A Enxada e a Lança
2. A pré-história
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
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aluviais do Índus, do Nilo e da Mesopotâm ia.
Algum as pesquisas genéticas apoiam a teoria da origem africana do hom em
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m oderno. Em m eio a grande polêm ica. Com o a que se desatou em torno dos estudos do DNA m itocondrial em grupos de indivíduos contem porâneos. Esses estudos indicariam que todos os investigados descendem de um a só ancestral —
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de um a única Eva —, que viveu na África entre 143 m il e 285 m il anos. O
m itochondron é um corpo m inúsculo e autorreprodutivo que existe aos m ilhares em cada um a de nossas células e possui DNA próprio. Cada um de nós recebe os m itochondria exclusivam ente da m ãe, pois os hom ens não os transm item aos filhos. Pode-se, assim , estabelecer um a linha de descendência de m ãe a m ãe e, conhecendo-se o ritm o e a taxa de m udança do DNA m itocondrial e o grau de diferença entre dois indivíduos vivos, calcular a época da divergência de sua últim a ancestral com um . Chegou-se à conclusão de que, num a grande árvore de parentesco, todos os galhos seriam form ados por africanos, exceto o ram o de um deles, de brotação relativam ente recente, onde estariam os dem ais seres hum anos. A ser certo, isto significaria que todos os não africanos possuem um a antepassada com um m uito m enos antiga do que a ancestral de todos os africanos e, consequentem ente, que a m atriz de todos os hom ens, africanos ou não, m orou na África. Não só se extinguiu, ao longo dos m ilênios, a descendência das outras fêm eas que viviam na sua época, m as tam bém foram ficando sem posteridade as neandertalenses e as com panheiras de todas as dem ais subespécies do Hom o sapiens.
Não foram m enores nem m aiores que os apoios as críticas aos m étodos e às conclusões dessa e de outras pesquisas subsequentes sobre o DNA m itocondrial e a evolução do ser hum ano. Considera-se, por exem plo, pequeno o núm ero de indivíduos estudados e põem -se em dúvida a validade dos m odelos estatísticos, a form a com o se estabeleceu a árvore de parentesco e as taxas de m udança no tem po do DNA. Dois dos participantes no estudo inicial am pliaram para entre
cinquenta m il e quinhentos m il anos a época em que teria vivido Eva.44 Um deles, posteriorm ente, participou de novos trabalhos, que produziram com o data 135 m il anos, com m argem de possibilidade a estender-se de 65 m il a 357 m il
anos.45 E outra equipe de pesquisadores propôs que a m ãe com um dos seres
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hum anos tivesse duzentos m il anos. Todos a põem , contudo, na África e num
período que não destoa, em geral, da datação dos m ais antigos fósseis conhecidos do Hom o sapiens sapiens. Esses favoreceriam , estando longe de perm itir certezas, a tese de que o hom em m oderno surgiu na África, de onde em igrou, há
uns cem m il anos,47 para o Oriente Médio e o resto do m undo.
O que parece claro é que se diversifica, com o Hom o sapiens, em suas várias subespécies, a indústria lítica africana. Os m odelos, os tam anhos e as técnicas de fabrico m udam de região para região, a responder a diferenças de entorno, de tipo de caça e coleta vegetal, de qualidade da rocha a ser trabalhada e dos desafios que o hom em tinha de enfrentar.
Em pequenos grupos, ele se foi assenhoreando das m ais diversas paisagens — só deixando de fora as altas m ontanhas e as florestas densas. Foi viver, porém , no altiplano etíope, às vezes acim a dos 2.500m , e com eçou a penetrar nas franj as das m atas da República Dem ocrática do Congo e do golfo da Guiné, talvez num período em que a m udança do clim a, para bem m ais frio, as tornara m enos fechadas.
A fim de poder ocupar os terrenos fortem ente arborizados, o hom em arm ou-se de instrum entos especiais, que, pertencendo à tradição acheulense, se apresentam , entretanto, m uito m ais pesados. Os bifaces tornam -se m ais m aciços, m ais largos e m ais curtos. O cutelo ou m achadinha desaparece. As esferas tornam -se raras. Os picões passam a prevalecer, com os raspadores. E surgem peças bifaciais, longas e estreitas — goivos? buris? punhais? —, que podem ultrapassar os 25cm de com prim ento. Com esses utensílios — que form am o com plexo cultural a que se cham ou Sangoense —, o hom em arranca raízes com estíveis, lim pa a terra, corta os galhos das árvores, trabalha a m adeira. O conhecim ento do fogo lhe perm itirá, m ais tarde, queim ar a ponta das lanças, para endurecê-la, e cham uscar a m adeira, com o obj etivo de escavá-la.
As técnicas do Sangoense — nom e tirado da baía de Sango, na parte ocidental do lago Vitória — predom inaram a oeste das Grandes Falhas, em grande parte da África Atlântica e no sudeste do continente até Natal. Na Zâm bia, no Zim babué, nas planícies de Moçam bique.
