A Enxada e a Lança
25. 1500
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
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Lem bre-se, porém , que os quissis, segundo Frobenius, não ofereciam
sacrifícios nos túm ulos de seus m ortos, m as, sim , às esculturas que os representam , e que tam pouco enterravam o pom do ou ponta (nom e que entre eles tinham as figurinhas de pedra-sabão) com o defunto. Davam ao filho m ais velho do falecido a im agem , que ia ter às m ãos de seu prim ogênito, quando aquele, por sua vez, se finava. Só no caso de não haver herdeiro direto é o que o
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pom do era depositado no túm ulo.
Nom oli. Esteatita, 19cm de altura. Serra Leoa
Por serem os ancestrais os que prim eiro cultivaram a terra, deles dependeria a abundância das colheitas. Daí talvez a evolução que sofreu o uso ritual do nom oli, levado aos cam pos de arroz, onde, em troca de um pouco que lhe “dão de com er”, deveria propiciar a abundância da safra. Com este fim , chegam a
açoitá-lo, para que acorde, se estiver dorm indo.52
A m aioria das estatuetas, de um verde-escuro a quase branco, representa seres hum anos. Um as poucas figuram entes fantásticos (com o lagartos com cabeça de gente) e anim ais. São em geral pequenas, raras as que atingem os trinta centím etros de altura. Foram encontradas principalm ente na Serra Leoa e tam bém na Libéria e na Guiné-Conacri.
As m elhores dessas peças, de form as arredondadas e cheias de porm enores, revelam artistas hábeis — dos bulons diz Duarte Pacheco Pereira, no Esm eraldo
de Situ Orbis, 53 que faziam “os m ais sotis colares de m arfim e m ilhor lavrados que em nenhu~a parte” —, e isso tanto no que nos parece um sereno nom oli, quanto na am eaçadora catadura característica do pom do quissi.
As figuras hum anas estão frequentem ente de j oelhos ou acocoradas, conhecendo-se algum as que se recostam num a cadeira de três pés e outras m ontadas em anim ais. As cabeças apresentam o fuste do nariz longo e as narinas afogueadas. Os olhos, m uito salientes, lem bram as cerâm icas de Nok e as esculturas iorubanas.
Não se sabe quando com eçaram a ser feitas essas im agens, ainda produzidas no início do século XVI. E é incerta a estrutura política dos que as talhavam e delas se serviam . Os portugueses quinhentistas falam de um reino dos sapés, que se estenderia do cabo Verga à Serra Leoa, m as talvez o confundissem com um a série de m icroestados, alguns sob régulos, outros sob chefes rituais de linhagens, todos possivelm ente enquadrados pelas sociedades secretas, poderosas atrás de suas m áscaras.
O retrato que Valentim Fernandes 54 desenha dos reis tim enés m ais parece o de um patriarca de clã. Escreve ele: “Os rey s destas aldeas todas nõ tem r~edas dos seus subditos nenhu~as n~e tributos saluo se elle quer roçar e sem ear ou colher suas nouidades em tã todos da sua j urisdiçã lhe seruê ao dito trabalho de graça ou em fazer casas ou cerco ou pera hy r a guerra em tã todos acudê a elle.” Os régulos não podiam iniciar ou cessar hostilidades contra os inim igos sem a aprovação do conselho dos velhos, que nisto, e provavelm ente em m uitas outras coisas, era soberano.
Os nom olis, assim com o as trom pas de caça, os saleiros, os cibórios, as colheres e os garfos de m arfim que os sapés fizeram de encom enda para os portugueses, são o que resta de um a escultura que, na m adeira, talvez j á tivesse o brilho, a riqueza de form as e o vigor expressivo que caracterizaria m ais tarde a criação artística dos povos da Alta Guiné. A um idade, as térm itas e os estragos do uso e do tem po não perm itiram que chegassem até nós as im agens de m adeira que ali se talhavam , as peças que estão na origem , por exem plo, das im pressionantes m áscaras nim bas dos bagas e dos nalus. Ninguém está im pedido de sonhar essas obras, que com provariam um a vez m ais que, na África, a grande arte tanto nasce nas cortes quanto nos vilarej os, para honrar os grandes reis ou gravar as feições eternas de antepassados da m enor das aldeias.
É possível que da arte em m adeira anterior a 1500 tenham sobrado alguns exem plos m uito m ais a nordeste, nas escarpas de Bandiagara, próxim o ao delta interior do Níger. Ali, as chuvas são raras e o clim a protege de tal m odo a m adeira, que esta pode, teoricam ente, ter duração quase ilim itada.
Estatueta herm afrodita telem . Madeira, 119cm
Nos séculos XIV ou XV, os dogons, vindos, segundo a tradição, do país m andinga, instalaram -se na área, provocando o deslocam ento de seus antigos
cc
habitantes, ou telens, para as terras do Iatenga. Deixaram estes, contudo, nas
cavernas em que m oravam , celeiros de tij olos crus (alguns datados dos séculos XI ou XII) e im agens de m adeira m uito alongadas, de braços erguidos, com o se estivessem a invocar as chuvas. Em algum as figuras, de form as m uito sintetizadas, a linha vertical dos braços e das pernas tudo determ ina, cabeça e corpo sendo apenas parte de um só im pulso ascensional.
