A Noiva do Deus do Mar
Capítulo 34
- Quem é você?
- Sou o Deus do Mar.
Na pérola de um dragão, seu desejo vai mergulhar.
- Faça um desejo.
- Quero viver.
34
E STOU DE VOLTA AO BECO. O barquinho vira pó e se dissipa no ar em espirais.
- Está feito - diz a deusa. - A essa altura, o Deus do Mar e o imperador terão recuperado suas memórias e se lembrado de quem foram, quem são e quem são as pessoas afetadas pelo poder do desejo.
Ainda sinto a lembrança em minha pele - o ar salgado, o dragão varrendo o céu, o Deus do Mar. Shin. Eles são a mesma pessoa. Para salvar a vida do imperador, Shin lhe deu sua alma, o dragão. Agora entendo por que consegui compartilhar um Fio Vermelho do Destino tanto com o imperador quanto com Shin, já que, durante cem anos, a alma deles foi a mesma.
- Como você sabia? - pergunta a deusa. - A memória só confirmou o que você já suspeitava.
Como eu sabia? Penso em todas as peças que fui juntando até agora - Shin, que perdeu a alma e a memória; o Deus do Mar, que não parecia um deus, mas um menino
preso em um pesadelo terrível. Mas, principalmente, eu sabia…
- Eu sou a noiva do Deus do Mar, e amo Shin.
Depois de uma pausa, a deusa suspira.
- Bem, sei admitir uma derrota. Mas, independentemente de quem carrega a alma do dragão, ele pode ser vencido.
Volte depressa para o seu Deus do Mar, noivinha. Diga a ele para esperar uma visita da Deusa da Lua e da Memória em breve.
Fico observando a deusa. Seu rosto está corado e seus olhos brilham vitoriosos. No entanto, quando pedi para ver a memória, ela já a tinha em mãos, e só estava esperando que eu pedisse. No fundo de seu coração, ela queria que eu visse a memória. Ela queria que eu descobrisse a verdade.
- Se você deseja poder, há um jeito melhor de consegui-lo do que enfrentando o Deus do Mar - digo.
Ela levanta uma sobrancelha em uma expressão de incredulidade.
- E que jeito seria esse?
- Não há deusa mais amada do que aquela que protege as crianças.- Penso na jovem mãe que fez o desejo nas margens do córrego, e nas muitas que vieram antes e depois dela que também depositaram suas esperanças em uma deusa indiferente. - Mas conheci a Deusa das Mulheres e das Crianças… e nunca vi deusa mais inadequada para um papel tão honrado.- Está dizendo que eu deveria me tornar a Deusa das Mulheres e das Crianças?
- Isso certamente lhe daria o poder que procura. Porque, se for verdade que os deuses ganham poder através do
amor de seu povo, você seria a deusa mais poderosa de todas, pois o amor oferecido e recebido pelas crianças é o mais poderoso do mundo.
A deusa fica me olhando com uma expressão cautelosa.
- Mas por que você acha que eu seria adequada para esse papel?
Penso em minha avó. Depois que meus pais e meu avô partiram para a próxima vida, ela nos criou sozinha. Penso em Mascarada, minha feroz tataravó, que me guiou e me protegeu durante meu tempo no reino do Deus do Mar.
Penso na deusa parada diante de mim, que protegeu Dai dos Imugis, que chorou por minha cunhada e sua filha, e que enviou a lua para me conduzir à casa na floresta.
- Porque, assim como as mulheres da minha família, você tem a sabedoria de um grou, o coração de um tigre e a bondade e o amor que somente uma deusa que valoriza as crianças pode ter. É um fardo pesado ser uma deusa assim tão amada, mas acredito que você, mais do que qualquer outro, pode suportá-lo.
A deusa levanta as sobrancelhas. É um movimento sutil, mas perceptível.
- Sua crença é forte. Você torna difícil negar suas palavras.- Então vou facilitar para você - digo. Viro de costas e grito por sobre o ombro: - Só falta você acreditar também!
A cidade está silenciosa, e o clima me lembra o de quando cheguei ao Reino dos Espíritos, só que sem a névoa. A
magia paira pesadamente no ar. É como se a cidade e todos os seus moradores extraordinários estivessem segurando a respiração. Esfrego meus olhos com os braços, enxugando as lágrimas que se acumularam ali. Elas surgiram quando deixei a deusa e não pararam de cair desde então. Mas agora preciso parar de chorar. Preciso ser forte. Mais forte do que nunca.
Não sigo nenhum Fio Vermelho do Destino. O caminho que escolho é o que já conheço.
Conheço esta cidade, conheço suas ruas, seus jardins, canais, becos e moradores. O bulevar principal que dá no palácio do Deus do Mar está vazio. Os portões estão escancarados. Pela última vez, subo os degraus e atravesso as portas.
Deparo-me com Namgi e Kirin no primeiro pátio.
- Mina! - Namgi se aproxima correndo e me abraça forte.
Abraço-o de volta com a mesma intensidade.
- Vocês estão aqui! - grito. - Tive tanto medo de não vê-los antes…
- Mina, aconteceu uma coisa maravilhosa! - diz Namgi.
