A Enxada e a Lança
2. A pré-história
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
É possível que o vale nilótico, tido por m uitos com o então coberto de densas m atas e cheio de pântanos, tenha sido um obstáculo à m archa da agricultura para o nordeste do continente africano, afinal tão próxim o das terras palestinas. Para outros, o vale do Nilo, durante esse período úm ido, não guardava, a não ser no Delta, m aior parecença com o atual Sudd. Nas entrecheias, ele se cobriria de gram íneas e m atas baixas. Ladeado por acácias, sicôm oros e tam ariscos, com um ou outro charco deixado pelo refluir do rio, o vale em nada se oporia à ocupação hum ana. Para os que assim pensam , o avanço lento da agricultura ter-se-ia devido a resistências culturais às novas práticas. Serviram -lhe de barreira o próprio êxito com que, a partir de uns 16 m il anos antes de nossa era — e, portanto, em período anterior, de extrem a aridez dos desertos cortados pelo Nilo —, com unidades ribeirinhas, sobretudo no Alto Egito (com o se vê no uede Kubbaniy a), faziam uso intensivo de tubérculos e grãos selvagens e procuravam aum entar a densidade e a qualidade dessas plantas silvestres, por m eio do com bate às ervas daninhas que entre elas cresciam , da lim peza do solo e talvez
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da rega em épocas de seca. Na longa fase úm ida que se seguiu, de predom ínio, no vale expandido do Nilo, das cham adas culturas aquáticas, as plantas silvestres da beira-rio e das terras m olhadas continuaram a ser, logo após o pescado, o elem ento principal da dieta de suas populações. Não que faltem sinais de caça: ossos de galeirões, gansos, patos e outros pássaros m igratórios, bem com o, ainda que m enos frequentes, de gazelas, auroques (o Bos prim igenius) e hipopótam os. O aj uste de m ilênios a um tipo de vida em que não faltavam , além do peixe e da caça, os tubérculos, os grãos, as nozes, os brotos, os talos, as folhas e os frutos de plantas silvestres tendia a desestim ular as inovações.
Ao que parece, as práticas agrícolas não foram adotadas no vale do Nilo — e em outras partes do m undo — para substituir a pesca, a caça e a recolha, m as
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para com plem entá-las, diversificando ainda m ais as fontes de com ida. Do
favorecim ento de certas plantas ao seu cultivo, a distância parece curta, m as cum priu-se com im ensa lentidão. Só ao longo de dem orado tem po foi-se com preendendo a vantagem que havia em proteger-se, pelo cultivo, das instabilidades do Nilo. Um a enchente excessiva era capaz de destruir, ao subm ergi-la por m ais tem po do que podia suportar, toda a faixa de plantas com estíveis que acom panhava o rio. E, quando este deixava de derram ar-se para fora do seu leito, o revestim ento vegetal da várzea m orria, ressecado. Num e noutro caso, alonj ava-se a caça. Enterrar nas terras altas punhados de sem entes de gram íneas que j á, por costum e, se protegiam — e entre as quais talvez se contassem , nativos, um certo tipo de cevada e um certo tipo de trigo —, era um a form a de garantir-se contra as inundações. E para resguardar-se das águas m agras, valia a pena sem ear as partes m ais úm idas da veiga, enquanto se conduziam os bois e as cabras para onde houvesse pastagem . Num a econom ia de caça, pesca e coleta, seriam , porém , m arginais as práticas agrícolas. Tinham -nas apenas com o recurso adicional, um j eito m enor de obter alim ento, enquanto continuavam a pescar, a caçar e a recolher o que lhes dava a natureza. Talvez as novas práticas só despertassem interesse nas épocas de crise. E talvez fossem
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abandonadas, tão logo m elhoravam as condições.
Não se acharam até agora testem unhos arqueológicos que perm itam acom panhar a transição de um tipo de econom ia para o outro. Em Fay um , um oásis a sudoeste do Cairo, onde hoj e há um a laguna rasa e salina, estendia-se o lago Moeris, ligado ao Nilo por um canal, até cerca de 1000 a.C. Ali, dez séculos de vazio arqueológico separam , dos prim eiros aldeam entos de agricultores que se têm por indiscutíveis, os últim os vestígios de com unidades sem elhantes, pelo m odo de retirarem o sustento da natureza, às do uede Kubbaniy a ou às da indústria de Qadan (atuantes de 12000 a 9000 a.C., na Núbia).