Na África do Norte, assim com o na Península Ibérica, na França e na Itália, outras técnicas — sem elhantes às prevalecentes no Oriente Próxim o — vieram a desenvolver-se. Form aram elas um com plexo cultural, o Musteriense, que se caracteriza pela utilização de duas novas técnicas de talhar a pedra: o m étodo de Levallois e o m étodo do núcleo discoide.
O m étodo de Levallois consiste em preparar-se um pedaço de rocha de tal m odo que dele se obtenham lascas com form as predeterm inadas. Assim , de pedras previam ente arranj adas em form a de casco de tartaruga, retiravam -se lascas ovais, e de blocos triangulares, lascas igualm ente triangulares.
No m étodo discoide, tom a-se um a pedra de form a aproxim adam ente esférica, que se vai lascando em todos os sentidos do contorno — com o se estivéssem os a descascá-la —, de m odo a obter-se certo núm ero de pequenas peças triangulares, bem m enores do que as produzidas pela técnica de Levallois.
Em bora nela ainda ocorram pequenos bifaces em form a de coração, os instrum entos leves e finos (raspadores e pontas triangulares para lanças ou outros proj éteis) predom inam na cultura m usteriense. E continuarão a predom inar no com plexo lítico dela provavelm ente derivado, o Ateriense, que se espraiará pelo Saara. A gente que o praticava vivia sobretudo nas m ontanhas, então verdej antes, e nas m argens dos rios que delas desciam e traçavam zonas de um idade nas planícies áridas. Esse período úm ido estendeu-se possivelm ente de 100 m il a 38 m il anos antes de nós.
Liga-se ao Ateriense im portante invenção: a da espiga. Talhava-se na base de um a lasca triangular um a espécie de pedúnculo, que servia para inserir a peça num cabo, encaixá-la no orifício de um caniço, de um bam bu ou de um osso, j untar e am arrar um a ponta de pedra em haste de m adeira. E não servia apenas para pôr cabo em pontas de arm as, m as tam bém em outras pequenas lascas, que seriam utilizadas com o raspadeiras ou buris. A espiga perm itia um a ligação segura da peça lítica a seu cabo e a redução de tam anho e peso do artefato de pedra, o qual passava a ser apenas parte de utensílio m aior. É no Ateriense que ela se apresenta pela prim eira vez, a dar nítida e irrefutável prova de que o
hom em aprendera a ligar a um fuste um a ponta de pedra.48 Há m ais de quarenta m il anos.
Ou m uito antes. Pois a espiga não era condição essencial para o ato de encabar. E o predom ínio, nas savanas, cam pinas e cerrados, desde a Etiópia até o extrem o m eridional do continente, de um novo equipam ento de pedra no qual abundavam lascas em form a de lâm inas, m uitas vezes triangulares, que funcionariam com o pontas de lança, leva a crer que j á se conhecia a técnica de ligá-las, com fibras, resinas e gom as, a cabos de osso e hastes de m adeira.
Na África Índica e na África Meridional, as técnicas de Levallois e do núcleo discoide passam a predom inar num a série de indústrias que apresentam , com o outras características com uns, a redução do tam anho dos instrum entos líticos, a dim inuição da frequência dos bifaces ou “m achados de m ão” (quando estes não se fazem de todo ausentes), a predom inância de lascas-lâm inas de lados paralelos, de talhadeiras, goivas, buris, facas, raspadeiras e pontas de lança — a lança que se im põe com o im portante arm a de caça.
Na África Meridional, as indústrias desse tipo tom am o nom e de Pietersburg. Em dois lugares, Klasies River Mouth e Border Cave, foram encontradas em associação com ossos que se têm com o do Hom o sapiens sapiens enquanto que em Dire Dawa, na Etiópia, as indústrias assem elhadas vinculam -se a neandertaloides, e no lago Ey asi, no Quênia, a restos do Hom o sapiens rhodesiensis. Tam bém a este últim o tipo pertence o crânio de Kabwe (ou Broken Hill), na Zâm bia, que tem sido associado ao Sangoense.
Quando o Sangoense foi substituído, há pelo m enos quarenta m il anos, nos arredores do lago Vitória, na região a oeste das Grandes Falhas e na bacia do rio Zaire, pelo com plexo industrial, dele derivado, que se denom ina Lupem biense, o Hom o sapiens sapiens possivelm ente j á seria senhor do terreno. Tal com o sucedera no norte da África, onde o Ateriense se vincula ao hom em m oderno —
a j ulgar-se pelos achados de Dar es-Soltan e de Tém ara.49
No Lupem biense — de Lupem ba, no Chaba ou Catanga (República Dem ocrática do Congo) —, os instrum entos do Sangoense, com o os bifaces e os picões, subsistem , m as dim inuem de tam anho. Surgem longas lâm inas de duas pontas, talvez para um a delas ser inserida no cabo da lança. Poderiam tam bém ser punhais, com pridos de 15 a 35cm . Mais longos ainda, na fase final da indústria, conform e localizada no Stanley ou Malebo Pool e em Angola, quando chegam aos 46cm . Aparece e desenvolve-se um a grande variedade de peças pequenas (entre as quais se incluem pontas triangulares com espiga), bem com o enxós, serras e trinchetes de gum e oblíquo ou reto.
