa de lucro) por dois momentos: primeiro, a
produção no processo de trabalho; segundo, a realização no mercado. No
entanto, a unidade que necessariamente prevalece entre esses dois
momentos, dentro do processo de circulação do capital, é contraditória.
Qual é, então, a principal forma dessa contradição?
No primeiro volume de sua análise épica do capital, Marx desconsidera
todos os problemas da realização no mercado para estudar como se produz
o mais-valor que sustenta o lucro. Mantidas todas as condições (o que,
obviamente, nunca acontece), espera-se que o capital tenha um forte
incentivo para pagar o mínimo possível aos trabalhadores, fazê-los trabalhar
o máximo de horas, com a maior intensidade possível, fazê-los arcar com a
maior parte possível dos custos de sua própria reprodução (mediante
atividades e tarefas domésticas) e mantê-los tão dóceis e disciplinados quanto possível (por coerção, se necessário) no processo de trabalho. Para
isso, é extremamente conveniente (se não essencial) que o capital tenha à
disposição uma vasta reserva de mão de obra treinada e ociosa – o que
Marx chamou de “exército industrial de reserva” –, para manter sob
controle as aspirações dos que se encontram empregados. Quando esse
mais-trabalho não existe, o capital precisa criá-lo (daí o significado das
duas forças análogas do desemprego induzido tecnologicamente e do acesso
a novos excedentes de trabalho, como ocorreu na China nos últimos trinta
anos). Também é importante que o capital evite, se possível, toda e qualquer
forma de organização coletiva dos trabalhadores e mantenha sob controle,
por qualquer meio possível, todo desejo de influenciar politicamente o
aparelho estatal.
O resultado dessas práticas do capital, como teorizou Marx no Livro I
de O capital, seria, de um lado, a produção de uma riqueza cada vez maior
para o capital e, de outro, o empobrecimento, a degradação e a perda
crescentes de dignidade e poder das classes trabalhadoras, que são, na
verdade, as que produzem a riqueza.
No Livro II de O capital – volume pouco lido, mesmo por exímios
estudiosos de esquerda –, Marx estuda as condições de realização, supondo
que não há problemas na produção. Apresenta uma série de conclusões
teóricas incômodas, embora preliminares (o volume não foi acabado). Se o
capital faz tudo que deveria fazer, de acordo com a análise do Livro I, para
garantir a produção e a apropriação de mais-valor, então a demanda
agregada da força de trabalho no mercado tende a se restringir, talvez até a
sistematicamente diminuir. Além disso, se os custos da reprodução social
dos trabalhadores forem jogados de volta para a família, os trabalhadores
não comprarão bens e serviços no mercado. A ironia é que quanto mais os
trabalhadores assumem o custo de se reproduzir, menos incentivo têm para
trabalhar para o capital. Além do mais, um amplo exército de reserva de
desempregados não é uma fonte crescente de demanda agregada (exceto
quando é respaldada por generosos subsídios do Estado), do mesmo modo
que salários decrescentes (entre eles a diminuição da contribuição do
Estado ao salário social) não constituem a base para um mercado em
expansão.
Temos aqui uma séria contradição:
Os trabalhadores, como compradores de mercadorias, são importantes para o mercado.
Mas como vendedores de sua mercadoria – a força de trabalho –, a sociedade
capitalista tem a tendência de reduzi-los ao mínimo do preço. Contradição adicional:
as épocas em que a produção capitalista desenvolve todas as suas potencialidades
mostram-se regularmente como épocas de superprodução, porquanto as potências
produtivas jamais podem ser empregadas a ponto de, com isso, um valor maior poder
não só ser produzido como realizado; mas a venda das mercadorias, a realização do
capital-mercadoria e, assim, também a do mais-valor, está limitada não pelas
necessidades de consumo da sociedade em geral, mas pelas necessidades de consumo
de uma sociedade cuja grande maioria é sempre pobre e tem de permanecer pobre.[1]
A falta de uma demanda efetiva agregada no mercado (em oposição à
demanda social da população pobre por valores de uso necessários) cria
uma séria barreira à continuidade do acúmulo de capital. E leva a uma
queda dos lucros. O poder de consumo da classe trabalhadora é um
componente significativo dessa demanda efetiva.
