17 contradições e o fim do capitalismo
17. A revolta da natureza humana: alienação universal
Contradição 17
A revolta da natureza humana: alienação
universal
Não é de todo impossível que, a um certo custo, o capital consiga
sobreviver às contradições examinadas até aqui. Poderia fazê-lo, por
exemplo, apoiado numa elite oligárquica capitalista que supervisionaria a
eliminação genocida da população excedente e descartável do mundo, ao
mesmo tempo que escravizaria o restante e construiria ambientes artificiais
isolados para se proteger da devastação de uma natureza externa que se
tornou tóxica, infértil e destrutivamente selvagem. Há muitas histórias
distópicas que descrevem uma grande variedade de mundos semelhantes, e
seria um equívoco vê-las como projetos impossíveis para o futuro de uma
humanidade menos-que-humana. Na verdade, há algo assustadoramente
próximo em algumas dessas histórias, como na ordem social retratada na
trilogia adolescente Jogos vorazes, de Suzanne Collins [a], ou nas sequências
futuristas e anti-humanistas de Cloud Atlas, de David Mitchell. Claramente,
qualquer ordem social desse tipo só poderia existir com base no controle
mental fascista e no exercício contínuo da vigilância e da violência policial,
acompanhados de repressões militares periódicas. Quem não percebe
elementos desse mundo distópico já em execução ao nosso redor está
enganando a si mesmo de maneira extremamente cruel.
O resultado, no entanto, não é que o capital não pode sobreviver a suas
contradições, mas que o custo dessa sobrevivência se torna inaceitável para
a maioria da população. A esperança é que, muito antes de as tendências
distópicas passarem de uns poucos ataques de drones, aqui, e do uso
ocasional de gases venenosos contra o povo por parte de governantes
malucos, ali, ou de políticas homicidas e incoerentes contra todas as formas
de oposição, em um lugar, e de desastres ambientais e fome generalizada,
em outro, para uma verdadeira avalanche de lutas catastróficas e
desigualmente armadas em todo o mundo, jogando os ricos contra os pobres
e os capitalistas privilegiados e seus covardes acólitos contra todo o resto...
a esperança é que surjam movimentos sociais e políticos que digam “Já
basta!” e mudem nosso modo de viver e amar, sobreviver e nos reproduzir.
Deveria ser óbvio que isso significa substituir o motor econômico e suas
racionalidades econômicas irracionais associadas. O que não está claro é
como isso deveria ser feito ou, ainda mais obscuro, qual motor econômico
poderia substituir o motor do capital, dados o estado atual do pensamento e
a lamentável escassez de um debate público construtivo em torno de tal
questão. Nessa análise, entender as contradições do capital é mais do que
útil, pois, como disse o dramaturgo alemão Bertolt Brecht, “a esperança está
latente nas contradições”.
Quando escavamos essa zona de esperança latente, devemos aceitar
desde o princípio algumas proposições básicas. Em O enigma do capital, eu
concluí: “O capitalismo nunca vai cair por si próprio. Terá de ser
empurrado. A acumulação do capital nunca vai cessar. Terá de ser
interrompida. A classe capitalista nunca vai entregar voluntariamente seu
poder. Terá de ser despossuída” [1]. Ainda tenho a mesma opinião e acredito
que é vital que outros a tenham também. Obviamente, para realizar a tarefa
serão necessários um movimento político forte e muito comprometimento
individual. Esse movimento não funcionará sem uma visão ampla e
convincente de uma alternativa em torno da qual se possa aglutinar uma
subjetividade política coletiva. Que tipo de visão pode dar vida a esse
movimento político?
Podemos tentar mudar o mundo gradualmente, pouco a pouco,
favorecendo determinado aspecto de uma contradição (como o valor de uso) em detrimento de outro (como o valor de troca), ou promovendo o
enfraquecimento e a dissolução das contradições particulares (como a que
permite o uso do dinheiro para a apropriação privada da riqueza social).
Podemos tentar mudar as trajetórias definidas pelas contradições mutáveis
(buscando tecnologias não militaristas e mais igualdade num mundo de
liberdades democráticas). Como procurei mostrar aqui, entender as
contradições do capital ajuda a desenvolver uma visão de longo prazo da
direção geral que deveríamos seguir. Da mesma maneira que o advento do
capitalismo neoliberal na década de 1970 direcionou o desenvolvimento do
capital para a privatização e a comercialização, para o domínio mais
enfático do valor de troca e para uma absoluta paixão fetichista pelo poder
monetário, um movimento antineoliberal pode nos colocar num rumo
estratégico totalmente diferente nas próximas décadas. Há indícios na
literatura e nos movimentos sociais de que existe ao menos a vontade de
redesenhar um capitalismo baseado em relações mais sensíveis
ecologicamente e em níveis mais elevados de justiça social e governança
democrática[2].
Há virtudes nessa abordagem gradual. Ela propõe um movimento
pacífico e não violento rumo àquele tipo de mudança social que
testemunhamos nos primeiros estágios dos protestos das praças Tahrir,
Syntagma e Taksim, embora nos três casos as autoridades estatais e
policiais tenham respondido com uma violência e uma brutalidade
inacreditáveis, provavelmente porque esses movimentos tiveram a ousadia
de ir além dos limites da tolerância repressiva. Ela tenta unir
estrategicamente as pessoas em torno de temas comuns, porém limitados.
