A Noiva do Deus do Mar

Axie Oh · Capítulo 2 de 38

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A Noiva do Deus do Mar

Capítulo 2

E NQUANTO AFUNDO, O RUGIDO DAS ONDAS se interrompe abruptamente e só resta o silêncio. Acima e ao meu redor, o longo e sinuoso corpo do dragão me acompanha, formando um grande redemoinho.

Juntos, mergulhamos no mar.

É estranho, mas a necessidade de respirar nunca surge.

A descida é quase… calma. Pacífica. Deve ser o efeito do dragão sobre mim. Ele deve estar usando sua magia para impedir que eu me afogue.

Minha garganta aperta e meu coração bate aliviado -

todas as noivas que vieram antes de mim sobreviveram.

Submergimos na escuridão. O mar acima de mim vira o céu, e nós -o dragão e eu - nos transformamos em estrelas cadentes.

O dragão me circunda mais de perto, fechando o cerco, mas consigo vislumbrar um olho ligeiramente aberto, revelando um poço cintilante de noite. O tempo fica mais lento. O mundo para. Estendo a mão. Gotículas de sangue

deixam minha ferida e se espalham feito pedras preciosas entre nós.

 

O dragão pisca uma vez. Uma fenda se abre abaixo de mim.

Eu mergulho na escuridão.

Minha avó sempre me contava histórias sobre o Reino dos Espíritos, um lugar entre o céu e a terra que abriga todos os tipos de seres extraordinários - deuses e espíritos e criaturas míticas. Ela dizia que fora sua própria avó quem lhe contara tudo isso. Afinal, nem todas as contadoras de histórias são avós, mas todas as avós são contadoras de histórias.

Nós duas costumávamos percorrer a curta trilha pelos campos de arroz até a praia, cada uma segurando um lado de uma esteira de bambu dobrada, que estendíamos na areia pedregosa. Então nos sentávamos lado a lado, dávamos o braço uma para a outra e mergulhávamos os dedos dos pés na água fria.

Lembro do mar no início da manhã. O sol aparecia no horizonte e formava um caminho dourado na água. O ar cobria nosso rosto de beijos salgados. Eu chegava mais perto da minha avó, aquecendo-me em seu calor constante.

Ela sempre começava com histórias que tinham início e fim, mas, à medida que os tons laranja e púrpura do início da manhã se transformavam no azul brilhante da tarde, ela começava a divagar, e sua voz se tornava uma melodia calma:

- O Reino dos Espíritos é um lugar mágico e vasto, mas sua maior maravilha é a cidade do Deus do Mar. Alguns dizem que ele é um homem muito velho. Outros, que ele é um homem na flor da idade, alto feito uma árvore, com uma barba negra como ardósia. Outros ainda acreditam que ele pode até ser um dragão, feito de vento e água. No entanto, não importa sua forma, os deuses e espíritos do reino o obedecem, pois ele é o deus dos deuses, soberano de todos eles.

Passei a minha vida toda cercada por deuses. Existem milhares deles: há o deus do poço no centro do nosso vilarejo, que canta através do coaxar dos sapos; a deusa da brisa que vem do oeste quando a lua nasce; o deus do córrego do nosso jardim, para quem Joon e eu deixávamos como oferendas bolos de lama e tortas de flor de lótus. O

mundo está repleto de pequenos deuses, pois cada parte da natureza tem um guardião para zelar por ela e protegê-la.

Um dia, um forte vento marítimo varreu a água. Minha avó levou a mão ao chapéu de palha para evitar que ele fosse carregado para o céu que escurecia. Mesmo que ainda fosse cedo, as nuvens se acumulavam no alto, pesadas de chuva.

- Vovó, o que faz o Deus do Mar ser mais poderoso do que os outros? - perguntei.

- Nosso mar é uma personificação dele - disse ela -, e ele é o mar. Ele é poderoso porque o mar é poderoso. E o mar é poderoso…

- Porque ele é poderoso - completei. Ela gostava de repetições.