Um a das estatuetas, subm etida ao teste do carbono 14, foi considerada com o tendo sido feita entre o século XIII e o XV. Mas essa datação, e a que se realizasse no conj unto de esculturas que os dogons dizem ser telens, resvala na incerteza. Isto porque os dogons continuaram , ao longo do tem po, a copiar o estilo telem e porque os seus artistas sem pre preferiram trabalhar o lenho seco, que deixavam longam ente envelhecer nas grutas de Bandiagara. Os escultores não distinguem entre um pau de cinquenta ou de quinhentos anos — com o lem bra
William Fagg 55 — e o processo do carbono 14 m arca a época da m orte da árvore e não aquela em que a cortou a enxó do artista.
Estatueta telem . Madeira, 59cm
Os dogons contrariaram exitosam ente, em seus redutos na m ontanha, todas as tentativas do Mali, dos m ossis e de Songai para subm etê-los. Não conheciam o estado centralizado: não tinham reis. Em cada povoação havia um chefe religioso, um patriarca-ferreiro, o hogom , que era o m ais velho do grupo e vivia num a casa cuj a planta evocava a criação do hom em . Toda a aldeia, com as arquiteturas diferentes, quase conflitantes, a distinguirem a habitação da gente com um , os celeiros, os santuários e a m orada do hogom , reproduzia sim bolicam ente, na sua disposição, a estrutura do universo.
Quem sabe se, por volta de 1500, os dogons j á não usavam a com prida e estreita m áscara sigi, a “m ãe das m áscaras”, com m ais de três m etros de altura? Talvez j á esculpissem as suas figuras de heróis m íticos e ancestrais, de rosto estreito e alongado, o cabelo em crista, a continuar a linha do nariz e a term inar num rabicho, o queixo com um a ponta em cavanhaque ou em cilindro, a esfera da cabeça cortada em horizontal na parte inferior, com o se fora um dom o com o tam bor m ais estreito, tam bor que é o pescoço cilíndrico im plantado em om bros possantes, num corpo em que parecem m ultiplicar-se as tensões m usculares, graças à profusão de planos, ao j ogo de volum es arredondados e angulosos com que a geom etria se faz vida.
Talvez os dogons daquela época ainda não tivessem chegado a essa antecipação do sentim ento cubista das form as. Sabem os que buscam renovar, a cada sessenta anos, nos grandes festivais sigis, as suas tradições, m as ignoram os até que ponto as m odificam e refazem , ou confirm am e consolidam . Um dos estilos dogons — aquele m ais realista, o das m ulheres ao pilão, o de certos cavaleiros de queixo saliente e barba arredondada, o daquela grande figura herm afrodita do Metropolitan Museum de Nova York, com seu gorro, seu colar de chapas quadradas, suas pulseiras e braçadeiras, o cinto a acentuar a nudez do sexo, os dois braços erguidos com o se fora um telem — recorda as esculturas em barro desencavadas em Jenné, em Jenné-Jeno, em Mopti e em outros pontos do
delta interior do Níger.56
No corpo destas criações do delta interior do Níger, datadas dos séculos VIII a XVIII, com um a concentração de peças no Trezentos e no Quatrocentos, tem sido incluída um a im agem equestre em m adeira, hoj e no Minneapolis Institute of Arts, que poderia ser dogom . Ao vê-la, houve quem pensasse num a personagem m ítica daquele povo, Lebe, geralm ente representada a cavalo e tida com o o prim eiro hogom e o prim eiro hom em a experim entar a m orte e a transm iti-la
aos seus sem elhantes.57 Se correta a época em que o carbono 14 coloca essa peça — do século X ao XII —, seria ela um a das m ais antigas esculturas em m adeira recolhidas até agora na África subsaariana.
Máscara sigi. Dogom , três m etros de altura
O cavalo, pequeno, de cabeça baixa, com as pernas dianteiras desaj eitadam ente curvadas para a frente, m uito se parece com os de produção dogom e nada possui da altivez e da sensação de m ovim ento que dão, apesar de terem as pernas retas, os corcéis em barro do delta interior do Níger, com as cabeças levantadas e atentas, as narinas abertas, as rédeas trabalhadas, o pescoço a m ostrar um a coleira de guizos, as ancas ricam ente ornam entadas. É possível que o tam anho do lenho tenha contido a m ão do artista, m ais livre no barro, no qual se acentuam as decorações que cobrem o cavaleiro, com a m esm a conform ação de cabeça da figura de m adeira, o m esm o tipo de olhos (em bora estes se m ostrem , nas terracotas, cercados por várias incisões m uito m arcadas), de queixo, de barba, de nariz e de boca, o m esm o saiote com rosetas nos quadris, o m esm o colar de contas grossas. Na im agem em m adeira, notam -se ainda as pequeninas protuberâncias provocadas por esca-rificações nas têm poras, que se apresentam em vários dos ginetes em barro e que provocaram a conj ectura de que representassem eles, com suas alj avas às costas — o cavaleiro de m adeira traz tam bém um arco na m ão esquerda —, os ancestrais sagrados do clã dos
Câm aras, os nobres arqueiros cagoros dd 58 aliados do Sundiata.
Guerreiro a cavalo. Dogom ? Século X–XII? Madeira.