Também pode ter impactos de longo alcance se houver efeitos contagiosos
em cascata de uma contradição para outra. Imagine como seria o mundo se
a dominação do valor de troca e o comportamento alienado associado à
busca de poder monetário, como descreveu Keynes, fossem
simultaneamente reduzidos e o poder das pessoas privadas para lucrar com
a riqueza social fosse radicalmente reprimido. Imagine, ainda, se a
alienação da experiência contemporânea do trabalho, do consumo
compensatório que nunca satisfaz, dos níveis incalculáveis de desigualdade
econômica e discordância na relação com a natureza diminuísse por conta de uma onda de descontentamento popular com os excessos do capital.
Viveríamos num mundo mais humano, com níveis bem reduzidos de
desigualdade social e conflitos, e muito menos opressão e corrupção na
política.
Isso não diz como os movimentos de oposição – altamente
fragmentados, mas numerosos – podem convergir e se juntar num
movimento solidário mais unificado contra o domínio do capital. A
abordagem gradual não registra e não enfrenta a maneira como as
contradições do capital se relacionam entre si para formar um todo
orgânico. Precisamos urgentemente de uma concepção mais catalítica que
fundamente e anime a ação política. Uma subjetividade política coletiva
tem de se aglutinar em torno de conceitos fundamentais sobre a constituição
de um motor econômico alternativo, caso os poderes do capital sejam
confrontados e superados. Sem isso, o capital não pode ser espoliado nem
suplantado. Para mim, o conceito mais apropriado aqui é o de alienação.
O verbo “alienar” tem uma variedade de sentidos. Como termo jurídico,
significa transferir para outrem um direito de propriedade. Alieno um
pedaço de terra quando o vendo a alguém. Como relação social, refere-se à
alienação (transferência, desvio) de afetos, lealdades e confiança de uma
pessoa, instituição ou causa política para outra. A alienação (perda) de
confiança (em pessoas ou instituições como a lei, os bancos, o sistema
político) pode ser extremamente nociva para o tecido social. Como termo
psicológico passivo, “alienação” significa se isolar e se distanciar de uma
ligação afetiva valiosa. Ela é vivenciada e interiorizada como tristeza e
pesar por uma perda indefinível, que não pode ser recuperada. Como estado
psicológico ativo, significa sentir raiva e hostilidade quando se é ou se sente
oprimido, desprovido ou espoliado, e extravasar essa raiva e hostilidade
contra o mundo, muitas vezes partindo para o ataque sem razão definida
nem objetivo racional. Comportamentos alienados podem surgir, por
exemplo, porque as pessoas se sentem frustradas com a falta de
oportunidades de vida, ou porque sua busca de liberdade acaba em
dominação.
Essa diversidade de significados é útil. O trabalhador aliena legalmente
o uso de sua força de trabalho por determinado período para o capitalista e recebe em troca um salário. Durante esse tempo, o capitalista exige lealdade
e atenção do trabalhador, e o trabalhador deve confiar que o capitalismo é o
melhor sistema de geração de riqueza e bem-estar para todos. No entanto, o
trabalhador é isolado de seu produto, dos outros trabalhadores, da natureza
e de todos os outros aspectos da vida social enquanto durar o contrato de
trabalho e geralmente até depois (dada a natureza exaustiva do trabalho).
Privação e despossessão são vivenciadas e interiorizadas pelo trabalhador
como uma sensação de perda e pesar diante da frustração de seus instintos
criativos. Por fim, ele abandona a melancolia e o mau humor e sente raiva
da fonte imediata de sua alienação: o chefe que o faz trabalhar demais ou o
cônjuge que quer jantar e fazer sexo sem se solidarizar com seu cansaço.
Nesse estado totalmente alienado, o trabalhador joga areia no motor da
máquina no trabalho ou atira xícaras no cônjuge em casa.
O tema da alienação está presente em muitas das contradições que
examinei aqui. O contato tátil com a mercadoria – seu valor de uso – é
perdido e a relação sensorial com a natureza é obstruída pela dominação do
valor de troca. O valor social e o significado do trabalho ficam obscurecidos
na forma representacional do dinheiro. A capacidade de tomar decisões
coletivas de maneira democrática é perdida na batalha perpétua entre as
racionalidades conflitantes dos interesses privados isolados e dos poderes
de Estado. A riqueza social desaparece no bolso de pessoas privadas
(produzindo um mundo de riqueza privada e miséria pública). Os
produtores diretos de valor são alienados do valor que produzem. A
formação de classes cria um abismo intransponível entre as pessoas. A
proliferação da divisão do trabalho torna cada vez mais difícil ver o todo em
relação a partes cada vez mais fragmentadas. Todas as perspectivas de
igualdade ou justiça sociais se perdem, e a universalidade da igualdade
perante a lei é anunciada como a suprema virtude burguesa. Transbordam
os ressentimentos acumulados diante da acumulação por espoliação no
âmbito da realização do capital (por exemplo, despejos e execuções
hipotecárias). A liberdade se torna dominação, a escravidão é liberdade.