Por volta de 5200 a.C., 73 grupos que viviam às m argens da depressão de Fay um j á criavam ovelhas e possivelm ente bois e cultivavam trigo, cevada e linho, vegetais dom esticados no sudoeste da Ásia, além de gram íneas e outras plantas locais de que não ficaram traços nos num erosos silos, revestidos de um trançado de cestaria, que cavavam no solo para arm azenar as colheitas. Nem m esm o nos acam pam entos m aiores, nos quais se dem oravam a m aior parte do ano, deixaram eles sinais de que construíssem casas. Quem sabe se não se abrigavam sob peles ou esteiras, estendidas sobre arm ações de galhos? Pois nesses lugares, além dos sinais de cozinha, encontraram -se alfinetes e sovelas de osso, contas, pingentes, pedras de fuso e m uitos outros utensílios, a indicar as m uitas atividades a que ali, talvez j á sem issedentários, se dedicavam . Fora isso, não se diferenciavam dos que os antecederam na área m il anos antes. A agricultura não substituiu, entre eles, as práticas da coleta. Continuaram a valer-se das gram íneas nativas, e a nelas basear a dieta, e na pesca, e na caça. E não parece que tenham alterado substancialm ente o j eito de vida até cerca de 4500
a.C. 74
As m udanças aparecem m ais claras em outros sítios: em Merinde (ou Merim da), à m argem sul-ocidental do Delta, ocupado, entre cerca de 4800 e 4400 a.C., por grupos que conheciam a agricultura; em Al Om ar (ou El Om ari), 23km ao sul do Cairo, onde os restos m ais antigos de presença neolítica seriam de 4100 a.C.; em Badari, Hem am ieh e, m ais ao sul, Nagada (no Alto Egito), com datas, o segundo, entre 4400 e 3650 a.C., e o terceiro, da prim eira m etade do
quarto m ilênio.75
O que m ostra a arqueologia é que, nesses lugares, não se reduziu a im portância da pesca. Das cam adas m ais baixas para as m ais altas, aum entam , contudo, os sinais de trigo, cevada, lentilhas e linho, bem com o os ossos de carneiro, boi, porco e cabra, ao m esm o tem po que dim inuem os vestígios da caça e dos vegetais silvestres. Nos próprios sepultam entos notar-se-ão diferenças. Assim , na cham ada cultura de Badari, os corpos desciam à terra envoltos em peles. Mas, a partir de aproxim adam ente 3900 a.C., de quando dataria, no Alto Egito, o início da cultura am ratiana, o linho vai-se tornando o m aterial corrente para enrolar os m ortos. Os acam pam entos, por seu lado, assum em a feição de aldeolas, com cabanas de planta oval ou redonda, sem iafundadas no terreno, e que podiam ser m oradias ou depósitos. No final da ocupação de Hem am ieh, os silos passam , de subterrâneos, a serem construídos acim a da terra. Talvez não m ais precisassem de ser m antidos em segredo, com o os celeiros dos nôm ades, pois recebiam a proteção dos que teriam passado a viver quase todo o ano, se não o tem po todo, j unto deles. E invertera-se o quadro de Fay um : os vegetais silvestres e a caça tinham perdido o papel predom inante e apenas suplem entavam os produtos da
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lavoura e da pecuária.
Foi desses acam pam entos ou vilotas no alto dos tabuleiros que orlam o Nilo, com suas pequeninas choças feitas de palm a entrançada ou de um a m istura de barro e palha, que a agricultura desceu de form a perm anente para o vale, quando o clim a se tornou m ais seco. E foi desse início, de aparência, m as só de aparência, m odesta, que se desenvolveu a grande civilização agrícola do Egito, na qual o cultivo da terra iria provocar as invenções da drenagem , do regadio e do arado, que m ultiplicariam os seus efeitos.
Muito m ais abaixo no m apa, ali onde se j unta o Nilo Azul com o Nilo Branco, em depósitos arqueológicos que seriam contem porâneos dos de Merinde (com o os de Rabak, Um Direiwa e Kadero) ou da cultura de Badari (com o os de Esh
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Shaheinab), há tam bém registros de que certos grupos com eçavam a criar anim ais e, talvez, a cultivar o solo.
Esh Shaheinab fica cinquenta quilôm etros a j usante de Cartum , num terraço próxim o à m argem esquerda do rio. Sua cultura era um desenvolvim ento da de Cartum prim itiva. Vivia-se sobretudo da pesca e tam bém da caça e da coleta. Mas j á se dom esticava a cabra, e possivelm ente o carneiro e o boi. Estes anim ais seriam , porém , em pequeno núm ero e teriam pouca im portância na vida econôm ica do grupo.
