A Noiva do Deus do Mar
Capítulo 6
mesmo estando mortos.
Meu irmão mais velho, Sung, dizia que a confiança deve ser conquistada, pois concedê-la a alguém é como oferecer uma faca para te ferir. Mas Joon retrucava, afirmando que confiança é um ato de fé - que confiar em alguém é acreditar na bondade das pessoas e no mundo que as moldou.
Estou à flor da pele demais para acreditar em qualquer um neste momento, mas acredito em mim mesma, no meu coração dizendo que eles são bons e na minha mente dizendo que eles são a ajuda de que preciso para encontrar a pega e recuperar minha alma.
- Você vem? - grita Dai por cima do ombro. Apresso-me para alcançá- -los e sigo Mascarada, Dai e Miki beco afora, para o coração da cidade do Deus do Mar.
6
S AINDO DO BECO, NOS DEPARAMOS COM UM GRANDE BULEVAR. Fico impressionada instantaneamente. Nunca coloquei os pés para fora do meu pequeno vilarejo, onde no máximo cerca de vinte ou trinta moradores se reúnem nos dias de feira - e talvez chegue a cinquenta nos dias de festival. Aqui na cidade do Deus do Mar, há centenas, milhares de pessoas vestidas em cores vibrantes de pedras preciosas, como se a cidade fosse um enorme recife e as pessoas, o seu coral.
Prédios magníficos com telhados em camadas estão dispostos pelas ruas, empilhados quase um em cima do outro, até onde a vista alcança. Lampiões brilhantes pendem dos beirais dos edifícios, iluminando as sombras das figuras se movendo atrás das janelas de papel. Carpas gigantescas e fantasmagóricas perambulam serenamente sobre os telhados, enquanto luminosos peixes dourados voam para dentro e ao redor dos lampiões.
Uma porta se abre para a rua, deixando escapar luz e risada. Uma jovem equilibrando uma bandeja de chá habilmente na cabeça desaparece entre a multidão.
Ouve-se um silvo e um estalo. Olho para cima. Uma fogueira explode, iluminando a noite e afugentando um cardume de peixinhos.
- Olhe por onde anda!
Mascarada me puxa a tempo de evitar sermos pisoteados por um menino empurrando um carrinho de anêmonas.
- Você, olhe por onde anda! - retruca Dai, erguendo o punho. - Ela é a noiva do Deus do Mar, sabia?
- Ah, claro - o menino fala por cima do ombro. - E eu sou o Deus do Mar!
Ele ganha algumas risadinhas dos que estão por perto.
As ruas de pedra são pavimentadas com mosaicos de criaturas marinhas. Seguimos os golfinhos azuis e cinzentos rua abaixo até uma avenida de caranguejos vermelhos e, por fim, damos em uma grande praça central, representada por uma grande tartaruga cor de jade.
A praça está lotada. Há grupos de garotas agachadas em um círculo, atirando e recolhendo pedrinhas, e velhos sentados em mesas baixas brigando sobre jogos de tabuleiro.
Todos devem ser espíritos, mas, assim como Miki e Dai, parecem saudáveis - vivos.
Mascarada desvia da praça, nos conduzindo por uma rua estreita repleta de carrinhos de comida.
Passamos por carrinhos cheios de bolos de arroz e peixes secos amarrados pelas caudas. Outros contêm castanhas
torradas e batata-doce com açúcar. Dai se esquiva de um carrinho que se aproxima pressionando as costas em outro repleto de pasteizinhos dentro de vaporizadores de bambu.
Enquanto ele se afasta, Miki estende a mão e pega um.
- Ay, Miki! - grita Dai. - Ladrões é que roubam! - Ele enfia a mão no bolso e tira uma cordinha com moedas de estanho e cobre. Desfaz o nó de uma moeda de estanho e a atira para o dono do carrinho, que a apanha no ar com facilidade.
- Vamos levar quatro, por favor!