O problema político catalítico que deriva disso é identificar, enfrentar e
superar as muitas formas de alienação produzidas pelo motor econômico do
capital e canalizar a energia contida, a fúria e a frustração para uma oposição anticapitalista coerente. Será que nos atrevemos a esperar uma
relação inalienada (ou no mínimo menos alienada e mais humanamente
aceita) com a natureza, o outro, o trabalho que executamos e o modo como
vivemos e amamos? Para isso acontecer, temos de entender a fonte de
nossas alienações. E é exatamente isso que o estudo das contradições do
capital tanto contribui para esclarecer.
A abordagem marxista tradicional da transformação revolucionária para
o socialismo/comunismo é focalizar a contradição entre as forças produtivas
(tecnologia) e as relações sociais (classe). Na tradição dos partidos
comunistas, essa transição era vista não como uma questão subjetiva,
psicológica e política, mas científica e técnica. A discussão desconsiderou a
alienação, porque era um conceito não científico com ares de humanismo e
desejo utópico articulados pelo jovem Marx nos Manuscritos econômico-
filosóficos de 1844, e não pela ciência objetiva de O capital. Essa postura
cientificista não conseguiu capturar a imaginação política das alternativas
viáveis, apesar das crenças apaixonadas dos defensores da causa comunista.
Tampouco conseguiu apresentar uma razão espiritualmente convincente e
subjetiva (em vez de cientificamente necessária e objetiva) para mobilizar
as armas no oceano da luta anticapitalista. Não conseguiu nem sequer
enfrentar a loucura da razão econômica e política prevalecente (em parte
porque o comunismo científico abarcou muito dessa razão econômica e seu
apego fetichista à produção pela produção). Na verdade, não conseguiu
desmascarar os fetichismos e as ficções difundidas em nome das classes
dominantes para proteger a si mesmas de qualquer dano. Por isso, o
movimento comunista tradicional estava em constante perigo de reproduzir
involuntariamente esses fetichismos e ficções. Além disso, foi vítima das
visões estáticas e dogmáticas dos líderes de um partido de vanguarda todo-
poderoso. O centralismo democrático, que funcionava muito bem na
oposição e em momentos de repressão violenta, mostrou que era um fardo
desastroso à medida que o movimento se aproximava do exercício de seu
poder legítimo. Sua busca de liberdade produziu dominação.
No entanto, há mais do que um grão de verdade na ideia de uma
contradição central entre as revoluções nas forças produtivas e suas relações
sociais conflituosas e contraditórias. Há, como vimos no caso da Contradição 8, uma profunda conexão entre a evolução técnica do capital e
a transformação radical do trabalho e do valor social. Mas existem outras
implicações quando abordamos essa e outras contradições (como as que
surgem das divisões do trabalho) do ponto de vista da alienação. André
Gorz foi o primeiro a esclarecer essa questão, por isso apenas sigo seu
raciocínio.
“A racionalização econômica do trabalho” que ocorre com o
desenvolvimento capitalista dos poderes tecnológicos, escreve Gorz, produz
“indivíduos que, alienados em seu trabalho, serão necessariamente
alienados em seu consumo e, consequentemente, em suas necessidades”.
Quanto mais dinheiro os indivíduos tiverem disponível (e, como vimos, o
dinheiro tem o potencial de crescer sem limite, mesmo quando é depositado
em contas bancárias individuais), mais suas necessidades individuais
aumentarão, se esses indivíduos tiverem de representar o papel econômico
de “consumidores racionais” (“racionais” do ponto de vista do capital).
Desse modo, estabelece-se uma relação dialética, uma espiral de interações,
entre o desejo de dinheiro e uma economia de necessidades fomentada no
interior da ordem social. A ideia de uma boa vida estável e de um bem viver
com exigências modestas é substituída por um desejo insaciável de obter
mais e mais poder financeiro para dominar mais e mais bens de consumo. O
resultado é “eliminar a antiga ideia de liberdade e autonomia existencial” e
trocar a liberdade verdadeira pelas liberdades limitadas de uma luta
interminável para participar do mercado e ganhá-lo [3].
Vamos analisar os detalhes desse argumento. Segundo Gorz:
A questão essencial é até que ponto as habilidades e faculdades empregadas por um
trabalho constituem uma cultura ocupacional, e até que ponto há unidade entre a
cultura ocupacional e a cultura da vida cotidiana – entre trabalho e vida. Até que
ponto, em outras palavras, o envolvimento do indivíduo no trabalho implica o
enriquecimento ou o sacrifício de seu ser individual.
Aparentemente, a tecnologia do trabalho é indiferente a essa questão,
mas, como vimos, grande parte da dinâmica da mudança tecnológica foi
planejada para desempoderar e diminuir o trabalhador. Essa trajetória para a
inovação é profundamente incompatível com o enriquecimento da vida do trabalhador. A tecnologia não origina e não pode originar uma cultura
distintiva acima e além do que ela mesma domina. A violência da
tecnologia está na maneira como ela corta o elo entre a pessoa e a interação
sensorial com o mundo. Isso é, diz Gorz, “uma forma de repressão que nega
nossa própria sensibilidade”. A ternura e a compaixão não são permitidas.
