A Enxada e a Lança

Alberto da Costa e Silva · Capítulo 8 de 35 · parte 3/3

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A Enxada e a Lança

4. Napata e Méroe

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Junto ao m uro oriental da cidadela, fica o grande tem plo de Am on. É quase tão grande quanto o de Jebel Barcal (que tem cerca de 153m de com prim ento) e de planta parecida, de m ódulo egípcio — um a alongada sequência de pátios que ia term inar num grupo de salas e no sacrário. Foi construído de tij olos: os do exterior, cozidos; os de dentro, crus. Os pilonos, as colunas e as om breiras das portas eram de arenito. No m eio do prim eiro grande pátio, cheio de colunas, que funcionava com o átrio, havia um santuário de pedra, com os nom es de Netacam ani e Am anitare gravados nas paredes.

Mais para leste, há duas extensas elevações, sob as quais estão enterrados os bairros onde m oravam as pessoas com uns. Pode-se im aginar com o seriam esses bairros, pelo que sabem os de outras concentrações urbanas cuxitas. As casas deviam acum ular-se desordenadam ente um as contra as outras, diferentes em tam anho, estilo e qualidade, entre apertados espaços que só a boa vontade cham aria de ruas, e que se curvavam , quebravam e interrom piam .

De tij olos, com um , dois ou três andares, alguns dos prédios eram solidam ente construídos, com largos m uros de tij olos a sustentar tetos, tam bém de tij olos, em form a de abóbada. As residências vulgares tinham apenas dois grandes côm odos paralelos e de tam anho igual ou quase igual, e um a só porta. Eram ilum inadas e arej adas por j anelas estreitas e longas, que se rasgavam , no sentido horizontal, no alto da parede rebocada com cuidado e pintada de branco ou am arelo.

Outros prédios apresentavam paredes m uito pouco espessas, frágeis, raram ente a prum o e que não podiam sustentar m ais do que um teto de vigas de m adeira e palha. E de m adeira e palha seriam m uitas das casas desses bairros, a

revelarem diferenças de fortuna e classe.74

Ao norte da cidadela, ficava, erguido sobre um outro, m ais antigo, o tem plo de Ísis, cuj a entrada seria ladeada por duas estátuas grandes de um rei ou de um deus, toscas e pesadas, ainda a respirar as convenções egípcias: os braços colados ao longo do corpo, um a das pernas ligeiram ente avançada em relação à outra.

Para sul e para leste, subiam os m ontes de escória e ganga, derivados do trabalho dos fornos de ferro. E ainda m ais para oriente, talvez ligado por um a espécie de avenida processional ao tem plo de Am on, erguia-se o cham ado tem plo do Sol. Era um espaço m urado, com um a ram pa que levava a um a plataform a, sobre a qual havia um a colunata a envolver um santuário retangular, com pavim entos e paredes recobertos por ladrilhos azuis. Veem -se restos de vários relevos. Desfiles de vitória. Reis com os pés sobre frisos de prisioneiros am arrados. Figuras a dançar. Bois. Um carro puxado por cavalos. Cartelas com o nom e de Aquinidade. E um a estela, no terreiro exterior, de Aspelta. O tem plo pode ter sido construído no início do século VI a.C. e refeito no fim do prim eiro

século de nossa era.75 O seu plano — um a só câm ara cercada por colunas —

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tinha pouco de egípcio. Já se supôs que fosse de inspiração síria. Sej a com o for, é esse o tipo de tem plo que vai predom inar nas terras m eroítas.

Entre a cidadela e o tem plo do Sol situam -se os cem itérios da gente com um . E além do tem plo do Sol, no sopé dos altos tabuleiros onde com eça o deserto, levantam -se três grupos de pirâm ides. Dois estão na base das elevações. O terceiro m ostra-se m ais afastado, para ocidente.

O grupo de pirâm ides m ais antigo fica na cham ada necrópole do sul. Pouco se distinguem elas das de Nuri. As m ais altas têm uns trinta m etros de altura. São em degraus de blocos de arenito, a cobrirem um núcleo de cascalho. Na face oriental, há um a capela com pilonos. Nesse conj unto de pirâm ides estão sepultados apenas três reis e seis rainhas, sendo os dem ais m onum entos ocupados pela fam ília real e pela nobreza.

Os dem ais soberanos m eroítas inum aram -se nas pirâm ides que form am a cham ada necrópole do norte. Ali estão 38 soberanos e príncipes herdeiros. Essas pirâm ides não se afastavam , de início, das receitas de Nuri. Em certo m om ento, porém , surgiu um a curiosa inovação. Em bora tenham as pirâm ides continuado a subir em pequenos degraus, estes passaram a ser interrom pidos nas quinas por um a inclinação em ram pa. Os cantos lisos com o que em olduravam a escada que constituía cada face da pirâm ide. Há dez desses m onum entos em Méroe e oito em Jebel Barcal — os últim os tidos com o pertencentes a um a dinastia secessionista que teria reinado em Napata, nas décadas que precederam e com eçaram a nossa era.