Entre esses vários com plexos líticos e entre eles e outros que aqui não se m encionam , havia indústrias de natureza interm ediária, que participavam de diferentes m odelos a um só tem po, que preservavam em determ inados equipam entos form as que pertenciam a outro, j á antiquado, que privilegiavam certos instrum entos de um conj unto e abandonavam os dem ais. Houve m odos de trabalhar e utilizar a pedra com uns a enorm es extensões geográficas ou que se prolongaram praticam ente inalterados no correr dos m ilênios; e outros que duraram m uito m enos ou tiveram aplicação restrita a um a pequena área; e ainda outros que, após dem oradíssim a prevalência num a região m uito circunscrita, expandiram -se continente afora.
Nesse enorm e período de tem po, que com eça há uns cem m il anos e dura m ais de setenta m ilênios, o hom em com eçou a poder afastar-se ligeiram ente da beira dos rios, dos lagos e das fontes e a ir viver em cavernas ou sob abrigos de pedra. Aprendera, ao que parece, a transportar e a guardar a água — em cascas de árvores, cabaças, ovos de avestruz, sacos de couro — e a levar de um lado para outro seus apetrechos e os alim entos que o fogo lhe perm itia conservar. Há indícios, com efeito, de que possa ter em pregado o fogo para secar a carne. Talvez alguns grupos tenham com eçado a usar o sal.
Pois o hom em foi tam bém viver nas praias. E talvez tenha sido nos litorais do extrem o sul do continente (com o se m ostra em Klasies River Mouth e na baía do Saldanha) e da Líbia (Haua Fteah), que explorou, pela prim eira vez na história, os
recursos do oceano.50 Mariscava. Caçava focas e aves de asa entanguida, com o os pinguins. Mas não abatia nem capturava as capazes de voo. Nem sabia pescar, ou o fazia sem desenvoltura e raram ente.
A pesca estava, porém , a ser inventada, j unto aos rios e aos lagos. A gente do Musteriense, por exem plo, m oradora da área de Wadi Halfa, no vale do Nilo, deixou sinais de que com ia vários tipos de pescado.
Nas savanas, ficaram testem unhos — os num erosos alm ofarizes e quebra-nozes de pedra — de que se m oíam e partiam grãos e sem entes, e de que esse tipo de alim ento passara a ter im portância na dieta de certos grupos.
Muitos alm ofarizes podem ter tido outra função: a de triturar m inérios corantes, para, com o pó, pintarem -se arm as e provavelm ente o próprio corpo. O surgim ento de um sentim ento estético — de que seria tam bém indício o bocal de flauta ou apito desenterrado em Haua Fteah, na Líbia — poderia estar aliado a um a noção do sobrenatural e da vida ultraterrena, que explicaria o cuidado com que se passou, em algum as partes, a enterrar os m ortos.
Em certas áreas, a tendência geral de reduzir-se o tam anho dos artefatos líticos, que passavam a contar com suportes de m adeira, afirm ou-se com m aior nitidez. Há m esm o um caso de grande precocidade. Pois se têm com o antigos de setenta m il anos pelo m enos equipam entos encontrados em vários pontos da África do Sul — em Klasies River Mouth, em Nelson Bay, em Border Cave, por exem plo —, caracterizados por pequenos sílices em form a de crescente ou de trapézio, tendo cego o lado oposto ao da lâm ina, a fim de que não partisse, cortando, o fuste em que se inseria. O lado rom budo era m uito trabalhado, de m odo a apresentar forte rugosidade, para poder assim grudar-se m elhor, com gom as e resinas, ao cabo.
Essa indústria de lam elas, com seus dim inutos buris e raspadores, produzidos pelo m étodo de percussão indireta — isto é, com o auxílio de um a peça interm ediária, de osso, chifre ou m adeira dura —, recebeu o nom e de Howieson’s Poort, do lugar, ao pé de Graham stown, onde os prim eiros utensílios desse tipo foram encontrados.
Em Klasies River Mouth, a cam ada que contém peças do tipo de Howieson’s Poort fica surpreendentem ente entre dois estratos com m aterial de indústria de Pietersburg. O que fez com que se aventasse ter havido no local a intrusão de um grupo diferente, que teria inventado a nova tecnologia em outras terras. E propôs-se que fosse ele constituído por hom ens m odernos. Se o eram — não se encontraram ossadas hum anas no horizonte de Howieson’s Poort —, substituíram outros grupos de Hom o sapiens sapiens, pois este j á estava presente no local há m uito tem po.