A natureza, como vimos, é tratada “de modo instrumental”:
[isso] violenta a natureza, nosso próprio corpo e o corpo das outras pessoas. A cultura
da vida cotidiana é – com toda a perturbadora ambiguidade que essa criação
antinômica contém – uma cultura da violência ou, em sua forma mais extrema, uma
sistemática, planejada, sublimada e degradada cultura da barbárie. [4]
Evidentemente, isso fica mais claro quando pensamos em ataques de
drones e câmaras de gás. Mas o argumento de Gorz é que isso também
penetra profundamente no núcleo da vida cotidiana através dos
instrumentos que usamos diariamente para vivê-la, entre eles os que
manipulamos no trabalho.
Há, é claro, um desejo profundo na cultura popular de humanizar de
alguma maneira os impactos dessa cultura infrutífera da tecnologia. Vemos
isso no modo como os replicantes em Blade Runner, o caçador de
androides adquirem sentimentos, ou o clone Sonmi-451 aprende uma
linguagem expressiva em Cloud Atlas, ou ainda os robôs de Wall-E
aprendem a chorar e se preocupar, enquanto os seres humanos, abarrotados
de bens de consumo compensatórios, flutuam passivamente, cada um em
uma poltrona mágica, sobre um mundo em ruínas que os robôs tentam pôr
em ordem; ou então, mais negativamente, como HAL, o computador de
2001: uma odisseia no espaço, se transforma num vigarista. A mera
impossibilidade desse sonho de tecnologia humanizadora não impede sua
repetida manifestação. Assim, onde podemos encontrar uma maneira mais
humana de reconstruir nosso mundo?
Continua Gorz:
O trabalho não é apenas criação de riqueza econômica; ele também é sempre um meio
de autocriação. Portanto, também devemos perguntar, a propósito dos conteúdos do
nosso trabalho, se o trabalho produz o tipo de homens e mulheres que gostaríamos que
constituísse a humanidade.[5]
Sabemos que muitos, talvez a maioria, dos trabalhadores não são felizes
com o que fazem. Por exemplo, uma pesquisa extensa realizada pela Gallup
nos Estados Unidos mostrou que cerca de 70% das pessoas que trabalham
em tempo integral ou odiavam ir para o trabalho ou se afastaram
mentalmente dele, tornando-se sabotadores que espalham descontentamento
e cuja perda de eficiência pesa no bolso do empregador. Os 30% que se
sentiam comprometidos com o trabalho eram basicamente o que Gorz
chamou de trabalhadores “reprofissionalizados” (designers, engenheiros e
gestores de sistemas tecnológicos altamente complexos). Essa classe de
trabalhadores, pergunta Gorz, está “mais próxima de um possível ideal de
humanidade do que o tipo mais tradicional de trabalhador? As tarefas
complexas que recebem preenchem a vida deles, dão sentido a ela, sem ao
mesmo tempo distorcê-la? Como, em suma, esse trabalho é vivido?”. A
violência da cultura técnica pode ser transcendida?
A resposta de Gorz é desencorajadora. Certamente a tecnologia pode ser
usada “para aumentar a eficiência do trabalho e reduzir o esforço envolvido
e as horas de dedicação”, mas isso tem um preço. “Ela separa o trabalho da
vida, e a cultura ocupacional da cultura da vida cotidiana; requer uma
dominação despótica do sujeito em troca de uma dominação maior da
natureza; reduz o campo da experiência vivida e da autonomia existencial;
separa o produtor do produto até que aquele não conheça mais o propósito
do que faz”. Se isso não é uma alienação total dentro do processo de
trabalho, então o que é?
“O preço que temos de pagar pela tecnicização só é aceitável”, continua
Gorz, “se houver economia de tempo e trabalho. Esse é o objetivo
declarado e não pode haver outro. É nos permitir produzir mais e melhor
em menos tempo e com menos esforço.” Não há nenhuma ambição aqui de
que “o trabalho preencha a vida do indivíduo e seja sua principal fonte de
sentido”. Isso define o cerne da contradição dentro do processo de trabalho.
Ao poupar tempo e esforço no trabalho, a tecnologia destrói todo o sentido
para o trabalhador. “Um trabalho com o efeito e o objetivo de poupar trabalho não pode, ao mesmo tempo, enaltecer o trabalho como principal
fonte de identidade e realização pessoal. O significado da revolução
tecnológica atual não pode ser reabilitar a ética do trabalho e a identificação
com o trabalho.” Ela só poderia ter sentido se libertasse o trabalhador da
árdua tarefa laboral em troca de “atividades não laborais em que todos nós,
inclusive o novo tipo de trabalhador, desenvolvêssemos aquela dimensão da
nossa humanidade que não encontra saída no trabalho tecnicizado” [6].
Quer tome a forma de desemprego, marginalização e falta de estabilidade no emprego,
quer de uma redução geral das horas de trabalho, a crise da sociedade baseada no
trabalho (ou seja, baseada no trabalho segundo o sentido econômico da palavra) obriga
os indivíduos a procurar fora do trabalho as fontes de identidade e pertencimento
social.
