A Enxada e a Lança

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 8 de 35 · parte 2/3

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A Enxada e a Lança

4. Napata e Méroe

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

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De acordo com esta linha de raciocínio, a riqueza e a im portância de Méroe

defluíram de sua posição de porto caravaneiro. E não do fundir do ferro, que a tornou postum am ente fam osa. Nem o trabalho do m etal seria responsável — com o tanto se escreveu — pelo deslocam ento do centro de poder cuxita de Napata para Méroe. Minério de ferro de baixo teor encontra-se por quase toda parte na Núbia, e a lenha usada com o com bustível para fundi-lo podia ser retirada dos bosques de acácias que acom panham o Nilo, em qualquer ponto de seu curso e não apenas em Méroe. Ali ter-se-ia desenvolvido a m etalurgia do ferro porque era um excepcional nó de cam inhos e um im portante entreposto

com ercial.41

O m ais antigo obj eto de ferro encontrado até agora na Núbia foi um a ponta de flecha. Estava no túm ulo de Taraca. Devia ser considerado tão valioso, que o revestiram com um a folha de ouro. Raro, com certeza, era. Pois instrum entos de ferro em certa quantidade só viriam a ser desencavados de um túm ulo trezentos anos m ais recente: o de Harsiotefe, que reinou na prim eira m etade do século IV a.C. Os utensílios de ferro m isturavam -se ali com outros de bronze ou cobre,

m ais num erosos. O que reforça o que nos contou Heródoto,42 um século antes: os soldados núbios eram os únicos das tropas de Xerxes, recrutadas em todas as terras ao redor da Pérsia, a usar pontas de flechas feitas de pedra. E três séculos depois, o ferro ainda era possivelm ente tido com o preciosidade: com ele se

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faziam j oias.

Os obj etos de ferro só com eçam a ser com uns nos túm ulos m eroítas do prim eiro século de nossa era. Menos com uns do que os de bronze. E de tam anho m uito pequeno. O que não se coaduna com a im agem que A.H. Say ce, em 1911, nos transm itiu e até hoj e perdura. Im pressionado com os grandes m ontes, alguns com nove m etros de altura, de escória e ganga de fornos de fundição, ele desenhou o quadro de um a cidade cheia de fornalhas, a produzir e a exportar grande quantidade de arm as e utensílios de ferro. Méroe teria sido, assim , segundo Say ce, “a Birm ingham da África antiga”.

Em Méroe trabalhou-se o ferro, a princípio em dim inuta escala, desde os

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séculos VII ou VI a.C. Com m aior frequência após o século IV a.C. Nos

m eados do século I a.C., a indústria j á estaria plenam ente instalada, tanto ali quanto em outros lugares com o Querm a, Kawa e Argos, onde existem m ontes de

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escória de fundição. Para reduzir o ferro, usavam -se pequenos fornos

cilíndricos, de pouco m ais de um m etro de altura, sendo o fogo avivado por foles.

Se as poucas escavações até agora feitas não perm item datar com precisão quando com eçou em Méroe a m etalurgia do ferro, tam pouco autorizam a precisar suas dim ensões. Enorm es quantidades de escória podem ser o resultado de um a intensa atividade durante relativam ente curto espaço de tem po, ou de

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reduzida produção ao longo de m uitos séculos de trabalho.

Tam bém se ignora quando Méroe passou a ser a residência real e, portanto, o centro do poder de Cuxe.

Há quem pense que sem pre o foi, desde a época de Cáchita e de Piiê. O rei era consagrado no tem plo de Am on, em Jebel Barcal, e tinha sepultura em Nuri, m as vivia em Méroe e dali saíam as suas ordens. E com o prova de que em Méroe m orava a sua fam ília, indica-se que os cem itérios reais da cidade são os únicos em que se encontram sepulturas de crianças, com obj etos funerários

característicos da corte. 47

Essa é um a hipótese. Outra propõe que o soberano tivesse residência em m ais de um a cidade. O centro político de Cuxe seria o local onde ele se encontrasse, e rei e corte peram bulariam pelo país — com o há tantos exem plos, na Europa, na Ásia e na África — a distribuir j ustiça, a concertar disputas, a recrutar soldados e a recolher e consum ir o im posto em espécie. O centro da adm inistração — para

usar a frase feliz de Henri Pirenne48 sobre os condes que sucederam , na Europa, ao Im pério Rom ano — “não era a sua residência, m as a sua pessoa”. Com o tem po, o rei tendeu a fixar-se num a cidade, Napata, tal com o exigia o aum ento da estrutura burocrática, m as isto não o im pedia de m anter palácio em outra, Méroe. E os prim eiros m onarcas que foram viver em Méroe devem ter

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conservado suas antigas m oradas em Napata.

Um a terceira hipótese sustenta que, m uito em bora Méroe j á pudesse ser, no século VIII a.C., um a cidade tão im portante quanto Napata, nesta últim a vivia o rei e sua corte, e dela só saíram após a invasão de Psam ético II. Aspelta decidiu, então, m udar-se para lugar m ais distante do Egito e m ais seguro. Ao transferir-se para Méroe, o soberano fugia tam bém da influência restritiva e do excessivo controle dos sacerdotes de Jebel Barcal. Instalava-se na m etrópole m ercantil de Cuxe. E ganhava para os rebanhos reais — que deviam ser um dos fundam entos de seu poder e riqueza — as am plas pastagens da Butana.