Após dez sepultam entos em pirâm ides desse tipo — e que tinham , adem ais, três câm aras subterrâneas e capelas exteriores intensam ente decoradas — regressou-se ao m odelo em degraus sim ples e, posteriorm ente, ao de inclinação em ram pa. Neste últim o caso, só um lado era de pedra; os outros, de tij olos.

Nos cem itérios destinados aos que não pertenciam à fam ília real nem à alta nobreza, coincidiram por algum tem po duas espécies de tum ba: um a, de acordo com o enterram ento tradicional núbio, no qual o corpo era posto, deitado de lado, num leito de m adeira; e outra, à egípcia, em que o m orto, m um ificado, era m etido num caixão coberto por um a rede de contas, form a que acabou por generalizar-se.

Em sepultam entos do início do prim eiro século de nossa era aparecem inesperadam ente esqueletos no chão do túm ulo. Voltara-se ao antigo costum e de enterrar m ulheres e servidores do m orto, para o atenderem na outra vida. O núm ero de vítim as era m uito m enor do que nas sepulturas de Querm a. Seis por túm ulo foi o m áxim o encontrado. E os sacrifícios de cachorros e de cavalos predom inavam sobre os de seres hum anos.

Nos sepulcros, antes dos continuados saqueios que sofreram , devia haver abundância de j oias. As que se descobriram revelam alto nível de ourivesaria. Os desenhos são variadíssim os e requintados, as peças frequentem ente com binando o ouro com pedras sem ipreciosas. Havia contas de vidro, fabricadas em Méroe. E am uletos de ouro, prata e faiança, com cabeças de carneiro, m oscas, cauris, figas. Um a belíssim a coleção de j oias m uito trabalhadas encontrava-se sobre o peito do cadáver de um a m ulher, na m esm a câm ara de um a rainha do século I. Essa m ulher seria possivelm ente a aia que cuidava das j oias da soberana. Tinha-

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as penduradas ao pescoço, num saco que se desfez.

Os túm ulos continham m uitas oferendas: j arras de cerâm ica e de m etal, obj etos im portados e de fabrico nativo, vasos de prata, lucernas, estatuetas, cam painhas, copos e taças de bronze. Num a das taças, achada em Karanog, há um belo friso em m iniatura: em apenas 11cm de com prim ento, m ostra-se um a cena rural com pleta, com vários bovinos e m eia dúzia de pessoas. Ali estão um touro, um bezerro a m am ar na m ãe, um a vaca a lam ber a cria, outra, com um badalo ao pescoço, a voltar a cabeça para o hom em que a ordenha, e um servo a oferecer a um a senhora, sentada à frente de um a cabana de palha, o leite recém -m ungido.

A taça de Karanog é o produto de um a econom ia altam ente urbanizada. Foi feita com cobre im portado, com m atéria-prim a obtida através do com ércio com outros povos, por artesão que vivia na cidade. Num a daquelas cidades que não eram apenas centros adm inistrativos e religiosos, m as sobretudo portos caravaneiros, em pórios, lugares onde se fundiam o ferro e outros m etais, onde se trabalhava o ouro, se tecia o algodão, se m odelava a cerâm ica, se faziam cestos, se curtia o couro, se com punham j oias, se fabricavam m óveis e obj etos de m adeira, se m anufaturavam arm as, instrum entos de m úsica (tam bores, harpas, flautas) e os m ais variados utensílios para a agricultura e para a vida diária.

A m aior dessas cidades era Méroe. Quase tão grande quanto Méroe era Naga. E tam bém m uito extensa, Dangeil. No norte, havia Faras. Vinha depois Argos, onde se encontraram duas enorm es estátuas de granito — dois colossos, de pé, na postura egípcia. E Kawa, centro religioso desde o Novo Im pério. E Napata, nas proxim idades de Jebel Barcal. E Wad ben Naga, com enorm e palácio em dois andares, talvez um a residência real. E, nos confins do sul, a Senar m eroíta, que até hoj e não se descobriu, m as deve esconder-se perto do antiquíssim o cem itério, na cidade que lhe m antém o nom e. E além dessas, m uitas outras, e m uitíssim as vilas, viletas, aldeias e aldeotas. A população era altam ente urbanizada.

Havia, é certo, pastores nôm ades ou sem inôm ades, a exercer a transum ância entre a estepe e o vale do rio. Mas o grosso do povo, que retirava o sustento da agricultura, praticada ao longo do Nilo e nos uedes da Butana, vivia em aldeotas. Em casas de tij olos e teto plano ou em palhoças de base redonda. Os tem plos e a nobreza deviam possuir grandes tratos de terra, que m andavam cultivar. A regra devia ser, contudo, a pequena exploração com unitária, fam iliar ou grupal, em que se com binavam a agricultura e a criação de gado. Junto às roças, m antinham -se vacas, ovelhas, cabras, j um entos e cavalos. E m esm o entre os agricultores sedentários devia haver um culto do boi, com o indicam os relevos nas sepulturas reais, os vasos de bronze e a cerâm ica.

Cultivava-se o sorgo durra, resistente ao calor e à seca, podendo afastar-se da área irrigada e ganhar a estepe. E tam bém a lentilha, o pepino, o m elão, a tâm ara, o algodão.

