17 contradições e o fim do capitalismo
2. O valor social do trabalho e sua representação pelo dinheiro
Contradição 2
O valor social do trabalho e sua
representação pelo dinheiro
O valor de troca requer uma medida de “quanto” as mercadorias valem
umas em relação às outras. Essa medida chama-se dinheiro. O que é, então,
esse “dinheiro” que usamos e reusamos diariamente sem refletir sobre ele?
Ficamos preocupados quando não temos dinheiro suficiente, bolamos
maneiras (algumas vezes desonestas ou ilegais) para obter mais dinheiro,
mesmo quando lutamos para nos organizar e viver dentro dos parâmetros
definidos pelo tanto de dinheiro que possuímos. Às vezes parece que o
dinheiro é o Deus supremo do mundo das mercadorias: todos devem curvar-
se diante dele, submeter-se a seus ditames e adorá-lo diante do altar de seu
poder.
Sabemos muito bem quais são as funções técnicas básicas da forma
capitalista do dinheiro. Ele é um meio ou instrumento de circulação (facilita
a troca e resolve o problema da “não coincidência de interesses” que limita
o escambo direto). Oferece uma única régua para o valor de todas as
mercadorias existentes no mercado e uma maneira de armazenar valor. Mas
o que representa e como prolifera o dinheiro em seus significados e funções
sociais e políticas para que pareça que a cobiça por dinheiro é o que faz
girar o mundo social e econômico?
Em primeiro lugar, o dinheiro é um meio pelo qual posso reivindicar
uma parte do trabalho social dos outros, ou seja, reivindicar aquele trabalho
orientado para a produção de bens e serviços para troca nos mercados (é
isso que diferencia uma “mercadoria” de um “produto”, como um tomate
que planto no jardim para meu próprio consumo). Essa reivindicação não
precisa ser exercida de pronto (porque o dinheiro é uma reserva de valor),
mas isso tem de ser feito em determinado momento, pois do contrário o
dinheiro não cumprirá seu destino e sua função.
Numa sociedade complexa, como esta que o capital construiu,
dependemos do trabalho dos outros para obter todos os valores de uso que
precisamos para viver. Damos como certa a disponibilidade de muitos
desses valores de uso. Acionamos o interruptor e temos eletricidade, o
fogão acende ao apertarmos um botão, podemos abrir e fechar as janelas,
nossos sapatos e roupas nos caem bem, o café e o chá que tomamos de
manhã estão sempre ali, o pão e o ônibus, os carros, os lápis e as canetas, o
caderno e os livros – tudo isso está disponível, e ainda há dentistas,
médicos, quiropráticos, cabeleireiros, professores, pesquisadores,
advogados e burocratas criando regras e gerando conhecimento – podemos
adquirir tudo isso a um preço! Mas essas coisas e esses serviços absorvem
trabalho humano tanto direta quanto indiretamente pelo trabalho acumulado
no ferro que se transforma no prego que é usado na construção da casa. A
maioria de nós participa em alguma medida, de forma direta ou indireta, da
atividade de fornecer bens e serviços aos outros.
O valor social de todas essas atividades, de todo esse trabalho,
consolida o que o dinheiro representa. “Valor” é uma relação social
estabelecida entre as atividades de trabalho de milhões de pessoas em todo
o mundo. Como relação social, é imaterial e indivisível (como a relação
entre mim, o escritor, e você, o leitor deste texto). Mas, assim como os
valores morais e éticos de maneira mais geral, esse valor imaterial tem
consequências objetivas para as práticas sociais. No caso do trabalho social,
o “valor” explica por que sapatos custam mais que camisetas, casas custam
mais que carros e vinho custa mais que água. Essas diferenças no valor das
mercadorias não têm nada a ver com seu caráter como valor de uso (à parte o fato de que todos devem ser úteis para alguém, em algum lugar) e tudo a
ver com o trabalho social envolvido na produção.
Por ser imaterial e invisível, o valor requer uma representação material.
Essa representação material é o dinheiro. O dinheiro é uma forma de
aparência tangível, bem como um símbolo e uma representação da
imaterialidade do valor social. Mas, como acontece com todas as formas de
representação (como os mapas, por exemplo), há uma lacuna entre a
representação e a realidade social que ela tenta representar. A representação
cumpre bem a tarefa de capturar o valor relativo do trabalho social em
alguns aspectos, mas é falha e até mesmo mentirosa em outros (os mapas
são representações precisas de alguns aspectos do mundo que nos cerca,
mas enganadores em relação a outros). Essa lacuna entre o dinheiro e o
valor representado por ele constitui a segunda contradição fundamental do
capital.
