A Noiva do Deus do Mar
Capítulo 20
O DEUS DA MORTE É UM JOVEM COM FEIÇÕES BONITAS - tem nariz comprido e lábios grossos. Sua pele é tão branca quanto a lua, bem diferente da vibrante e divertida Hyeri, que, antes de ser sacrificada ao Deus do Mar, era famosa em todos os vilarejos do litoral por ter o sol sob a pele. Há algo de melancólico nele, nas olheiras que sugerem privação de sono, em sua expressão séria. De repente fico feliz por este Deus da Morte ter Hyeri, que costumava ser tão cheia de vida.
Ele para a alguns passos de distância.
- Meus guardas relataram ter visto você nos limites das minhas terras - diz ele com uma voz profunda e sem inflexão. - O que você estava procurando em meio à névoa?
- Ladrões invadiram minha casa - responde Shin. - Eu os segui, mas os perdi de vista nas montanhas.
- O que descobriu?
- Que o Grou e o Tigre se juntaram contra mim. Para me matar e destronar o Deus do Mar.
- Ah - diz o Deus da Morte. - Lorde Yu e lorde Bom são ambiciosos. Quanto mais espíritos chegam a este reino, mais fortes ficam suas casas. Mas a morte nunca deve ser encorajada.
Devo ter emitido algum som ao ouvir isso, porque ele se vira para mim.
- Mas você é o Deus da Morte - digo. - Seu poder não aumenta a cada morte que entra neste mundo?
- Sou um Deus da Morte, mas meu propósito está no equilíbrio entre a morte e a vida. Quando a balança pende para um dos lados, o desequilíbrio quebra a unidade dos dois mundos, o reino dos humanos e o reino dos espíritos. -
Ele se aproxima do parapeito da ponte e olha para as águas se agitando abaixo. Seu rosto revela o primeiro sinal de emoção. - O rio está subindo. Ele vai acabar transbordando, trazendo consigo espíritos que não desejam ficar neste mundo. Com tantos espíritos perdidos caminhando pela cidade do Deus do Mar, o Reino do Espíritos se tornará um lugar realmente triste.
Shin franze as sobrancelhas.
- Não há como impedir que o rio transborde?
- A nascente dele fica no reino mortal, onde a vida termina e a morte começa. Como não temos controle sobre o que provoca a morte, ou seja, sobre as batalhas, a fome e as doenças, não podemos fazer muito.
- Mas e o Deus do Mar? - pergunto. - As tempestades já trouxeram tanta destruição… Os senhores da guerra estão disputando o pouco que restou, semeando o caos e deixando em seu rastro apenas ruínas. - Afasto-me de Shin para observá-los, sentindo respingos de água na nuca. - A
maldição do Deus do Mar não é mais só um problema do mundo dos humanos, mas também dos espíritos e dos deuses. Precisamos consertar as coisas antes que seja tarde demais. Antes que os dois reinos sejam destroçados.
- Já vi esse olhar antes - diz Shiki. - No rosto de uma pessoa amada. Todas as noivas do Deus do Mar trazem isso consigo? É uma mistura potente: esperança, determinação e fúria.
Hyeri. Ele está falando de Hyeri.
Seu olhar se volta para Shin. Até agora, nenhum dos dois mencionou o incidente que maculou sua aliança e amizade.
Instintivamente, dou um passo em direção a Shin, como se pudesse defendê-lo de quaisquer palavras cruéis.
- Temo ter sido injusto com você - começa Shiki, para nossa surpresa. - Você protegeu esta cidade quando ninguém mais podia. Enquanto os outros queriam abandonar, derrubar e até matar o Deus do Mar, você protegeu a ele e a suas noivas, mantendo a paz e a ordem deste reino. Sinto muito por várias coisas, mas principalmente por ter feito o fardo que você carrega ficar mais pesado.
Fico encarando Shiki, perplexa com seu extraordinário pedido de desculpas.
- E acho que - diz Shiki baixinho - talvez agora você me entenda um pouquinho mais.
Olho para os dois, me perguntando o que ele quis dizer com essas palavras.
- Vou me retirar agora - anuncia Shiki. Ao se virar para ir embora, ele diz para mim: - Você será bem-vinda em minha casa…
- Mina - digo.
- Lady Mina. Sei que minha Hyeri vai ficar feliz em ver você.
- Eu também ficarei feliz em vê-la. Será uma honra.
Ele faz uma reverência e desaparece na névoa.
Shin e eu saímos da ponte. Nós nos juntamos a Kirin e Namgi e seguimos para a cidade.
Está completamente escuro agora, e as ruas estão iluminadas por vários lampiões, apesar de o vento enfraquecer a chama das velas. Quanto mais nos afastamos do rio, mais quente fica, até que não preciso mais do manto de Shin. Eu o tiro e olho para ele, que caminha à frente com Kirin. Shin parece estar falando sozinho, enquanto Kirin mantém a cabeça baixa. É evidente que Kirin está sendo repreendido pelo que aconteceu na Casa do Grou.
- Não se preocupe tanto, Mina - diz Namgi, seguindo meu olhar e adivinhando meus pensamentos. - Kirin se sentiria pior se Shin não dissesse nada. Desse jeito, ele sabe exatamente onde errou e vai poder fazer melhor da próxima vez. No mínimo, Shin vai confiar nele ainda mais, já que, para compensar, Kirin ficará mais atento e responsável do que já é - acrescenta Namgi com uma voz arrastada. - Ou seja, ele vai ficar insuportável.
As ruas estão desertas, provavelmente devido ao repentino calor sufocante. As noites aqui costumam ser mais frescas.
- Mas me sinto mal por Kirin - continua Namgi. - Ele nunca se mete em problemas. Não é como eu.
- Você tem um bom coração, Namgi.
- Kirin também. - Devo parecer desconfiada, porque ele se apressa em explicar: - Ele cria laços aos poucos, mas, quando acontece, é o amigo mais leal, feroz e protetor para aqueles com quem se importa. Ele faria qualquer coisa por Shin.