Mas não se esgotam em galopes essas representações do hom em e de seus gestos. Os artistas que as fizeram sabiam captar a m ultiplicidade de atitudes dos que os rodeavam e, ainda que m oldassem deuses, heróis ou ancestrais divinizados, era na form a hum ana que os viam , e na aldeia e no dia a dia tinham os seus m odelos. A m aioria das peças está aj oelhada, com as m ãos sobre as rótulas, ou de cócoras, ou sentada. A m ãe am am enta. Um a m ulher sustenta nos braços um a esteira ou m anta enrolada. Esta outra tem duas crianças escanchadas no colo. São diferentes as inclinações do corpo, as posições da cabeça, dos braços, das pernas e das m ãos. Há até m esm o certa im agem que se poderia interpretar com o de cansaço ou desalento: um hom em sentado, m uito m agro, com as costelas aparecendo, o corpo coberto de serpentes, apoia a testa nos braços cruzados sobre o j oelho.
Em Bankoni, atualm ente parte de Bam ako, encontrou-se um outro conj unto de belas estatuetas de cerâm ica, m oldadas, ao que se crê, entre os séculos XII e XVII e que se aproxim am , pelo realism o, do estilo do delta interior do Níger, m as dele se distinguem pelo tratam ento cilíndrico das partes do corpo, pelo alongam ento do torso em relação ao resto da figura e pela avareza de enfeites,
do que resulta um a superfície de barro m ais lisa e uniform em ente ilum inada. 59
Não é de estranhar-se tanta sem elhança. Seria norm al que se difundissem e enlaçassem influências, no descer do Níger desde Niani até Gao e nos territórios que lhe ficam , com o Bandiagara, ao lado. Toda a área, nos séculos XIII e XIV, excetuadas as íngrem es e difíceis paragens onde se entrincheiravam os dogons, era parte do im pério do Mali. E, a testem unhar com o havia nesse espaço form as com uns aos povos que nele viviam , anota-se a presença, de Niani a Gao e em Bandiagara, de um vaso m uito característico, de cuj a base se levantam três ou quatro pernas ligeiram ente em arco, para sustentar um a copa m uito aberta, cuj a parte baixa é cortada horizontalm ente por um a faixa protuberante, cheia de
pequenas cunhas.60 Todo o obj eto parece sim ular um a panela sobre um a trem pe. Um deles, retirado de um a caverna telem , em Segué, recebeu data entre
os séculos XI e XII.61
Bem distinto seria o panoram a, se o viaj ante, após chegar a Zim babué e a Moçam bique, em vez de rum ar para o noroeste, para o Chaba, a Lunda, o Cuanza e o Congo, seguisse para o sul e atravessasse o Lim popo.
No passar do século XV para o XVI, os povos de língua banta j á ocupavam a m aior parte das terras que se estendiam pelo litoral até o rio Kei e que abrangiam , para o interior, o Transvaal, a Suazilândia, o Lesoto e as partes orientais do Orange e da Província do Cabo, com preendidas dentro de isoieta de cinquenta centím etros. É possível que as populações j á então se apresentassem com as características básicas que depois as distinguiriam em dois grandes
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grupos, os soto-tsuanas e os angúnis, em bora houvesse m uitos bolsões de outros
povos ainda não absorvidos por essas duas culturas em form ação.
Vaso telem . Século XI ou XII
Aos soto-tsuanas viria a caber o dom ínio do interior, estendendo-se pela Botsuana adentro. Viviam eles — e assim os conheceram os europeus — em grandes aldeias, com feição de cidade, que tinham bem ao lado, m as fora delas, as suas lavouras e, m ais adiante, as suas pastagens. Dos cereais e do gado retiravam o sustento, e tam bém da caça, da m ineração e da m etalurgia.
Os angúnis habitavam a leste do Drakensberg, em Natal e no Transkei. Em bora cultivassem a terra, eram sobretudo pastores. Viviam em com pounds ou kraals fam iliares, isolados e dispersos no cam po. Cada um desses com pounds, com seu dono, suas m ulheres e seus filhos, noras e netos, organizava-se ao redor de um
curral, onde se guardava o rebanho. Monica Wilson 62 viu no tratam ento que os angúnis davam ao boi a repetição de toda a tram a que cercava o cham ado “culto do gado” dos cuxitas e nilóticos.
De suas cabanas em form a de colm eia, os angúnis saíam vestidos com m antas de couro e de sandálias nos pés. Tinham chefes, os incosis, conform e contaram os náufragos portugueses que foram dar às costas do Transkei e de Natal, no início dos século XVI. Por aquela época — e disto deu testem unho o próprio Vasco da Gam a, ao bordej ar a região e cham á-la “Terra das Fogueiras” — ainda estavam no processo de derrubar e queim ar as grandes florestas, para abrir
espaço ao derram e dos rebanhos. 63
A esses rebanhos e a um a nova técnica de pecuária, em que se ordenhavam as vacas e se coalhava o leite, deviam , não só os antepassados dos angúnis, m as tam bém os dos sotos-tsuanas, o se terem espalhado por toda a parte oriental do sul da África, com a rapidez que perm itia o terreno — m uito m ais lentam ente nas m atas, nos cerrados e nos cam pos cobertos do que nas savanas desm oitadas e nas cam pinas —, em desfavor dos caçadores e coletores e dos grupos agrícolas e m ineiros que ali viviam .