É somente fora do trabalho que o trabalhador tem a possibilidade de se
realizar pessoalmente, adquirir autoestima e, consequentemente, “a estima
dos outros” [7].
A sociedade como um todo foi forçada a fazer uma escolha existencial:
ou a esfera econômica da acumulação do capital era cerceada para permitir
o livre desenvolvimento das capacidades e potencialidades humanas sem a
tirania do mercado e do trabalho, “ou então a racionalidade econômica teria
de fazer com que as necessidades dos consumidores crescessem pelo menos
tão rápido quanto a produção de mercadorias e serviços mercantilizados”.
Esse é exatamente o problema que Martin Ford identifica, exceto que ele
evita falar de qualquer alternativa à racionalidade econômica capitalista.
Mas nessa última eventualidade – o caminho que foi realmente escolhido –
“o consumo teria de ser [organizado] a serviço da produção. A produção
não teria mais a função de satisfazer as necessidades existentes da maneira
mais eficiente possível; ao contrário, as necessidades é que teriam cada vez
mais a função de permitir à produção continuar crescendo”. O resultado foi
paradoxal:
A eficiência máxima ilimitada na [realização] do capital exigia uma ineficiência
máxima ilimitada na satisfação das necessidades, e um desperdício máximo ilimitado
no consumo. Era preciso romper as fronteiras entre necessidades e desejos; era preciso
criar o desejo de produtos mais caros, mas com um valor de uso igual ou menor que os
anteriores; era preciso tornar absolutamente necessário o que antes era apenas
desejado. Em suma, era preciso criar uma demanda, criar consumidores para os
produtos que fossem mais rentáveis de se produzir e, com esse objetivo, reproduzir
incessantemente novas formas de escassez no cerne da opulência, pela inovação
acelerada e obsolescência, pela reprodução de desigualdades em um nível cada vez
mais elevado.[8]
Para a maioria das pessoas, a criação de necessidades tinha prioridade
sobre a satisfação de necessidades.
“A racionalidade econômica precisava elevar continuamente o nível de
consumo sem aumentar a taxa de satisfação; recuar a fronteira do suficiente,
manter a impressão de que não pode haver o suficiente para todos.” A
estratificação do consumo, em que o consumismo de uma classe ociosa
abastada e parasita dava as ordens e mostrava o caminho, tornou-se crucial
para garantir a realização de valor. É isso que Thorstein Veblen expõe de
maneira tão brilhante em Teoria da classe ociosa, publicado em 1899. No
entanto, hoje sabemos que, se essa classe não existisse, teria de ser
inventada [9]. O consumismo alienante é necessário para resolver o dilema
de uma demanda efetiva em queda, produzida pela contenção salarial e pelo
desemprego induzido tecnologicamente na massa dos trabalhadores. Estes,
mergulhados num mar de consumo cada vez mais ostensivo, veem-se
tentando maximizar freneticamente sua renda, trabalhando cada vez mais
para atender a necessidades artificialmente exacerbadas e manter-se no
nível dos outros.
Em vez de trabalhar menos horas, como permitiriam as novas
tecnologias, a massa da população se vê trabalhando mais. Observe que isso
também tem um fim social. Permitir tempo livre para que mais indivíduos
busquem seus objetivos de realização é terrível para as perspectivas do
controle sólido e contínuo do capital sobre o trabalho, tanto no local de
trabalho quanto no mercado. Na “racionalidade econômica [capitalista] não
há lugar para o tempo autenticamente livre, que não produz nem consome
riquezas mercantis”, escreve Gorz. “Ela exige o emprego em tempo integral
dos indivíduos empregados, em virtude não de uma necessidade objetiva,
mas de sua lógica originária; os salários devem ser fixados de maneira a incentivar os trabalhadores ao máximo esforço.” As reivindicações salariais
dos sindicatos “são, na verdade, as únicas reivindicações que não destroem
a racionalidade do sistema econômico”. O consumo racional – quer dizer,
racional em relação à acumulação perpétua do capital – torna-se uma
necessidade absoluta para a sobrevivência do capital.
As reivindicações relacionadas às horas e à intensidade do trabalho, sua organização e
natureza, por outro lado, carregam no ventre um radicalismo subversivo; não podem
ser resolvidas com dinheiro, atacam a racionalidade econômica em sua substância e,
através dela, o poder do capital. A “ordem mercantilista” é fundamentalmente
desafiada quando as pessoas descobrem que nem todos os valores são quantificáveis,
que o dinheiro não pode comprar tudo, e aquilo que ele não pode comprar é essencial,
ou talvez o mais essencial.[10]
Como diz uma famosa campanha publicitária: “Existem coisas que o
dinheiro não compra, para todas as outras existe Mastercard”.
Persuadir os indivíduos de que os serviços e bens de consumo que são oferecidos a
eles compensam adequadamente os sacrifícios que devem fazer para consegui-los e
que esse consumo constitui um refúgio de felicidade individual que os separa da
multidão faz parte da esfera da publicidade comercial.
