A Noiva do Deus do Mar
Capítulo 1
Para minha mãe,que sempre acreditou em mim.
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O S MITOS DO MEU POVO DIZEM QUE SOMENTE a verdadeira noiva do Deus do Mar pode dar um fim à sua fúria insaciável. Quando as tempestades sobrenaturais surgem no Mar do Leste, os raios cortam o céu e as águas rasgam a costa, uma noiva é escolhida e oferecida ao Deus do Mar.
Ou sacrificada, dependendo do tamanho da sua fé.
Todos os anos, assim que as tempestades começam, uma garota é levada ao mar. Não posso deixar de me perguntar se Shim Cheong acredita no mito da noiva do Deus do Mar - e se ela vai encontrar conforto para lidar com o fim.
Talvez ela encare tudo isso como um começo. O destino pode tomar vários caminhos diferentes.
Por exemplo, há o meu próprio caminho - o caminho literal diante de mim, seguindo estreitamente pelos campos alagados de arroz. Se eu seguir esse caminho, ele vai me levar à praia. Se eu der meia-volta, vai me levar ao vilarejo.
Qual destino me pertence? Qual destino vou agarrar com minhas mãos?
Mesmo se fosse uma questão de escolha, essa escolha não seria realmente minha. Pois, embora grande parte de mim queira a segurança de um lar, a vontade do meu coração é infinitamente mais forte. Ela me empurra para o mar aberto e para a única pessoa que eu amo além do destino.
Meu irmão Joon.
Raios cortam as nuvens de tempestade, espalhando-se pelo céu escurecido. Meio segundo depois, um trovão ressoa sobre os campos de arroz.
O caminho termina quando a lama encontra a areia. Tiro minhas sandálias encharcadas e as penduro no ombro.
Através da chuva torrencial, avisto o barco, oscilando e se agitando sobre as ondas. É uma pequena embarcação oca com um único mastro, feita para carregar cerca de oito homens - e a noiva do Deus do Mar. Já está longe da costa, se afastando ainda mais.
Ergo a saia ensopada da chuva e saio correndo em direção ao mar revolto.
Ouço um grito vindo do barco no instante em que colido com a primeira onda. Sou imediatamente puxada para baixo. Fico sem ar com a água congelante. Cambaleio, submersa, rolando violentamente para a esquerda, depois para a direita. Esforço-me para erguer a cabeça acima da superfície, mas as ondas se derramam sobre mim.
Não sou uma nadadora ruim, mas também não sou muito boa, e, apesar de estar me esforçando para nadar, para alcançar o barco e sobreviver, a tarefa é difícil. Talvez não
seja o bastante. Queria que não doesse tanto - as ondas, o sal, o mar.
- Mina!
Mãos fortes envolvem meus braços e me puxam para fora da água. Sou colocada firmemente no convés ondulante do barco. Meu irmão está na minha frente, com seus traços familiares retorcidos em uma carranca.
- O que estava pensando? - grita Joon sobre o vento uivante. - Você poderia ter se afogado!
Uma onda gigante quebra contra o barco e eu perco o equilíbrio. Ele agarra meu pulso para me impedir de cair no mar.
- Eu te segui! - grito de volta. - Você não devia estar aqui.
Guerreiros não podem acompanhar a noiva do Deus do Mar.
- Olhando para meu irmão agora, com seu rosto açoitado pela chuva e sua expressão desafiadora, tenho vontade de desabar em lágrimas. Quero arrastá-lo para a praia sem olhar para trás. Como ele pode se colocar em risco desse jeito? - Se o deus ficar sabendo da sua presença, você vai acabar morto!
Joon se encolhe e desvia o olhar para a proa do barco, onde uma figura esguia está de pé, o cabelo se agitando com força ao vento.
Shim Cheong.
- Você não entende - diz ele. - Eu não podia… não podia deixá-la enfrentar isso sozinha.
O tremor em sua voz confirma o que eu suspeitava - e que torcia para não ser verdade. Praguejo baixinho, mas Joon não percebe. Todo o seu ser só presta atenção nela.