Im agem de ancestral. Dogom , 40,5cm de altura
Desde o com eço do prim eiro m ilênio de nossa era, m odos de produção e de vida que se associam geralm ente aos bantos aparecem ao sul do Lim popo. E tão prontam ente se expandem , que povoações tidas por bantas j á existiam , por volta do século V, em Hartbeespoort, próxim o a Pretória. E no século X, na vizinhança de Durban.
A riqueza em m inérios foi o estím ulo para que vários grupos se instalassem , ainda que de form a esparsa, nas terras baixas (ou lowveld) do nordeste do Transvaal, ricas em caça, m as frequentadas pela tsé-tsé e de solos desigualm ente férteis. A abundância de m adeira favorecia o trabalho do ferro, praticado em Silverleaves, próxim o a Tzaneen, e em Castle Cavern, na Suazilândia, desde aproxim adam ente o século IV. Ouro aluvial era retirado do rio Olifants, em Pilgrim ’s Rest. E ali perto, em Phalaborwa, extraíam -se cobre e ferro, desde os séculos VIII ou IX.
Outro é o retrato que a arqueologia apresenta do passado de
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Bam bandy analo. Ali, j unto à m argem direita do Lim popo, num a elevação
circular de uns 180m de diâm etro, encontraram -se vestígios de um a aldeia em torno de um grande curral, onde, além de se guardar o gado, tam bém se enterravam os m ortos. De várias cam adas de esterco, um a datada do século XI, retiraram -se 74 restos hum anos, responsáveis por um a cultura m aterial que pode ser assim ilada à de Leopard’s Kopj e, um a cultura m aterial extrem am ente sim ples, com poucos obj etos de ferro, algum as m ós e abundante cerâm ica.
As ossadas de Bam bandy analo foram , por m uito tem po, tidas com o de coissãs, havendo m esm o quem as apresentasse com o parte de um enigm a — o enigm a
de um a cultura banta associada a um tipo físico não banto.65 Hoj e, sabe-se que os restos de Bam bandy analo se inserem dentro do quadro de variação do tipo de
esqueleto negro da África do Sul, 66 em bora não deixem de revelar, em alguns casos, traços hotentotes, a traduzir possivelm ente certa m estiçagem . A vizinhança entre bantos e coissãs deve ter, aliás, não apenas favorecido a m iscigenação, m as tam bém o recebim ento por esses últim os de um a nova m aneira de criar o gado bovino. No caso de Bam bandy analo, parece que estam os diante de um a econom ia de pastorícia quase sedentária e caracterizada por grandes currais.
É possível que coissãs tenham , desde cedo, adquirido, no sul de Angola e no sudoeste da Zâm bia, anim ais dom ésticos. Sabe-se que carneiros e cabras j á existiam , no início de nossa era, na Nam íbia e no Cabo, e que em Nxai-Nxai, no extrem o noroeste da Botsuana, dentes de gado vacum foram encontrados em
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depósitos dos séculos VIII e IX. Há sinais, além disso, do desenvolvim ento de
um a econom ia pastoril nas m argens orientais do Calaári,68 onde os rebanhos bovinos aum entaram rapidam ente, talvez pelas m esm as razões que fizeram m ultiplicar-se, num curto intervalo de tem po, os bois e os cavalos introduzidos pelos europeus no pam pa gaúcho e no oeste norte-am ericano: as pastagens eram am plíssim as e excelentes, e não se sacrificavam os anim ais, a não ser em proporções ínfim as. O gado deve ter crescido não só no leste, m as tam bém no norte da Botsuana, sobretudo na depressão úm ida de Makarikari e no delta que o rio Ocavango form a, ao desfazer-se sobre as terras áridas.
Em toda a zona, e tam bém nas áreas que têm por eixo o Cunene, o Cubango e o alto Zam beze, e na região do Cháchi, processou-se um dem orado com ércio entre os m odelos culturais bantos e os dos coissãs.
Estes últim os deviam estar presentes desde tem pos im em oriais no sul da
África, 69 seus m odos de vida sofrendo m udanças e diferenciações, quer por desenvolvim ento próprio, quer por contágio de grupos hum anos, bantos ou não, que haviam adotado a cerâm ica, o uso do ferro, a cabra, a ovelha e o boi. Assim , foram -se distinguindo em com portam ento, de um lado, os sãs (ou bosquím anos) e dem ais grupos que perm aneceram fiéis à vida do caçador, do coletor de frutos, m el, ovos, raízes e conchas, e, de outro, os cóis (ou hotentotes), que se renderam a um a econom ia pastoril ou sem ipastoril.
Não havia, porém , lim ites exatos entre um a condição e outra. Em pouco ou quase nada se diferenciava do cói o sã que adquiria, por troca, cessão de m ulheres ou roubo, o seu arm ento; e em tudo ou quase tudo era idêntico ao sã, no seu pequeno grupo nôm ade, o cói privado de seus anim ais, por peste, desastre ou saque, e que retornava à caça, à coleta, à pesca e ao apanho dos m ariscos. O cói com o que podia tornar-se bosquím ano, e este, hotentotizar-se. Por isso, Shula
Marks 70 escreveu que as dessem elhanças entre cóis e sãs parecem tanto diferenças de classe quanto étnicas ou culturais.