Com o quer que tenha sido, a indústria de Howieson’s Poort é o m ais antigo exem plo, que se conhece no m undo, do fabrico de m icrólitos, antecipando em várias dezenas de m ilênios um a técnica que viria depois a ser am plam ente
em pregada. 51 Constitui, contudo, um m ero interlúdio, sem continuação regional, num a longuíssim a sequência de em prego das técnicas de Pietersburg, que continuarão a predom inar por vários m ilênios na África do Sul.
É bem m ais ao norte, em locais com o o abrigo de Kalem ba, na Zâm bia Oriental, que se observa a passagem de um processo de produção a outro. Os núcleos preparados foram cedendo lugar, ali, há m ais de 24 m il anos, a núcleos sem configuração precisa, dos quais se retiravam lascas irregulares, m uito pequenas, que tom avam form a depois de cuidadosam ente retocadas.
Num a larga faixa de terras planálticas, a descer do lago Vitória e do sul do Quênia até o rio Zam beze, essas lam elas dim inuirão, ao longo do tem po, sistem aticam ente de tam anho. Até chegarem , em alguns casos, a m enos de um centím etro de com prim ento.
No início, predom inavam pequenas peças pontudas, típicas da indústria cham ada Nachikufan I. Depois, m icrólitos com feitio de m eia-lua: um segm ento de círculo, com o gum e reto e o dorso curvo cego. Havia-os tam bém em form a trapezoidal, retangular, triangular. E j unto a eles, pedras furadas — pesos que se punham em paus para cavar o solo e extrair raízes.
Entre 16000 a.C. e 7000 a.C., a técnica dos m icrólitos im pôs-se na m aior parte da África ao sul do Saara. Mas, em várias regiões, persistiram m étodos m ais antigos, ainda por m uito tem po, e, em outras, desenvolveram -se m odos distintos de trabalhar a pedra.
Assim , se em plena floresta nigeriana, em Iwo Eleru, faziam -se m icrólitos há pelo m enos 12 m il anos, ali perto, a m enos de 150km de distância, em Asej ire, ainda se lascava a pedra segundo processos derivados dos m étodos de Levallois e do núcleo discoide, em 4000 a.C.
Em áreas com o o nordeste de Angola, o planalto de Bateke, o Stanley Pool e a planície de Kinshasa, assistiu-se há uns 14 m il anos à transform ação do Lupem biense num a indústria em grande parte m icrolítica, m as que m anteve form as e processos anteriores: a Tshitoliense. Nela persistiram pequenos “m achados de m ão” e picões. E apareceram utensílios novos, com o plainas, facas de dorso, lâm inas com ponta retocada e sobretudo m icrólitos geom étricos. São variadíssim as as pontas de flechas e das m ais diversas form as.
Em Dundo, no nordeste de Angola, pode-se acom panhar a redução continuada do tam anho dos artefatos. Bem com o a crescente im portância de um m icrotrinchete (o petit tranchet), que se fazia cada vez m enor e que era possivelm ente utilizado com o ponta de flecha.
O aparecim ento do arco e flecha na África — ignora-se quando, m as crê-se que há m ais de 12 m ilênios — revolucionou a caça, ao alongar o braço hum ano ainda m ais que a lança. Multiplicou-lhe a força. Deu-lhe tam bém m aior velocidade, perm itindo-lhe abater anim ais na carreira. Os antílopes, a galope. As aves, em pleno voo. E terá sido um incentivo à dim inuição das dim ensões das lam elas.
Estas podiam ser m inúsculas, desde que afiadas. Fixava-se um a só, transversalm ente, na ponta do hastil. Ou duas, a com porem um triângulo pontudo. Muitas vezes colocavam -se ainda outras, em fendas laterais, m ais abaixo, para servirem de farpas. A flecha era, depois, provavelm ente ervada.
O aprim oram ento de utensílios com pósitos, nos quais a pedra lascada era a peça m enor do conj unto, conduzirá, assim , à progressiva redução do elem ento lítico. Substituiu-se o trinchante grande de pedra por um pedaço trabalhado de m adeira, no qual se inseriam vários m icrólitos. A sequência de dim inutas lâm inas form ava o corte da faca, da foice ou da serra.
No norte da Etiópia, no norte da Som ália e na região das Grandes Falhas, desenvolveram -se indústrias líticas distintas, caracterizadas pela produção de grandes lâm inas a partir de núcleos prism áticos. A m ais conhecida dessas indústrias concentrava-se ao redor do lago Nakuru e trabalhava a obsidiana, para fazer com esta rocha dura talhadeiras e buris de grande resistência, longas lâm inas com um dos lados rom budo (com o a faca m oderna) e, m ais tarde, lam elas em form a de crescente. A essa indústria, antiga talvez de 12 m il anos, deu-se, prim eiro, o nom e de Capsiense do Quênia, por suas analogias com um a cultura lítica da África do Norte, e depois, de Eburriense.