Podemos dizer desde já que o dinheiro é inseparável do trabalho social
que constitui o valor, mas também é distinto dele. O dinheiro esconde a
imaterialidade do trabalho social (valor) por trás de sua forma material. É
muito fácil confundir a representação com a realidade que ele tenta
representar e, na medida em que a representação é mentirosa (como sempre
é, em certo sentido), acabamos acreditando em algo que é falso e atuando
sobre ele. Da mesma maneira que não podemos ver o trabalho social em
uma mercadoria, o dinheiro que a representa nos torna particularmente
cegos para a natureza do trabalho social. Examinaremos brevemente alguns
exemplos. A inseparabilidade entre o valor e sua representação é
importante. Ela deriva do simples fato de que, sem o dinheiro e as
transações que ele facilita, o valor não poderia existir como relação social
imaterial. Em outras palavras, o valor não poderia se formar sem a ajuda da
representação material (dinheiro) e das práticas sociais de troca. A relação
entre dinheiro e valor é dialética e coevolutiva – os dois surgem juntos –, e
não causal.
Mas essa relação também pode ser enganadora, porque a “lacuna” entre
o valor social e sua representação está cheia de contradições potenciais,
dependendo da forma assumida pelo dinheiro. O dinheiro-mercadoria
(como ouro e prata) está entranhado em mercadorias tangíveis com qualidades físicas definidas, enquanto as moedas, as cédulas e o dinheiro
fiduciário (aquelas emitidas por entidades privadas e estes, pelo Estado) e
as formas mais recentes de dinheiro eletrônico não passam de símbolos. O
“dinheiro de conta” dispensa o pagamento feito com dinheiro real no
momento da venda ou da compra, em benefício do pagamento do saldo
líquido no fim de certo período. Para empresas que compram e vendem, a
quantidade de saldos líquidos de múltiplas transações monetárias costuma
ser bem menor que o total de transações, porque compras e vendas se
compensam. Na verdade, apenas o saldo líquido residual é pago. Os bancos,
por exemplo, compensam cheques uns dos outros; hoje isso é feito
eletronicamente, mas costumava ser feito à mão, em câmaras de
compensação (cinco vezes ao dia em Nova York), depois cada banco
enviava seus contínuos para depositar os cheques nos guichês do banco
emissor. No fim do dia ou do período de compensação, as transferências
líquidas entre os bancos eram quase zeradas, mesmo que houvesse muitas
transações. Isso porque os cheques emitidos por um banco eram
contrabalançados pelos cheques depositados pelos outros. Desse modo, o
dinheiro de conta reduz consideravelmente a quantidade necessária de
dinheiro “real”. Esse tipo de moeda também consolida uma grande
variedade de instrumentos de crédito e empréstimos usados para promover
tanto a produção quanto o consumo (no mercado habitacional, por exemplo,
os construtores tomam empréstimos para construir moradias
especulativamente, e os consumidores usam financiamentos hipotecários
para comprar essas moradias). Em si, as moedas de crédito (que alguns
teóricos consideram radicalmente diferentes de outros tipos de moeda)
constituem um mundo extremamente complicado.
Surge de tudo isso um uso peculiar e aparentemente tautológico do
dinheiro. O dinheiro, que supostamente mede valor, torna-se um tipo de
mercadoria: o capital-dinheiro. Seu valor de uso consiste em ser empregado
para produzir mais valor (lucro ou mais-valor). Seu valor de troca é o
pagamento de juros, que, com efeito, atribui um valor àquilo que mede o
valor (proposição altamente tautológica!). É isso que faz do dinheiro como
medida algo tão estranho e especial. Enquanto outros padrões de medida,
como quilos e polegadas, não podem ser comprados e vendidos em si (só posso comprar quilos de batatas, nunca quilos propriamente ditos), o
dinheiro pode ser comprado e vendido como capital monetário (posso
comprar o uso de US$100 por um período).