Aos hotentotes atribui-se a cerâm ica bem cozida e de alças reforçadas que se fazia, no início de nossa era, no rio Orange e ao longo da costa, desde Swakopm und, na Nam íbia, até a baía de Plattenberg, a m eio cam inho entre o cabo da Boa Esperança e a foz do rio Kei. É possível que esses hom ens, que nos deixaram tantos vasos de barro nas concheiras do litoral, tenham com eçado por ser pescadores e m ariscadores, logo depois recebendo suas prim eiras ovelhas de rabo gordo, das quais deixaram testem unho em belas pinturas rupestres. O boi só lhes chegaria bem m ais tarde, no fim do prim eiro m ilênio ou j á avançado o
segundo. 71
Teria havido não só um processo de conversão à pastorícia de caçadores e coletores, m as tam bém um deslocam ento para o sul dos hotentotes, a acom panhar os seus rebanhos. Sabendo m ontar o boi e utilizá-lo com o anim al de carga, os cóis teriam ganho um a excepcional m obilidade e se expandido rapidam ente pela parte ocidental do sul da África. Da rapidez dessa expansão faria prova a hom ogeneidade dos falares cóis, desde o sul de Angola até o rio Fish. Por toda parte, a língua era a m esm a, dividida em dois ou três dialetos, o
que apontaria tam bém para um a recente dissem inação dos hotentotes. 72
Aqui, os cóis aliciaram com unidades de caçadores e coletores para o novo m odo de vida. Ali, absorveram os sãs, pela adoção ou o casam ento. Acolá, deles fizeram clientes, estabelecendo-se entre as duas partes um j ogo de troca de aj uda, serviços e bens. Mais adiante, sim plesm ente os expulsaram , quando não fizeram frente a prolongada hostilidade. Muitos sãs foram refugiar-se onde não chegava o gado. Na beira do deserto, por exem plo.
Os bosquím anos m oviam -se em pequenos bandos, arm ados de arco e flecha envenenada e a carregarem , entre os parquíssim os bens, os ovos de avestruz em que m antinham a água. À cabeça, m archava aquele que detinha, em m uitos grupos, um a espécie de custódia dos direitos sobre as fontes, os regatos, as cacim bas e os vegetais. A posição era hereditária, m as sem as características de chefia, pois o seu titular não arbitrava disputas, nem exercia qualquer form a de com ando. Entre suas funções, um a das ritualm ente m ais im portantes era a de acender, num novo acam pam ento, o prim eiro fogo, de cuj as cham as todos se
abasteciam . 73
Cada grupo era independente dos dem ais, tinha seu nom e próprio e circulava dentro de um a área determ inada, ainda que esta fosse bastante extensa. Seus direitos prioritários à caça e à coleta nesse território eram reconhecidos pelos vizinhos, m as isto não os im pedia de explorar novas áreas ou de fazer longas viagens, do m esm o m odo que o isolam ento em que vivia cada bando não obstava a que vários deles se reconhecessem com o parte de um conj unto m aior, a com preender m ais de um a trintena de grupos e de um m ilhar de pessoas, que se reuniam um a vez por ano em assem bleia.
Tam bém os hotentotes sabiam pertencer a grandes unidades de sangue e aliança. Dividiam -se em agrupam entos de clãs, cada qual sob um chefe hereditário, cuj o poder aum entava ou dim inuía de conform idade com o destino dos rebanhos.
Os grupos de clãs vinculavam -se entre si por um a rede de tributos, que podia ser tão extensa quanto a que unia, no século XVII, todos os cóis da área entre o cabo da Boa Esperança e o rio Kei. Dentro dessa estrutura política, a posição de cada agrupam ento de clãs, de cada linhagem e de cada indivíduo dependia do núm ero de gado sob seu controle. De sua riqueza, portanto. Um grande chefe que perdesse parte de suas m anadas, por seca, epidem ia ou saque, via esvair-se o poder de m ando e até m esm o desarticular-se a solidariedade de seu grupo. Neste, anotavam -se vastas diferenças entre ricos e pobres, m as a situação de uns e outros era susceptível de inverter-se. Um hom em abastado podia perder seu gado. Um pobre podia ver-se, de um a hora para outra, sem um a única rês e obrigado a abandonar o grupo, a regredir à condição de apanhador de m oluscos ou a fazer-se caçador. Um punhado de indigentes podia, por sua vez, atacar os
rebanhos dos vizinhos e recom por o patrim ônio e a vida. 74
Se o Cunene, o Cubango-Ocavango e o alto Zam beze foram áreas de m ultiplicação dos rebanhos vacuns, que cedo se estenderam pelas fraldas orientais do deserto do Calaári e pelo sudoeste do atual Zim babué até as cabeceiras do rio Lúndi, fácil é com preender que esse m ovim ento se tenha propagado às excelentes pastagens das terras altas do Transvaal. Para lá, possivelm ente, deslocaram -se não só pastores hotentotes, m as tam bém bantos. Am bos os grupos traziam com eles novas form as de cuidar do gado e vinham disputar o espaço com os bosquím anos, que nada sabiam dos anim ais dom ésticos, e com os bantos agricultores e m ineradores, que conheciam o boi, m as o criavam em pequeno núm ero e para dele obter a carne, os chifres e o couro, m as não o leite.