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Deste últim o, Plínio diz que era conhecido no Sudão no século I. Algum as

centenas de anos antes, portanto, de difundir-se no Egito, que talvez o tenha desprezado por usar o linho. Há quem recue o tem po ainda m ais e pense que j á

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se plantava, fiava e tecia o algodão em Méroe desde antes do século IV a.C.

Arkell 80 sugeriu que a Núbia tivesse recebido o algodão da Índia. Quem sabe se não veio do sul da Arábia? O seu cultivo pode tam bém se ter desenvolvido de m odo independente no sudoeste da Etiópia ou ao longo da costa índica da África,

a partir de um a espécie silvestre. 81 Um ancestral selvagem do algodão cresce nas orlas do Saara e do Kalahari, m as se ignora se chegou a ser dom esticado no continente africano. Quando Colom bo desem barcou na Am érica, os índios j á conheciam e trabalhavam o algodão, ainda que de tipo diverso do asiático e do africano — o que m ostra a dificuldade de estabelecer-se um a só origem para esta fibra têxtil. Na Am érica, o algodão parece ser tão antigo quanto na Índia: está presente em Huaca Prieta, no Peru, na m esm a época que em Mohenj o-

Daro — no terceiro m ilênio a.C.82

No início de nossa era, expandiu-se a superfície agrícola da Núbia, graças à saquia, nora ou roda pérsica. Este aparelho, inventado possivelm ente na Mesopotâm ia e introduzido no vale do Nilo no século II a.C., perm itiu que se levantasse a água do rio a alturas m uito superiores às conseguidas pelo xadufe e em quantidade m uito m aior. O xadufe é acionado por um hom em ; a roda pérsica, por um boi.

A nora consta basicam ente de três grandes rodas. A prim eira, denteada e horizontal, m ove-se em torno de um eixo fixo, fincado no solo. Dela sai um a haste, a que se j unge o anim al. Os dentes dessa grande roda horizontal ligam -se ao denteado de um a outra, m uito m enor, vertical. Desta prolonga-se um eixo, que se m ove com ela e tem , na outra ponta, a terceira roda, a m aior de todas, que gira a prum o no espaço, rente à ribanceira. Pelo anel exterior desta últim a roda passam duas cordas com pridas, entre as quais vão am arrados num erosos alcatruzes. Quando o anim al é posto a m archar, a prim eira roda gira e, ao girar, por força da conexão entre os aros denteados, faz m over as outras duas, nas pontas do eixo horizontal. Um a após outra, as caçam bas m ergulham na água, enchem -se de líquido, sobem e, ao chegar ao alto da roda, o despej am num a espécie de cocho, de onde passa para os canais de rega.

A difusão da nora perm itiu que se irrigassem as terras das m argens altas do Nilo. E provocou, a partir do século I a.C., m as sobretudo no decorrer do século II de nossa era, a reocupação hum ana da Baixa Núbia.

No espaço de algum as poucas gerações, a Núbia Inferior ultrapassaria em população e riqueza os territórios do sul. De pronto, um a fieira de vilarej os despontou ao longo do Nilo. Seus habitantes — cuj a devoção por Ísis, a deusa da fertilidade, que se adorava logo ali, em Filas, era m aior do que os desvelos por Am on ou por Apedem eque — m ercadej avam intensam ente com o Dodecaschenos, com o provam os m ilhares de obj etos rom anos e egípcios encontrados em suas necrópoles. O que forneciam aos vizinhos nortistas não eram provavelm ente os produtos exóticos e de luxo que constituíam grande parte das cargas que saíam de Méroe. A Baixa Núbia ficava longe dos lugares de onde se recolhiam esses produtos. O que tinha em abundância para exportar eram alim entos. E de alim entos precisavam os estabelecim entos m ilitares rom anos e as instalações m inerais do Dodecaschenos. A região entre a Prim eira Catarata e Maharraca era m á, do ponto de vista agrícola, e as guarnições e os colonos rom anos tinham de ser em grande parte abastecidos com alim entos do Egito. Do

Egito e das terras que lhe ficavam im ediatam ente ao sul.83

Esse com ércio talvez escapasse ao m onopólio ou ao controle dos reis de Méroe. No sul, apesar do provável surgim ento de um a classe m ercantil forte, as transações com erciais deviam passar, em algum m om ento, necessariam ente, pelas m ãos do rei e de seus prepostos. O com ércio a distância de artigos de luxo seria apanágio do soberano e em seu nom e feito. Já os negócios de alim entos que se processavam nos confins do norte não atraíam os cuidados do poder central. Ficaram nas m ãos de em presários privados. E a ação do estado, naquela área, restrita, ao que parece, à preservação da soberania.