Heródoto, 50 escrevendo pouco antes de 430 a.C., refere-se a Méroe com o capital do reino dos etíopes — pois assim cham ava aos núbios — e em parte algum a m enciona Napata. No 35° ano do reinado de Harsiotefe (369 a.C.?), esta últim a cidade j á devia experim entar os resultados do abandono: viam -se nela m uitos prédios decadentes, a transform arem -se em ruínas, e o palácio real

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coberto de areia. A m esm a estela onde isso se diz contém , no entanto, a

descrição da ida de Harsiotefe a Napata para ter a sua escolha com o rei ratificada por Am on. Continuava Napata a ser o centro espiritual do reino, e o clero de Jebel Barcal m antinha algum poder — a últim a palavra, ou o veto, na escolha dos soberanos. Esse rito cum priu-se durante m uito tem po. Até Nastasen,

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com certeza. Até o século I a.C., a crer-se nos relatos de Diodoro da Sicília.

Se só depois de 300 a.C. os reis passaram a enterrar-se em Méroe, desde a m etade do século VI a.C. um núm ero crescente de rainhas ali se sepultara. Pertencendo à aristocracia m eroíta, dificilm ente se resignariam a enterro fora da terra natal. Ou, vindo de outras plagas e não sendo constrangidas a túm ulo no cem itério tradicional dos reis, em Nuri, ficavam no sítio onde passaram a últim a parte de suas vidas ou onde lhes chegara a m orte.

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O prim eiro rei a ser inum ado em Méroe foi provavelm ente Arcacam ani. Antes da m udança definitiva de Nuri para os cem itérios m eroítas, talvez alguns soberanos tenham sido enterrados em Jebel Barcal, sob as pirâm ides que se erguem no deserto, a oeste do tem plo de Am on. Eles seriam pelo m enos três:

Ariam ani, Pianqui-Ierique-Ga e Sabracam ani,k que figuram em inscrições em Kawa. Em Kawa, e não nas pirâm ides de Jebel Barcal, onde inexistem nom es gravados, exceto o de um a rainha que não se consegue vincular a rei algum .

Essas pirâm ides possuem m aiores afinidades estilísticas com as de Méroe do que com as de Kurru ou Nuri. Dispõem -se em dois grupos separados e com

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características que distinguem um do outro. Isso fez Reisner pensar ter havido,

em duas ocasiões, cisão de poder no Cuxe. Logo após Nastasen, alguns governantes teriam estabelecido em Napata, por algum tem po, um Estado independente do de Méroe. Nova separação verificar-se-ia m uito tem po depois.

Assim pode ter sido. Talvez o clero de Am on, inconform ado com a definitiva m udança dos reis para Méroe e com o abandono em que deixavam o deus, tenha estim ulado a rebeldia e a secessão de chefes locais. Talvez tenha havido um a partilha consentida de poder, com dois reis que se tinham por iguais ou com o de Napata a prestar vassalagem ao de Méroe. Talvez os corpos sob as pirâm ides de Jebel Barcal sej am de vice-reis que governavam em nom e do m onarca

m eroíta.54

Inscrições da época fazem crer, porém , que se estendia a Napata e a Kawa a força dos reis que tinham assento em Méroe. O que não encerra a questão, dada a relativa fragilidade dos alicerces sobre os quais se ergue a sequência cronológica dos soberanos cuxitas.

A ordem em que se dispõem os seis prim eiros m onarcas de Cuxe e as datas

atribuídas a seus reinados são “razoavelm ente certas” — escreve P.L. Shinnie55 — “e há fontes egípcias com referências que as confirm am ”. Após Tenutam on, não se têm dados para localizar com precisão, no tem po, a longa série de governantes cuxitas que se estende desde a m etade do século VII a.C. até os prim eiros trezentos anos de nossa era.

As listas de reis que se conhecem são especulativas: o resultado das conj ecturas, das ilações e das estim ativas de G.A. Reisner, avaliadas, discutidas, reforçadas, corrigidas e com pletadas por D. Dunham e F. Hintze. Elas se fundam nos nom es achados nos cem itérios reais de Kurru, Nuri e Méroe, dispostos conform e a posição das sepulturas no terreno: os lugares m elhores teriam sido ocupados prim eiro, e os piores, por últim o. O estudo estilístico das pirâm ides e o exam e dos obj etos nelas contidos confirm ariam as suposições nascidas da disposição topográfica dos túm ulos. Calculou-se a duração dos governos conform e o tam anho da pirâm ide e a qualidade do espólio: as pirâm ides m aiores e os recheios m ais ricos pertenceriam aos que reinaram por m uito tem po.

Há poucos pontos de referência m ais precisos nessa relação cronológica de reis. Sabe-se que Aspelta governava quando Psam ético II invadiu, em 591 a.C., a

Núbia. Se Arcam anil tiver sido o Ergam enes de Diodoro da Sicília, foi contem porâneo de Ptolom eu II (285-256 a.C.) ou de Ptolom eu IV (221-205

a.C.). Tequerideam ani m estava no poder em 235 d.C., pois assim reza um a inscrição dem ótica em Filas.

De alguns reis conhecem os apenas o nom e. De outros, nem isto, em bora tenham deixado m arcas de que existiram . E de vários, ficaram inscrições em que se louvam os seus reinados. As que foram grafadas em hieróglifos egípcios, em dem ótico e em grego podem ser lidas. Para as que o foram em caracteres m eroítas continua surdo o nosso entendim ento.