Ele pega os pasteizinhos e os oferece para cada um de nós. Curiosa, fico observando Mascarada com o canto do olho para ver se ela vai tirar a máscara para comer, mas ela entrega seu pastelzinho para Miki. A menina o devora em impressionantes três mordidas.
Um vapor delicioso sobe do meu pastelzinho. Sigo o exemplo de Miki e praticamente o inalo. A combinação da maciez e fofura da massa com o salgado do recheio de alho-poró e carne de porco é extraordinária. Depois de lamber os dedos, Miki e eu nos juntamos para lançar olhares suplicantes a Dai. Ele suspira alto e pega outra moeda de sua corda de dinheiro.
Demoro-me mais no segundo pastelzinho, saboreando cada mordida.
O beco dos carrinhos de comida dá em outra rua movimentada, e, ao final desta, há uma grandiosa ponte sobre um rio de águas calmas. Lanternas vermelhas, verdes e brancas flutuam preguiçosamente em sua correnteza. Há barcos atracados na margem do rio e navegando rio abaixo, sendo conduzidos por barqueiros com chapéus de penas.
A ponte é um local importante de passagem. Está transbordando de pessoas, carrinhos, mulas e até mesmo um boi, com uma guirlanda de flores amarrada entre seus chifres. Crianças da idade de Dai sobem nas grades, abrindo caminho pelas finas vigas. A mão de Mascarada agarra o ombro do garoto depressa, antes que ele se junte aos outros.
No meio da ponte, ouvimos o som de tambores rufando.
Uma procissão se move lentamente por entre a multidão.
Somos empurrados em direção à borda com o resto das pessoas para abrir espaço.
Um grupo de soldados passa armado com lanças. Eles escoltam quatro homens que carregam uma grande caixa ricamente decorada. Dois de cada lado levam a caixa em varas equilibradas sobre seus ombros largos.
Já tinha ouvido falar de caixas sendo carregadas dessa maneira, tão comum na capital, usada para transportar mulheres da nobreza por curtas distâncias. As grossas paredes do palanquim protegem a ocupante dos olhares curiosos.
Sussurros animados acompanham a procissão. Eu me inclino para a frente, querendo saber quem está dentro da caixa dourada.
- É a noiva de Shiki.
Viro-me para ver Mascarada seguindo o movimento do palanquim. Ela aponta com a cabeça para os uniformes pretos e vermelhos dos guardas.
- São as cores da casa dele.
Dou um puxão em sua manga e aponto para os meus lábios para chamar sua atenção.
- Shiki?
- O Deus da Morte.
Meus olhos disparam para a caixa dourada. A pessoa ali dentro é a noiva do Deus da Morte.
- Ela deve ser muito linda. Ela é deusa do quê?
- Você falou deusa? Ela não é muito diferente da gente. É
só uma garota. Uma ex-noiva do Deus do Mar.
Ex-noiva do Deus do Mar. Giro a cabeça na direção da procissão.
Uma mão quente e bronzeada afasta as cortinas da caixa, e eu vislumbro um rosto redondo e doce antes que um guarda bloqueie minha visão.
Hyeri.
Um ano atrás, a noiva do Deus do Mar foi uma garota do vilarejo vizinho. Ano após ano, as noivas chegam de todos os cantos com caravanas que se estendem por quilômetros e quilômetros. Às vezes elas vêm de pequenas cidades, outras vezes, de cidades maiores, e algumas até da capital.
Mas Hyeri chegou à noite, com apenas uma bolsa pendurada no ombro e o cabelo trançado nas costas.
Ela ficou com a família do chefe dos anciãos por três noites antes de baterem na nossa porta. Ela precisava de ajuda para se preparar para o casamento.
Foi estranho estar no mesmo cômodo que uma garota que eu nunca tinha visto na vida, ajudando-a a se vestir com as cores de uma noiva - cores alegres que significam amor, felicidade e fertilidade -, sabendo que, pela manhã, ela estaria se afogando, e o vestido não faria outra coisa que não puxá-la para baixo das ondas.
- Você podia fugir. - As palavras saíram da minha boca antes que eu conseguisse impedir.
