A Noiva do Deus do Mar
Capítulo 36
D E MANHÃ, AS CRIANÇAS VÃO CORRENDO ATÉ O RIACHO do vilarejo para depositar seus barquinhos de papel na água.
Então se segue um dia inteiro de jogos, música, comida e risada. Cheong e eu paramos para assistir a uma talentosa artista cantar a história da “Noiva do Deus do Mar” para uma plateia extasiada, acompanhada por um tocador de tambor habilidoso. Fico surpresa ao descobrir que a história que ela narra tem muitas similaridades com a que eu contei para o Deus do Mar no salão, o que me faz questionar quanto de nossas narrativas está enraizado na terra e no povo, em uma consciência na qual todos nós acreditamos -
e que compartilhamos.
Passeamos pelas barracas. Cheong compra um espeto de mel para Mirae e castanhas torradas para dividir comigo.
Depois de algum tempo, porém, começo a notar algo peculiar. Pela primeira vez, as pessoas com as quais cruzamos nas ruas, e até os elegantes e indiferentes
nobres, parecem ignorar Shim Cheong completamente. Em vez disso, todos olham - sem disfarçar - para mim.
Cheong para uma das crianças. Eu reconheço de imediato que se trata de Mari, a prima mais nova de Nari.
- O que está acontecendo? - pergunta ela. - Por que está todo mundo olhando para Mina? Fale logo!
Mari dá uma risadinha conspiratória, parecendo tanto com sua prima que meu coração dá um solavanco.
- Estão dizendo que o imperador pediu a mão de Mina em casamento ontem, quando foi até a casa dela. É
verdade?
- Mesmo se fosse verdade, não é respeitável ficar espalhando boatos. Aqui, compre algo pra você. - Cheong lhe dá uma moeda.
- Não é boato se for verdade - diz Mari descaradamente, enfiando a moeda no bolso. Ela não se esquece de fazer uma reverência para nós duas antes de sair correndo para os seus amigos.
Cheong me observa com atenção. Nenhum dos meus familiares me perguntou qual vai ser a minha resposta ao pedido do imperador, embora minha avó diga que eu nunca aceitaria um casamento tão desigual: “Ele é apenas um imperador; Mina estava ligada a um deus”. E Soojin calmamente diz com seu jeito gentil e discreto: “Mas não seria bom para Mina ter uma família? Talvez ele a ajude a seguir em frente…”.
No fim da manhã, as pessoas voltam às suas casas para se prepararem para a cerimônia que vai encerrar a festa, quando o vilarejo todo, incluindo os nobres visitantes e o imperador, vão subir até o penhasco. Lá, o imperador
prestará uma homenagem ao Deus do Mar, pedindo-lhe que proteja sua terra e seu povo por mais um ano.
Já estou usando o vestido que minha avó e minhas cunhadas fizeram para mim - a saia é amarela brilhante e a parte de cima, cor-de-rosa, feito as pétalas da flor de lótus.
Coloco meu último presente - minha adaga - na cintura, e vou para o jardim esperar. Nas águas rasas da lagoa, pequenos girinos demoram-se sobre os seixos.
Quando Joon e eu éramos crianças, costumávamos pegar girinos no córrego do lado da nossa casa com um baldinho de madeira. Gostávamos de colocar o dedo na água para sentir sua pele lisa e macia, e logo depois os soltávamos.
Joon - sempre gentil e bondoso - nunca conseguia mantê-los por muito tempo.
Ouço um barulho de passos suaves. É meu irmão vindo me buscar.
- Joon - digo, me virando. - Já está na hora…? -
interrompo a frase no meio.
Parada diante de mim está a Deusa da Lua e da Memória.
Solto um suspiro de susto.
- O que está fazendo aqui?
Ela está usando vestes brancas e uma larga jaqueta vermelha, e seu cabelo está preso em um coque na nuca.
Ela me observa com seus olhos iluminados por velas, que antes me enchiam de terror. Agora, sinto apenas carinho.
- Shin veio me ver - diz ela.
Recuo.
- O q-quê?
- É estranho - continua a deusa, inconsciente ou impiedosa
diante
de
meu
coração
batendo
descontroladamente. - Ele não deveria se lembrar de você, mas, mesmo assim, fica andando pelo palácio em silêncio.
Ele não se alegra com nada, e sua alma está em prantos.
Ele está pior do que quando o imperador era o Deus do Mar.
Nada parece consolá-lo.
Meu coração se parte.
- Por que está me falando isso?
- Porque, assim como você sugeriu, tomei o papel de Deusa das Mulheres e das Crianças. Sabe o que isso significa?
Balanço a cabeça.
- Significa que todos que já tiveram medo de mim agora me amam. Até Shin, meu maior inimigo, me ama. Agora ele me conhece como a deusa da maternidade e das crianças, como uma deusa bondosa e gentil e generosa. Me diga, Mina, como é que posso ser cruel com alguém que me ama?
- Não sei. Você consegue?