A maneira mais simples de criar uma representação para o valor é
escolher uma mercadoria como valor que representa todo o resto. Por
diversas razões, os metais preciosos, em particular o ouro e a prata,
surgiram historicamente como os mais apropriados para desempenhar esse
papel. As razões por que foram escolhidos são importantes. Em primeiro
lugar, esses metais eram relativamente escassos e sua oferta acumulada é
praticamente constante. Não posso ir até o quintal e extrair da terra uma
porção de ouro ou prata sempre que quiser. A oferta de metais preciosos é
relativamente inelástica, por isso eles mantêm seu valor relativo diante de
outras mercadorias ao longo do tempo (ainda que surtos de atividade
produtiva, como a corrida do ouro na Califórnia, tenham criado alguns
problemas). A maior parte do ouro do mundo já foi extraída e está sobre a
superfície. Em segundo lugar, esses metais não oxidam nem se deterioram
(como aconteceria se escolhêssemos framboesas ou batatas como dinheiro-
mercadoria), o que quer dizer que mantêm suas características físicas no
decorrer de uma transação de mercado e, sobretudo, funcionam de maneira
relativamente segura como reserva de valor a longo prazo. Em terceiro
lugar, as propriedades físicas desses metais são conhecidas, e suas
qualidades podem ser avaliadas com precisão, de modo que sua medida é
facilmente calibrada, ao contrário, por exemplo, das garrafas de vodca
(nesse caso, o gosto do consumidor poderia variar), que foram usadas como
dinheiro na Rússia quando o sistema monetário entrou em colapso na
década de 1990 e o comércio se reduziu a um sistema de escambo
multilateral[1]. As propriedades físicas e materiais desses elementos do
mundo natural são usadas para lastrear e representar a imaterialidade do
valor como trabalho social.
Mas é difícil usar diariamente dinheiro-mercadoria para trocar
mercadorias de baixo valor. Desse modo, moedas, fichas e, por fim,
pedaços de papel e dinheiro eletrônico tornaram-se muito mais praticáveis
nos mercados do mundo todo. Imagine como seria ter de pagar uma xícara
de café na rua com o peso exato de ouro ou prata! Embora o dinheiro-mercadoria tenha fornecido uma base material sólida para a representação
do trabalho social (as cédulas britânicas ainda prometem “pagar ao
portador”, embora há muito tempo tenham deixado de ser livremente
conversíveis em outo e prata), ele foi rapidamente substituído por formas de
dinheiro muito mais práticas e flexíveis. Mas isso gerou outra
excentricidade: o dinheiro que originalmente era necessário para dar forma
física à imaterialidade do trabalho social passou a ser representado por
símbolos, representações e, por fim, números em contas informatizadas.
Quando o dinheiro-mercadoria é representado por números, isso
introduz um paradoxo sério e potencialmente equivocado no sistema
monetário. Enquanto o ouro e a prata são relativamente escassos e
necessitam de oferta constante, a representação do dinheiro como números
permite que a quantidade de dinheiro disponível se expanda sem nenhum
limite técnico. Por isso é que vemos o Federal Reserve injetando, num
piscar de olhos, trilhões de dólares na economia com táticas como a
flexibilização quantitativa. Parece não haver limites para tais possibilidades,
exceto aqueles impostos pelas regulamentações e políticas de Estado.
Quando a base metálica do dinheiro global foi totalmente abandonada na
década de 1970, a criação e a acumulação de dinheiro se tornaram
atividades potencialmente ilimitadas. Além disso, o advento do dinheiro de
conta e, sobretudo, do dinheiro de crédito (a começar pelo simples uso de
vales) pôs grande parte da criação do dinheiro nas mãos de indivíduos e
bancos, tirando-a das mãos das instituições estatais. Isso exigiu medidas
reguladoras e intervenções por parte do aparelho estatal numa tentativa
desesperada de administrar o sistema monetário. Episódios de inflação
assombrosos e lendários, como o ocorrido na República de Weimar na
década de 1920, destacaram o papel-chave do Estado para manter a
confiança nas qualidades e no significado do papel-moeda emitido por ele.
Voltaremos a essa questão quando analisarmos a terceira contradição
fundamental.
Todas essas peculiaridades surgem, em parte, porque as três funções
básicas do dinheiro têm requisitos muito diferentes no que se refere a sua
realização efetiva. O dinheiro-mercadoria é bom para armazenar valor, mas
imperfeito quando se trata de fazer circular as mercadorias no mercado. Moedas e papel-moeda são ótimos como meios ou instrumentos de
pagamento, mas não são tão seguros como reserva de valor a longo prazo.