Hyeri se virou para mim com lábios rosados de pétalas esmagadas de azaleias. Seus olhos estavam escuros de carvão da lareira.
- E para onde eu iria?
- Não tem mais ninguém pra cuidar de você? Nenhum parente?
Hyeri balançou a cabeça devagar.
- Só tenho uma irmã, e ela foi embora há cinco anos.
- Foi embora? - Inclinei-me para a frente, encorajada pela informação, pensando que ela podia procurar a irmã. Na capital, talvez. Em algum lugar seguro. - Para onde?
Hyeri se virou. A janela da sala dava para os campos de arroz e, além deles, o mar. Não dava para vê-lo no escuro, mas era possível ouvi-lo - no vento soprando incansavelmente a brisa quente que atravessava o cômodo.
Também era possível senti-lo - no sal formando uma camada espessa na pele, feito pó.
Hyeri falou baixinho:
- Sempre fui uma boa nadadora, muito melhor do que a minha irmã, que tinha medo da água. Amanhã, quando eles me jogarem no mar, eu só vou nadar. Vou nadar e nadar até não aguentar mais.
- Mas a sua irmã…
- Já faz cinco anos. Dizem que todas as noivas do Deus do Mar são iguais. Mas eles estão errados. Como não conseguem ver?
Então sua voz adquiriu uma urgência. Ela agarrou meus pulsos e me puxou para perto, os olhos cintilando, febris.
- Algumas noivas são escolhidas, mas também existem aquelas que escolheram ser noivas. - Ela soltou meus braços e fechou os olhos.- Eles se perguntam por que alguém escolheria desistir da própria vida. Mas eles nunca entenderiam.
- Eles quem? Os moradores do vilarejo? - perguntei.
Ela assentiu.
- Algumas garotas escolhem ser noivas porque querem levar prosperidade para a família, já que o vilarejo paga bem. Outras escolhem ser noivas porque querem a glória de ser uma das poucas jovens bonitas tragicamente sacrificadas. Existem até aquelas que de fato acreditam que tudo isso é verdade e que não vão se afogar, pois serão salvas pelo Deus do Mar. - Hyeri abriu os olhos e ficou observando a janela e a noite. - E existem garotas como a minha irmã, que querem ser a noiva do Deus do Mar porque é doloroso demais ser elas mesmas.
Eu me aproximei dela, colocando suas mãos frias entre as minhas.- Toda essa maquiagem vai sair na água - disse Hyeri, segurando uma risada. - Até lá, vai parecer que estou derramando lágrimas pretas.
- Vou tirar. - Peguei um pano, que mergulhei em uma tigela de água e passei sob seus olhos.
- Você é gentil, Mina. Posso parecer confiante, mas estou morrendo de medo. Quero viver. Existe um jeito de morrer e continuar vivendo?
Naquela época, eu não tinha resposta para a sua pergunta. Era noite, e ela partiria para ser sacrificada logo
pela manhã. E, por um ano, não entendi por que ela escolheu ser noiva do Deus do Mar.
Até o momento em que eu estava na proa daquele barco, com a fúria fazendo uma tempestade na minha alma, prestes a saltar no mar.
- Você chora muito. - Dai me olha, colocando a mão em concha debaixo do meu queixo para apanhar as lágrimas que escorrem pelo meu rosto.
- É mesmo? - pergunto, dando risada. Sinto uma alegria radiante se espalhando pelo meu corpo ao ver Hyeri aqui agora, viva e bem. Aponto para a procissão se movendo devagar. - Conte-me mais. Conte-me qualquer coisa.
- Quer saber sobre a noiva de Shiki?
Assinto energicamente.
- Não sei muita coisa a respeito dela. - Ele faz uma pausa. - Shiki, por outro lado…
- O que tem ele? - Sorrio para encorajá-lo.- É um canalha sem coração!
- Veja como fala - Mascarada o repreende. - Shiki não é tão ruim, só é um pouco sério. E, mesmo se ele for um pouquinho ruim, ouvi boatos de que ele adora sua nova noiva. O casamento foi uma grande celebração.