São escassos ali, com efeito, os m onum entos e as inscrições reais. O poder m eroíta só se faz visível em algum as cidades fortificadas, com funções adm inistrativas ou m ilitares: Faras, Qasr Ibrim , Jebel Adda e Karanog. Destruídas, reconstruídas e alteradas ao longo do tem po — e hoj e, à exceção de Qasr Ibrim , com pletam ente subm ersas pelas águas do lago Nasser —, é quase im possível redesenhá-las com o seriam na época m eroíta. Qasr Ibrim talvez j á

fosse ocupada desde o terceiro m ilênio a.C. 84 Taraca, no século VII a.C., ali construiu um tem plo. E era um a cidade-fortaleza antes da invasão de Petrônio, pois Estrabão m enciona expressam ente Prem nis, o seu nom e rom ano, com o sendo um a cidadela sobre um m onte rochoso. Tanto Qasr Ibrim quanto Jebel Adda situavam -se em altos prom ontórios a dom inar o rio, com grandes m uros e bastiões de pedra e tij olo. Faras, tam bém am uralhada, ficava em terras bem m ais baixas, ao lado do Nilo. Quanto a Karanog, não foi um a cidade fortificada. Protegia as suas casas um m aciço castelo de tij olos, com três andares, invulgar se com parado a outras edificações m eroítas, exceto pelas paredes lisas e pintadas de branco das suas salas e pelas abóbadas de tij olos que as cobrem .

Nessas cidades m orariam os altos funcionários que representavam o rei de Méroe. Um rei que vivia longe e que talvez pouco soubesse daquelas terras. Onde m antinha, porém , exércitos e um representante pessoal, um governador ou vice-rei, que se pode ter tornado, com o tem po, um cargo hereditário. A distância da corte o deve ter feito quase independente, no território que, em nom e do rei, dirigia. Um território próspero. Aberto a inovações, com o o provam o cultivo da uva e a produção do vinho. Com um a população bem distribuída na linha do rio, em vilarej os com alguns prédios de uso público, um tem plete e o espaço do m ercado ou do caravançará, onde exerciam não só as gentes da terra, m as tam bém estrangeiros, sobretudo gregos e egípcios.

Nessas vilotas, havia casas m aiores e m enores; m ais bem construídas e m ais toscas; algum as separadas de suas vizinhas, a revelarem diferenças sociais e de riqueza, que em parte corresponderiam a distintos papéis econôm icos. Entre os altos funcionários do rei, que pertenciam à nobreza, e o felá, havia toda um a gam a de situações interm ediárias: o grande, o m édio e o pequeno com erciante, o sacerdote, o agricultor independente, o soldado, o publicano, o transportador de m ercadorias em barcos, cáfilas ou tropas de burros, o m ezinheiro, o artesão de vária espécie.

Os bem instalados na vida calçavam alpercatas e se vestiam de linho im portado do Egito ou de panos de algodão tecidos localm ente, panos em geral de cor branca, com bordados azuis ou verdes. Os dem ais andavam descalços e pouco m ais cobririam de couro que suas vergonhas. Todos se adornavam com colares, pulseiras, braçadeiras, tornozeleiras. De contas de vidro, de concha, de quartzo, de ágata, de cornalina, feitas na terra ou vindas de longe. Os nobres e os ricos enj oiavam -se de ouro e pedrarias.

O recheio das casas era relativam ente sim ples: o fogão, a cam a — um a estrutura de m adeira encim ada por tiras de couro ou cordas —, potes de barro, cestos, peneiras, m ós, enxadas e outros utensílios de ferro (faca, pinças, tesouras, buris, enxós, pregos, aram es), bem com o obj etos im portados, de bronze e prata (lucernas, vasos, cântaros, cálices, cam painhas, copos, tigelas), de vidro (vasos, garrafas, frascos), de faiança e de m adeira (pequenas caixas, algum as de cedro-do-líbano, com incrustações de m arfim ). De m adeira, m uitas vezes com guarnições de bronze e prata, eram as cadeiras de espaldar e os bancos desm ontáveis, m as talvez neles só se sentassem os reis e a alta nobreza.

Havia cerâm ica em abundância. Feita no Egito e im portada por seu valor próprio. Quase todas as ânforas de lá chegavam , no entanto, com o recipientes de vinho e, vazias de seu conteúdo original, eram reaproveitadas até se partirem — o que não significa que fosse a produção local de barros insuficiente. Era enorm e, diversificada e esteticam ente rica.

As tradições núbias persistiram em vasos de base geralm ente arredondada, na m aioria negros, às vezes com um a barra verm elha polida ou ornados com desenhos incisos, que podiam ser preenchidos com pigm ento branco ou encarnado. Alguns poucos tinham decoração pintada. Moldados à m ão pelas m ulheres, esses vasos m ostram um a extraordinária fidelidade aos estilos núbios. Continuaram a ser feitos ao longo do tem po, paralelam ente aos que os hom ens produziam , em m uito m aior quantidade e com form as e decoração variadíssim as, na roda do oleiro.

Ignora-se quando a Núbia acolheu a roda do oleiro. E nada se sabe a respeito de um a cerâm ica diferente, que surge, acabada e perfeita, m oldada no torno, com o reerguim ento da Núbia Inferior. Suas form as são derivadas das que prevaleciam no m undo m editerrânico. Em vez, porém , de serem os vasos inteiram ente verm elhos, lisos, sem desenhos, com o os rom anos, estão cobertos por um a decoração elegante, delicada e im aginativa, que retrata, em m uitos casos, a flora e a fauna com que convivia o oleiro.