Aqui os “loucos” [mad men] da publicidade (hoje responsáveis por
grande parte da atividade econômica nos Estados Unidos) desempenham o
papel principal no que se refere aos estragos causados na ordem social. Sua
missão é persuadir as pessoas a consumir bens que “não são nem
necessários nem meramente úteis”. As mercadorias “são sempre
apresentadas como se tivessem um elemento de luxo, de superfluidade, de
fantasia, que designa o comprador como ‘uma pessoa feliz e privilegiada’ e
assim o protege das pressões do universo racionalizado e da obrigação de se
conduzir de maneira funcional”. Gorz define esses bens como “bens
compensatórios”:
[eles] mais desejados por sua inutilidade – talvez até mais desejados por causa disso –
do que por seu valor de uso, porque é esse elemento de inutilidade (enfeites e
dispositivos supérfluos, por exemplo) que simboliza a evasão do comprador do
universo coletivo para o refúgio da soberania privada.[11]
É justamente esse consumismo do excesso, essa inutilidade que os
“loucos” da publicidade vendem tão bem. Esse consumismo do excesso é
profundamente alheio à satisfação das carências, das necessidades e dos
desejos humanos. Até o papa atual concorda com essa visão. “As
possibilidades ilimitadas de consumo e de distração que esta sociedade
oferece”, queixa-se ele numa exortação apostólica, levam a “uma espécie de
alienação que nos afeta a todos, pois ‘alienada é a sociedade que, nas suas
formas de organização social, produção e consumo, torna mais difícil a
realização deste dom e a constituição dessa solidariedade inter-
humana’.” [12]
Mas, como afirma Gorz, “os trabalhadores funcionais, que aceitam ser
alienados em seu trabalho porque as possibilidades de consumo que este
oferece são uma compensação adequada para eles, só podem existir se,
simultaneamente, tornarem-se consumidores socializados. No entanto,
apenas um setor da economia de mercado e da publicidade comercial é
capaz de produzir esses consumidores socializados”[13]. Foi exatamente no
que resultou o movimento revolucionário de 1968, com toda sua retórica
pomposa de liberdade individual, autonomia e justiça social – perdido no
mundo do consumismo alienado, afogando-se numa riqueza de bens
compensatórios, cuja propriedade era interpretada como sinal de liberdade
de escolha no mercado dos desejos humanos.
O progresso do consumismo alienado ou compensatório tem sua própria
dinâmica destrutiva. Requer que aquilo que Schumpeter chamou de
“destruição criativa” se instale sobre a terra. A vida cotidiana na cidade, as
formas estabelecidas de vida, de relação e de socialização são
sucessivamente desfeitas para dar passagem à última moda ou tendência. As
demolições e os deslocamentos que dão passagem à gentrificação ou
disneyficação rompem os tecidos da vida urbana para dar lugar ao
espalhafatoso e colossal, ao efêmero e passageiro. Espoliação e destruição,
deslocamento e construção tornam-se veículos de uma acumulação de
capital vigorosa e especulativa, à medida que a figura do financista e do rentista, do construtor, do proprietário de terras e do prefeito empreendedor
sai das sombras e surge sob os holofotes da lógica da acumulação do
capital. O motor econômico que é a circulação e a acumulação de capital
devora cidades inteiras apenas para depois cuspir novas formas urbanas,
apesar da resistência das pessoas, que se sentem totalmente alienadas dos
processos que não só remodelam o ambiente em que vivem, mas também
redefinem o tipo de pessoa que elas devem se tornar para sobreviver. Os
processos da reprodução social são reprojetados de fora para dentro pelo
capital. A vida cotidiana é deturpada pela circulação de capital. A coalizão
dos que resistem a essa redefinição forçada da natureza humana constitui
um grupo de indivíduos apartados que periodicamente eclode em motins e
movimentos potencialmente revolucionários, do Cairo a Istambul, de
Buenos Aires a São Paulo, de Estocolmo a El Alto.
No entanto, tudo isso repousa sobre a posse de dinheiro suficiente, a
necessidade opressora que persuade “estratos sociais antes não remunerados
a buscar trabalho assalariado”, o que depois aumenta “a necessidade de
consumo compensatório”. Como resultado, “ser pago torna-se o objetivo
primordial da atividade, até chegar ao ponto em que qualquer atividade que
não tenha compensação financeira deixa de ser aceitável. O dinheiro
suplanta outros valores e torna-se sua única medida”. Há, além disso, “um
incentivo para se retirar rumo à esfera privada e dar a ela prioridade, um
incentivo para buscar vantagens ‘pessoais’”. Isso, por sua vez:
contribui para a desintegração das redes de solidariedade e assistência mútua, da
coesão social e familiar e do nosso senso de pertencimento. Os indivíduos socializados
pelo consumo (alienado) não são mais indivíduos socialmente integrados, mas
indivíduos encorajados a “ser eles mesmos”, distinguindo-se dos outros e somente se
parecendo com esses outros na recusa (socialmente canalizada para o consumo) de
assumir a responsabilidade pela situação comum praticando uma ação comum.[14]
Os afetos e as lealdades a lugares e formas culturais específicos são
vistos como anacronismos. Não é isso que a difusão da ética neoliberal
propôs e acabou realizando?