O capitalismo como formação social está eternamente preso nessa
contradição. Ele pode maximizar as condições de produção do mais-valor, e
assim ameaçar a capacidade de realizar o mais-valor no mercado, ou então
manter a demanda efetiva forte no mercado, dando autonomia aos
trabalhadores, e assim ameaçar a capacidade de criar mais-valor na
produção. Em outras palavras, se a economia vai bem de acordo com as
prescrições do Livro I de O capital, provavelmente irá mal do ponto de
vista do Livro II, e vice-versa. Entre 1945 e meados da década de 1970, o
capital, nos países capitalistas avançados, tendeu a uma postura de gestão
de demanda consistente com as prescrições do Livro II (enfatizando as
condições para a realização de valor), mas enfrentou cada vez mais
problemas na produção de mais-valor (ligados em particular a um
movimento de trabalhadores bem organizado e politicamente forte). Na
segunda metade da década de 1970, depois de uma batalha feroz com o
trabalho, adotou uma postura pelo lado da oferta, mais consistente com o
Livro I. Isso enfatizou o cultivo das condições para a produção de mais-
valor (mediante a redução dos salários reais, a sujeição das organizações
trabalhistas e, de modo geral, o desempoderamento dos trabalhadores). De meados da década de 1970 em diante, a contrarrevolução neoliberal – como
é conhecida hoje – resolveu os problemas prementes da produção de mais-
valor, mas criou problemas de realização nos mercados.
Essa história geral, obviamente, é uma simplificação grosseira, mas dá
um exemplo claro de como a unidade contraditória entre produção e
realização se manifesta historicamente. Esse exemplo também deixa claro
que os processos de formação e resolução de crises estão ligados entre si
pelo modo como as crises passam da produção à realização e depois voltam
à produção. Curiosamente, na teoria e na política econômicas houve
mudanças semelhantes. Por exemplo, a gestão keynesiana da demanda
(amplamente consistente com a análise do Livro II de O capital) dominou o
pensamento econômico na década de 1960, ao passo que as teorias
monetaristas pelo lado da oferta (em geral consistentes com a análise do
primeiro volume) foram predominantes mais ou menos a partir da década
de 1980. Acho importante situar a história dessas ideias e políticas públicas
nos termos de uma unidade subjacente contraditória entre produção e
realização como é apresentada pelos dois primeiros volumes de O capital.
No entanto, a contradição entre produção e realização pode ser
amenizada de diversas maneiras. Para começar, em face da queda dos
salários, pode-se aumentar a demanda mediante a expansão da quantidade
total da força de trabalho (como aconteceu quando a China começou a
mobilizar seu mais-trabalho latente a partir de 1980), o consumo ostensivo
da burguesia ou a existência e a expansão de camadas da população que não
estão envolvidas na produção, mas possuem um poder de compra
considerável (altos funcionários do Estado, militares, advogados, médicos,
educadores etc.). Há uma maneira ainda mais significativa de combater essa
contradição: o recurso ao crédito. Não há nada a princípio que impeça o
fornecimento de crédito para sustentar, em igual medida, a produção e a
realização de valores e mais-valores. O exemplo mais claro disso é quando
os financistas concedem empréstimos a construtores para que ergam
conjuntos residenciais com fins especulativos e, ao mesmo tempo, dão
financiamentos hipotecários aos consumidores para que comprem essas
residências. O problema, é claro, é que essa prática pode facilmente
produzir bolhas especulativas do tipo que levou à crise de 2007-2009, sobretudo no mercado habitacional dos Estados Unidos, mas também da
Espanha e da Irlanda. A longa história de booms, bolhas e crashes no ramo
da construção atesta a importância de fenômenos desse tipo na história do
capital.
Mas as intervenções do sistema de crédito também foram construtivas
em alguns aspectos e tiveram um papel positivo na sustentação da
acumulação de capital em épocas difíceis. Como consequência, a
contradição entre produção e realização retornou à contradição entre
dinheiro e formas de valor. A contradição entre produção e realização é
internalizada no sistema de crédito, que, por um lado, empreende uma
atividade especulativa insana (do tipo que provocou a bolha no mercado
habitacional) e, por outro, resolve muitas das dificuldades para se manter
um fluxo de capital uniforme e contínuo através da unidade contraditória
entre produção e realização. As restrições no sistema de crédito exacerbam
a contradição latente entre produção e realização, enquanto o
desencadeamento e a desregulamentação do sistema de crédito fomentam a
atividade especulativa irrestrita, em particular com relação aos valores
patrimoniais. Enquanto houver contradição entre valor de uso e valor de
troca e entre o dinheiro e o trabalho social que o dinheiro representa, o
problema subjacente nunca será resolvido. As crises financeiras e
comerciais surgem frequentemente fora das interconexões entre essas
diferentes contradições.