Um lamento baixo de trovão retumbou no céu. Os seixos aos nossos pés escorregaram para a água e foram levados pela maré. Além do horizonte, uma tempestade se formou.

Nuvens de poeira e cristais de gelo ascenderam em um funil de escuridão. Suspirei conforme uma ansiedade tomou conta da minha alma.

- Está começando - falou minha avó. Levantamos-nos depressa e enrolamos a esteira de bambu, seguindo para as dunas que separavam a praia do vilarejo. Escorreguei na areia, mas ela segurou minha mão para que eu não caísse.

Quando chegamos ao topo, olhei para trás uma última vez.

O mar estava sombrio. As nuvens acima bloqueavam o sol. Parecia um outro mundo, tão diferente do mar daquela manhã que, apesar de eu estar sentada ali poucos momentos antes, de repente senti uma saudade terrível dele. Nas semanas seguintes, as tempestades só pioraram, tornando impossível nos aproximarmos da praia sem sermos

engolidas

pelas

ondas.

Elas

ficariam

incontrolavelmente furiosas até a manhã em que as nuvens se abririam, permitindo que um breve raio de sol aparecesse - um sinal de que a hora de sacrificar uma noiva havia chegado.

- Por que o Deus do Mar está tão bravo? - perguntei à minha avó, que tinha parado para olhar a água escura. - É

com a gente?

Ela se virou para mim, e vi emoção em seus olhos castanhos.

- O Deus do Mar não está bravo, Mina. Ele está perdido.

Está esperando no seu palácio longínquo por alguém corajoso o suficiente para encontrá-lo.

Eu me sento e respiro fundo. A última vez que dei por mim, estava mergulhando no mar. No entanto, não estou mais debaixo d’água. É como se eu tivesse acordado dentro de uma nuvem. Uma névoa branca cobre o mundo, tornando difícil enxergar além dos meus joelhos.

Fico de pé e estremeço quando meu vestido, seco e quebradiço de sal, raspa em minha pele. Das dobras da saia cai o punhal da minha tataravó, batendo contra as tábuas do piso de madeira. Enquanto estico a mão para pegá-lo, um vislumbre de cor chama minha atenção.

Em volta da mão esquerda, sobre a ferida que cortei para fazer meu voto ao Deus do Mar, há uma fita.

Uma fita brilhante de seda vermelha. Uma das pontas circunda minha mão, e a outra se estende névoa adentro.

A fita está flutuando no ar. Nunca vi nada assim, mas sei o que é.

O Fio Vermelho do Destino.

De acordo com as histórias da minha avó, o Fio Vermelho do Destino conecta a pessoa ao seu destino. Alguns acreditam que ele conecta a pessoa a quem seu coração mais deseja.

Joon, sempre romântico, acreditava nisso. Disse que soube, assim que viu Cheong pela primeira vez, que sua vida nunca mais seria a mesma. Que ele sentia, na forma como sua mão era atraída para a dela, a sutil ação do destino.

Só que o fio é invisível no mundo mortal. E a fita brilhante e vermelha diante de mim certamente não é invisível, o que significa…

Que não estou mais no mundo mortal.

Como se lesse meus pensamentos, a fita dá um puxão firme. Alguém - ou algo - está me puxando do outro lado, de dentro da névoa.

O medo tenta me dominar, mas o afasto com um balançar de cabeça teimoso. As outras noivas encararam isso, e eu também preciso, se quero ser uma substituta digna de Shim Cheong. O dragão me aceitou, mas até eu falar com o Deus do Mar, não saberei se meu vilarejo está a salvo.

Pelo menos estou mais preparada do que a maioria delas, armada com um punhal e as histórias da minha avó.

A fita tremula no ar, me chamando. Dou um passo para a frente, e ela pousa na palma da minha mão, espalhando uma centelha de estrelas. Enfio o punhal dentro da blusa e sigo a fita pela névoa branca.