Bem distinta era a situação em Kadero. 78 Ali, a 18km a nordeste de Cartum e a seis quilôm etros da m argem direita do Nilo, num terraço que dom inava am pla extensão de terra plana coberta de pradaria, o gado bovino era pastoreado em grande núm ero, j untam ente com cabras e ovelhas. Os anim ais dom ésticos constituíam a principal fonte de carne, tendo a caça e a pesca posição secundária com o atividades produtivas. A recolha de frutos e de m oluscos era im portante. E m ais im portante ainda, o consum o de alim entos vegetais. De grãos. Com o indica o enorm e núm ero de pilões de pedra — inexplicável, se esses alm ofarizes fossem utilizados apenas para triturar pigm entos. Nas cerâm icas, encontraram -se, aliás, im pressões de sorgo, de m ilhete e de outros grãos. Sobretudo de sorgo. Que talvez fosse cultivado.
Conform e a estação do ano, a gente de Kadero m udava de residência e de ocupação. Quando as águas do Nilo inundavam a planície, levava-se o gado para o alto do terraço, onde ficava possivelm ente em grandes currais.
Presum e-se que em Kadero j á houvesse divisão em classes sociais. Que houvesse um a aristocracia e um grande chefe. O pensam ento é induzido nessa direção pela análise das sepulturas ali existentes. A m aioria dos m ortos era inum ada desacom panhada de bens. Alguns poucos desciam ao túm ulo com seus adornos e com vários vasos de cerâm ica decorada. Um dos enterrados usava um longo colar de contas de cornalina, e tinha j unto dele a cabeça em pórfiro de um a m aça, talvez um sím bolo de autoridade, um bastão de com ando.
Kadero está próxim o de Esh Shaheinab. Floresceram na m esm a época. Mas de form a diferente. Enquanto Esh Shaheinab, ainda que j á houvesse com eçado a ter anim ais dom ésticos, perm anecia fiel à cultura aquática herdada de Cartum prim itiva, Kadero adotara um novo m odo de vida, m ais condizente com a paisagem em que se inserira. Ficava m ais distante do rio, a cavaleiro de um a pradaria propícia ao pastar do gado e ao cultivo das gram íneas.
Se recebeu a agricultura do norte, pelo cam inho do rio — e não do oeste, da faixa sudanesa, ou do leste, da Etiópia, com o pode tam bém ter ocorrido —, Kadero trocou de espécies cultivadas. A prática agrícola teve de ser m udada. Pois no Egito e em todo o Oriente Médio cultivavam -se principalm ente o trigo, a cevada e o linho — vegetais de chuvas de inverno e que não se adaptavam às condições clim áticas dos trópicos. Podiam , isto sim , ganhar todo o norte da África e os altiplanos etíopes.
Quando o trigo, a cevada e o linho chegaram à Etiópia, vindos do Egito ou da outra banda do m ar Verm elho, talvez ali j á tenham encontrado um a agricultura indígena, baseada no cultivo do tef, da ensete e do niger.
O tef é um cereal de grãos pequeninos, m as m uito nutritivos. Com eles prepara-se um pão, o enj era, de bom sabor. A gram ínea é sem eada tão som ente nas terras altas etíopes, onde cobre m ais hectares do que qualquer outra cultura, desconhecendo-se o seu uso sistem ático em outros pontos do m undo. A ensete, quase um a m onocultura em certas regiões do sul da Etiópia, parece a bananeira, m as dela não se com em os frutos, de escassa polpa e sem entes grandes, e sim o falso caule e os brotos novos. Estes são cozidos com o legum es; aquele, após ser enterrado para ferm entar, seco e pilado, transform a-se num a papa ou é assado qual um pão. A ensete está hoj e difundida, com o planta ornam ental, em quase todo o m undo, m as dantes se restringia à Etiópia. Já o niger ou noog produz óleo com estível. É planta corriqueira nas terras abissínias, cultivada em pequena escala em outros países africanos e na Índia.
Se a agricultura ingressou na Etiópia com as plantas cultivadas no Oriente Médio, não parece verossím il terem os que conheciam o trigo e a cevada se
dedicado a dom esticar um cereal de tão baixo rendim ento quanto o tef. 79 Se j á conheciam o óleo da linhaça e da açafroa, por que iriam ocupar-se do niger? E,
se estavam acostum ados a um a dieta de cereais, por que adotaram a ensete? 80
O argum ento tem seu peso, m as não leva em conta o gosto pela variedade de alim entos que podiam ter os antigos habitantes da Etiópia, nem as enorm es diferenças de m eios agrícolas que lhe caracterizam a paisagem . Assim , o tef dá com abundância em alturas a que não chegam o trigo e a cevada, e o enj era é
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por m uitos m ais apreciado do que outros tipos de pão.
Julga-se que essas plantas características da Etiópia, assim com o dois
estim ulantes, o café e o chat, ali tenham sido dom esticadas. 82 E im agina-se que isso se tenha dado antes que novas práticas e novas espécies agrícolas viessem do Oriente Médio e passassem com elas a dividir os trabalhos e os solos.