A partir de Arcam ani, o egípcio praticam ente se ausenta dos m onum entos cuxitas. É substituído por duas form as de escrita m eroíta: a hieroglífica, com m uitos signos tom ados de em préstim o à escrita egípcia, e a cursiva, derivada parcialm ente do dem ótico. Esta últim a, que passa a predom inar após o reinado

de Netacam ani n (12 a.C.?-12 d.C.?), possuía um alfabeto de 23 sinais. Havia signos para os núm eros e para certas palavras. Cada vocábulo era separado do outro por dois ou três pontos verticais.

O inglês F.L. Griffith decifrou, entre 1900 e 1911, as chaves dessa escrita. Conhecem -se os seus valores fonéticos, m as as palavras que form am não puderam até agora ser interpretadas. Identificam -se alguns nom es de pessoas e de lugares. Traduz-se a invocação inicial das estelas funerárias a Ísis e a Osíris. E pouco m ais. Lê-se a escrita m eroíta, m as se ignora, com o acontece com o etrusco, o significado do que se lê.

A própria língua m eroíta continua a ser um m istério. Não se aparenta ao núbio, nem ao bej a das m ontanhas do m ar Verm elho, nem a qualquer fala africana de nossos dias.

Enquanto o enigm a persistir — e quem sabe se não persistirá para sem pre? — e enquanto a arqueologia não avançar significativam ente em seus trabalhos e nos revelar com o era a vida quotidiana nas cidades e no cam po, na corte, no tem plo e na casa do hom em com um , continuarem os a saber sobre Méroe m uitíssim o m enos do que faria supor o considerável núm ero de inscrições m eroítas até agora encontradas.

Algum a coisa sabem os, em bora de form a im precisa. Não só através do que j á arqueologicam ente se desvendou, m as tam bém de um e outro texto dos gregos e dos rom anos.

Em 332 a.C., Alexandre chegou ao Egito. Nove anos m ais tarde, um de seus generais, o m acedônio Ptolom eu Soter, dava início a um a dinastia que governaria as terras egípcias até 30 a.C. Seu poder estendeu-se à Cirenaica, ao Líbano, à Síria e a Chipre.

Ptolom eu I transferiu a capital do Egito de Mênfis para Alexandria; restaurou ou reforçou o controle real sobre toda a econom ia egípcia; estabeleceu o m onopólio do Estado sobre as principais m anufaturas e sobre as atividades m ineiras; forçou, com o pôde, o com ércio externo a passar por seus funcionários e a ser transportado em seus navios. Egipcianizou-se, fazendo seus os deuses egípcios, e deu início à helenização do Egito, im pondo o grego com o idiom a da política e da adm inistração.

Seu filho, Ptolom eu II ou Filadelfo, consolidou o predom ínio m arítim o sobre o leste do Mediterrâneo e converteu o m ar Verm elho num lago com ercial grego. Ligou por canais o Nilo ao golfo de Suez, onde estabeleceu um porto, Arsinoe. E criou outros ancoradouros e entrepostos com erciais em Kosseir, Berenice, Ptolom aïs Theron, Soterius Lim en e Adúlis. Dessas feitorias e de outras que seus sucessores foram estabelecendo, os gregos com erciavam não só com a África, m as sobretudo com a Ásia. Em busca das sedas, das especiarias e de tantos outros produtos de luxo do Oriente, os barcos gregos dem andavam o Iêm en e o golfo de Aden, a fim de m ercadej ar com árabes, persas, guzerates, m alabares e cholas, que até ali traziam suas m ercadorias. Na segunda m etade do século II a.C., Eudoxo de Cízico partiu da costa egípcia do m ar Verm elho e foi ter à Índia. Os gregos com eçavam a dom ar as m onções e não tardariam m uito em afastar-se da terra e em viaj ar em linha reta do Bab-el-Mandeb até Malabar e o Ceilão.

Com o desenvolvim ento m ercantil do m ar Roxo, Méroe só teve a lucrar. Tornou-se, ao que tudo indica, um grande em pório de produtos africanos, que talvez lhe viessem de toda a vasta região que se estende das m ontanhas etíopes até o Níger. Ou, quando m enos, até o Darfur ou até o Chade. O m ais provável, porém , é que não se notasse, a não ser esporadicam ente, a presença de m eroítas em terras tão rem otas. As m ercadorias que form avam o grosso das exportações de luxo podiam chegar a Méroe de m uito longe, passando de m ão em m ão, de tribo em tribo. O m esm o sucederia aos escravos, que provinham , de regra, de sítios longínquos, para onde não lograssem facilm ente voltar. Os que se capturavam nas proxim idades eram vendidos a lugares distantes.

É possível que entre esses artigos de exportação estivessem elefantes vivos. Ainda xucros. Ou j á treinados para a guerra, ou para a pom pa das cerim ônias, pelos próprios m eroítas — que podem ter descoberto sozinhos com o dom á-los ou isto aprendido dos asiáticos. Consta que Ptolom eu II m andou Eum edes estabelecer um posto com ercial na costa africana do m ar Verm elho, com obj etivo de ali obter elefantes, para contrapô-los aos que, vindos da Índia, eram usados nas batalhas por seus rivais selêucidas. Criou-se, assim , Ptolom aïs Theron (ou Ptolom aïs das Caçadas), que ficaria onde hoj e é Aqiq ou onde hoj e é

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Suakin. Ali os egípcios baseavam os seus caçadores ou, o que é m ais provável,

recebiam os anim ais que lhes forneciam os m eroítas. E estes sabiam com o usá-los: um rei de Méroe aparece m ontado num elefante, num relevo em Mussauarat-es-Sofra.