À minha volta, o mundo está imóvel e silencioso. Deslizo meus pés descalços nas tábuas lisas do chão de madeira.

Estendo a mão, e meus dedos tocam algo sólido - um corrimão. Devo estar em uma ponte. O caminho se inclina um pouco e dá lugar a ruas de paralelepípedos.

O ar fica mais denso e quente, e exala aromas deliciosos.

Fora do nevoeiro, vejo uma fila de carrinhos de mão. O mais próximo está cheio de pasteizinhos dentro de vaporizadores de bambu. Outro contém peixes secos, amarrados pelas caudas. Um terceiro está repleto de doces - castanhas caramelizadas e bolos polvilhados com açúcar e canela.

Todos estão abandonados. Não há vendedores à vista.

Estreito os olhos, tentando distinguir as formas mais

escuras, mas as sombras acabam revelando apenas mais carrinhos, em uma fila que se estende névoa adentro.

Deixo os carrinhos para trás e entro em um longo beco cheio de restaurantes. A fumaça dos fogões escapa pelas portas abertas. A mais próxima revela uma sala com mesas lotadas de pratos que vão desde pequenas tigelas de especiarias a grandes travessas de aves e peixes assados.

Em volta das mesas, almofadas coloridas estão dispostas ao acaso, como se um festim tivesse acontecido minutos atrás e as pessoas houvessem sentado confortavelmente ali aproveitando o banquete. Na entrada, pares de sandálias e sapatilhas estão arrumados com cuidado, lado a lado. Os clientes entraram no restaurante e não saíram.

Afasto-me

da

porta,

pensando:

carrinhos

sem

vendedores, fogos acesos sem cozinheiros, sapatos sem pessoas.

Uma cidade-fantasma.

Sinto uma leve risada em minha nuca. Viro-me de supetão, mas não há ninguém ali. Ainda assim, tenho a sensação de que olhos estão cravados em mim, invisíveis e observadores.

Que lugar é esse? Ele não se parece em nada com as histórias que minha avó me contava sobre a cidade do Deus do Mar - um lugar onde os espíritos e deuses menores se reuniam em alegre celebração. A névoa cobre todo o reino feito um manto, turvando a vista e abafando os sons.

Atravesso pontes curtas e arqueadas e desço ruas abandonadas; tudo à minha volta é opaco e sem cor, exceto a fita, dolorosamente brilhante cortando a névoa.

Como será que as noivas do Deus do Mar se sentiram ao acordar nesse reino de névoa tendo apenas essa fita como guia? Antes de mim, existiram muitas outras.

Soah tinha os olhos mais belos, emoldurados por cílios tão escuros que pareciam cobertos por uma camada pesada de fuligem. Wol era tão alta quanto um homem, e seu lindo rosto ostentava traços fortes e uma boca risonha. Hyeri conseguia cruzar o Grande Rio, ida e volta, a nado, e quebrou uma centena de corações quando partiu para se casar com o Deus do Mar.

Soah. Wol. Hyeri. Mina.

Meu nome parece pequeno ao lado do nome dessas garotas, que sempre pareceram maiores do que a vida. Elas vieram de longe para se casar com o Deus do Mar, de vilarejos próximos à capital - e até da própria capital, no caso de Wol. Eram garotas que nunca teriam vindo ao nosso vilarejo pacato em qualquer outra vida senão essa, que as forçou a deixar o lugar de onde vieram. Essas garotas, essas jovens mulheres, eram todas mais velhas do que eu -

tinham dezoito anos quando se tornaram noivas. Elas caminharam por essa mesma trilha por onde caminho agora. Será que estavam nervosas, amedrontadas? Ou será que a esperança as enganou?

Depois do que parecem horas, viro uma esquina e me deparo com um grande bulevar. A névoa está menos densa aqui. Pela primeira vez, posso ver para onde a fita me leva: ela atravessa toda a via, sobe uma grande escadaria e desaparece pelas portas abertas de um enorme portão vermelho e dourado. Com seus pilares ornamentados e

telhado dourado, esta só pode ser a entrada do palácio do Deus do Mar.