O hom em passara a dispor de um a gam a bastante variada de utensílios de pedra, de osso e de m adeira. Aprendera a usar cavilhas e cunhas. A em pregar a cortiça com o bandej a. A usar a palha e as folhas para forrar os locais onde dorm ia. A fazer as prim eiras agulhas e, com fibras vegetais ou tiras de pele, costurar o couro. A fabricar adornos de osso e concha.
Cada com unidade tendia a percorrer sazonalm ente os m esm os cam inhos e a dem orar-se nos m esm os lugares, que se haviam revelado propícios. Há sinais, por exem plo, de que alguns grupos, no cabo da Boa Esperança, passavam o inverno no litoral e o verão nas m ontanhas. Aqui, acolhiam -se em grutas rasas; ali, em abrigos sob rochas; acolá, em para-ventos sem icirculares, feitos de estacas, galhos de árvores e, talvez, peles.
A unidade social era pequena: 8 a 25 pessoas. Vivia da recolha de frutos, folhas, raízes, ovos e m el, da pesca e da caça.
Caçava com lança, arco e flecha e tam bém arm adilhas. Talvez com redes, nas regiões arborizadas, com o alguns grupos de caçadores-recolectores que chegaram aos nossos dias. Assim o fazem , por exem plo, os pigm eus de Ituri (na República Dem ocrática do Congo). Estendem rede, com um a centena de m etros de com prim ento e cerca de 1,5m de altura, por entre as árvores da floresta. Os caçadores colocam -se, a certa distância uns dos outros, atrás da rede, ao encontro da qual os anim ais são tangidos pelo enorm e barulho que fazem m ulheres e crianças, vindas de longe, em grande linha, na direção da
arm adilha.52
Ao longo dos m ilênios, aum entaram os cuidados no enterram ento dos m ortos, que desciam à terra com seus adornos, alguns bens e até m esm o seus troféus de
caça.53 Os rituais m ágicos teriam então passado a perm ear o dia a dia de cada grupo.
Nas pedras de Sefar, na região de Tassili des Aj j er (na Argélia), o hom em pintou a si m esm o, de arco e flecha nas m ãos e a correr com o se voasse, a caçar antílopes e rinocerontes, girafas e hipopótam os. Nas paredes de grutas rasas, em abrigos de pedra e em grandes rochas a céu aberto, no Saara, na Nam íbia, na Zâm bia, no Zim babué e na África do Sul, pintou, e às vezes gravou, adm iráveis representações naturalistas de hom ens e anim ais: os antílopes pastam , aj oelham -se, deitam -se, cam inham e voltam a cabeça para trás, com extraordinária beleza e verdade. E assim eles se deixam ver neste friso policrom ado da m ontanha de Ikanti, em Natal, na África do Sul.
O hom em m oderno não tinha m ais, desde m uito, com petidores. E com eçara a distinguir-se nos vários tipos físicos de distinta aparência, que existem até hoj e.
Há uns dez m ilênios, a África do Norte, o Chifre da África, a costa do m ar Verm elho, a Etiópia e o norte do Quênia seriam , possivelm ente, habitados sobretudo por caucasoides, sem elhantes aos que viviam na Europa e no Oriente Médio, j unto ao m ar Mediterrâneo. O Saara Meridional, a faixa sudanesa (desde o Atlântico até o sul do Nilo e o lago Turcana) e a África Ocidental, por elem entos negroides. E as savanas, os cerrados e as estepes do leste e do sul do continente, pelos antepassados dos povos que hoj e se costum a abranger sob o nom e de Khoisan, ou coissã.
O protobosquím ano j á existiria por volta de 17000 a.C. Ter-se-ia desenvolvido nos cam pos da África Oriental e da África Meridional e seus dom ínios se
estenderiam , para o norte, até Cartum .54 Já houve, porém , quem pensasse que era gente do norte, com presença até as praias africanas do Mediterrâneo, de onde teria com eçado a em igrar, há uns 14 m il anos, pelas savanas da África
Índica, para as terras do sul.55
Seus descendentes seriam os m odernos coissãs (de khoi, “hom em ”, palavra com que os hotentotes a si m esm os se designam , e san, nom e que dão ao bosquím ano, “aquele que recolhe frutos e raízes e captura pequenos anim ais”). Geralm ente consideram -se os coissãs com o constituindo um a fam ília linguística, cuj a característica seria o uso de cliques ou estalidos com valor de consoantes.
São sobretudo de natureza cultural as diferenças entre hotentotes e bosquím anos. Am bos têm a face e o nariz achatados e a cor da pele pardo-am arela, os olhos estreitos e oblíquos (em bora só nos bosquím anos se note o epicanto), e o cabelo tão encarapinhado, que nestes se concentra em rolinhos, pegados ao crânio, sem elhantes a grãos de pim enta-do-reino. Em am bos a pele cedo se enruga, e suas m ulheres são fam osas pela esteatopigia.