- É… estranho. Quando eu era temida, odiava tudo e todos. Mas, agora que sou amada, não consigo suportar ver aqueles que me amam sofrendo um segundo sequer. Eu culpo você, Mina. Você me transformou em uma deusa compassiva.
Olho para ela com o coração na garganta.
- O que você fez?
- Você se esqueceu? Posso ser a Deusa das Mulheres e das Crianças, mas também sou a Deusa da Lua e da Memória.
Uma rajada de vento levanta as pétalas da pereira que caíram no chão. Elas rodopiam ao redor da deusa.
Dou um passo à frente.
- Espere!
Em um instante, ela vai embora.
- Mina? - Cheong sai da casa, olhando para o jardim. -
Está tudo bem? Ouvi vozes.
- Cheong, eu…
Atrás dela, Sung e Soojin vêm correndo.
- Mina, Cheong! - diz ele, sem fôlego. - O imperador já chegou no topo do penhasco. Precisamos nos apressar, senão vamos nos atrasar!
Cheong parece querer falar mais, mas Mirae, presa nas costas de Soojin, começa a chorar, e ela vai acalmar a criança, fazendo um floreio para presenteá-la com o mel que comprou no mercado.
Minha família sai correndo para se juntar ao último grupo de moradores, Sung e Soojin com Mirae, minha avó, Cheong e Joon, subindo até o penhasco.
No início, caminho com eles, mas, depois de um tempo, meus passos ficam mais lentos. Eu me distraio com a brisa nas árvores, e logo estou sozinha.
Estou familiarizada com a trilha, que eu percorria com frequência quando era mais nova. Lembro-me de correr até o topo, sem fôlego, tanto pelo esforço quanto pela expectativa. Há um trecho em que o caminho fica íngreme e os últimos passos são mais custosos, mas vale a pena, porque, assim que chego ao topo, ele está lá, esperando por mim.
O mar. A água se estende pelo horizonte. Sua beleza é incomparável e enche meu coração de uma alegria sem limites, que tanto me prende a este momento quanto me leva para longe, para um mundo muito além deste, para o lugar onde eu queria estar.
Estou tão envolvida com o encanto desse momento que quase não vejo os rostos vigilantes das pessoas alinhadas ao longo do caminho, tanto os nobres quanto os moradores.
Estão de ambos os lados de um tapete de grama, no final do qual o imperador espera.
Lembro da minha primeira noite no Reino dos Espíritos, quando o Fio Vermelho do Destino me levou até o Deus do Mar. E percebo que, assim como antes, eu devo caminhar até ele.
As pessoas me olham com curiosidade, e os nobres, com confusão. Eles devem pensar que o imperador cometeu um erro ao pedir em casamento uma garota de um vilarejo neste fim de mundo.
Na última história que contei ao Deus do Mar, o que será que Shim Cheong pensou ao ressurgir na flor de um lótus e se casar com o imperador? Ela passou de camponesa a governante.
A verdade é que ela não pulou no mar para se tornar uma imperatriz. Ela pulou no mar porque amava seu pai. O
que mais ela poderia fazer? Nada de extraordinário é feito pela razão ou pela lógica, mas porque é a única maneira de sua alma respirar.
O destino pode tomar vários caminhos diferentes. Por exemplo, o caminho diante de mim conduz ao imperador.
Posso seguir por ele e me tornar sua noiva. Ou posso seguir
o caminho de volta ao meu vilarejo, para o lugar onde a terra encontra o mar, onde agora sei que meu coração está me esperando.
Qual é o meu destino? Qual destino vou agarrar e nunca mais soltar?
O imperador deve perceber minha indecisão, porque dá um passo à frente.
Algo enorme passa sobre nossas cabeças, lançando uma sombra imensa sobre o penhasco. A multidão explode em gritaria e caos e, por todos os lados, cortesãos e moradores recuam, caindo na pressa.
O dragão mergulha do céu e pousa na grama. No mesmo instante, ele começa a emanar uma luz radiante, e um forte vento sopra de seu corpo.
A trança se desfaz, e meu cabelo começa a esvoaçar ao redor do meu rosto.
Então o brilho se dissipa. E onde antes estava o dragão, agora está…
O Deus do Mar.
Ele é esplêndido, assim como suas vestes azul-claras com o emblema de dragão bordado em fios prateados sobre seu peito. Ele é inteirinho o Deus do Mar, o poderoso dragão do Mar do Leste, e também é inteirinho o lorde Shin, da Casa de Lótus, que aceitou uma pedra como sua alma.
- Mina - diz ele com uma voz cheia de saudade, esperança e amor. -A noiva do Deus do Mar.
Dou risada, me lembrando de quando nos conhecemos -
ele me chamou assim.
- Não, Deus do Mar - diz uma voz, vinda de trás de nós. -
Ela é a minha noiva.
Viro-me para o imperador do meu povo, percebendo de novo como ele mudou - não apenas por sua postura confiante, mas também por estar desperto há dois anos depois de ter passado um século dormindo. Ele não é mais um menino, mas um jovem. Também noto a espada tremendo em sua mão. Afinal, para o imperador, o Deus do Mar não é só um deus, mas o protetor de seu povo. Uma ternura brota dentro de mim. Ele me protegeria até do deus que ele mais ama no mundo.