Vou em frente. A fita começa a cintilar e a fazer barulho, como se soubesse que estou chegando à outra ponta.

Alcanço a escada e subo um degrau por vez. Estou prestes a passar pela soleira do portão quando ouço um som - o toque suave de um sino, tão leve que, se o mundo não estivesse envolto em silêncio, provavelmente eu não teria ouvido. O som vem de algum lugar à minha esquerda, lá embaixo, no labirinto de ruas.

Meu irmão mais velho, Sung, acha que todos os sinos de vento são iguais. Mas eu acho que ele só não tem paciência de escutar direito. O tilintar dos berloques de bronze batendo em conchas do mar é diferente do estanho batendo em sinos de cobre. O vento também tem graus variados de temperamento. Quando ele está bravo, os sinos fazem um som forte e estridente. Quando está alegre, eles tilintam em uma dança animada.

Este som, porém, é diferente. Baixo. Melancólico.

Dou um passo para trás e desço a escada. A fita não oferece resistência, se alongando atrás de mim.

Ouço a voz da minha avó nos meus ouvidos. Há regras no mundo dos espíritos, Mina. Escolha com cuidado quais você vai querer quebrar. Existe um motivo para esta cidade estar coberta pela névoa. Existe um motivo de eu só poder perambular seguindo uma fita do destino. Mas o som do sino veio de perto, e a verdade é que eu acho que já ouvi esse som antes.

Ele me leva até a porta de uma lojinha no bulevar. Afasto a cortina áspera e entro, fico sem ar diante da maravilha que vejo. A loja está repleta de centenas e centenas de sinos de vento; eles cobrem as paredes e pendem do teto feito lágrimas. Uns são redondos e pequeninos, feitos de conchas, bolotas e estrelas de estanho; outros são grandes cachoeiras de sinos dourados.

No entanto, assim como na névoa branca, não há vento na loja.

Mas eu podia jurar ter ouvido um som. Meus olhos são atraídos para a parede oposta, na qual um espaço no centro exibe um único sino de vento. Uma estrela, uma lua e um sino de cobre pendem de uma fina corda de bambu. É um sino de vento bem simples.

No mesmo instante, eu o reconheço.

Esculpi a estrela em um pedaço de madeira e a lua em uma linda concha branca que encontrei na praia. Comprei o sino de um sineiro viajante, após importuná-lo testando cada sino de seu carrinho, um depois do outro. Não sosseguei até encontrar o som perfeito.

Levei uma semana para fazer esse sino de vento. Queria colocá-lo sobre o berço da minha sobrinha, para que ela pudesse ouvir a brisa.

Mas ela nasceu cedo demais. Se tivesse nascido no outono, teria sobrevivido. Mas todo mundo sabe que as crianças que nascem durante as tempestades nunca sobrevivem à primeira respiração.

Sung ficou de coração partido.

Tomada por uma raiva que nunca tinha sentido antes - e nunca mais senti depois -, levei o amuleto até os penhascos que ficam além do vilarejo e o atirei da borda. Fiquei

olhando-o cair e bater nas rochas. Da última vez que o vi, ele estava aos pedaços, sendo arrastado para o mar.

À minha volta, todos os sinos da loja começam a tilintar -balançando no ar sem vento -, até que a loja vira um clamor de sons cacofônicos.

Sinos de vento tocando sem vento significa que há espíritos por perto.

Saio da loja, o som dos sinos abafado em meus ouvidos.

Se há espíritos aqui, invisíveis e atentos, o que eles veem quando olham para mim?

Caminho depressa. A noite se estende adiante, e a fita pesa na minha mão. Além do portão, há um pátio após o outro. Não olho para nenhum. Depois do quinto, já estou correndo.