Os anciões dizem que Shim Cheong foi concebida pela Deusa da Criação para ser a última noiva do Deus do Mar, aquela que vai consolar todas as suas tristezas e inaugurar uma nova era de paz no reino. Sua pele foi forjada com a mais pura das pérolas. Seu cabelo, costurado da noite mais profunda. Seus lábios foram coloridos com o sangue dos homens.
Talvez esse último detalhe seja mais amargura do que verdade.
Lembro da primeira vez que a vi. Eu estava perto do rio com Joon. Era a noite do festival dos barquinhos de papel, quatro verões atrás. Eu tinha doze anos, e Joon, catorze.
Nos vilarejos do litoral, a tradição é que cada pessoa escreva seus desejos em pedaços de papel e depois faça dobraduras de barquinho com eles para colocar no rio. A crença é que os barquinhos levarão esses desejos aos nossos ancestrais no Reino dos Espíritos, onde eles poderão negociar com os deuses menores para que os realizem.
- Shim Cheong pode ser a garota mais bonita do vilarejo, mas seu rosto é uma maldição.
Olhei para cima ao som da voz de Joon, seguindo seu olhar para a ponte que cruza o rio. Havia uma garota ali no meio.
Com o rosto iluminado pelo luar, Shim Cheong parecia mais uma deusa do que uma garota. Ela estava segurando um barquinho de papel, que logo se desprendeu da palma aberta de sua mão e caiu na água. Enquanto eu o observava sendo levado pela água, fiquei me perguntando o que uma pessoa tão bonita poderia desejar.
Naquela época, eu não sabia que ela já estava destinada a ser a noiva do Deus do Mar.
Agora, de pé no barco sob uma tempestade, com trovões que sacodem até meus ossos, percebo que os homens mantêm distância dela. É como se ela já tivesse sido sacrificada, porque sua beleza sobrenatural a separa do resto de nós. Ela pertence ao Deus do Mar. É o que todos no vilarejo sempre souberam desde que ela atingiu a maioridade.
Fico pensando se é possível seu destino mudar em apenas um dia. Ou se é preciso mais tempo para que sua vida seja roubada de você.
Eu me pergunto se Joon sentiu a solidão de Shim Cheong.
Ela passou a pertencer ao Deus do Mar aos doze anos de idade, e, enquanto todos a viam como alguém que um dia iria embora, ele era o único que queria que ela ficasse.
- Mina - Joon cutuca meu braço -, você precisa se esconder.
Observo Joon procurar ansiosamente um lugar para eu me ocultar no convés descoberto. Ele pode não se importar de ter quebrado uma das três regras do Deus do Mar, mas está preocupado comigo.
As regras são simples. Nada de guerreiros. Nada de mulheres, além da noiva do Deus do Mar. Nada de armas.
Joon quebrou a primeira regra vindo com ela. E eu quebrei a segunda.
E também a terceira. Envolvo com a mão o punhal escondido sob minha blusa, a arma que pertenceu à minha tataravó.
O barco deve ter chegado ao epicentro da tempestade, porque os ventos não estão mais uivando, as ondas não estão mais batendo no convés, e até a chuva retardou seu ataque implacável.
A escuridão nos cerca de todos os lados, pois as nuvens obscureceram a luz da lua. Eu me aproximo da borda do barco e olho para o lado. Um relâmpago reluz, e, no clarão, eu o vejo. Os pescadores também o veem, mas seus gritos são engolidos pela noite.
Debaixo do barco, um enorme dragão azul-prateado está se movendo.
Seu corpo lembra o de uma cobra. Ele circunda o barco, e as cristas de suas costas escamosas rompem a superfície da água.
A luz do raio se dissipa. A escuridão cai mais uma vez, e tudo que se ouve são as ondas quebrando infinitamente.
Estremeço, imaginando todos os destinos terríveis que nos aguardam, seja por termos nos afogado ou por termos sido devorados pelo servo do Deus do Mar.
O barco geme enquanto o dragão avança direto para o casco.