Mas, quanto mais tempo se liberou da produção, mais imperativo se
tornou absorver esse tempo no consumo e no consumismo, dado que, como argumentamos antes, na “racionalidade econômica [capitalista] não há lugar
para o tempo autenticamente livre, que não produz nem consome riquezas
mercantis”. O perigo constante é que os indivíduos livremente associados e
criadores de si mesmos, liberados dos afazeres da produção e abençoados
com toda uma gama de tecnologias que economizam trabalho e tempo para
ajudar a consumi-las (micro-ondas, lavadoras e secadoras, aspiradores de
pó, além de banco eletrônico, cartões de crédito e automóveis), comecem a
construir uma alternativa ao mundo não capitalista. Eles podem se sentir
inclinados a rejeitar a racionalidade econômica capitalista dominante, por
exemplo, e começar a escapar de suas regras opressivas e muitas vezes
cruéis de disciplina do tempo. Para evitar tais eventualidades, o capital deve
não só encontrar maneiras de absorver mais bens e serviços mediante a
realização, mas também ocupar, de alguma maneira, o tempo livre
disponibilizado pelas novas tecnologias. E nisso ele foi muito bem-
sucedido. As pessoas têm cada vez menos tempo livre para atividades
criativas em meio à difusão de tecnologias de economia de tempo na
produção e no consumo.
Como se dá esse paradoxo? Gastamos muito tempo, é claro, para gerir,
operar e manter toda a parafernália doméstica que nos cerca para
economizar tempo, e quanto mais parafernálias temos, mais tempo elas nos
tomam. A mera complexidade desses aparelhos de suporte nos enreda em e-
mails e telefonemas intermináveis para assistências técnicas, companhias
telefônicas e operadoras de cartão de crédito, seguradoras etc. Não há
dúvida também de que os hábitos culturais com que cercamos a adoração
fetichista aos dispositivos tecnológicos atrai o lado lúdico da nossa
imaginação e nos coloca inutilmente assistindo a novelas, navegando pela
internet ou jogando no computador durante horas a fio. A cada esquina
somos cercados por “armas de destruição em massa”.
Mas nada disso explica por que o tempo voa da maneira como tem
voado. A meu ver, a razão mais profunda está na forma estruturada como
capital tem tratado o tema do tempo de consumo como barreira potencial à
acumulação. A produção e a comercialização de bens que não duram,
tornam-se obsoletos ou saem de moda, junto com a produção de eventos e
espetáculos consumidos instantaneamente, culmina, como argumentamos, numa inversão impressionante de categorias à medida que os consumidores
produzem seus próprios espetáculos no Facebook. Embora a renda que o
capital obtém com as redes sociais seja fundamental, essa forma de
consumo também toma uma quantidade inacreditável de tempo. As
tecnologias da comunicação são uma faca de dois gumes: podem ser
manejadas por uma juventude educada e excluída, com propósitos políticos
e até revolucionários, ou podem absorver tempo em papos inúteis, fofocas e
conversas descomprometidas (enquanto produzem continuamente valor
para outros, como os acionistas do Google e do Facebook).
É difícil, se não impossível, refutar a racionalidade econômica
capitalista quando a vida, os processos mentais e as orientações políticas
das pessoas são tomados e absorvidos pelo trabalho pseudoatarefado de
grande parte da produção contemporânea ou pela busca do consumo
alienado. Perder-se em nossos e-mails e no Facebook não é ativismo
político. Gorz entendeu bem a questão: “Se a economia de tempo de
trabalho não serve para liberar tempo, e se o tempo liberado não é para ‘a
livre autorrealização dos indivíduos’, então essa economia de tempo de
trabalho é totalmente desprovida de sentido”[15]. A sociedade pode estar
indo na direção da “redução programada e gradual das horas de trabalho,
sem perda de renda real, em conjunção com políticas que permitirão que
esse tempo liberado se torne o tempo para a livre autorrealização de todos”.
Mas tal desenvolvimento emancipatório é extremamente ameaçador para o
poder da classe capitalista, e as resistências e barreiras são fortes.
O desenvolvimento das forças produtivas pode reduzir por si só a quantidade de
trabalho necessária, mas não pode criar as condições que farão com que essa liberação
de tempo seja uma liberação para todos. A história pode pôr ao nosso alcance a
oportunidade de uma liberdade maior, mas não nos isenta da necessidade de
aproveitarmos a oportunidade e nos beneficiarmos dela. Nossa liberação não
acontecerá como resultado do determinismo material – pelas nossas costas, por assim
dizer. O potencial de liberação contido num processo só pode ser realizado se os seres
humanos se apossam dele e se fazem livres.
Enfrentar coletivamente as múltiplas alienações que o capital produz é
uma maneira convincente de se mobilizar contra o motor econômico engasgado que leva tão imprudentemente o capitalismo de uma crise a
outra, com consequências potencialmente desastrosas para nossa relação
com a natureza e com os outros. A alienação universal exige uma resposta
política vigorosa. Mas que resposta seria essa?