Alguns vasos pequenos possuem a parede tão delgada que são conhecidos com o “cerâm ica de casca de ovo”. Neles se pintam , em verm elho e preto sobre fundo crem e ou ocre am arelado, ou — o que é m enos frequente — em branco e preto sobre fundo encarnado, m otivos egípcios, com o o ankh (ou sím bolo da vida), o lótus e o uraeus, trevos, gavinhas, triângulos e losangos, rãs, crocodilos, cobras, galinhas-d’angola, girafas — m uitas vezes com excepcional finura e sensibilidade.

Se perdem em delicadeza, os vasos m aiores, de paredes m ais grossas, ganham em ousadia e verdade artística. Em alguns deles, sente-se a soltura do pintor, bem -hum orado ou lírico, a reproduzir a face hum ana, cenas da vida diária, m ovim entos dos anim ais. No om bro de um j arro boj udo, um hom em de tanga e cabelo pixaim m orre sob o leão que o derrubou.

Esta cerâm ica feita quase em série, m as bem -feita, é a m elhor herança de beleza da gente m eroíta. Alguns de seus exem plares são de qualidade extraordinária, com o form a, com o rigor e invenção decorativa, com o superfície lum inosa.

Ao que parece, a produção de louça pintada concentrava-se na Núbia Inferior. E tudo aponta para um a expansão tardia, coincidente com o crepúsculo econôm ico e político do sul do estado m eroíta.

A decadência da Butana não parece ter tido repercussões im ediatas sobre a Baixa Núbia, cuj a vida se encontrava m ais vinculada à do Dode-caschenos que ao sul. É m esm o provável que, na Núbia Inferior e em outras partes do que se poderia cham ar de território m eroíta, o poder com eçasse a se fragm entar, com os governadores locais a assum irem crescente autonom ia e independência.

Os túm ulos reais de Méroe vão decrescendo de tam anho. Para o fim , algum as pirâm ides não ultrapassam em altura as sim ples casas rurais. As derradeiras são de tij olos, sem revestim ento de pedra, com apenas sete m etros de lado. Em m uitas delas não constam sequer os nom es dos reis que abrigam .

O últim o soberano de que se tem notícia precisa é Tequerideam ani. Um grafito dem ótico em Filas refere-se à em baixada que ele m andou ao tem plo de Ísis, no terceiro ano do im perador Triboniano Galo, ou sej a, em 253. Noutra inscrição, o filho de Tequerideam ani, Abratoi, conta que foi a Filas, em nom e do pai, em 260. Depois, o silêncio de quatro túm ulos reais que se acreditam posteriores ao de Tequerideam ani.

A sequência de m ais de m il anos de reis, iniciada por Cáchita, parece ter-se interrom pido no decorrer da prim eira m etade do século IV. O início da decadência do sul pode ser, no entanto, m ais antigo de duzentos anos. Abusos na ocupação hum ana — o volum e exagerado de rebanhos, o corte intensivo e indiscrim inado de árvores para alim entar os fornos de fundição, o m ultissecular uso da rega — deterioraram de m odo irreparável o m eio am biente. O com ércio a distância declinara, e era ele que fazia a fortuna e a força dos m onarcas. O Egito em pobrecera e, consequentem ente, o seu m ercado se contraíra. As rotas que cortavam o deserto tornaram -se inseguras desde o m om ento em que as tribos nôm ades receberam o cam elo e, graças à enorm e m obilidade que este lhes dava, passaram a viver das arm as e da pilhagem . Com o se tudo isso não bastasse, um novo reino poderoso, Axum , expandia-se nas altas m ontanhas a sudeste de Méroe, e seus m ercadores iam buscar além do Nilo o m arfim , as peles, as plum as de avestruz, o ouro, o ébano, que exportavam por um porto que se ia fazendo o m ais im portante do m ar Roxo: Adúlis.

A com petição entre os dois poderes deve ter acabado em guerra. A.H. Say ce encontrou em Méroe um bloco de basalto com um a inscrição m uito fragm entária, em grego, na qual se com em ora a tom ada da cidade pelo rei dos

axum itas e dos him iaritas, a quem os habitantes da terra se teriam subm etido.85 Essa inscrição talvez sej a a elegia definitiva, o epicédio de Méroe. A m enos que tenha a cidade recobrado um pouco as forças, após a partida dos axum itas, para ceder depois aos ataques dos povos nôm ades — os blêm ios, a nordeste, e os nobas, a oeste. Ou para deixar-se esvair no em pobrecim ento.

As tropas de Axum voltariam , porém , às terras que tinham sido de Méroe.

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Pelo m enos, um a vez. Ezana, um rei axum ita, afirm a, num a estela, ter invadido o reino de Casu (Cuxe?), destruído suas cidades e seus ídolos, seus estoques e suas plantações de cereais e de algodão, e arrebatado o que encontrara em bronze, ferro ou cobre. E em gado, abundantíssim o: de 10.500 bovinos e m ais de cinquenta m il ovelhas foi o butim . Ezana não se refere em qualquer m om ento à gente de Casu com o inim iga, m as, sim , aos nobas. Estes talvez se tivessem apoderado de boa parte da Butana, que podia j á se encontrar desde algum tem po subm etida a Axum . Com efeito, na estela, Ezana se diz rei de Casu; não afirm a que conquistou o Cuxe, m as que fez a guerra para reprim ir um a revolta. Um a revolta noba.