Se assim tiver sido, a agricultura foi inventada autonom am ente na Etiópia — com o propôs, há m ais de m eio século, Nicolai I. Vavilov —, a partir do uso sistem ático das plantas silvestres. É possível tam bém que a ideia da agricultura tenha chegado do Egito ou do m ar Verm elho antes do trigo, da cevada e do linho.
Pode ter havido o que j á se cham ou de “difusão do estím ulo”: 83 o contato cultural com o Oriente Médio teria induzido os habitantes da Etiópia a cultivar os vegetais que j á utilizavam , com o o tef, a ensete, o niger e tam bém possivelm ente o sorgo e o m ilhete Eleusine.
Tudo isso são conj ecturas, pois não se registraram traços arqueológicos de grande antiguidade de nenhum desses vegetais na Etiópia, onde, de resto, são escassíssim os, pouco claros e tardios os testem unhos sobre o início da agricultura. E não só na Etiópia, m as em toda a África subsaariana. Por isso, apresentam -se frágeis os fundam entos em que se assentam as várias hipóteses sobre o com eço
da produção de alim entos no Saara84 e ao sul do deserto.
Do Oriente Próxim o, o cultivo do trigo, da cevada, da lentilha, do linho e de outras plantas que ali foram dom esticadas deve ter-se difundido pelos oásis orientais do Saara e pela costa m editerrânica da Cirenaica. Quando houve relativa m elhora de clim a, nos quarto e terceiro m ilênios a.C., certos grupos saarianos localizados a m aior distância dos lagos e dos rios podem , a exem plo do que ocorreu em Kadero, ter-se apartado da m aneira aquática de vida e entregado às novas atividades da agricultura e do pastoreio. O clim a de então lhes perm itiu cultivar plantas de chuvas de inverno. As m esm as que haviam recebido do Oriente Médio.
A partir de 2500 a.C., novo ressecam ento se fez sentir. O processo acelerou-se após 2000 a.C., e de tal m odo que um m ilênio m ais tarde o Saara j á era deserto. As zonas úm idas deslocaram -se para o sul, e, com elas, os anim ais e os hom ens. Muitos destes devem ter levado para onde hoj e é o Sael, que tinha então a fisionom ia da atual faixa sudanesa, o conhecim ento da agricultura. Ali trocaram as plantas que conheciam por outras m ais propícias, de chuvas de verão, e que cobriam , naturais, grande parte das savanas. Plantas com o o sorgo e as num erosas espécies de m ilhos m iúdos, gram íneas das quais, desde havia m uito, os que m oravam na terra tinham aprendido a utilizar os grãos.
O processo de ressecam ento durou aproxim adam ente um m ilênio e m eio. De tal form a que o deslocam ento, para o sul, de grupos hum anos que habitavam o Saara deve ter-se verificado m uito lentam ente. Tão lentam ente, que não se pode excluir que, ao longo dos séculos, a ideia da agricultura os tivesse sem pre precedido. O estím ulo para cultivar as plantas silvestres ter-se-ia transm itido do Saara e do vale do Nilo a vários pontos que ficavam ao sul daquele e a oeste deste. Na larga faixa que vai da Núbia ao Senegal, dom esticaram -se num erosas espécies vegetais, num a escala tão grande, que se pode dizer ter sido ali a agricultura reinventada.
Se é que não foi inventada, de form a autônom a e independentem ente do influxo do sudoeste da Ásia e do Egito. Uns 5000 anos a.C. e próxim o às cabeceiras do Níger, no extrem o ocidental da faixa sudanesa, a cerca de 1.600km das praias do Atlântico — com o j á se aventurou, com exagerada
precisão. 85 Segundo essa tese, os m ilhetes do tipo Pennisetum teriam ali então sido dom esticados, o que parece im provável, pois, há uns sete m ilênios, aquela
região estaria coberta de m atas, e o Pennisetum é gram ínea da savana árida.86
Houve, contudo, quem , 87 sustentando a origem independente da agricultura ao sul do Saara, sugerisse m últiplos centros de dom esticação do m ilhete, ao longo da cinta horizontal im ediatam ente abaixo do deserto. E tam bém aventou-se a hipótese de que o Pennisetum tivesse com eçado a ser cultivado nos sopés m eridionais das m ontanhas do Saara central, entre 3000 e 2000 a.C., e dali se
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expandido para as savanas africanas.
A m esm a origem m últipla foi atribuída ao sorgo. Que teria sido dom esticado
na faixa que vai da Nigéria à Etiópia Ocidental. 89 Em m uitos e variados pontos, desde o Senegal até a Eritreia, e a partir de diferentes espécies silvestres —
segundo outra teoria. 90 Ou ainda, tendo por m atriz o ancestral do sorgo da raça
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bicolor, na área entre o Chade e a Núbia.