Esse novo afluxo da cultura banta caracterizava-se por ser a um só tem po pastoril e agrícola, além de, em m uitos casos, m ineira. A partir da m argem direita do Lim popo, para o norte, ela iria tom ar os desenhos de Leopard’s Kopj e e de Gum any e. Para o sul, perm itiria o rápido crescim ento, com início por volta de 1100, do tam anho das com unidades, nas quais a agricultura, praticada pelas m ulheres, se som ava à criação do gado, tarefa dos hom ens. O pastoreio em grande escala fez do leite, fresco ou coalhado, o alim ento básico. E o esterco dos currais tornou possível am pliar, com a adubagem , a produção da lavoura.
Já os hotentotes eram basicam ente pastores. Não praticavam , a não ser de m odo m arginal, o cultivo do solo. E para eles a m etalurgia pouco significava. Trabalhavam m ais o cobre do que o ferro. A este sabiam forj ar, m as nem sem pre o fundiam , usando-o m ais com o ornam ento do que com o m aterial para
fazer utensílios ou arm as.75 Essa m aneira de ser em nada lhes dificultou a propagação pela m etade ocidental do sul da África, que a falta de chuvas tornava im própria à agricultura e onde tiveram de haver-se com bandos de caçadores, pescadores e coletores arm ados com instrum entos da Idade da Pedra. Deve ter-lhes feito, entretanto, difícil a vida no Transvaal. Ali tiveram de com petir não só com bosquím anos, m as tam bém com agricultores bantos, arm ados de lanças e flechas com pontas de ferro.
Muitos desses hotentotes, com o, antes e depois deles, os bosquím anos, m isturaram -se com os agricultores. E uns e outros, tam bém , com os novos bantos, que faziam do boi o centro de sua cultura, em bora sem se despegar do am anho da terra. Seria o tipo de vida desses últim os, m ais abrangente do que os dos dem ais, aquele que se im poria no Transvaal, no Orange, no Lesoto e na parte oriental da Botsuana.
Do confronto e convívio entre bantos e coissãs no Transvaal dariam um a ideia os achados de Olifantspoort. Datam da prim eira m etade do segundo m ilênio de
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nossa era. Ali, lado a lado com restos típicos de bantos produtores de ferro,
abundam utensílios líticos. A aldeota com punha-se de um a vintena de casas de planta circular, dispostas ao redor de um curral.
Outros testem unhos da arqueologia indicam , ao que parece, a vitória do novo estilo de vida. No sul do Transvaal, em terras ricas de m inério de ferro, igualm ente propícias à lavoura e ao pastoreio e livres da m alária e da tsé-tsé, Revil Mason identificou um a cultura a que deu nom e de Uitkom st, de um a caverna ao norte de Johannesburg, em bora tenha sido no centro dessa cidade, em um a colina cham ada Melville Koppis, que se fizeram os achados m ais interessantes: várias fornalhas para fundir o ferro, um a das quais com data do século XI. A área dessa cultura, caracterizada por um a econom ia m ista
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agropastoril-m ineira, estender-se-ia para leste e para o norte até Warm baths. Em suas aldeias, tudo era circular: as casas em daga, os currais e as cercas que separavam o conj unto da paisagem . A partir dos m eados do século XVI, a construção em pedra, sem argam assa, passou a im por-se. Não é de afastar-se, porém , que m uros desse tipo j á fossem erguidos m uito antes, pelo m enos desde o
início do segundo m ilênio de nossa era. 78 Sob o m esm o estím ulo que em Zim babué: o granito era abundante nos m atacões que coroavam os m orros, e com ele se obtinham paredes e cercados m ais sólidos e duradouros do que os feitos com varas, espinheiros, esteiras ou barro.
Para oeste, na região de Rustenburg, um a outra cultura, sem elhante à de Uitkom st, porém com um a cerâm ica distinta, m ais sim ples e de decoração lim itada a chanfraduras no rebordo, alastrava suas aldeias para o ocidente e para o sul. Dos sítios que a ela pertencem , bem com o das estações da cultura de Uitkom st, retiraram -se restos de esteiras, de cordas entrançadas, de obj etos de m adeira e de ornam entos de conchas. De toda a área extraíam -se ouro, cobre e estanho, além de ferro.
Mais ao sul, no que viria a ser o Estado Livre de Orange, o novo m odo de vida
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só chegará m ais tarde: não m uito antes do século XV. Sua expansão, contudo,
logo encontrou os lim ites naturais da chuva escassa. Para além deles, era o território dos bosquím anos e dos pastores cóis.
A feição hotentote de criar e usar o boi pode ter cam inhado, pelas estepes que m argeiam a leste o Calaári e pelas terras altas do Transvaal, até a confluência do Vaal com o Orange. De lá expandiu-se para o ocidente, para a Nam aqualândia e a Nam íbia, e para o oriente, para o Transkei e Natal. Nas duas últim as áreas, os cóis se teriam im posto sobre os povoados dispersos de agricultores bantos e os convertido ao sem ipastoralism o. Posteriorm ente, a população agrícola e de econom ia m ista adensou-se e, em bora am algam asse elem entos bosquím anos e principalm ente hotentotes, fez com que predom inassem os idiom as e as
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estruturas sociais dos bantos, ainda que im pregnados de traços coissãs. É possível, aliás, que a inversão de preponderâncias se tenha devido ao reforço que trouxeram outros bantos, tam bém conhecedores, com o os cóis, da ordenha da vaca e hábeis no com binar das lavouras com os currais, ao seguir os m esm os roteiros que os hotentotes até Natal.