O uso do elefante com o anim al de m ontaria talvez tenha vindo da Índia. Com o da Índia ou da Arábia, a prática de construir açudes e reservatórios de pedra para água. Pois Méroe não recebeu de fora, e de terras longínquas, apenas m ercadorias. Acolheu as m ais diversas influências: gregas, rom anas, sírias, árabes, persas, indianas. Talvez tivesse enorm e curiosidade por tudo o que fosse estrangeiro e não m enor aptidão para som ar, com binar e am algam ar o que lhe vinha de fora com o que lhe era tradicional.

Após a m udança da residência dos reis para Méroe, não se abandonaram os valores egípcios. Mas as form as culturais núbias, que se haviam refugiado no recesso dom éstico, na província ou nos grupos pastoris, novam ente se foram im pondo. Com Arcacam ani e seus sucessores — os prim eiros dos quais

o p

cham aram -se Am anislo, a rainha Bartare, Am aniteca, Arnecam ani e Arcam ani —, Méroe distanciou-se, no espaço, no tem po e no espírito, do Egito no qual os reis napatanos tinham sido faraós.

É bem verdade que o soberano m eroense continuou a cham ar-se faraó das Duas Terras, a usar o duplo uraeus, a considerar-se o verdadeiro senhor do Egito, a casar-se com a rainha-irm ã, a presidir os ritos agrícolas, a construir tem plos segundo os m odelos egípcios, a sepultar-se em pirâm ides. Alij ara-se, porém , dos sacerdotes de Jebel Barcal, de seu controle e de sua influência egipcianizante. Novos deuses — ou antigos deuses núbios, que j am ais tinham deixado de ser adorados na clandestinidade, na som bra dos lares ou em santuários discretos e apartados — acrescentaram -se ao panteão egípcio. Nos túm ulos, reapareceram os sacrifícios sangrentos. E as tradições m atrilineares, que nunca se haviam apagado — com o o dem onstra o prestígio das rainhas-m ães ou candaces —, tornaram -se m ais fortes. Várias m ulheres ascenderiam ao poder e se fariam retratar, de ancas largas, gordas e enérgicas, com um a túnica franj ada, tão pouco egípcia, a cair do om bro direito, cheias de colares e enfeites, verdadeiros m arim achos a com bater à frente dos exércitos, a presidir ao culto, a espairecer na caça. Veem -se escarificações — que nada tinham de egípcio, m as m uito de

q

africano — no rosto de um a delas, Am anixaquete.

Diodoro da Sicília 57 com preendeu bem que, ao nítido desenho egípcio do rei m eroense, se adicionavam num erosos traços de outra origem . Sem pre fora assim , desde o início em Napata, m as talvez, com o passar do tem po e o distanciam ento do centro do poder para o sul, esses traços se tenham acentuado e aum entado. O processo de sucessão na casa real de Cuxe, por exem plo, sem pre se distinguira do egípcio. Bem com o o controle do soberano pelo clero, podendo este m andar aquele à m orte. Alegando que os deuses assim o queriam , enviavam um m ensageiro ao rei com a palavra fatal, e o rei era obrigado ao suicídio. Mas j untava-se à m orte do rei, fosse esta natural ou violenta, algo que a Diodoro parecia assom broso. Os cortesãos tinham de m orrer com o soberano. E cum priam este fado sem hesitação, suicidando-se para ter a honra de acom panhá-lo. Assim fora em Querm a e voltava a ser em Méroe.

Dizia m ais Diodoro. Que, se o rei perdesse um a perna, os cortesãos tinham de cortar a deles. Que, se o rei m ancasse, todos deviam coxear. Tal com o viria a suceder em tantas cortes africanas, se o rei tossia, o seu séquito tossia, e se espirrava, todos o seguiam no espirro.

Conta tam bém Diodoro que, durante o reinado de Ptolom eu II, um soberano m eroense, Ergam enes, que tivera educação grega e estudara filosofia, desafiou o poder do clero de Am on. Ao receber a ordem para suicidar-se, invadiu com seus soldados o tem plo e trucidou os sacerdotes. Aboliu-se, então, e desta form a, o costum e.

Ergam enes tem sido identificado com Arcam ani. E tam bém com Arcacam ani e Arnecam ani. Se tiver sido Arcam ani, foi ele quem construiu um pequeno saguão de entrada para o tem plo levantado por Ptolom eu IV em Dakka (ou Pselchis, que era com o se cham ava). E quem ergueu em Filas (ou Philae) um outro tem plo, que o m esm o faraó alexandrino, por sua vez, am pliou. Os nom es dos dois m onarcas figuram nesses acrescentos, com o se fossem aliados. Mas podiam ser tam bém com petidores em reivindicar um a região que ficara abandonada pelas duas coroas, durante tanto tem po.

Os Ptolom eus procuraram reafirm ar a soberania egípcia sobre a Baixa Núbia. Pelo m enos, sobre a área que tom ou o nom e de Dodecaschenos e que se estende desde a Prim eira Catarata até pouco além da confluência do uede Alaqui com o Nilo — desde Filas até Maharraca (ou Hiera Sy kam inos, o seu nom e antigo). Essa preocupação derivaria da necessidade de proteger as rotas com erciais que dem andavam Méroe, de assegurar o suprim ento de elefantes para seus exércitos e de garantir o fluxo de ouro das m inas de Alaqui, as quais, após algum abandono, tinham voltado à plena produção.