Contam -se uns 12 ou 11 m il anos desde o com eço, no sul do continente, do processo de redução de estatura dos bosquím anos, os quais, hoj e, com sua m édia de l,40m de altura, são bem m enores e m ais franzinos do que os hotentotes. Estes, que m edem entre 1,58 e l,65m , resultariam de antiga m iscigenação com os afro-m editerrânicos, ou com os negros, ou seriam os descendentes m enos diferenciados dos protobosquím anos.
Propõem alguns que tam bém os pigm eus possam descender dos antigos bosquím anos. Teriam aqueles — para adaptar-se biologicam ente a um clim a de floresta, de extrem a um idade e constante calor — sofrido processo de redução do tam anho ainda m ais drástico do que o responsável pelo m oderno bosquím ano. Para outros, os pigm eus derivariam do tipo negroide. Essas hipóteses resultam de não se terem encontrado nas terras das florestas — tão adversas à preservação dos ossos — restos de pigm eus de antiguidade com parável à dos ascendentes dos dem ais habitantes da África. Mas é possível que sej am tão antigos quanto os dem ais.
Presum e-se que os pigm eus, antes de se refugiarem nas selvas do Congo e do Oguê, ou em áreas de difícil acesso em outras partes da África, tenham ocupado extensões bem m ais am plas, desde o Senegal até além dos Grandes Lagos. Pelo m enos é o que dizem as sagas africanas, nas quais pigm eus ou hom enzinhos figuram com o os prim itivos donos da terra e os senhores m íticos dos anim ais selvagens. Os lendários gueguêis do lago Chade, os m oatias dos axantes, os doquis
a b
dos sossos (da Guiné-Conacri), os ij im eres dos iorubás, os azizãs dos fons, os
c
condrongos dos j alofos (do Senegal), os gum bas dos quicuios (do Quênia) continuam a povoar as histórias, as crenças e os tem ores de m uitos grupos africanos.
Essa im aginária gente m iúda, em que talvez se tenha transform ado a distante lem brança de pigm eus ou de bosquím anos, sobrevive tam bém nas superstições
am ericanas, nas áreas onde predom inou o trabalho escravo.56 Eram anões m aléficos, capciosos, zom beteiros ou velhacos, uns cabeludos e averm elhados, outros de pés para trás, alguns am igos de conversar por assobios. No Brasil, é possível que persistam na im agem do Saci ou, confundindo-se com m itos am eríndios e os enriquecendo, em certas versões regionais do Anhanga e do Curupira. Este últim o desm ente, aliás, a afirm ação de Herskovits de que não existiria, no Novo Mundo, um hom únculo fantástico com pés para trás, com o os m oatias dos axantes.
O negro teria surgido na fím bria da floresta, nas regiões que lim itavam com as savanas do Saara. Há m ais de 11 ou 12 m ilênios, um a vez que contariam esta idade os ossos descobertos em Iwo Eleru, um abrigo rochoso a 24km de Akure, na Nigéria. Menos antigos — com oito a nove m il anos — seriam os restos negroides desencavados de Ishango, j unto ao lago Eduardo (ou Katwe), no nordeste da República Dem ocrática do Congo.
Crê-se ter o negro avançado norte acim a. Por volta de 6000 a.C., j á estaria à altura da Cartum prim itiva e em Am ekni (no Hoggar). Restos de esqueletos tidos por negroides foram tam bém recolhidos em Asselar (no sul do Saara, no Mali), em Tem ay a Mellet (no Níger), nas m argens do lago Turcana e no vale oriental das Grandes Falhas. Alguns grupos negros teriam descido o Nilo até o Alto Egito, onde se m iscigenaram intensam ente com populações caucasoides, dando origem à predom inância de m estiços na cultura pré-dinástica de Badari (cerca de 4000
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a.C.). Mendes Correia propôs, com seu Hom o afer taganus, que tivessem
chegado a Portugal.
Talvez se possa dar por contado que pelo Saara passava a linha de separação e encontro entre negros e brancos. Viveriam a distância ou próxim os uns dos outros. A hostilizarem -se ou a se m isturarem . Os negros, ao sul. Os brancos, ao norte.
Há m ais de 12 m il anos, caucasoides, aos quais se dão os nom es de afro-m editerrânicos, afro-asiáticos e eritraicos, entraram na África, pelo istm o de Suez, e se espalharam até o Magrebe — substituindo populações anteriores do tipo do hom em de Cro-Magnon — e tam bém pelas savanas e estepes do norte do Saara, pela Etiópia, pela Som ália e pelo norte do Quênia.
Já se sugeriu que esses hom ens altos e de cabeça alongada estivessem ligados à cultura natufiense da Palestina e tivessem sido os responsáveis pela indústria lítica denom inada Capsiense do Quênia ou Eburriense. Mas esta tem sido tam bém considerada obra de negroides. Ou de coissãs. Ou de m estiços. Ou de grupos de com posição m ista.