Com respeito aos vários tipos de arroz africano, prevalece a tese, apresentada por Roland Portères, de que o início da dom esticação se teria verificado no delta interior (ou delta m orto) do rio Níger.
Nem m esm o o principal arroz africano, o Oriza glaberrim a Steudel, escapou, porém , de ser m ais tarde deslocado pelas variedades rizícolas cultivadas na Ásia, pelo Oriza sativa, introduzido na costa oriental da África pelos árabes, a partir do
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século VII, e na costa atlântica pelos portugueses, no século XVI. Com o arroz
africano aconteceu fenôm eno sem elhante ao sucedido com a pacova no Brasil: a banana do sul da Ásia — o figo-da-índia, de que fala Garcia d’Orta no XXII dos Colóquios dos Sim ples — desbancou rapidam ente, em bora sem elim iná-la de todo, a m usácea autóctone. Esta não pôde com petir com a planta asiática, cuj o
fruto era m ais doce, tinha o m iolo m ais m ole e estava isenta de cica ou travo. 93
Sorgo, m ilhetes e arroz não foram as únicas plantas dom esticadas ao sul do deserto. Na savana subsaariana, cultivaram -se pela prim eira vez outros m ilhos m iúdos, com o o fônio, o chindum ba e o iburu (ou fônio negro), oleaginosas com o o carité, e plantas com o o cabaceiro, a m elancia, a batata-de-cafre e a batata-hauçá. Presum e-se que até m esm o certos vegetais que hoj e crescem à beira das m atas ou em abertos nas florestas tenham tido origem na savana. Com o o m acunde ou ervilha-de-vaca, o dendê, os vários inham es africanos e o quiabo. As únicas plantas africanas naturalm ente adaptadas à floresta parecem ser a
cola, o café e a akee,94 um a fruta da qual se poderia dizer, de m odo m uito grosseiro, que se assem elha à m açã.
Na passagem da savana para as m argens da floresta, duas outras invenções ocorreram : a da coivara e a do plantio. Tal com o sucedeu no sudeste da Ásia e na Am érica do Sul, o africano, para dom esticar e propagar determ inados vegetais, teve de descobrir processo distinto ao da sem eadura. Aprendeu a plantar, isto é, a separar, selecionar e enterrar m udas, pedaços de galho, rizom as, batatas e cocos. Criou a horta, o pom ar e os palm eirais.
Desde a m etade do quinto m ilênio a.C. havia na África Ocidental — com o se veem na caverna de Bosum bra, perto de Abeti (em Gana), em Iwo Eleru (na Nigéria) e em Shum Laka, próxim o a Bam enda (nos Cam arões) — vasos de cerâm ica, certos m icrólitos que se presum em fossem em pregados para ceifar gram íneas, e utensílios de pedra polida que poderiam ser m achados ou enxadas. Só de m uito m ais tarde, no entanto, da m etade do segundo m ilênio a.C., são os prim eiros indícios de produção de alim entos na área.
Em Kintam po, entre a floresta e a savana arborizada, a oeste do rio Volta, localizaram -se ossos de cabra-anã e de um bovídeo pequenino, além de sem entes de m acunde e coquinhos de dendê. Talvez essas plantas j á fossem ali cultivadas, no período entre 1500 e 1150 a.C., assim com o em vários outros pontos do atual Gana e da Costa do Marfim (com o Ntereso, Boy asi, Bonoase e Mum ute). Desses lugares, desenterraram -se tam bém num erosos obj etos achatados, lascas de grés cheias de ranhuras, cuj o uso tem estado aberto a discussão. Parecem certos utensílios em pregados até recentem ente no Egito para retirar calosidades e a pele grossa dos pés, m as j á se sugeriu que se utilizassem
para ralar inham e. 95 Mais im portante ainda foi verificar-se que alguns desses sítios podiam ser considerados com o aldeam entos, de ocupação perm anente (ou
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sem iperm anente ), com suas casas de trançado de varas, barro e palha
erguidas sobre bases retangulares de pedra. Em Boy asi, a planta de um a delas
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m edia 6 x 3,5m 2, e a de outra, 7,5 x 3m 2.
Mais nítidas são as pegadas da produção de alim entos em Dhar Tichitt (ou
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Tichitt-Ualata), no sul da Mauritânia. A área era ocupada, desde pelo m enos
2500 a.C., por gente que conhecia a cerâm ica e se dedicava à caça, à coleta e à pesca, na m argem dos lagos rasos que ali então existiam . Após ser abandonada por algum tem po, Dhar Tichitt voltou a receber um a população m uito sem elhante à anterior, só que senhora dos bois e das cabras e hábil em construir vilarej os de pedra, form ados por com pounds circulares, de vinte a quarenta m etros de diâm etro, e ligados por ruas bem definidas. Com o aum ento da secura do clim a e o esgotam ento das lagoas, a recolha de grãos silvestres cresceu em im portância. E talvez se tenha ali com eçado, após 1200 a.C., a cultivar cereais. Prim eiro, um a gram ínea local, o kram -kram , até hoj e m uito apreciada pelas populações saarianas, que com ela preparam o cuscuz. Depois, m ilhetes.