Ciente das atividades egípcias na área, Arcam ani apressou-se em reservar os seus direitos sobre ela. Estabeleceu-se, assim , um a espécie de condom ínio ptolom aico-m eroíta, de que os tem plos em Dakka e em Filas são testem unho e sím bolo. O arranj o deve ter sido facilitado pela circunstância de que o poder efetivo no Dodecaschenos talvez fosse exercido pelos sacerdotes de Ísis, a deusa egípcia da fertilidade, cuj o culto ganhara força com os Ptolom eus e se expandiria, depois, por toda a vastidão do Im pério Rom ano. Segundo essa

teoria, 58 o Dodecaschenos pertenceria a Ísis e seria governado por seu clero, a partir da ilha de Filas. Tanto o faraó egípcio quanto o rei m eroíta dariam arrim o e patrocínio à classe sacerdotal que falava pela deusa, e am bos veriam com bons olhos a existência de um a espécie de zona-tam pão, sem i-independente, entre seus territórios.

Os m eroítas deixaram aos Ptolom eus a proteção a Ísis e a segurança das rotas com erciais. E estes foram consolidando cautelosam ente a presença na área. Chegaram a avançar para o sul e a estabelecer pequenas guarnições em Buhen e Mirgissa e talvez em Jebel Adda e Qasr Ibrim . Isto na época de Ptolom eu VI, que reinou de 181 a 145 a.C.

O entendim ento expresso ou tácito, que perm itira o condom ínio sobre o Dodecaschenos, continuou a viger, m esm o depois que os egípcios passaram a negligenciar o território. Os m eroítas ali não os substituíram . Contentaram -se em fazê-lo m ais ao sul, em espaço que tinham por seu. Mal os egípcios se foram de Qasr Ibrim e Jebel Adda, os m eroítas tom aram conta dessas praças fortificadas e

tam bém possivelm ente de Buhen. 59

Em 30 a.C., com o suicídio de Cleópatra, extinguiu-se a dinastia ptolom aica. E Rom a passou a controlar inteiram ente o Egito. A autoridade do César era exercida por um prefeito, o prim eiro dos quais, Gaio Cornélio Galo, após suprim ir um a revolta na região de Tebas — revolta que talvez tenha contado com apoio m eroíta —, levou suas tropas até além da Prim eira Catarata. Em Filas, reuniu-se com em issários de Méroe, assentando com eles que o lim ite do Egito seria Assuã, que o estado m eroíta se transform aria num protetorado rom ano e que a região entre a Prim eira e a Segunda Cataratas ficaria sob o com ando de um governador da confiança de Rom a. Mantinha-se, assim , um a zona-tam pão entre o Egito e Méroe.

É possível que os negociadores m eroítas tenham com preendido que o acordo

alcançado com Cornélio Galo significava a m anutenção do status quo. 60 Logo, porém , com eçariam os m eroítas a defrontar-se com problem as e dificuldades, pois os rom anos e seus representantes egípcios não tinham os m esm os cuidados que os Ptolom eus no m anej o do que continuava, para a gente de Méroe, a ser um condom ínio. Em vez de pequeníssim as guarnições, destinadas a proteger o com ércio tanto do Egito quanto de Méroe, Rom a m antinha forte contingente de tropas na região e m altratava os interesses dos m eroítas, a quem tinha com o súditos de um estado cliente.

Em 23 a.C., grande parte das forças m ilitares rom anas foram retiradas da fronteira núbia para se em penharem num a cam panha na Arábia. Os m eroítas, queixosos e agravados, aproveitaram a situação e atacaram a Tebaida. Venceram e puseram a saque Assuã e Filas. Derrubaram as estátuas de César que ali havia e devem ter levado algum as para as suas terras, j untam ente com grande núm ero de cativos.

Os rom anos reagiram rapidam ente. Petrônio, que substituíra Cornélio Galo, m archou, com dez m il infantes e oitocentos cavaleiros, contra os núbios. Estes eram trinta m il, “m al com andados e m al arm ados” — com o escreve

Estrabão, 61 ao relatar o episódio —, alguns brandindo apenas m achados, e outros, espadas e lanças, com a precária proteção de grandes escudos de couro cru. Petrônio os escorraçou para Dakka e lhes m andou um ultim átum : que devolvessem o butim das cidades que haviam atacado. E, com o não obtivesse resposta satisfatória, deu-lhes com bate e lhes desbaratou as tropas. Venceu Dakka, tom ou Qasr Ibrim e investiu contra Napata, onde ficava a residência real de um a virago caolha. A candace não se encontrava ali. Estava o filho, e este fugiu. Petrônio arrasou a cidade e fez de seus habitantes escravos. Mas, vendo quão áspero era o país que tinha à frente, resolveu retornar a Alexandria com seu exército e o produto da pilhagem . No cam inho de regresso, reforçou a fortaleza de Qasr Ibrim e ali pôs um a boa guarnição, com víveres para suportar o isolam ento de dois anos. Mal se afastara, a candace m archou contra Qasr Ibrim . Petrônio voltou às pressas, conseguiu chegar prim eiro à fortaleza, onde se fez tão seguro, que a rainha lhe propôs negociação. Petrônio enviou os em baixadores m eroítas a Sam os, que hospedava Augusto. Ali, parece, obtiveram pela diplom acia o que lhes negaram as arm as: o condom ínio sobre o Dodecaschenos

foi restaurado, 62 e os rom anos renunciaram ao tributo de Méroe.