Cruzo o último portão, subo a escada de pedra e entro da sala do trono do Deus do Mar, finalmente parando para recuperar o fôlego.

O luar se infiltra pelas frestas do teto de vigas, direcionando a luz oblíqua para um grande corredor. A penumbra criada pela névoa é mais moderada aqui, mas o silêncio sinistro ainda é o mesmo. Nenhum criado corre para me cumprimentar. Nenhum guarda bloqueia meu caminho.

O Fio Vermelho do Destino se agita e lentamente começa a mudar de um vermelho brilhante e vivo para um vermelho-sangue profundo. Ele me conduz para o fim do corredor, onde um enorme mural retratando um dragão perseguindo uma pérola no céu emoldura um trono em um palanque.

Caído sobre o trono, com o rosto escondido por uma coroa magnífica, está o Deus do Mar. Ele usa lindas vestes azuis, com dragões prateados bordados no tecido. Em torno

de sua mão esquerda está a outra extremidade da minha fita.

Espero um sinal de reconhecimento na minha alma.

Segundo o mito, o Fio Vermelho do Destino conecta a pessoa ao seu destino. Alguns acreditam que ele conecta a pessoa a quem seu coração mais deseja.

Será que o Deus do Mar está conectado ao meu destino?

Será que meu coração o deseja?

Sinto uma dor aguda no peito, mas não é amor.

É algo mais sombrio, mais quente e infinitamente mais forte.

Eu o odeio.

Dou um passo à frente. E então mais um. Levo ao peito a mão que segura a fita e saco o punhal.

Como seria o mundo sem o Deus do Mar? Será que ainda enfrentaríamos as tempestades que surgem do nada para destruir nossos barcos e alagar nossos campos? Será que ainda perderíamos nossos entes queridos para a fome e as doenças porque os deuses menores não podem ou não querem ouvir nossas orações, temendo a ira do Deus do Mar?

- O que aconteceria se eu te matasse agora?

Enquanto as palavras ecoam pelo vasto salão, percebo que são as primeiras que pronuncio desde que cheguei ao reino do Deus do Mar.

E são palavras de ódio. Minha fúria cresce como uma onda incontrolável.

- Eu poderia te matar agora e cortar os laços do nosso destino.

Minhas palavras são imprudentes. Quem sou eu para desafiar um deus? O problema é que sinto uma dor terrível dentro de mim, e preciso saber…

- Por que nos amaldiçoou? Por que vira as costas quando choramos e gritamos pedindo ajuda? Por que nos abandonou? - Engasgo nas últimas palavras.

A figura no trono não responde. A coroa magnífica se inclina para a frente, cobrindo seus olhos.

Dou os últimos passos até o palanque. Estico o braço e retiro a coroa da cabeça do Deus do Mar. Ela escorrega dos meus dedos e cai com um baque contra o carpete de seda.

Levanto o rosto para olhar o deus de todos os deuses.

O Deus do Mar é…

Um garoto. Não muito mais velho do que eu.

Sua pele é macia, imaculada. Seu cabelo cai sobre a testa e se enrola em volta de suas orelhas delgadas - uma delas perfurada por um espinho dourado. Seus longos cílios escuros, que se projetam em direção às bochechas, estão úmidos. Observo sua boca se abrir, deixando escapar um suspiro suave.

Ele está… dormindo.

Aperto o cabo do meu punhal. Não sei o que esperava, mas certamente não era isso, um garoto que parece tão…

humano, que podia ser meu vizinho ou meu amigo. Observo enquanto uma lágrima escorre por seu rosto, se demorando em seus lábios antes de seguir para o queixo e deslizar por seu pescoço.

- Por que está chorando? - vocifero. - Acha que suas lágrimas vão me fazer mudar de ideia?

Sinto que estou mudando de ideia. Não sou como Joon, que tem um coração bom. Posso ser teimosa e cruel. Posso ser amarga e rancorosa. Quero ser tudo isso agora, porque essas características me fazem corajosa. Elas me deixam com raiva. E eu não mereço estar com raiva, depois de tudo o que ele fez com meu vilarejo e com minha família?