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Há quem pense que a via pela borda leste do Calaári e pelo platô aberto entre o Vaal e o Orange na direção do Drakensberg tenha sido seguida principalm ente pelos bantos da cultura do leite, os rebanhos hotentotes descendo por outros cam inhos, a oeste do deserto, Nam íbia abaixo e infletindo depois para o Cabo e na direção do Índico. Com o eram apenas ou basicam ente pastores, os cóis, que não precisavam erguer aldeias nem se rendiam ao ciclo do trabalho da terra, m overam -se m uito m ais rapidam ente do que os novos bantos, ainda que a seguir um a rota m ais longa. Quando esses chegaram à região da confluência do Orange com o Vaal, aqueles, vindos do ocidente, j á ali estavam a pastorear o seu gado.
Qualquer das duas hipóteses, a sublinharem am bas a precedência hotentote na difusão das novas técnicas de pecuária ao sul do Orange, no Transkei e em Natal, explicaria o fato de derivarem , ao que parece, de raízes cóis as palavras em idiom as sotos e angúnis correspondentes a “vaca”, “ovelha” e “leite”. Essa interpretação não exclui, porém , um a outra: a de que os grupos bantos adquiriram o boi de um a terceira fonte, antes de entrar na África do Sul, passando aos coissãs tanto o m odo pastoril de vida quanto as principais palavras
que o exprim em .82 Há que lem brar, no entanto, a existência, nas línguas dos sotos e dos angúnis, de term os m ais antigos referentes a gado que são de com um
origem banta, 83 e isto é um argum ento em favor da tese de que, em bora possam ter acolhido o boi, em seus contatos com grupos bantos no sul de Angola, no sudoeste da Zâm bia e no norte da Botsuana, os cóis foram pioneiros da expansão de um novo tipo de pastoralism o no sudeste da África, transm itindo-o às com unidades agrícolas que ali viviam e que talvez j á conhecessem as vacas, m as não as criavam em grande escala, nem delas aproveitavam o leite.
Esses agricultores, tidos por bantos, viveriam na área desde o século X, a conflitar com os caçadores, pescadores e coletores sãs — dos quais há tantos vestígios nas concheiras do litoral e nas pinturas em cavernas nas m ontanhas — e a com eles com erciar, colaborar e m isturar-se. Os m esm os bosquím anos que forneciam aos aldeões caça, m el e outros produtos da floresta cediam -lhes noivas. E as relações de clientela entre os dois grupos levavam frequentem ente, pelo casam ento ou a troca de cultura, à captação do nôm ade. Este não se dissolvia, porém , no novo m eio, sem nele deixar m arcas. Com o, entre os bantos de Natal, a tradição de am putar a falangeta do dedo m indinho — um traço bosquím ano. Ou com o a existência, nos idiom as angúnis, dos estalidos característicos das línguas coissãs.
ff 84
As palavras com estalidos — 20% do vocabulário xosa e 14% do zulu —
derivariam sobretudo do falar dos cóis, de quem os angúnis teriam adquirido a ênfase que em suas vidas tom ou a criação do gado. É possível, aliás, que a interação com os hotentotes tenha sido m ais com pleta do que com os bosquím anos, ainda que um e outro respondam pelo tipo físico do angúni, se ele
é, com o j á se disse, um a m istura de negro e coissã.85 Ressalte-se que, no século XVI, os angúnis ocupavam o Transkei e Natal, onde j á não havia vestígios dos cóis, m as ainda nom adizavam sãs, só uns trezentos anos m ais tarde expulsos de
vez para os refúgios do Drakensberg.86
Antes que as com unidades produtoras de alim entos se tornassem m aj oritárias em Natal, eram elas que tinham de proteger-se, no alto de colinas alcantiladas, das incursões dos bosquím anos. Pelo m enos é isso o que leva a pensar a posição no terreno das m ais antigas aldeotas estudadas pela arqueologia ao sul do rio
Tugela.87
Moor Park, próxim o a Estcourt, por exem plo, fica num m onte alcantilado, num a posição fortem ente defensiva. A área m urada continha casas de planta possivelm ente retangular — o que singularizaria o povoado em relação a todos os
dem ais da África do Sul 88 — e terraços e zonas abertas, onde talvez se guardasse o gado. Pois a gente que ali habitava, nos séculos XIII ou XIV, criava bois, que tinha de proteger da cobiça dos caçadores sãs, cultivava sorgo e conhecia o ferro.
Ali, com o na quase totalidade da África, a riqueza e o poder dependiam da quantidade de indivíduos que se som avam sob um m esm o rei, chefe ou pai de fam ília. Isso, que não valia para os caçadores e coletores, fossem sãs, pigm eus ou negros — e a esses todos o tipo de vida que praticavam im punha a m anutenção do grupo em pequenos núm eros —, era a regra em sociedades quase desassistidas de engenhos m ultiplicadores do trabalho hum ano. Mesm o em aldeias sem poder centralizado, os hom ens de prestígio recrutavam -se preferentem ente entre os m ais prósperos, isto é, entre aqueles que alcançavam m elhores colheitas, que possuíam m aiores reservas em seus celeiros e m ais expressivas quantidades de anim ais em seus cercados. Com o quase sem pre, a riqueza acum ulada gerava riqueza, pois, com os excedentes, o agricultor obtinha novas esposas, para aum entar a quantidade de filhos, e atraía seguidores e agregados, e com prava escravos. Com m ais gente ao seu dispor, am pliavam -se a extensão das terras que tinha sob cultivo, o núm ero de anim ais a que podia dar cuidado e o apoio político com que contava.