Entre os eburrienses, o arpão devia ser a principal arm a. Pois esse povo, que trabalhava a obsidiana, ter-se-ia fixado j unto aos lagos, bem com o aos rios que para eles afluíam , e se dedicado à pesca.
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O Eburriense seria um a das form as daquilo que J.E.G. Sutton definiu com o
um a “civilização aquática”, e que se estenderia do alto Níger ao Nilo m édio, passando pelo Chade e a região das Grandes Falhas. Todavia, há quem pense que ele pôs o tem a com certo exagero e que, em vez de um a unidade de cultura em toda essa vasta área, haveria, com o m ostra a variedade de indústrias líticas nela existente, processos de adaptação com uns ou sem elhantes de distintos grupos hum anos ao m esm o tipo de desafio e de oportunidades econôm icas apresentadas
pelos grandes lagos e rios. 59
Após um a fase de extrem a aridez — o Saara era ainda m ais seco do que agora —, o clim a da África experim entou, a partir de aproxim adam ente 10000 a.C., um longo período úm ido. O Saara passou a abrigar grandes lagos e rios. Em suas extensas savanas, de caça num erosa, m ultiplicaram -se os grupos hum anos.
No período de m aior um idade — entre os oitavo e sexto m ilênios a.C. —, quando o Chade am plíssim o era alim entado por rios nascidos no Tibesti, no Air e no Hoggar, e o nível dos lagos da África Oriental era tão alto que alguns deles, com o o Elm enteita e o Nakuru, se confundiam , podia-se traçar, unindo im aginariam ente as grandes águas, um a curva desde a dobra do Níger até o Nilo m édio e dali, pelos vales das Grandes Falhas, sul abaixo.
Foi nessa curva de grandes lagos e rios que se desenvolveu, sobretudo a partir do oitavo m ilênio a.C., um novo sistem a de vida. A abundância de pescado e de anim ais aquáticos fez com que se utilizasse a pesca, não m ais com o um a atividade sem elhante à recolha e à caça, m as com o um m odo sedentário, ou sem issedentário, de produzir alim entos. A pesca perm itiu que se estabelecessem m oradas fixas, j unto aos cursos fluviais e à m argem dos lagos. E, ali, o hom em desenvolveu todo um novo com plexo cultural, a fim de aproveitar da m elhor m aneira possível um m eio am biente favorável.
Fabricou, de osso, pontas de arpões, em cuj a extrem idade grossa havia, prim eiram ente, um a ranhura e, m ais tarde, um entalhe ou furo, onde se am arrava o cordel ou a tira de pele. Teceu redes e puçás. Construiu barcos. Fez cestas. Poliu pratos de pedra. E m odelou, no barro, potes e outros recipientes, às vezes de grandes proporções, que lhe perm itiram guardar os líquidos e cozinhar o peixe, os m ariscos, a carne de tartaruga, de hipopótam o e de outros anim ais, assim com o plantas aquáticas e grãos do cam po.
A cerâm ica talvez tenha sido inventada na África, por essa gente que vivia j unto d’água, algum tem po antes de aparecer na Cilícia, na Síria, no norte do Iraque e no Irã. Pelo m enos, é o que insinuam os num erosos restos de louça de barro encontrados do Quênia ao Saara e velhos de m ais de oito m il anos. Assevera-se, a propósito, que algum as j azidas com vasilham es de barro do Saara
são m ais antigas do que as encontradas no Egito, na Núbia ou no Magrebe60 — com o que se indicaria não haver o uso da cerâm ica subido o Nilo, m as, sim , por ele descido. Afirm a-se, adem ais, que a arte do oleiro antecipou, na África saariana e na região dos grandes lagos — onde a pesca favoreceu um tipo de
vida sedentário —, a adoção da agricultura e da pecuária. 61
Tenha o responsável pelo cham ado Capsiense do Quênia sido afro-m editerrânico, negro, coissã ou m estiço, em todo o resto do largo espaço então interrom pido por lagos, lagunas, rios, regatos, pântanos e alagadiços, entre o Nilo e o Níger, era predom inantem ente negro ou negroide quem em punhava o arpão de ponta de osso. Predom inantem ente negro ou negroide, pois é provável que para j unto das águas haj am afluído povos do norte, do leste, do oeste e do sul, de
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tipos distintos, que se devem ter m iscigenado entre si.
Pouco im porta, aliás, com o eram a cor de suas peles, o form ato de seus crânios, a largura de seus narizes, a textura de seus cabelos. Participavam de um igual m odo de vida. Faziam potes de barro sem elhantes, ornam entados com m últiplas linhas horizontais em form a de ondas, riscadas com espinhas de peixe sobre a m assa ainda m ole. Tanto ao sul, em Gam ble’s Cave, próxim o ao lago Elm enteita, quanto ao norte, na Cartum prim itiva, enterravam os m ortos em
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posição contraída, fetal, com o a sugerir um novo nascim ento, num a outra vida.