Cem anos m ais tarde, essa gente se transfere das orlas das lagoas para o alto de um a escarpa que lhes ficava próxim a, e passa a viver em vilarej os m ais num erosos e bem m aiores — alguns com cerca de um quilôm etro quadrado — que os dos seus predecessores. Crescem os sinais de que cultivava o solo: m ais da m etade das im pressões de grãos na cerâm ica dali recolhida são de m ilhete do tipo Pennisetum , e com alta proporção de variedades dom esticadas. Cada aldeia era cercada por um a m uralha de pedra, cuj a altura pode ser m edida pela das suas ruínas, que chega a dois m etros. A escarpa e os m uros protegiam a povoação das que lhe eram vizinhas, pois talvez estivessem em constante conflito entre si, ou a defendiam dos ataques dos nôm ades do deserto.
Um a vez que coincidem em boa parte as datas obtidas por radiocarbono nas ruínas da base e do alto da escarpa, j á se sugeriu que, em vez de um tipo de ocupação suceder o outro, corresponderiam am bos aos m esm os grupos, cada um deles possuindo duas aldeias, entre as quais se alternariam sazonalm ente. Durante o período das chuvas, os habitantes de Dhar Tichitt cultivariam o m ilhete e apascentariam o gado no alto do penhasco, descendo, na estação seca, para as
proxim idades dos lagos rasos, onde pescariam e colheriam o kram -kram .99 Essa hipótese não desfaz — antes a sustenta com igual ou m ais força — a convicção de que em Dhar Tichitt j á se conheciam as práticas agrícolas por volta de 1100 a.C.
No início de nossa era, a agricultura estava bem im plantada em grande parte das savanas sudanesas, em porções do norte da África Índica e nas zonas periféricas das florestas da África Ocidental. Em todo o resto do extenso território subsaariano, os hom ens viviam da caça, da pesca e da coleta.
As práticas agrícolas propagavam -se devagar. Tinham contra elas a resistência à m udança por parte dos caçadores e dos pescadores, resistência bem j ustificada pela estabilidade de seu m odo de vida, que não seria de trocar-se por outro, tão suj eito às im precisões do clim a e às m ais diversas pragas, além de ser de dieta m ais pobre.
As terras africanas são ricas em anim ais. Os rios, piscosos. Os frutos, as raízes, o m el, abundantes. O caçar, o pescar e o recolher os bens da terra dem andam m enos esforço e m enos horas diárias de trabalho do que cuidar do solo ou do gado. E podem cobrir, com facilidade e lazer, as exigências do grupo hum ano, enquanto este perm anecer pequeno e capaz de m udar-se periodicam ente das áreas que desgastou de anim ais, raízes e frutos, para outras ainda virgens. Acabará, contudo, por recorrer a outros m étodos de produção de alim entos e a fixar residência, se crescer em núm ero e não puder continuar a cam inhada, ou porque nas terras próxim as encontrará com petidores, ou porque aum entou a bagagem que transporta.
A perm anência sazonal, m ais dem orada em certos pontos de recursos naturais privilegiados, deixava o hom em afeiçoar-se às suas posses, que cresciam em espécie e em quantidade. Havia que m anter em sítio seguro panelas e potes de barro (que se partiam facilm ente nas viagens, m as eram indispensáveis a quem se acostum ara à com ida cozida), e tam bém cordas, cestos, esteiras, redes de pesca, paus de cavar, m ós, alm ofarizes, arm as, colares e pulseiras — e a casa era esse lugar, protegida, com as vizinhas, pela invenção da cerca. Viver ao abrigo de um a com unidade m aior e em lugar fixo bem valia a disciplina de
sem ear, colher e cuidar do gado.100
Nem todos os povos que m oram ao lado de cultivadores sedentários
converteram -se, porém , às suas práticas. Alguns, com o os hadzasd da Tanzânia, em bora vizinhos de agricultores, cuj as técnicas conhecem , preferem perm anecer fiéis à caça, de tal m odo ela retém sua eficácia e prestígio.