Mas a expressão do Deus do Mar me lembra a de Shim Cheong no barco. Há uma imensa solidão ali, e uma tristeza profunda e insuportável.

Um pensamento traiçoeiro me ocorre, e me pergunto…

É você que faz o mundo chorar, ou é o mundo que faz você chorar?

Minhas pernas cedem e eu desabo no chão.

Aconteceu tanta coisa em uma noite só - descobri que Joon estava desaparecido, saí correndo em busca dele na chuva e mergulhei no mar. A essa altura, ele deve ter voltado ao vilarejo com Cheong, para contar à nossa família o que eu fiz. Minha cunhada deve ter caído em prantos, e meu coração dói de saber que lhe causei mais sofrimento.

Meu irmão mais velho vai querer vasculhar o mar à minha procura, sem conseguir aceitar que não pode mais me proteger. Quanto à minha avó, ela acreditará que adentrei o Reino dos Espíritos e que estou prestes a encontrar o Deus do Mar neste exato momento.

- E o que a noiva do Deus do Mar faz quando o encontra?

Eu estava com minha avó no pequeno templo da praia.

Era a primeira noite das tempestades, e a chuva tamborilava nas telhas de barro do telhado.

- Ela lhe mostra seu coração.

Franzi o cenho.

- E como é que ela faz isso?

- Se você fosse mostrar seu coração ao Deus do Mar, como seria?

Meus olhos pousaram na estranha variedade de itens deixados no altar como oferendas pelas crianças do vilarejo: uma concha, uma flor botão-de-ouro, uma pedra de formato curioso.

Estendendo a mão, peguei a pena da cauda de uma pega.

- Noivas normalmente não viajam com presentes para o Deus do Mar - me repreendeu minha avó. - Use sua voz.

- Mas não tenho nada a dizer! “Acabe com as tempestades. Proteja minha família. Cuide de nós.” Ele não fez nada disso. - Lágrimas brotaram nos cantos dos meus olhos.

Minha avó deu um tapinha na esteira de palha e eu fiquei de joelhos ao lado dela. Ela pegou minhas mãos gentilmente entre as suas.

- Você me lembra a mim mesma quando tinha a sua idade. Depois de tantas perdas, o sofrimento e a decepção se enraizaram fundo no meu coração. Então minha avó me trouxe a este mesmo santuário. Ela era parecida com você, de uma força sem igual, e devotada às pessoas que amava.

Não era a primeira vez que minha avó fazia essa comparação, e eu instintivamente procurei meu punhal, me confortando com seu peso no meu peito.

- Foi ela quem me ensinou a música que vou te mostrar agora.

Coloco-me de pé no salão do Deus do Mar. E canto para o Deus do Mar a música que minha avó cantou para mim:

No fundo do mar, o dragão dorme Com o que ele sonha?

No fundo do mar, o dragão dorme

Quando ele vai acordar?

Na pérola de um dragão,

seu desejo vai mergulhar.

Na pérola de um dragão,

seu desejo vai mergulhar.

O eco da minha voz preenche o salão. Lágrimas correm por minha face, e eu as enxugo com o dorso da mão.

Os mitos do meu povo dizem que somente a verdadeira noiva do Deus do Mar pode dar um fim à sua fúria insaciável. Eu posso não ser a noiva escolhida, mas seria demais esperar que uma garota como eu - que não tem nada a oferecer além de si mesma - fosse sua verdadeira noiva?

Na minha visão periférica, noto um movimento sutil. Os dedos do Deus do Mar tremem de leve.

Estendo a mão até a dele. O Fio Vermelho do Destino, como se sentisse a imensidão do momento, se estica.

Pergunto a mim mesma, sentindo uma esperança tão singela quanto o bater das asas de um pássaro, se minha vida está prestes a mudar.

Uma voz de aço corta o silêncio:

- Basta.