Quanto a Shin, ele realmente deve se lembrar de mim, porque dá um passo para o lado, sabendo que sou eu quem vai responder ao imperador.
- Vossa Majestade - digo, colocando minha mão sobre a dele, assim como fiz no salão do palácio, quando o Fio Vermelho do Destino se dissolveu entre nós, levando junto o destino que nenhum de nós escolheu. - Seus sonhos são reais. São as memórias do tempo que passamos juntos no reino do Deus do Mar, quando você era o próprio deus, e não havia imperador. Você se lembra?
Ele abaixa a espada.
- Eu… - Uma expressão de espanto se espalha por seu rosto. - Eu me lembro.
- Se você se lembra, então deve saber que eu te salvei.
Lágrimas começam a descer por seu rosto.
- Eu me lembro. Fiquei perdido por muito tempo. Você me encontrou. Te devo minha vida, Mina. Te devo tudo.
Balanço a cabeça.
- Você não me deve nada. Talvez, apenas este momento.
Você não precisa mais de mim. É hora de me deixar ir.
Seu rosto é tomado pela dor. Penso que sempre haverá uma conexão entre nós. Nossas histórias se ligaram de uma forma indissolúvel. E mesmo que eu seja a responsável por minhas decisões, quero que ele também escolha isto. Só assim sua história pode começar de fato.
Ele fica em silêncio por um momento, os olhos fixos em mim. Até que finalmente sussurra:
- Obrigado.
É o suficiente.
- Daqui a alguns anos - diz ele baixinho -, vou contar aos meus netos que, muito tempo atrás, fui salvo por uma deusa.
- Uma deusa? - Dou risada. - Uma garota, talvez.
O imperador do meu povo coloca as mãos na barriga e faz uma reverência para mim. E faz mais uma reverência para o Deus do Mar. Então, me lançando um último olhar, ele caminha pelo comprido tapete de grama em direção ao próprio destino.
Viro-me e me jogo nos braços de Shin. As lágrimas estão fluindo por meu rosto.
- Aqui não é onde a terra encontra a água, mas onde a montanha encontra o céu.
Ele me abraça mais forte.
- Onde quer que você esteja, eu vou te encontrar.
- Vou facilitar as coisas pra você. Porque estarei ao seu lado.
- Isso realmente vai facilitar as coisas. - Ele dá risada, fazendo cócegas nos meus ouvidos. Então ele fala baixinho, hesitante: -Você vai ser feliz sendo a noiva de um deus? -
Sua pergunta traz lembranças de dois anos atrás, quando
ele se preocupou que eu não fosse ser feliz longe da minha família, vivendo uma vida estranha e imortal no reino do Deus do Mar.
Afasto-me um pouco para olhá-lo nos olhos.
- Retiro o que disse antes. - Ele franze as sobrancelhas, tensionando os braços. - Não vou estar sempre do seu lado.
Afinal, vou querer visitar Hyeri e passear com Nari pela cidade. E não é saudável para as suas amizades passarmos o tempo todo juntos. E Kirin e Namgi, como ficam? - Uma ideia me ocorre. - Eles também perderam a memória?
- Não - diz Shin -, mas eles temiam que, se me contassem a verdade, pudessem desfazer os efeitos do seu desejo.
- Ainda bem que a deusa existe, então. Ela não tem medo de nada!
Shin me envolve em um abraço. Sinto seu coração batendo forte.
- Mina, senti tanta saudade.
Ele recua só para se inclinar mais uma vez e me beijar.
Ouvimos uma tosse intensa atrás de nós.
Quando eu me viro, deparo-me com toda a minha família parada a apenas alguns metros de distância. Todos eles exibem largos sorrisos nos rostos.
Joon é o primeiro a se aproximar, me dando um abraço.
Fecho os olhos, tentando gravar este momento na mente, tentando guardar a sensação de estar em seus braços uma última vez.
- E pensar que isso tudo começou porque você estava me seguindo… - sussurra ele. - Vou sentir saudade, Mina, minha irmã favorita.
Faço uma careta.
- Você só tem uma irmã.
- Sim, e ela é a pessoa mais corajosa que eu conheço.
Um por um, vou me despedindo dos meus familiares.
Sung, Soojin e Mirae. Dou o abraço mais demorado em minha avó. Esta é a última vez que vou vê-los, talvez para sempre. Mesmo quando eles morrerem, daqui a muitos anos, pode ser que eles sigam pelo rio para o céu. Eles podem seguir para outra vida.
Shim Cheong é a última. Ela me puxa para um abraço.
- Mina, obrigada. Obrigada por tudo.
- Não - digo. - A verdade é que você é a pessoa a quem mais sou grata. - Ela começa a protestar, mas eu a seguro firme. - Sua história foi contada e recontada por todo mundo, menos por você. Posso ter pulado no mar para salvar Joon, mas foi a sua hesitação que me deu coragem.