Quem seria a rainha a quem Petrônio deu com bate? Am anixaquete, que reinou em Méroe e ali foi enterrada coberta de j oias? Talvez Am anirenas, que pertenceria a um a estirpe de reis sepultada em Jebel Barcal, um a estirpe que teria governado, da m etade do prim eiro século a.C. até o início da segunda década de nossa era, um a Napata de novo independente de Méroe. Não afirm a Estrabão que em Napata ficava a residência real? Talvez Am anirenas e seu filho

Aquinidader não fossem soberanos de um a Napata independente, m as se inserissem na dinastia m eroíta. Os reis de Méroe podiam ter residência periódica em Napata. E a própria organização da luta contra os rom anos daria m otivo a

que, naquele m om ento, o centro do poder para ali se transferisse. 63

Em Méroe encontrou-se um a cabeça de bronze de Augusto. Ela seria o que sobrou de um a das estátuas levadas de Assuã pelos m eroítas, quando tom aram de assalto a cidade. A estátua ficaria sobre um pedestal, no centro de um pequeno tem plo, em cuj as paredes se pintaram prisioneiros sob os pés do rei. O tem plete teria sido levantado para com em orar as vitórias m eroítas sobre Assuã e Filas e

para receber um grande troféu: a escultura de Augusto. 64

A partir do acordo de Sam os, as relações entre m eroítas e rom anos transcorrerão sem conflitos e sobressaltos. Méroe m andava suas em baixadas a Alexandria e a Rom a — há notícias de várias delas — e em issários do prefeito iam ter ao Cuxe. As conexões de Méroe com o tem plo de Ísis, em Filas, devem ter-se m antido. E talvez houvesse contatos com a colônia j udia estabelecida em Elefantina. Não terá sido ali que teve notícia do Cristo aquele eunuco, valido da candace e superintendente de todos os seus tesouros, de quem nos falam os Atos

dos Apóstolos? 65 Voltava ele de Jerusalém , aonde fora adorar Jeová. Lia, assentado em seu carro, um dos profetas, quando encontrou São Filipe e este lhe falou de Jesus. Recebeu o m eroíta o ensinam ento do santo e foi por ele batizado.

Pela m esm a época, Nero enviou um a ou duas pequenas expedições a Méroe.

Sêneca66 conta a história de dois centuriões que o im perador despachou Nilo acim a, a fim de que descobrissem a nascente do rio. Com a proteção do rei de

Méroe, foram parar no Sudd. Plínio 67 narra com o um grupo de reconhecim ento m ilitar, sob a chefia de um tribuno, foi m andado por Nero a Méroe, onde governava um a rainha, e de lá trouxe um a descrição desanim adora. Julga-se que os dois textos referem -se a um só fato. Seriam duas versões da m esm a

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expedição, que se realizou por volta do ano 61 de nossa época. F. Hintze pensava de m odo diferente: que duas tinham sido as viagens, pois os relatos discrepam quanto aos m óveis da em presa e as principais personagens, tanto rom anas quanto m eroítas.

Aos enviados do im perador, acostum ados aos esplendores de Rom a, do Oriente e do próprio Egito, Méroe pareceu tão pobre, que não m erecia o esforço e o risco da conquista. No entanto, o país atravessava um período de prosperidade e afirm ação. De que dá prova a sua arquitetura.

Entre a cam panha de Petrônio e a viagem dos enviados de Nero, reinaram , j untos, Netacam ani e Am anitare. Hom em e m ulher. Possivelm ente, m arido e

esposa. A não ser que fossem filho e m ãe.69 Os nom es e os retratos dos dois aparecem , na m aioria dos casos, associados. E algum as vezes a eles se vincula um indivíduo m uito m ais j ovem , um príncipe, que poderia ser filho do casal ou

irm ão m ais novo de Netacam ani. São três estes príncipes: um deles, Xercarer, s

figura nas listas de reis, logo após Netacam ani; outro, Aricancarer, t está

u

representado num a placa com a roupagem real; do terceiro, Aricacatani, não se sabe se algum dia governou.

Netacam ani e Am anitare devem ter sido grandes construtores. Há m ais edifícios com os seus nom es do que com o de qualquer outro rei m eroíta. Os dois restauraram o tem plo de Am on em Jebel Barcal, reconstruíram o santuário ao m esm o deus em Méroe e lhe ergueram outro prédio sagrado em Naga (ou Naqa). Seus nom es surgem várias vezes em Méroe, em Am ara East e em Wad ben Naga. No Tem plo do Leão, em Naga, eles estão retratados, em m ultiplicado tam anho, logo nos dois pilonos da entrada, à egípcia, de perfil, a destruir os adversários. A rainha não se apresenta com a esbeltez que era o padrão de beleza entre as egípcias. Exuberante de form as e com am plíssim os quadris, tem atrás dela um leão que arrem ete contra um m agote de inim igos. No pilono oposto, vê-se, por entre as pernas do rei, que avança, um leão a subj ugar um ser hum ano e a abocanhar-lhe o rosto.

Nas paredes externas e internas do tem plo, rei, rainha e príncipe ressurgem várias vezes a adorar diferentes deuses. E num dos m uros de dentro, m ostra-se um relevo surpreendente, de todo apartado das convenções artísticas egípcias:

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um deus barbudo — seria Júpiter Sarapis? —, de frente, a olhar para quem o

vê. Seu desenho parece derivar de outra tradição: a greco-rom ana.