Qual é o propósito disso? O que o Deus do Mar estava pensando ao enviar seu aterrorizante servo? Será que está testando a coragem de sua noiva?
Pisco, percebendo que a raiva afastou meu medo.
Percorro o barco com o olhar. Shim Cheong ainda está na proa, mas não está mais sozinha.
- Joon! - grito, o coração acelerado.
Joon vira o rosto para mim e solta a mão de Shim Cheong abruptamente.
Atrás deles, o dragão emerge da água em silêncio, e seu longo pescoço se estende para o céu. A água do mar escorre por suas escamas azul-escuras, caindo feito moedas no convés do barco.
Os olhos negros e insondáveis da criatura estão cravados em Shim Cheong.
É agora.
Não sei o que vai acontecer, mas este é o momento pelo qual todos esperamos - o momento que Shim Cheong aguarda desde o dia em que descobriu que era bonita demais para viver. É agora que ela perde tudo. E o que é mais devastador: que ela perde o garoto que ama.
Só que neste momento Shim Cheong hesita.
Ela dá as costas para o dragão, e seus olhos encontram os de Joon. Nunca vi um olhar assim antes - tão cheio de agonia, medo e desespero. Meu coração se parte. Joon solta um som engasgado, dá um passo em direção a ela, depois mais um, até estar na frente de Shim Cheong, com as mãos abertas de forma protetora.
E, assim, ele sela seu destino. O dragão nunca o deixará ir embora, não depois desse gesto de desafio. Como que para provar que meu temor tem razão de ser, a grande besta solta um rugido ensurdecedor, fazendo com que todos os homens ainda em pé caiam de joelhos.
Exceto Joon - meu forte, teimoso e tolo irmão, parado ali como se pudesse proteger sozinho seu amor da ira do Deus do Mar.
Uma raiva insuportável cresce dentro de mim, brotando na barriga e subindo até a garganta, me sufocando. Os deuses escolheram não realizar nossos desejos - nem os do
festival dos barquinhos de papel nem os pequenos desejos que fazemos todos os dias, pedindo paz, fertilidade, amor.
Eles nos abandonaram. O deus dos deuses, o Deus do Mar, só quer tomar as coisas das pessoas que o amam - tomar e tomar, e nunca retribuir.
Os deuses podem não realizar nossos desejos, mas eu posso. Por Joon. Eu posso realizar o desejo dele.
Corro para a proa do barco e subo na borda.
- Me leve no lugar dela! - Ergo meu punhal e faço um corte profundo na palma da minha mão, levantando-a bem acima da cabeça. - Eu serei a noiva do Deus do Mar. Entrego minha vida a ele!
Minhas palavras são recebidas com uma absoluta quietude pelo dragão. Neste instante, duvido de tudo. Por que o Deus do Mar me levaria no lugar de Shim Cheong?
Não tenho sua beleza ou elegância. Só tenho minha teimosia, que minha avó sempre disse que seria a minha maldição.
Mas então o dragão abaixa a cabeça e a vira de lado, para que eu possa olhar diretamente para um de seus olhos negros. Ele é tão profundo e infinito quanto o mar.
- Por favor - sussurro.
Neste momento, não me sinto bonita. Nem corajosa, com as mãos tremendo desse jeito. Mas há um calor dentro do meu peito que nada nem ninguém pode me tirar. Invoco essa força, porque, mesmo que eu esteja com medo, sei que a escolha é minha.
Sou a criadora do meu próprio destino.
- Mina! - grita meu irmão. - Não!
O dragão ergue o corpo para fora da água, pousando parte de sua massa volumosa entre mim e meu irmão, nos separando. No silêncio que se segue, completamente cercada pelo dragão, eu hesito, me perguntando o quanto ele consegue entender.
Procuro as palavras certas. A verdade.
Respiro fundo e ergo o queixo.
- Sou a noiva do Deus do Mar.
O dragão se afasta do barco, revelando uma abertura na água agitada.
Sem olhar para trás, pulo no mar.