Ele se afasta, e dou uma boa olhada em seu rosto. Vejo alegria e admiração. - Sabemos de tudo… sobre o imperador, sobre o Deus do Mar. Shin é o Deus do Mar! Dá pra acreditar?
- Onde ele está? - pergunto.
- No salão. Acabamos de chegar.
Kirin vem por trás de Namgi, e seus olhos sempre espertos me observam com atenção.
- O que estava dizendo, Mina? Que não nos veria antes…?
Solto Namgi e dou um passo para trás.
- Podemos ter recuperado nossas memórias, mas os efeitos do desejo do imperador ainda estão nos afetando.
Durante cem anos, meu povo sofreu com as tempestades, isso é fato. E, por causa da ausência do imperador, nosso país esteve envolvido em constantes guerras. Para ter paz duradoura, precisamos que o imperador e o Deus do Mar voltem para nós, e só há uma maneira de isso acontecer.
Kirin compreende logo.
- Você precisa fazer um desejo.
- Mas… - Namgi olha para nós. - Um desejo como esse é tão poderoso quanto o do imperador. Qualquer coisa pode acontecer. Se você desejar que o Deus do Mar e o imperador voltem para onde pertencem, é possível que não só Shim Cheong, mas você também seja mandada de volta, já que nenhuma de vocês se transformou em espírito ainda.
- É o único jeito - falo baixinho. - Namgi, uma vez você me perguntou se eu era uma ave ou uma noiva. Acho que sou as duas coisas, e mais. Se bem que, para você, gostaria de acreditar que sou uma amiga.
- A melhor - diz Namgi, segurando as lágrimas.
- E Kirin… - Viro-me para o guerreiro de olhos prateados, tão firme e íntegro. - Não confio em ninguém tanto quanto em você no que diz respeito à segurança e ao bem-estar de Shin. Você é o mais leal dos companheiros.
- Você me honra - diz Kirin em voz baixa.
Antes que eu me desmanche em lágrimas, viro as costas para eles e saio correndo pela escada. No pátio diante do salão do Deus do Mar, me deparo com o dragão. Ele ocupa
todo o espaço, e seu corpo inquieto bate contra as paredes.
Ao me ver, ele fica imóvel.
Dou um passo à frente, fixando meu olhar na grande fera. Seus olhos escuros feito o mar são familiares, e sou tomada por uma sensação de segurança e conforto. Coloco-me entre suas patas e passo por baixo de sua enorme mandíbula. O calor do seu hálito aquece o topo da minha cabeça.
Então me viro e estico a mão. O dragão levanta uma pata e coloca a pérola gentilmente na minha palma. Ela tem o tamanho de uma pedrinha. Fecho os dedos em torno dela, e subo os degraus para o salão do Deus do Mar.
- Shin!
Ele está no chão, no meio do salão. Corro até ele e caio de joelhos a seu lado.
- Sei a verdade agora - diz ele. - Sei quem eu sou, o que eu fiz. Sou o Deus do Mar. Eu sou aquele que só toma dos outros e nunca retribui nada. - Sua voz está cheia de uma agonia amarga.
Meu coração dói por ele. Por cem anos, seu povo sofreu, o povo que ele jurou proteger. Para Shin - tão corajoso, fiel e devotado -, esta deve parecer a maior traição de sua alma.
- Não - digo com firmeza. - Você é aquele que salvou o imperador. Você lhe ofereceu sua alma quando ele estava morrendo, a alma de um deus. Você sabia que somente esse poder seria capaz de salvá-lo.
- Agora eu me lembro - sussurra Shin, virando-se para mim. - Em um penhasco à beira-mar, o imperador desejou viver. - Ele me olha com uma expressão de tanta vulnerabilidade e encantamento que percebo que, assim
como eu tenho fé nele, ele também tem fé em mim. - O que vai acontecer agora, Mina?
Abro a mão devagar, revelando a pérola.
- Vou fazer um desejo, e devolver você e o imperador ao lugar aos quais pertencem.
- E você? - pergunta ele baixinho. - Na história do lenhador e da donzela celestial, ela foi enviada de volta para o lugar em que queria estar, com sua família. É isso o que você quer?
Meu coração está se partindo… porque suas palavras acendem um desejo dentro de mim. Quero ver minha família, minha avó e meus irmãos, quero saber se eles estão bem e me despedir adequadamente. Quero trabalhar ao lado dos moradores semeando uma nova vida nos campos, construindo lares que vão durar. Quero ver as árvores crescendo. Quero ver minha cunhada dar à luz uma criança saudável. Mas, por mais que eu queira todas essas coisas, quero Shin ainda mais.
Eu o amo.
- Um ano - digo. - Me procure daqui a um ano e então me faça a mesma pergunta.
Shin olha para mim, e vejo em seu olhar todas as palavras que ele não consegue me dizer - que me ama, que quer que eu fique, mas que acabou de recuperar sua alma e precisa descobrir por conta própria quem ele é no papel de Deus do Mar.
- Espere por mim onde a terra encontra o mar - diz ele.