Repito: não existe resposta não contraditória a uma contradição. Uma
análise da variedade de respostas políticas que são dadas hoje à alienação
universal leva a um quadro profundamente perturbador. A ascensão de
partidos fascistas na Europa (particularmente virulenta e proeminente na
Grécia, Hungria e França) e a organização do Tea Party, uma facção do
Partido Republicano que surgiu com o objetivo singular de impedir o
financiamento e forçar a interrupção de atividades [shut down] do governo
dos Estados Unidos e derrubá-lo, são manifestações de grupos da população
profundamente alienados que buscam soluções políticas. Não recuam diante
da violência e estão convencidos de que a única maneira de preservar suas
liberdades é uma política de dominação total. Essa corrente política se apoia
e até certo ponto se combina com respostas militarizadas cada vez mais
violentas a todo e qualquer movimento que ameace romper os muros
daquela tolerância repressiva tão crucial para a perpetuação da
governamentalidade liberal. Consideremos como exemplo: a repressão
policial indevidamente violenta do movimento Occupy nos Estados Unidos;
a resposta ainda mais violenta aos protestos pacíficos na Turquia, que
começaram na praça Taksim; as ações policiais na praça Syntagma, em
Atenas, remetendo às táticas fascistas da Aurora Dourada; a contínua
brutalidade policial contra os manifestos estudantis no Chile; o ataque
organizado do governo aos protestos contra a falta de segurança no trabalho
em Bangladesh; a militarização da resposta à Primavera Árabe no Egito; o
assassinado de líderes sindicais na Colômbia e muito mais. E tudo isso vem
acontecendo sob uma rede em franca expansão de vigilância,
monitoramento e ativismo legislativo punitivo por parte do aparelho estatal,
que visa travar uma guerra contra o terror e tem tendência a considerar
qualquer dissidência anticapitalista ativa e organizada como um ato de
terrorismo.
Há um amplo consenso tanto na extrema direita como na extrema
esquerda do espectro político estadunidense de que o sistema do Estado, tal como se constitui hoje, está excedendo seus poderes e que isso tem de ser
combatido. Isso indica uma alienação generalizada de um sistema estatal
que assumiu historicamente a tarefa de tentar construir um consenso e uma
coesão social (geralmente partindo do apelo a uma ficção construída sobre a
identidade e a unidade nacional) entre linhas partidárias e de classe. A
análise de Foucault sobre a governamentalidade é útil aqui. O Estado
autocrático, absolutista e centralizado legado ao mundo pela Europa, depois
de uma fase de militarismo fiscal nos séculos XVI e XVII, teve de ser
adaptado aos princípios e práticas da burguesia, o que significou uma
adesão à política utópica de um laissez-faire impossível. Essa transição foi
realizada com sucesso na Inglaterra, onde se usou a liberdade como meio
para criar a governamentalidade (como Amartya Sen defendeu depois para
o mundo em desenvolvimento). Isso significou que o Estado capitalista teve
de interiorizar certas limitações aos seus poderes autocráticos e transferir a
produção de consenso a indivíduos que funcionavam livremente,
interiorizando ideias de coesão social em torno do Estado-nação. Mas,
acima de tudo, eles tiveram de concordar com a regulamentação da
atividade pelos procedimentos do mercado. Estabeleceram-se limites claros
ao poder centralizado. Nos Estados Unidos, a política do Tea Party e a
política dos autonomistas e dos anarquistas convergem na tentativa de
limitar ou até mesmo destruir o Estado, embora a direita o faça em nome do
puro individualismo e a esquerda, em nome de um associacionismo
ancorado no individualismo. Particularmente interessante é como o modo
existente de produção e suas articulações políticas definem tanto o espaço
quanto o formato de suas próprias formas principais de oposição. As
práticas hegemônicas do neoliberalismo nas arenas econômica e política
deram origem a formas de oposição descentralizadas e interligadas em rede.
A resposta especificamente de direita à alienação universal é
compreensível, mas também assustadora em suas implicações. Não se pode
dizer, depois de tudo, que as respostas da direita a esse tipo de problema
não tiveram consequências históricas importantes no passado. Será que não
podemos aprender com a história e formular respostas anticapitalistas mais
apropriadas que deem uma solução progressista às contradições do nosso
tempo?
[a] Ed. bras.: trad. Alexandre D’Elia, Rio de Janeiro, Rocco, 2010-2011. (N. E.)
[1] David Harvey, O enigma do capital, cit., p. 209.
[2] Ver discussão em Immanuel Wallerstein et al., Does Capitalism Have a Future?, cit.
[3] André Gorz, Critique of Economic Reason, cit., p. 22.
[4] Ibidem, p. 86.
[5] Ibidem, p. 80.
[6] Ibidem, p. 87-8.
[7] Ibidem, p. 100.
[8] Ibidem, p. 114.
[9] Thorstein Veblen, A teoria da classe ociosa: um estudo econômico das instituições (trad. Olívia Krähenbühl, São Paulo, Abril Cultural, 1983).
[10] André Gorz, Critique of Economic Reason, cit., p. 116.
[11] Ibidem, p. 45-6.
[12] Papa Francisco, “Exortação Apostólica Evangelii Gaudium do Santo Padre Francisco ao episcopado, ao clero, às pessoas consagradas e aos fiéis leigos sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual”, 24 nov. 2013, §196. Disponível em:
<https://w2.vatican.va/content/francesco/it/apost_exhortations.index.html>.
[13] André Gorz, Critique of Economic Reason, cit., p. 46.
[14] Ibidem, p. 46-7.
[15] Ibidem, p. 184.