E tanto a oeste, em Asselar, quanto a leste, na Cartum prim itiva, extraíam dois dentes incisivos superiores, tal com o o faziam os natufienses da Palestina e com o
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o fazem os m odernos povos nilóticos.
Na Cartum prim itiva — j á ocupada possivelm ente por volta de 6000 a.C. — detectaram -se indícios de que talvez se construíssem choupanas de trançado de
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varas, com reboco de barro. Moradas perm anentes, ou sem iperm anentes, que
com põem , com a cerâm ica — frágil dem ais para com binar-se com o nom adism o —, o quadro da sedentarização.
Esse m odo de vida ligado aos recursos aquáticos passa a sofrer, a partir de 5000 a.C., os efeitos de novo ressecam ento clim ático. Estancam -se m uitos rios. Num erosos pequenos lagos enxugam . As m argens de outros reduzem -se. As com unidades de pescadores isolam -se e várias delas aderem a outros m eios de sobrevivência.
Em algum as regiões, certa m elhora do clim a, nos quarto e terceiro m ilênios a.C., perm itirá um renascim ento das culturas aquáticas. No m édio Nilo. Em vários pontos da faixa sudanesa. No Chade. As pontas de osso dos arpões são agora quase sem pre furadas, para ali atar a corda. As m ós são m aiores, m ais num erosas e diversificadas, a atestarem o aum ento do consum o de grãos nativos.
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E surge o anzol — cortado na concha, a leste, e no osso, a oeste.
O auge dessas culturas aquáticas — em que o osso, de certo m odo, predom inou sobre a pedra — deu-se na m esm a época em que se afirm ava e se
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expandia, no Oriente Médio, o que Gordon Childe denom inou “revolução
neolítica”, com a dom esticação de certas gram íneas e de alguns anim ais e a consequente sedentarização do hom em . E o êxito das culturas aquáticas, com parativam ente ricas e dinâm icas, a cortarem horizontalm ente a África, poderia explicar o atraso com que as práticas agrícolas se im puseram no continente. Teriam a eficiência e o prestígio do tipo de vida levado pelo pescador sedentário constituído inicialm ente um a barreira cultural à difusão das novas form as produtivas criadas no Oriente Médio, ali tão perto, e que se propagaram para o Egito e a África Mediterrânica.
No Oriente Médio, a dom esticação das plantas e dos anim ais aparece, pela prim eira vez, nas terras que se estendem da Palestina, Síria e Cilícia até as zonas m ontanhosas da Turquia, do norte do Iraque e do Irã, o Turquestão e o litoral do m ar Cáspio. Surge, ligada a um a indústria lítica variada e rica — que se caracteriza pelo m inucioso e belo polim ento da pedra —, em pequenas com unidades, cuj os habitantes deixam de ser sim plesm ente apropriadores de m atérias-prim as, caçadores e recolhedores de raízes, m el e frutos, para se transform arem , pouco a pouco, em produtores de alim entos e das fibras com que vão vestir-se. Do favorecim ento das boas plantas em relação às ervas m ás, o hom em passa ao cultivo deliberado. Com eça, entre 10000 e 7000 a.C., a sem ear o trigo, a cevada e o linho, que j á cresciam , selvagens, naquelas regiões, e a criar a cabra, o carneiro, o boi e outros anim ais.
Em bora a agricultura tenha sido inventada em outras partes do m undo — na China, no sudeste da Ásia, nas Am éricas Central e do Sul e, provavelm ente, m ais de um a vez e em m ais de um lugar, na própria África —, foi daquele duplo crescente fértil no Oriente Médio que o cultivo da terra se difundiu para a Europa e para o Egito.
A ideia e a prática da agricultura propagaram -se lentam ente, só chegando ao delta do Nilo entre 6000 e 5000 a.C., ainda que j á estivessem talvez presentes, em pequena escala, cerca de um m ilênio antes, no Deserto Ocidental — e disto dariam sinais Bir Kiseiba e Nabta Play a. Em Nabta Play a, ao redor de um pequeno lago, certa gente, caçadora e recolectora, que vivia num a aldeia com casas de planta oval ou circular e poços e celeiros cavados na terra, parece ter
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então cultivado sorgo, tam areiras e dois tipos de cevada (um dos quais de
origem local), bem com o ter possuído alguns bois.69
Que tenha sido lento na África o cam inhar da agricultura não é, aliás, de estranhar-se. Vagarosa foi tam bém a sua difusão na Europa. Em 3000 a.C. não havia avançado além do Danúbio — em bora os vegetais cultivados fossem os m esm os do Oriente Médio. E só por volta de 1700 a.C. cobre a m aior parte do continente europeu.