O dinheiro fiduciário emitido pelo Estado com circulação compulsória
(porque os impostos têm de ser pagos nessa moeda) está sujeito aos
caprichos políticos das autoridades que o emitem (por exemplo, dívidas
podem desaparecer pela simples emissão de dinheiro). Essas diferentes
funções não são totalmente coerentes entre si, mas também não são
independentes. Se o dinheiro armazenasse valor apenas por um breve
período, ele seria inútil como meio de circulação. Por outro lado, se estamos
falando do dinheiro apenas como meio de circulação, então o dinheiro falso
poderia funcionar tão bem quanto o dinheiro “real” de uma moeda de prata.
É por isso que o ouro e a prata, excelentes como medida e reserva de valor,
precisam ser representados na forma de cédulas e títulos de crédito para que
a circulação de mercadorias continue fluindo. Assim, o que temos no fim
são representações de representações do trabalho social como a base da
forma-dinheiro! Há, por assim dizer, um duplo fetiche (um duplo conjunto
de máscaras por trás do qual se esconde a sociabilidade do trabalho
humano).
Com a ajuda do dinheiro, as mercadorias podem ser etiquetadas no
mercado com um preço de venda. Esse preço pode ou não ser realizado,
conforme as condições de oferta e procura. Mas essas etiquetas contêm
outra série de contradições. O preço realizado de fato em uma venda
individual depende de condições particulares de oferta e procura em
determinado tempo e lugar. Não há correspondência imediata entre esse
preço singular e a generalidade do valor. Apenas em condições
competitivas, de funcionamento perfeito, podemos prever a convergência de
todos esses preços de mercado, singulares e realizados, em torno de um
preço médio que representa a generalidade do valor. Note-se, porém, que é
somente pelo fato de divergirem do valor que os preços podem oscilar e
fornecer uma representação mais firme do que poderia ser o valor. No
entanto, o processo do mercado oferece muitas oportunidades e tentações
para perturbar essa convergência. Todo capitalista quer vender a preço de
monopólio e evitar competição. Daí a notoriedade das marcas e práticas de
venda baseadas na promoção de logotipos que permitem a empresas como a Nike cobrarem preços de monopólio que garantem uma discrepância
permanente em relação aos padrões unificados de valor na produção de
calçados esportivos. Essa divergência quantitativa entre preços e valores
representa um problema. Os capitalistas respondem necessariamente aos
preços, e não aos valores, porque, no mercado, veem apenas preços e não
têm como identificar valores. Na medida em que há uma discrepância
quantitativa entre preços e valores, os capitalistas são levados a responder a
representações equivocadas, e não a valores subjacentes.
Além disso, não há nada que me impeça de colocar essa etiqueta
chamada “preço” em qualquer coisa, seja ela produto do trabalho social ou
não. Posso colar a etiqueta num pedaço de terra e ganhar dinheiro
arrendando-o. Como os lobistas da K Street, em Washington, posso
comprar legalmente influência no Congresso ou cruzar a linha e vender
consciência, honra e reputação a quem pagar mais. Há uma divergência
quantitativa e qualitativa entre os preços de mercado e os valores sociais.
Posso ganhar uma fortuna com tráfico de mulheres, venda de drogas ou
comércio clandestino de armas (três das atividades mais lucrativas do
capitalismo contemporâneo). Ou pior (se é que isso é possível!), posso usar
dinheiro para fazer mais dinheiro, como se fosse capital quando não é. Os
signos monetários divergem do que deveria ser a lógica do trabalho social.
Posso criar fundos de capital fictício – capital monetário empregado em
atividades que não criam nenhum valor, mesmo que sejam altamente
lucrativas em termos de dinheiro e rendimento de juros. A dívida pública
para promover guerras sempre foi financiada pela circulação de capital
fictício – as pessoas emprestam para o Estado e são pagas com os juros
extraídos da arrecadação fiscal, ainda que o Estado esteja destruindo, e não
criando, valor.
Temos aqui outro paradoxo. O dinheiro que supostamente deveria
representar o valor social do trabalho criativo toma uma forma – capital
fictício – que circula para, no fim, encher o bolso dos financistas e dos
portadores de títulos por meio da extração de riquezas a partir de atividades
não produtivas (que não produzem valor). Se o leitor não acredita em mim,
que dê uma olhada na história recente do mercado habitacional para
entender o que estou querendo dizer. A especulação sobre o valor dos imóveis não é uma atividade produtiva; contudo, uma enorme quantidade
de capital fictício convergiu para o mercado habitacional até 2007-2008,
porque a taxa de retorno dos investimentos era alta. O crédito fácil
significou elevação do preço dos imóveis, e a alta rotatividade significou
abundância de oportunidades para lucrar com taxas e comissões
exorbitantes sobre as transações. O empacotamento de hipotecas (uma
forma de capital fictício) em obrigações de dívida colateralizadas
[collateralized debt obligations, CDOs] criou um instrumento de dívida
(uma forma ainda mais fictícia de capital) que poderia ser comercializado
no mundo inteiro. Esses instrumentos de capital fictício, dos quais muitos se
mostraram sem nenhum valor, foram vendidos em todo o mundo a
investidores incautos como se fossem investimentos certificados como “tão
seguros quanto casas” por agências de classificação. Era uma situação de
fluxo exagerado do capital fictício. E ainda hoje estamos pagando por esse
excesso.