Não é a única divindade a som ar-se, em Méroe, ao panteão egípcio. Muito m ais im portante é aquela a que o próprio tem plo — um a sim ples câm ara com robustos pilonos nos dois lados de um a porta voltada para leste — é dedicado: Apedem eque. Ele se escava, na parede traseira: o corpo hum ano, quatro braços e três cabeças de leão, a do centro de frente e as outras duas de perfil, voltadas para lados opostos. E reaparece, no lado estreito de um dos pilonos, com um a só cabeça de leão, peito e braços hum anos, sendo o resto do corpo um a serpente a em ergir de um a grande flor.

Essas im agens e um a curiosa estatueta de hom em com cabeça de elefante fizeram supor que até Méroe tivessem chegado influências da Índia. Isso não seria de espantar, pois, j á então, eram intensas as atividades m arítim as em todo o norte do oceano Índico, e as rotas frequentadas pelos navegadores estendiam -se pelo m ar Verm elho. A pluralidade de cabeças e braços com que Apedem eque se m anifesta na parede de trás do Tem plo do Leão não serviria, porém , de

argum ento, 71 pois esse tipo de representação só se im pôs na Índia a partir do ano 500. A fonte seria outra, talvez a m esm a para Méroe e para o subcontinente indiano.

Apedem eque, com corpo de serpente. Relevo na pedra. Tem plo do Leão. Naga

 

Apedem eque era provavelm ente um a divindade guerreira. Se aqui ele aparece tendo na m ão direita o sím bolo da vida, ali se m ostra com arco e flecha e a segurar um a corda a que se am arra um prisioneiro. Só Am on devia disputar-lhe, na Butana, a condição de m aior dos deuses. O leão era o seu sím bolo e talvez, dom ado ainda pequeno, fosse m antido dentro do tem plo. É o que indica um relevo de outro santuário ao m esm o deus, em Mussauarat-es-Sofra, onde há um leão sentado, de coleira e trela.

Apedem eque protegeria os exércitos m eroítas, os quais, em bora não fossem — a crer-se no relato preconceituoso de Estrabão — adversários para os rom anos, deviam ser tem idos pelos vizinhos. Suas arm as eram de ferro e seus efetivos, num erosos. De sua ferocidade e cobiça dão testem unho alguns baixos-relevos nas paredes dos tem plos. No que se tem por dedicado ao Sol, na cidade de Méroe, veem -se cativos atados pelos cotovelos aos tornozelos, m ulheres, crianças e gado a serem conduzidos com o saque e soldados m eroítas a m assacrar prisioneiros.

Num a inscultura em Jebel Queili, há um a fieira de cativos sob os pés do rei e outros a caírem ou a serem precipitados do alto de um penhasco. Xercarer parece receber um a penca de inim igos de um deus que tem por trás da cabeça o disco solar. Na outra m ão, esse deus, de longos cabelos e a olhar de frente, segura um m olho do que se supõe sej am espigas de sorgo. Se o desenho do soberano ainda guarda as convenções egípcias, o da divindade — talvez o Sol dos cultos sírios e persas — revela influências helenísticas.

Influências do Oriente rom anizado surgem ainda m ais claras num pequeno edifício fronteiro ao Tem plo do Leão, em Naga. Com suas colunas de capitéis folhudos, suas j anelas em arco, suas linhas pesadas e fortem ente alexandrinas, o prédio, a que se deu o nom e de Quiosque, aparenta-se com vários outros existentes no Egito, sobretudo ao Quiosque de Traj ano, na ilha de Filas.

O Quiosque de Naga difere profundam ente das construções que lhe estão próxim as e que guardam as linhas egípcias. Com o, por exem plo, o Tem plo de Am on, cuj a traça conduzia o devoto por um a avenida ladeada por carneiros de pedra e o levava, após transpor um a porta de pilonos, a atravessar um a série de salas até o sacrário onde se encontrava a im agem do deus.

No plano da arquitetura e da escultura sacras, os influxos de outros estilos e o renascim ento de form as nativas só acentuam a persistência dos m odelos egípcios. Nessa área de atividade, o território m eroíta continuou a ser um a província cultural do Egito. As próprias influências helenísticas, rom anas, sírias, persas e — por que não? — indianas podem ter chegado ao Cuxe pela via egípcia. Eram corriqueiras em Alexandria.

O quadro repetiu-se em outros espaços política ou culturalm ente coloniais. Não é distinto do que se observou nas regiões auríferas do Brasil, na segunda m etade do século XVIII e nos prim eiros anos do século XIX. A form a exterior e interior das igrej as de Ouro Preto, Mariana ou São João del-Rei não se aparta das form as do barroco e do rococó bracarenses. Na frontaria, os im aginosos recortes de pedra contrastam com o reboco liso e branco do resto da parede, tanto no norte de Portugal quanto em Minas Gerais. Os altares seguem as m esm as lições, e neles, as esculturas de santos. E as pinturas nos tetos podem ser m udadas através do Atlântico, sem que se note m uita diferença. Esta residirá m ais nas feições e nos traj es dos santos, nas paisagens, nas ornam entações derivadas de certas form as vegetais, na assim ilação de m otivos da terra e de outros, trazidos da Índia ou da China por m ãos portuguesas, e m uitas vezes j á aportuguesados, do que no estilo e na técnica. Os querubins e santos m ulatos das igrej as de Minas corresponderiam aos reis e rainhas m eroítas de roupagens rebuscadas, cheias de bordados, franj as e borlas, reis e rainhas com colares de contas grandes, diadem as, toucados, brincos, pulseiras, braceletes, anéis. Ao Quiosque de Naga correlacionar-se-ia a igrej inha de Nossa Senhora do Ó, em Sabará.