Se os nobas haviam dom inado a Butana, os blêm ios atorm entavam a Baixa Núbia.

Os prováveis antepassados dos bej as viviam nas estepes das m ontanhas do m ar Verm elho, separadas do vale do Nilo por estreita faixa de deserto. Com sua cam elaria, eles atacavam regularm ente as cidades egípcias do Dodecaschenos e tam bém alguns vilarej os da Núbia m eroíta. Acabaram por tornar-se senhores das m inas de ouro e de esm eraldas, que constituíam a razão de ser da ocupação rom ana. E tam anhas eram suas tropelias, que Rom a apelou para outros nôm ades, os nobatas, que viviam a oeste do Nilo — talvez os m esm os nobas, ou seus aparentados —, e os encarregou de proteger a fronteira sul do Egito. Esta passou a situar-se, em 297, na Prim eira Catarata.

O abandono do Dodecaschenos por Rom a não podia deixar de afetar a econom ia da Baixa Núbia. O m ercado para produtos agrícolas foi decrescendo com a retirada dos colonos rom anos e egípcios de um a terra onde aum entava a insegurança. Os blêm ios cortaram as ligações entre o Egito e a Núbia Inferior. E esta, isolada, entrou em m arasm o e lenta decadência.

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A.J. Arkell, que acreditava no fim violento da cidade e do reino de Méroe,

sugeriu haver a fam ília real m eroíta fugido para o ocidente. Ela se teria abrigado no Darfur, ali continuado a governar e dali difundido pela África as ideias do estado e da realeza sagrada, bem com o a técnica de fundir o ferro. Há no Darfur lendas que recordariam esse m ovim ento. E a ele se referiria um a das versões do

m ito de Quisra, v segundo a qual teria sangue m eroíta a leva de hom ens que cruzou, sob o com ando de um rei-m ágico, as terras m irradas entre o Nilo e o

Chade, para fundar os estados hauçás, bornus e baribas e chegar até o Iorubo. 88

Certa sem elhança de estrutura e instituições políticas e de regras e rituais a envolverem a pessoa do soberano, em reinos dissem inados pela faixa sudanesa e pelas regiões elevadas da África Índica, fez nascer a ideia de derivarem eles de um a fonte com um . A tese popularizou-se graças a um texto que se poderia, por sua concisão, engenho e clareza, cham ar de clássico: as páginas que Roland

Oliver e J.D. Fage dedicaram ao assunto em A Short History of Africa. 89

No Bilad al-Sudan, na região dos Grandes Lagos e em m uitos outros pontos da África existem sociedades hierarquicam ente organizadas em torno de um rei que é um deus, descende dos deuses ou possui atributos divinos e, com o tal, está separado dos dem ais viventes. Ele não deve m ostrar-se aos súditos, ou só de raro em raro, à noite ou em ocasiões especiais: vive recluso num palácio e j ulga e dá audiências oculto por um biom bo ou um a cortina. Não deve ser visto a com er ou a beber. Controla a posse e o uso da terra. Dom ina as chuvas. Determ ina a época do cultivo e a da colheita. Dele depende a fertilidade do solo, dos anim ais e das m ulheres, a saúde e o bem -estar do povo, a bondade do clim a e da natureza. Não deve adoecer, perder o vigor ou tornar-se velho; por isso lhe é dada m orte ritual, por estrangulam ento ou veneno, um a vez que seu sangue não pode ser vertido. Guardam -se as unhas e os cabelos que lhe são cortados, para acom panharem -no no túm ulo. E para o túm ulo vai com as m ulheres e os principais servidores. Ninguém a ele se com para: é único. O seu povo tem m uitos deuses, m as um só

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rei — com o precisou Elias Canetti.

Ao seu redor há toda um a nobreza, com títulos que correspondem às tarefas que têm no cuidar do rei e no m anej o do reino. Um dos m ais im portantes lugares da corte é reservado à rainha-m ãe ou à rainha-irm ã, a chefe fem inina da fam ília real. Toda a adm inistração pública subordina-se ao soberano e todos os funcionários civis e m ilitares dele diretam ente dependem . O com ércio externo é m onopólio do m onarca.

O que se tem cham ado de realeza sagrada possui um desenho pré-cristão e pré-islâm ico. Teria de ter com eçado a difundir-se pela África antes do fim do século VI, que é quando o cristianism o se im põe no Nilo. A época aj usta-se ao fim de Méroe e à teoria de Arkell. A partir do Nilo, grupos com arm as de ferro e, em m uitos casos, a cavalo, foram -se im pondo a com unidades agrícolas, com o aristocracia dirigente. E criando vários Estados com idêntico m olde.