Tão forte é a excitação da caça, que esta persiste, com o atividade econôm ica ou esporte de elite — depois de ter estado, por vários séculos, reservada prioritariam ente aos reis e à nobreza — nas m ais tecnificadas das civilizações. Em bora paraíso dê a ideia de j ardim fechado, pelo m enos desde a Idade Média, quando o conceito persa se reforçou com as im agens do locus am oenus, do sítio aprazível de extração virgiliana, com seus relvados floridos, seus pássaros e suas
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árvores de som bra e de fruto, Toy nbee não nos deixa esquecer que outro
sentido da palavra é este: um trecho de savana, artificialm ente m antida em estado virgem , para ser usado nos prazeres venatórios.
O gosto da cam inhada e da aventura talvez explique em parte por que a criação de gado avançou m ais rapidam ente, pela África afora, do que os gestos repetidos da lavoura. Isso, para os que acreditam que j á no sexto m ilênio a.C. os rebanhos se haviam difundido por boa porção do Saara, pois não falta quem sustente não haver evidência clara de bovinos, caprinos e ovinos dom ésticos, na
Líbia, no Saara e no Magrebe, antes de 5000 a.C., 102 datando de um m ilênio
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depois o com eço de sua expansão para o sul.
Seriam dom ésticas as cabras e as ovelhas em que se baseava a econom ia de Haua Fteah, no sexto ou quinto m ilênios a.C.? E as ossadas de boi encontradas na gruta de Gapeletti, nos m ontes Aures (na Argélia)? Seriam de anim al dom éstico? E de quando datariam ? Do sétim o ao sexto m ilênio a.C. ou da m etade do quinto
m ilênio? 104 Quanto aos achados de Bir Kiseiba, que teriam cerca de nove m il
anos, há dúvidas de que correspondam a boi dom esticado.105 E são tam bém obj eto de disputa outros testem unhos da presença precoce de gado no Saara.
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Assim , há quem date de cerca de 5000 a.C. as ossadas de caprinos (ou ovinos) e um a caveira e restos de boi localizados em Ouan Muhuggiag, no
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Tadrart Acacus, e quem os ponha m il anos m ais tarde. Sobre as pinturas rupestres que ali existem , com figuras de bovinos, parece que seriam anteriores a 3400 a.C. E talvez tenham a m esm a antiguidade algum as das im agens que os pastores nôm ades deixaram de seus anim ais em quase todo o Saara, especialm ente nos m aciços m ontanhosos do Tassili des Aj j er (ou Tassili n’Aj j er), do Tibesti e do Hoggar (ou Ahaggar).
Por volta de 4000 a.C., os rebanhos talvez pastassem em Adrar Bous, no Air. Mais de m eia dúzia de séculos depois, o gado chegaria a Asselar, na parte norte do vale do rio Tilem si (na atual República do Mali). E, no início do segundo m ilênio, desceria até o Níger, com o dem onstram as ossadas e as figurinhas em cerâm ica desencavadas em Karkarichinkat. Já se criava, então, gado em Dhar Tichitt, na Mauritânia.
Com o paulatino ressecam ento do Saara — acentuado a partir de 2000 a.C. —, o que restava das culturas aquáticas perde ainda m ais terreno. Elas acabam por estagnar-se em m odos de viver de m inorias, ou característicos de determ inadas áreas. Ao redor do Chade. Ao longo do Níger. No norte da atual República de Gana.
Os rebanhos dom inam o cenário dos altiplanos saarianos, nos quais algum verdor persistirá por m uito tem po ainda. Até o Saara transform ar-se num com pleto deserto. Mas, j á então, os anim ais que o hom em reduzira à sua serventia haviam -se deslocado para as savanas e as estepes m ais ao sul. Na direção da África Atlântica, onde em Kintam po, no atual Gana, j á havia bois e cabras nos séculos XV e XIV a.C. E pelas excelentes pastagens da África Índica.
No vale do Nilo, acim a da sexta catarata, registram -se caprinos, ovinos e bovinos no quarto m ilênio a.C. Em Esh Shaheinab e Kadero. Ali, com o no Egito, a pecuária parece ter estado ligada à agricultura e à pesca, a certa form a de sedentarism o, ainda que se pudesse praticar a transum ância.
Terá sido tam bém assim em Godebra, na Etiópia, onde se encontraram indícios de boi dom éstico, em cam adas posteriores ao terceiro m ilênio antes de nossa era. Por essa época, de que datariam os restos de bovinos localizados ao redor do lago Besaka, a oeste de Harar, o pastoreio e a agricultura j á prevaleciam no Chifre da África.
Da Etiópia, do Sinai, do vale do Nilo ou da faixa sudanesa que dele se prolongava para o oeste, a África Oriental recebeu o seu gado. Até agora, as presenças m ais antigas de anim ais dom ésticos na África Índica foram localizadas em Ele Bor, próxim o à fronteira entre o Quênia e a Etiópia, e na área de Ileret, a nordeste do lago Turcana. Em Ele Bor, havia cabras (ou ovelhas) e
cam elos, estes em pequeno núm ero, por volta de 3000 a.C. 108 E em três sítios arqueológicos de Ileret encontraram -se restos de bois e cabras ou ovelhas, além de cerâm ica e vasos talhados na pedra, do tipo que caracterizaria por m uito tem po certos povos pastores da África Índica.