Possuir m uitas esposas, filhas e noras era im portantíssim o, pois sobre as m ulheres recaíam os trabalhos m ais desgastantes e rotineiros. A divisão de tarefas entre os dois sexos variava de sociedade para sociedade, m as cabia quase sem pre à parte fem inina o serviço m ais cansativo, m onótono e pesado. E nisto a África não discrepava do resto do m undo, onde várias das ocupações dos hom ens se voltaram em desportos — a caça, a pesca, o rem o, a vela, a equitação —, sem que um só dos ofícios das m ulheres tivesse o m esm o destino. Pela África afora, elas sem eavam e colhiam , m oldavam a cerâm ica, pilavam os cereais, cuidavam das cabras e das galinhas, recolhiam a água, transportavam a lenha à cabeça, cozinhavam , fiavam e teciam , lavavam a roupa, lim pavam os pátios, renovavam as coberturas das cabanas, faziam cestas e esteiras, recolhiam frutos e raízes, levavam os produtos ao m ercado, olhavam as crianças, m im avam os esposos. À
luz dos textos da época — recorde-se que Valentim Fernandes 89 afirm a claram ente que as m ulheres de toda a Guiné “roçam e cauã e sem eã e m ant~e o m arido” —, devia prevalecer, por volta de 1500, na m aior parte do continente
africano, o sistem a que H. Baum ann90 descreveu num ensaio pioneiro: os hom ens derrubavam as árvores e abriam o espaço para a roça, cuj o terreno era lim po com o auxílio das m ulheres; e nesse curto trabalho esgotavam eles sua intervenção nas tarefas agrícolas, que se estendiam , ao longo de todo o ano, nos punhos das esposas, filhas, noras e netas, encarregadas de preparar o solo, nele pôr as sem entes ou as estacas, m antê-lo lim po de ervas daninhas e colher o seu produto, arm azená-lo e prepará-lo para o consum o. Em m uitos dos grupos dedicados à pastorícia, era às m ulheres que se confiava a ordenha das vacas. E
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quando isso lhes era vedado, com o entre os luos, tinham o encargo de preparar
a m istura de sangue e leite, a coalhada e o requeij ão. Mesm o nas com unidades em que o labor agrícola se repartia entre os dois sexos — e tal se dava no m undo
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quicuio, com os hom ens a plantar as bananas, os inham es e as batatas-doces, e
as m ulheres a cultivar os m ilhos m iúdos e os feij ões —, estas controlavam parte substancial da produção dos alim entos e a quase totalidade de seu preparo.
Num m odelo de agricultura que j á se cham ou de fem inino ou da enxada, em
contraposição a outro, dito m asculino ou do arado, 93 prevalecente na Eurásia, a m ulher tendia a gozar de um bom espaço de liberdade econôm ica em relação ao hom em . Geralm ente, podia dispor dos produtos de suas roças, de suas hortas e de seus pom ares, sem consulta ao m arido, e conservar, sem confundir com os dele, os seus bens. Essa independência expressava-se até m esm o no fato, visível por quase toda parte, de as m ulheres alim entarem por sua conta o consorte, a m enos que isso sej a interpretado com o m ais um a das m uitas obrigações que sobre elas incidiam .
A condição fem inina variava de cultura para cultura. Aqui e ali, a m ulher geria suas roças e seus haveres, era senhora de sua casa (construída com a aj uda do m arido, m as onde este entrava quase com o visitante), e podia ter a iniciativa do divórcio, e participar da escolha das outras esposas que tom assem o seu hom em , e exercer posições de autoridade (chefe, rainha, rainha-m ãe, irm ã do rei, regente, líder das pessoas de seu sexo, sacerdotisa ou alta funcionária do palácio). Em algum as regiões, havia um quase perfeito equilíbrio entre os sexos, e noutras, o papel político das m ulheres era decisivo, im pedindo que as estruturas de m ando fossem exclusivam ente m asculinas. Não só podia ela exercer a chefia direta, com o participava ativam ente dos conselhos. Na Lunda, por exem plo, nada se
podia decidir sem a presença da luconquexa. gg Bastava que ela deixasse de
com parecer a um conselho, para que esse ficasse im pedido de deliberar. 94 Mas, acolá, a m ulher podia não ter voz ou ser obrigada a falar baixinho, estar suj eita à infibulação ou à excisão clitoriana, ou viver reclusa no afin de um obá ou num serralho m uçulm ano. O cule ou purdah existia em Kano, por exem plo, desde o fim do século XV, quando reinava Muham ad Runfa, a quem a tradição atribui o ter introduzido na aristocracia hauçá o encerro das m ulheres. Estas, no harém , não m ais podiam cum prir as tarefas externas que cabiam ao seu sexo, as tarefas que, em bora fossem cônj uges de um grande chefe ou até m esm o de um rei, delas, na África, se esperava: cozinhar para o m arido e os filhos, buscar água no rio ou na cacim ba, cuidar dos plantios, do gado pequeno e das capoeiras. Nos deveres fora de casa, o cule fez com que as esposas tivessem de ser substituídas por escravos.