Talvez tenha sido assim , com o propõe Arkell, com o parece recordar a lenda, com o descrevem Oliver e Fage. Talvez os soberanos e nobres m eroítas e seus descendentes tenham feito a longa viagem e constituído um a casta de senhores estrangeiros entre populações autóctones, com o tantas vezes sucedeu na África. Mas talvez tudo isso não passe de construção fantasiosa do m enino aventureiro que tem os dentro de nós, ou de retorno involuntário à visão tingida de racism o que fazia, no fim do século XIX e na prim eira m etade do século XX, com que se procurasse fora da África negra — na Atlântida, na Grécia, na Fenícia, na Etrúria, no Iêm en — a origem dos estados e das culturas africanas. Era essa a

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visão de um C.G. Seligm an, para quem a m onarquia divina se originara no Egito e os estados sudaneses haviam sido criados por cam itas ou ham itas, por serem os negros incapazes de fazê-lo.

A tese segundo a qual a África recebeu de fugitivos m eroítas a realeza sagrada, o m étodo da cera perdida, o ferro, certos ritos funerários e tanta coisa m ais ligar-se-ia a exageros do difusionism o, do tipo de W.J. Perry e de Elliot Sm ith, que tinham toda a civilização com o derivada do Egito, e a um

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desdobram ento da doutrina da “raça dinástica”, para a qual tam bém os

egípcios deviam sua cultura a um grupo de invasores, vindos da Mesopotâm ia, com o equipam ento e as técnicas que perm itiram a ocupação do vale do Nilo e o estado centralizado.

Os próprios Roland Oliver e J.D. Fage retificaram , m ais tarde, o m odo de pensar e apresentaram argum entos contra a hipótese de Arkell. Um lem bra que as civilizações tendem a se propagar quando estão no auge e não quando em

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declínio. A influência de Méroe seria m uito m aior durante sua fase de poder e

riqueza, quando com erciava com o Delta e com os m eridionais, quando era o nó de encontro entre o m ar Verm elho e o Darfur, do que depois de decadente ou destroçado, em sua diáspora. Quando era forte, seus caçadores e guerreiros deviam em brenhar-se para o sul e para o oeste, a fim de obter elefantes, prear escravos ou arrebatar o gado a outros povos. Então, alguns deles poderiam ter-se instalado com o chefes entre gente estranha. Não se encontraram , porém , indícios de que assim tenha sido. A arqueologia não recolheu restos m eroítas a ocidente do Nilo. Os edifícios de tij olos verm elhos de Jebel Marra e Ain Farah, no Darfur, e a cerâm ica pintada que Arkell apresentava em favor de sua hipótese são m uito posteriores: pertencem ao período da Núbia cristã. O m ais provável é que as ideias e as práticas de Méroe se tenham transm itido lentam ente, através dos

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caravaneiros, dos nôm ades, de todos aqueles que com o Nilo tinham contatos.

A ausência de vestígios arqueológicos m eroítas longe do vale do Nilo j á levou a

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que se considerasse a Núbia com o, culturalm ente, um a rua sem saída, em vez

de um corredor ou de um canal de contato entre o Mediterrâneo e o interior da África. Méroe teria tido, assim , pequeníssim a influência, se algum a, sobre o resto do continente. O seu diálogo com o Egito e, em m enor grau, com outras nações da Antiguidade, se teria esgotado no vale do Nilo, sem repercussões ou ressonâncias sobre os povos vizinhos. Vai-se, assim , de um extrem o — o de tudo atribuir a Méroe — a outro: o de considerar Méroe um a civilização fechada em si m esm a, cuj os contatos com os que lhe eram confinantes se reduziam a ações arm adas para pilhar bens e capturar escravos. Esse retrato não se coaduna, entretanto, com o de um país que tinha no com ércio sua grande fonte de riqueza e que fornecia ao Egito e em barcava no m ar Verm elho produtos exóticos e de luxo que deixara de ter dentro de suas fronteiras.

O silêncio da arqueologia não é, aliás, argum ento definitivo. Ainda que grupos de m eroítas se tivessem espalhado pela savana sudanesa até além da curva do Níger e por todo o canto instalado seus chefes com o reis divinos, dificilm ente levariam consigo senão aspectos fragm entários da cultura de Cuxe. Num bando de algum as dezenas de fam ílias, com posto em sua m aioria de nobres e fâm ulos de palácio, é im provável que houvesse pessoas capazes de insculpir a pedra ou altear um a parede de tij olos, de m oldar o cobre, de costurar os arreios de um cavalo, de am assar e cozer o barro, de até m esm o — quem sabe? — ordenhar um a vaca. Vive-se dentro de um a cultura, m as nenhum grupo reduzido de indivíduos lhe dom ina todos os ofícios, técnicas, gostos, gestos, tradições, conceitos, rituais. Da bagagem desses em igrantes m eroítas, poderia constar o fundir do ferro — talvez um ofício próxim o aos reis. O resto seria form ado por crenças religiosas, costum es políticos, ritos sociais, hábitos fam iliares, ideias e gestos que nem sem pre deixam traços no solo.

J.D. Fage 96 avança ainda m ais na refutação de si próprio. Lem bra que não se sabe perfeitam ente com o seria a realeza sagrada no Egito. Ao esqueleto que se deduziu dos m onum entos e dos textos egípcios — e estes últim os são frequentem ente crípticos, não havendo nenhum que apresente um a descrição clara das instituições faraônicas — acrescentaram -se “carne e sangue” retirados das observações de viaj antes e etnógrafos entre povos da África. Por analogia, im aginou-se que, no Egito faraônico, as coisas se passavam m ais ou m enos com o os viaj antes árabes viram em Gana ou com o os europeus presenciaram no Benim ou em Uganda. A im agem que tem os da m onarquia divina no Egito estaria, assim , contam inada pelo que sabem os de sistem as que dela seriam hipoteticam ente sucessores.