O boi, o carneiro, a cabra, o cão e o porco provinham do Oriente Médio. Atravessaram , ao que tudo indica, j á sob o controle dos hom ens, o istm o de Suez, pois do carneiro, do porco e do cão não existem ancestrais africanos. Nem da cabra dom esticada, pois ela não parece ter relação com a cabra da Barbaria, que se caçava na África Mediterrânica. O caso do boi pode talvez ter sido diferente, pois não se exclui que tenham sido dom esticados, desde o início, no Egito ou na África do Norte, dois tipos de bovinos que lá existiam (o Bos prim igenius e o Bos brachy cerus). Com o foi dom esticado no Egito — e pela prim eira vez — o j um ento, que dali era nativo.
Na África subsaariana, onde se suj eitaram tão num erosas e variadas espécies vegetais, só se dom esticou perm anentem ente um anim al indígena: a galinha-d’angola (ou angolinha, galinha-da-guiné, galinha-da-índia, galinha-da-m ata, galinha-da-num ídia, pintada, conquém , capote, cocar, estou-fraca, galinhola, picota, chácara, angolista ou que outros nom es tenha). O elefante pode ter sido posto a serviço do hom em , durante algum tem po, em Méroe. Mas só em Méroe e em Axum , e durante algum tem po. Não se dom esticaram nem a zebra, nem o búfalo, nem o íbex (a cabra selvagem da Etiópia), nem o elande, nem os outros antílopes. É m uito provável que alguns desses anim ais, e leões, m acacos, panteras, hienas e todo o tipo de pássaros, tenham sido, desde longe no tem po, aprisionados e dom ados, para serem exibidos em cativeiro, com o no Egito, ou cevados para o corte. Em Jebel Uweinat, no sudeste da Líbia, aparecem , por exem plo, gravadas na pedra, três girafas: um a delas um hom em puxa por um a corda; as outras duas estão am arradas pelo cabresto a tocos de pau fincados no
solo. 109 Tinham dono, e de m odo m ais preciso do que as m anadas de elandes que os bosquím anos ou sãs consideram suas propriedades m ais valiosas. Todavia, esses anim ais não foram nunca sistem aticam ente am ansados, nem form aram rebanhos guiados pelos hom ens. Rebanhos sem elhantes aos de bovinos, caprinos e ovinos que com eçaram a descer África abaixo, quando o Saara se voltou em deserto.
Por volta de 1000 a.C., o Saara convertera-se num im enso oceano árido, a separar a África Mediterrânica da m aior parte do continente. A isolar da Ásia e da Europa a m ole subsaariana.
A parte ao norte do deserto inscreve-se na grande faixa ásio-europeia percorrida pelo com ércio e pelos exércitos. Ali, cada cultura adiciona a seus achados os inventos das outras. Há intensa troca de deuses, costum es e bens. Vive-se a atm osfera de rivalidade criadora entre culturas e nações. Para além do sul do Saara m al chegam , e penosam ente, notícias de feitos alheios. As im ensidões africanas estão isoladas do Mediterrâneo pelo deserto, só transposto no litoral da Mauritânia, no m ar Verm elho e Nilo acim a. Um Nilo cortado de cachoeiras e bloqueado pelo Sudd.
A insistência com que se referem os carros puxados a cavalo, que percorreriam , na Antiguidade, pedaços do deserto, prova a raridade dos contatos — se é que os houve de form a direta — entre as duas m argens do Saara. São m encionados exatam ente porque seriam raros. E raros, extrem am ente raros, só deixariam de ser depois da dissem inação do cam elo na África — no início de nossa era — e da form ação das tribos cam eleiras, que dom inariam os cultivadores de cevada e de tâm aras, instalados nos oásis.
O insulam ento fez com que as invenções de outros povos só m uito e m uito depois, quando j á não eram novidades, se tornassem conhecidas dos africanos ao sul do Saara. De m uitas, só quase em nossos tem pos vieram a ter notícias. Pouco se beneficiariam eles da acum ulação e do escam bo continuado de descobertas, do processo de som a e troca desenrolado, ao longo dos séculos, desde os confins da Ásia até os lim ites ocidentais da Europa. Tiveram de criar, quase sozinhos, seus instrum entos de trabalho e m odos de vida. Ou de acolher e adaptar os obj etos, os utensílios, as arm as, as técnicas, os conceitos e os m odos de com portam ento que lhes vieram de longe, no espaço e no tem po, j á desgastados por essas duas form as de distância.