A Noiva do Deus do Mar

Axie Oh · Capítulo 14 de 38

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A Noiva do Deus do Mar

Capítulo 14

O SALÃO DO DEUS DO MAR ESTÁ VAZIO. O trono onde ele dormia ontem à noite está desocupado. Não sei por que não estou surpresa, apesar de querer que ele simplesmente estivesse lá para obrigá-lo a acordar e quebrar a maldição.

O sol do meio-dia atingiu seu ápice no céu, enviando seu calor para o meu pescoço. Tenho um pressentimento profundo de que ele não está aqui - nem no salão, nem em qualquer um dos vários pátios.

O Fio Vermelho do Destino se agita em minha mão. Olho para baixo e percebo que ele mudou de direção. Enquanto eu atravessava a cidade e Shin estava parado no lugar, ele apontava para a esquerda, mas agora segue em linha reta e… está ondulando. A cor da fita vai de rosa-claro para vermelho-escuro como uma onda vindo em minha direção.

Shin está se aproximando.

Namgi deve ter lhe avisado da minha fuga. Ou ele percebeu a minha movimentação. Ele logo estará aqui para

me levar de volta à Casa de Lótus, onde não vou ter como descobrir a verdade sobre o Deus do Mar.

Vasculho o salão. Deve haver alguma indicação sobre o paradeiro de um deus errante. Mas não há portas nas paredes, e, quando vou até as janelas, meus dedos mal tocam as venezianas fechadas. Há apenas o palanque e o trono, e, atrás deles, o grande mural mostrando um dragão perseguindo uma pérola no céu.

O dragão do mural não é realista, com talvez um quarto do tamanho verdadeiro. No entanto, a imagem é fascinante.

Cada escama foi pintada em um tom diferente do mar, indo de índigo profundo a verde-jade e verde-água. Eu me aproximo, estendo a mão e a pressiono contra uma de suas escamas lisas e brilhantes.

A parede cede com meu toque, revelando uma porta escondida.

Entro em um jardim.

O canto dos pássaros vibra através das árvores iluminadas pelo sol. Um riacho próximo gorgoleja alegremente. Procuro sinais do Deus do Mar, mas o lugar parece abandonado.

Sigo um caminho gasto coberto de ervas daninhas e grama, passando por paredes de pedra em ruínas e estátuas cobertas de musgo.

Raios de sol cintilam por entre as árvores. A certa altura, avisto ao longe um campo com uma ampla faixa de grama amassada, como se uma grande criatura tivesse acabado de tirar um cochilo.

Percorro uma boa distância até chegar a um pavilhão construído ao lado de um lago. Seu formato lembra o

templo da deusa-raposa, com um telhado em forma de asa e quatro pilares em cada canto. Os degraus de madeira rangem quando subo; lá dentro, as tábuas do assoalho estão ásperas de areia e sujeira. Coloco a mão em um pilar aquecido pelo sol, e olho para trás, para o caminho por onde vim. O Fio Vermelho do Destino agora está rosa-claro.

Eu me pergunto se Shin chegou ao palácio e encontrou as portas trancadas.

Fecho os olhos. Tudo está silencioso. Tranquilo. O silêncio no salão do Deus do Mar era vazio, mas aqui o silêncio é expectante, como alguém prendendo a respiração.

E, em meio à quietude, ouço o som de um sino.

Sinto o sangue se esvair do meu corpo e me viro na direção do som. Atrás do pavilhão, há um lago cheio de pequenos objetos brancos. Levo um tempo para perceber o que são.

Barquinhos de papel. Centenas deles, subindo uns sobre os outros na água.

Saio da plataforma e caminho pela margem. Meus dedos afundam na lama quente e macia. Há um barquinho preso nos juncos. Eu me inclino e o pego. O papel é áspero contra a ponta dos meus dedos, e seu fundo está encharcado, pingando.

Desfaço a dobradura devagar. Meus dedos tocam a primeira letra rabiscada em tinta preta no papel. A escuridão emerge, me consumindo.

Quando abro os olhos, o mundo está coberto de branco. No começo, penso que é neve. O resíduo fino reveste as folhas das árvores e até a casca de seus galhos. Mas não está frio.

E há fumaça no ar, embotando o brilho do sol.

Era meio-dia quando entrei no jardim, mas agora parece ser quase noite. Será que desmaiei no lago?

Um floco branco vem descendo, e levanto a mão para pegá-lo. De perto, posso ver que ele não é branco, mas cinza com manchas pretas.

Cinzas.

Há cinzas por toda parte, caindo do céu.

Ouço uma tosse abafada atrás de mim. Eu me viro e vejo uma jovem ajoelhada em um riacho, embora ele não se pareça com nenhum riacho que eu tenha visto no jardim, com suas águas lamacentas e salobras.

- Por favor, eu imploro - diz ela. - Salve minha filha. -

Suas mãos trêmulas vão até a protuberância sob seu vestido áspero. Lágrimas escorrem por seu rosto. Mesmo a distância, posso ver que ele está assustadoramente pálido.

Uma pequena fogueira crepita ao lado dela. Observo-a pegando um graveto da pilha, apagando a chama da ponta.