As contradições em torno da forma-dinheiro, portanto, são múltiplas. As
representações, como dissemos, mentem até sobre aquilo que representam.
No caso do ouro e da prata como representações do valor social, tomamos
as circunstâncias particulares de produção desses metais preciosos como
medida geral do valor fixado em todas as mercadorias. Com efeito,
tomamos um valor de uso particular (o metal ouro) e o usamos para
representar o valor de troca em geral. Acima de tudo, tomamos algo
inerentemente social e o representamos de tal maneira que ele pode ser
apropriado como forma de poder social por pessoas privadas. Essa última
contradição tem consequências profundas e, em certos aspectos,
devastadoras para as contradições do capital.
Para começar, o fato de o dinheiro permitir que o poder social seja
apropriado e usado exclusivamente por pessoas privadas coloca o dinheiro
no centro de uma ampla variedade de comportamentos nocivos –
inevitavelmente a ganância e a cobiça do poder monetário tornam-se
características centrais no corpo político do capitalismo. Todos os tipos de
crenças e comportamentos fetichistas se concentram nisso. O desejo de
dinheiro como forma de poder social torna-se um fim em si mesmo,
distorcendo a boa relação de oferta e procura do dinheiro, que seria necessário apenas para facilitar as trocas, frustrando assim a suposta
racionalidade dos mercados capitalistas.
Se a ganância é ou não um comportamento humano inato é algo que
pode ser discutido (Marx, por exemplo, não acreditava que o fosse). O certo
é que o advento da forma-dinheiro e a possibilidade de sua apropriação
privada criaram um espaço para a proliferação de comportamentos humanos
nada nobres ou virtuosos. O acúmulo de riquezas e poder (acúmulo que foi
ritualmente eliminado no famoso sistema potlatch das sociedades pré-
capitalistas) era não apenas tolerado, mas também acolhido e tratado com
admiração. Esse fato levou o economista britânico John Maynard Keynes a
escrever, no ano de 1930, em “Possibilidades econômicas para os nossos
netos”:
Quando o acúmulo de riquezas não tiver mais grande importância social, haverá
grandes mudanças no código de costumes. Poderemos nos libertar de muitos dos
princípios pseudomorais que nos atormentaram duzentos anos, pelos quais elevamos à
posição de mais altas virtudes algumas das mais detestáveis qualidades humanas.
Poderemos atrever-nos a avaliar o motivo do dinheiro por seu verdadeiro valor. O
amor ao dinheiro como posse – diferente do amor ao dinheiro como meio para os
prazeres e realidades da vida – será reconhecido pelo que é: uma morbidez um tanto
asquerosa, uma dessas propensões semicriminosas e semipatológicas que, com um
estremecimento, confiamos aos especialistas em doenças mentais. Finalmente, então,
seremos livres para rejeitar todos os tipos de costumes sociais e práticas econômicas –
que afetam a distribuição de riquezas, penalidades e recompensas econômicas, que
preservamos a todo custo, por mais desagradáveis e injustas que sejam em si, porque
são extremamente úteis na promoção do acúmulo de capital.[2]
Qual deve ser a resposta crítica então? Na medida em que a circulação
de capital fictício especulativo leva inevitavelmente a colapsos que custam
caro à sociedade capitalista em geral (e, de maneira ainda mais trágica, às
populações mais vulneráveis da sociedade), um ataque geral aos excessos
especulativos e às formas monetárias (amplamente fictícias) que evoluíram
para promovê-los deve ser necessariamente o foco da luta política. Na
medida em que essas formas especulativas têm sustentado um imenso
crescimento na desigualdade social e na distribuição de riquezas e poder, de
modo que uma oligarquia emergente – o infame 1% (que, na verdade, é o mais infame ainda 0,1%) – agora controla efetivamente as alavancas de