É possível, porém — diz Fage —, que a realeza, tal com o se desenvolveu no Cuxe, em vez de ser inspirada na do Egito, fosse um desenvolvim ento de práticas tradicionais locais, que sofreram posteriorm ente o influxo das form as e dos ritos egípcios. Mais: talvez a ideia do rei divino fosse com um a grande parte da África agrícola. O descendente daquele que prim eiro ocupou a terra estaria investido de especiais condições para regular o seu uso e propiciar a sua fertilidade. Dessa noção pode ter evoluído, pouco a pouco, a do chefe com atributos sobrenaturais, que tom ou no Egito — dadas as condições do Delta e do baixo Nilo, que exigiam , para seu m elhor aproveitam ento, um controle social m uito forte e estrito — as

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form as absolutas e com plexas da m onarquia faraônica. Méroe teria, assim ,

usado roupagens egípcias sem elhantes ao m odelo que j á possuía. E, com o em Méroe — e talvez a partir de Méroe —, m uitos dos traços desse vestido se foram im pondo, lentam ente, talvez de m odo im perceptível e indireto, sobre um m olde que era, na sua essência, em grande parte da África, com um a todos.

Aqui, um outro autor, Peter Garlake,98 nos recorda que o conceito de m onarquia divina é um a abstração, construída com elem entos retirados de diferentes áreas e distintos períodos. Seus com ponentes encontram -se com binados em num erosas organizações de poder, num a vasta extensão de espaço, m as de form a diferente. Existe m ais com o ideal ou m odelo do que com pleto, com todos os seus elem entos, num só estado africano. Já se lem brou, aliás, que o próprio term o “realeza” é am bíguo e vago, e que se torna ainda m ais

vago quando a ele se acrescenta o adj etivo “divino”. 99 Há m uitos tipos de reis e

m uitos tipos de reis divinos, desde o rete dos xiluques, w com todos os atavios e regalias de um soberano, m as sem autoridade, até o poderoso obá do Benim , passando por m onarcas que são deuses, ou encarnações de um deus, ou descendentes de deuses, ou com panheiros dos deuses, ou interlocutores privilegiados dos deuses, ou que têm com as divindades outras e ainda m ais com plexas e indefiníveis relações.

A civilização do Egito “era o produto do solo africano” — afirm ava Gaston

Maspero. 100 “Era basicam ente um a cultura africana, com intrusões de cultura

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asiática” — houve quem insistisse. Pode-se não concordar com pletam ente com afirm ação tão categórica, pois o Egito foi um a região de convergência, onde se com binaram Mediterrâneo, Ásia e África. Um a esquina do m undo. Mas — é bom não esquecer — um a esquina que fica na África.

Antes de influenciar o resto do continente, o Egito foi dele legatário. E a antigas form as culturais africanas deveria certos padrões de com portam ento, certas crenças, certas instituições, certos rituais, certas características de sua arte. O ca, ou força vital dos egípcios, nasceria da m esm a concepção do m undo que o axé iorubano. Assim com o o ar de eternidade que possuem os rostos im passíveis da m aioria das estátuas do Egito e do resto da África.

Apesar do bloqueio do deserto e do Sudd, tanto o Egito quanto Méroe devem ter irradiado valores que criaram , receberam , trocaram e aperfeiçoaram . E o fizeram não porque o desej assem , m as pela própria extensão enorm e de suas histórias. No caso de Méroe, nem sequer há sinais de que tenha exercido ação expansionista fora do vale do Nilo. Com bateu m uitos vizinhos, m as não parece ter procurado am pliar seus territórios à custa dos nôm ades do deserto ou das gentes que viviam no Cordofã e no Darfur. Assim , à im agem de um grupo de hom ens a cavalo, arm ados com lanças de ponta de ferro, a se im por com o senhores sobre as tribos agrícolas da savana sudanesa e a transm itir-lhes os costum es e as técnicas da pátria de onde haviam sido expulsos, contrapõe-se, com o predom inante, um a outra: a da filtragem , num processo de doação, devolução e escam bo, de certos aspectos da cultura m eroíta para os povos contíguos e deles para outros m ais distantes. Desse processo m oroso e com plexo não se excluem a conquista nem a colonização, m as seus principais agentes teriam sido o com ércio, o convívio e o contágio.

A partir de Méroe, o conhecim ento do ferro pode ter-se dissem inado por boa parte da África. Mas isto não sucedeu com o da nora; e nem sequer com o da roda. Algum a influência m eroíta talvez se tenha feito sentir em Axum e no Sidam a. Sabe-se que parcelas de sua herança preservaram -se nos principados balanas e nos reinos cristãos da Núbia. O que não se sabe — e talvez nunca se conseguirá saber — é se, por exem plo, veio do Egito, através de Méroe, o gesto do Om ucam a de Bunioro, a atirar setas para os quatro pontos cardeais, a fim de prostrar as nações da Terra.