Desse quadro de proj eção provinciana dos m odelos da m etrópole, o gênio de um artista, o Aleij adinho, recortou obras de extraordinária grandeza, e o talento de outros, com o Manuel da Costa Ataíde, se im pôs contra um a tradição repetitiva. Tão alta era a incendiada im aginação e tão profundo o sentim ento do hum ano em Antônio Francisco Lisboa, que, diante de sua obra de arquiteto e de escultor, com o que se apequenam as excelentes igrej as de Entre-Douro-e-Minho que estão na sua fonte. A culm inância de um estilo foi alcançada na Colônia. Em Minas Gerais. E aqui term ina a com paração com Méroe. Pois, se os tem plos, relevos e esculturas m eroítas são interessantíssim os com o docum ento — e com o tal podem em ocionar a nossa consciência histórica —, nenhum deles é capaz, com o obra de arte, de nos com over ou deslum brar. Pouco acrescentam ao patrim ônio da beleza. Ao contrário do que sucedeu com as criações de Ifé, do Benim , dos senufos, dos lubas ou dos quiocos.

Há, porém , que qualificar. Julgam os ruínas. E não sabem os que im pacto nos causariam esses tem plos, esses palácios, essas pirâm ides, quando revestidos de gesso branco e com pinturas em cores vivas.

Devia ser de alum bram ento a prim eira im pressão de quem chegava à larga planura, em oldurada por colinas negras, onde se erguiam os tem plos e grandes edifícios brancos de Mussauarat-es-Sofra. É este o m ais espetacular conj unto de ruínas de toda a Núbia, com suas num erosas colunas a revelarem enorm e riqueza de form as decorativas. Há colunas m arcadas de alto a baixo por estrias. Outras m ostram leões esculpidos na base. Outras nascem de lótus. Outras exibem hom ens e deuses.

Não se localizaram , em Mussauarat-es-Sofra, bairros residenciais ou cem itério. Aquilo devia ser sobretudo a m orada de deuses. Quando m enos, centro de peregrinação. Cidade-tem plo.

No centro de tudo, está o cham ado Grande Recinto. É um grupo de prédios e zonas m uradas em torno de um tem plo erguido sobre um a plataform a. O tem plo era um a caixa retangular envolvida por um a colunata e depois por um m uro. Fora dele há um a série de corredores e ram pas a ligar grandes espaços cercados e áreas onde há outros tem plos, com o o do Leão, em honra de Apedem eque, e um pequeno grupo de m oradias, talvez reservadas a sacerdotes.

Apedem eque está por toda parte. E por toda parte há tam bém elefantes — o que faz supor que um deus personificado por este anim al ali se adorasse. Talvez os am plos espaços m urados existentes em Mussauarat-es-Sofra se destinassem a

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abrigar elefantes, que seriam adestrados para fins cerim oniais e guerreiros. As

ram pas os aj udariam a passar de um sítio a outro. E o enorm e tanque ou hafir, com seus 305m de diâm etro e 6m de fundo, que recebia as águas pluviais das

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colinas, talvez desse de beber a um a m anada desses anim ais. Há outro hafir,

bem m enor, próxim o ao Grande Recinto. E m uitos hafires — que acum ulavam água para a agricultura e o pastoreio — espalham -se pela Butana.

Da im portância do elefante em Mussauarat-es-Sofra há vários sinais: entre eles, um a parede que se rem ata, originalissim am ente, com a form a do paquiderm e, e um m uro com um friso de elefantes aj aezados, a trom ba a sustentar a corda que prende pelo pescoço vários prisioneiros.

Talvez Mussauarat-es-Sofra tivesse com eçado a construir-se por volta do século V a.C. Talvez antes. O conj unto foi-se am pliando e m odificando ao longo de num erosas gerações.

Tam bém a cidade de Méroe teria sido ocupada durante m uitos séculos. Suas ruínas revelam edifícios de diferentes épocas, m uitos deles restaurados e reconstruídos várias vezes. O grosso das edificações e das reform as parece ter-se dado nos dois últim os séculos antes de Cristo e nos prim eiros cem anos de nossa época — j á sob forte m arca helenística e rom ana.

Só se escavou até agora um a reduzida parte da cidade. Sabe-se que havia um a área m urada, onde habitariam o rei e a alta nobreza. Ali há vestígios de palácios, de grandes prédios públicos, de alguns tem plos e de um a vasta piscina. A m uralha era de pedra; a m aior parte dos prédios, de tij olo cru, em bora vários apresentassem o exterior de tij olo cozido. A piscina — a que se deu o nom e de Term as Rom anas — estava revestida de tij olos e possuía um sistem a com plicado de canalização de águas. O rebordo do enquadram ento do tanque apresentava figuras e m edalhões de gesso, bem com o bicas em form a de cabeça de leão. Ali encontrou-se um a estátua de gesso: um hom em reclinado num leito, em atitude de observação e repouso. A escultura é tosca, m as trai, pela postura e o m odelado, influência m editerrânica.

Continuar: parte 3 de 3