Há uma série de contradições secundárias ligadas à relação entre
produção e realização. Embora seja inquestionável que o valor agregado
surge no ato de produção, e que a quantidade de valor agregado depende da
exploração do trabalho humano no processo de trabalho, a continuidade do
fluxo possibilita que o valor e o mais-valor sejam realizados em pontos
diferentes do processo de circulação. O produtor capitalista que organiza a
produção de valor e mais-valor não necessariamente realiza esse valor. Se
introduzirmos as figuras do capitalista mercantil, dos banqueiros e
financistas, dos proprietários de terras e imóveis e dos coletores de
impostos, veremos que há vários pontos diferentes em que o valor e o mais-
valor podem ser realizados. Essa realização pode assumir duas formas
básicas. Os capitalistas mercantis e os financistas, por exemplo, ao pressionar fortemente os produtores capitalistas, podem reduzir ao mínimo
o retorno dos produtores diretos e acumular a maior parte do lucro. É assim
que o Walmart e a Apple operam na China, por exemplo. Nesse caso, a
realização não ocorre apenas em um setor diferente; ela ocorre também em
outro país do outro lado do oceano (criando uma importante transferência
geográfica de riquezas).
Outra via para sanar a contradição entre produção e realização é subtrair
dos trabalhadores qualquer participação no excedente que adquiriram para
si, cobrando preços exorbitantes ou impondo aluguéis, taxas e encargos às
classes trabalhadoras para diminuir significativamente sua renda e seu
padrão de vida discricionários. Isso também pode ocorrer pela manipulação
da renda social, de modo que os ganhos obtidos com aposentadoria,
assistência médica, educação e serviços básicos podem ser reduzidos como
parte de um programa político de acumulação por espoliação. É isso que
pretende o atual apelo generalizado a uma política de austeridade do
Estado. O capital pode perder ou ceder às demandas dos trabalhadores no
ponto da produção, mas recuperar o que perdeu ou cedeu (e muito mais)
pelas extrações excessivas no espaço de vida. Os aluguéis caros e o alto
custo da moradia, os juros excessivos cobrados por operadoras de cartão de
crédito, bancos e companhia telefônicas, a privatização dos sistemas de
saúde e educação, a cobrança de taxas e multas aos usuários, tudo isso
onera as populações vulneráveis, mesmo quando tais custos não são
inflados por uma série de práticas predatórias, impostos arbitrários e
regressivos, taxas legais abusivas etc.
Além disso, essas atividades não são passivas, mas ativas. A expulsão
(ou a tentativa de expulsão) de populações pobres e vulneráveis de terras e
locais valorizados por gentrificação, deslocamentos e, muitas vezes,
remoções violentas é uma prática antiga na história do capitalismo,
vivenciada por moradores das favelas do Rio de Janeiro, antigos moradores
dos barracos de Seul, desalojados por procedimentos de domínio eminente
nos Estados Unidos e moradores de favelas na África do Sul. A produção
significa aqui produção de espaço, e a realização assume a forma de ganhos
de capital com renda da terra e valores imobiliários, geralmente dando
poder a construtores e rentistas, em oposição a outras facções do capital.
A unidade contraditória entre produção e realização, portanto, aplica-se
tanto ao destino dos trabalhadores quanto ao capital. A conclusão lógica –
que de modo geral a esquerda tende a deixar de lado ou ignorar – é que
existe necessariamente uma unidade contraditória no conflito e na luta de
classes entre a esfera da vida e a do trabalho.
A ambição política que deveria derivar dessa contradição seria a de
inverter a relação entre produção e realização. A realização deveria ser
substituída pela descoberta e pela afirmação dos valores de uso dos quais a
população em geral precisa, e a produção, portanto, deveria ser orquestrada
para satisfazer essas necessidades sociais. Essa inversão talvez seja difícil
de fazer da noite para o dia, mas a desmercantilização gradual da satisfação
de necessidades básicas é um projeto de longo prazo factível, que se adequa
claramente à ideia de que o motor básico da atividade econômica deveriam
ser os valores de uso, e não a busca perpétua de aumento dos valores de
troca. Se essa exigência parece impossível, vale lembrar que, a partir da
década de 1960, os Estados social-democratas europeus (em particular da
Escandinávia) reorientaram suas economias para a gestão pela demanda
como meio de estabilizar o capitalismo. Desse modo, realizaram em parte –
ainda que sem muita empolgação – a inversão da relação entre produção e
realização imprescindível à passagem para uma economia anticapitalista.
[1] Karl Marx, O capital: crítica da economia política, Livro II: O processo de circulação do capital (trad. Rubens Enderle, São Paulo, Boitempo, 2014), p. 412. A passagem paralela no Livro I, cit., pode ser encontrada na página 721 da edição da Boitempo.