Ela então tira um rolo de papel de dentro de seu casaco curto e o abre no colo. Com o graveto queimado, escreve palavras vacilantes na superfície manchada. Ao terminar, dobra as laterais do papel, fazendo cada dobra com cuidado até que ele tome a forma de um barco. Ela o leva aos lábios ressecados, pousa um beijo suave e o coloca sobre a água.

O barco de papel acumula uma camada de cinzas conforme vai descendo rio abaixo, desaparecendo em uma

curva. A garota solta outra tosse de partir o coração e se levanta com movimentos hesitantes e debilitados.

Vou até ela depressa, esticando as mãos para estabilizá-la.- Espere! Deixe-me ajudá-la.

Ela passa por mim como se eu fosse feita de ar. Eu me viro. Enquanto ela se afasta, seu corpo vai desaparecendo devagar.

É como se a memória em que ela e eu existimos pudesse conter apenas este momento em que ela se ajoelha ao lado da água. Pois é ali que eu devo estar: dentro de sua memória. Este é o instante em que ela despejou toda a sua alma e todas as suas esperanças em um barquinho de papel contendo um desejo para os deuses.

O ar fica denso de cinzas. Elas caem do céu e me sufocam. Não consigo respirar. Estou me afogando em cinzas. Elas me soterram, me oprimem, até que fico cega, com frio e dolorida.

- Mina! - Uma voz me chama da escuridão.

Em minha mente, vejo todos eles. Vejo minha avó fazendo seus rituais ancestrais para homenagear seu filho e sua nora, e depois seu marido. Vejo minha cunhada chorando ao lado do túmulo da filha. E, por fim, vejo essa garota, uma estranha para mim, mas tão familiar quanto as outras, pois em sua dor reconheço a minha.

Por que tudo o que amamos é arrancado de nós? Por que não podemos ter o que amamos na palma da mão -

seguros, quentinhos e inteiros?

- Mina! - A voz insiste. - Isso não é real. Você precisa acordar.

Sinto uma pressão na têmpora, um calor ardente e então… vejo uma luz.

Abro os olhos, engasgando com o ar fresco com cheiro de lótus. Olho para cima e me deparo não com nuvens cinzentas e escuras, mas com Shin. Sua testa está coberta de suor, como se ele tivesse corrido uma grande distância.

- Respire, Mina. Está tudo bem.

Estamos no jardim. As cores alegres das árvores e do céu quase me cegam depois do branco e do cinza da lembrança.

- Que lugar é este?

- O jardim do Deus do Mar. O lago é chamado de Lago dos Barquinhos de Papel.

- Todos aqueles barquinhos… são desejos que nunca foram atendidos - sussurro.

Shin assente devagar.

- Por quê? Por que eles foram abandonados?

- São só desejos, Mina.

Eu me sento.

- Só desejos? São os desejos mais valiosos dos humanos!

Shin hesita, então diz com frieza:

- Não ligo para os desejos dos humanos.

Eu o encaro com um aperto no peito. Seus olhos estão vazios, como se não tivessem luz alguma. Sou a primeira a desviar o olhar.

- Você saiu mesmo eu a tendo proibido - diz ele. - Não ouviu o que a deusa-raposa disse? Minha vida está conectada à sua. Se você morrer, eu também corro o risco de morrer. Você pode até não se importar com a minha vida, mas devia pelo menos se importar com a sua. Muitas coisas neste reino poderiam matar uma humana frágil feito você.

- Pode ser, mas também existem muitas coisas no meu reino que poderiam me matar. A seca e a fome, por exemplo. - Meus olhos vão até o barquinho de papel que eu deixei cair no chão. - Um coração partido.

- Não há nada que você possa fazer.

Shin está certo. Como ele disse, não passo de uma frágil humana. Como é que eu poderia ajudar aquela garota?

Mesmo se eu conseguisse encontrá-la, não tenho nada a lhe oferecer além das minhas próprias lágrimas, e ela já tem lágrimas suficientes para durar cem vidas. Suas esperanças estavam no fim; e tudo o que ela tinha era essa tentativa…

Um último pedido para os deuses.

Coloco-me de pé.

- Eu posso fazer uma coisa. Nós podemos. Se você me ajudar. -Pego o barquinho de papel do chão depressa e me viro para Shin. -Posso ir com você de boa vontade e prometo não sair da Casa de Lótus durante o mês todo, não sem a sua permissão, mas primeiro vamos realizar o desejo dela.

- Mina… - Shin me olha, cético.

- Este barquinho tinha os deuses como destinatários, mas eles nunca o receberam. A gente só precisa entregá-lo para quem devia tê-lo recebido.

Shin assente devagar, parecendo ter se decidido.

- Que tipo de desejo era? O que estava escrito no papel?

- Ele baixa os olhos para a dobradura meio aberta. A tinta está borrada pela água, tornando a escrita ilegível. Praguejo de frustração.

- Não importa - diz Shin com uma voz calma e surpreendentemente reconfortante. - Quando você pegou o

barquinho, deve ter visitado o momento em que o desejo foi feito. Pode descrever o que viu?