Arregalo os olhos, fazendo movimentos exagerados entre ela e a caravana.
- Como foi?
- Não fui convidada! - diz Mascarada. - Somente as pessoas mais importantes da cidade foram convidadas: os lordes da Casa do Tigre e da Casa do Grou. Os Grandes Espíritos. Os deuses menores que têm templos com seu
nome. - Mascarada coça a bochecha de madeira. - Pensando bem, várias pessoas foram convidadas.
- Só a gente que não! - grita Dai.
- O Deus do Mar, claro, mas como ele não sai do palácio há cem anos, foi um convite desperdiçado! Ah, e acho que lorde Shin. Apesar de eu duvidar que ele tenha ido.
Considerando a situação.
- Eles tiveram uma grande desavença - me explica Dai. -
Sabe por quê? - pergunta ele para Mascarada.
- Pela mesma coisa de sempre.
- Comida? - sugere Dai.
Penso nos senhores da guerra, que estão sempre disputando terras no meu vilarejo.
- Poder?
Apesar da expressão de Mascarada permanecer amável, sinto uma certa hostilidade emanando dela.
- Quem criou vocês dois? Não lhes ensinaram nada?
Amor é o que os separou, e amor é o que vai juntá-los, se eles não forem teimosos demais para se perdoarem!
- Shin também estava apaixonado por Hyeri? - pergunta Dai.
Mascarada joga as mãos para o ar, claramente frustrada.
Ela dá meia-volta e caminha pela multidão que se dispersou ao redor da caravana de Hyeri, que está partindo. Nós nos apressamos atrás dela.
Por que Shin e Shiki brigaram, se não pelo amor de Hyeri? O que eles fizeram um para o outro que deve ser perdoado? Tendo conhecido Shin, não acho difícil acreditar que ele se envolveu em uma disputa com ninguém menos do que um deus. Aquele garoto de olhos escuros é tão
irritante - ele roubou minha voz! Ele pode não perceber - ou não se importar -, mas arranjou briga comigo também.
Chegamos ao outro lado da ponte.
- Aí está! - grita Dai. - A Casa de Lótus!
O enorme muro de pedra da casa ocupa um quarteirão inteiro. As copas das grandes árvores contornam o perímetro, escondendo o outro lado. A entrada é delimitada por um amplo portão vigiado por guardas vestidos de preto.
No momento, eles estão permitindo que as pessoas entrem uma por uma, conferindo os nomes em um pergaminho oficial.
Engulo em seco com força, sentindo a impossibilidade da minha tarefa. Devo não apenas arranjar um jeito de atravessar esses muros sem nem ter voz, mas também localizar uma ave e descobrir como fazê-la voltar à sua forma original.
Tive sorte de encontrar Mascarada, Dai e Miki, mas eles logo vão partir, e então estarei sozinha de novo - munida somente de meu punhal e das histórias da minha avó.
Mascarada coloca uma mão quente no meu ombro.
- Pensei que você fosse corajosa! Não precisa ter medo.
Você é uma noiva do Deus do Mar, não é? Você tem um propósito e não vai desistir até conseguir o que quer, ou pelo menos tentar o máximo que puder. Ou você já deu tudo de si tentando?
Balanço a cabeça em negativa.
- Que bom!
Ela me puxa para longe do portão, virando uma esquina.
Dai está esperando diante de uma entradinha lateral que dá
em uma rua muito menos movimentada. Ele tira a mochila e dá um beijo em Miki antes de entregá-la para Mascarada.
- Deixa comigo - ele diz.
Dai se aproxima da porta com confiança e dá pancadas sonoras no batente de madeira.
Eu o sigo depressa, chegando por trás assim que a porta se abre. Uma garota que parece ter a minha idade nos encara de boca aberta e carrancuda. Ela tem olhos sagazes e aguçados e seu cabelo está preso em um coque bagunçado. Cachos se agitam ao redor de um rosto familiar em forma de coração.