A Noiva do Deus do Mar
Capítulo 28
- É um lindo vestido, Cheong - digo. - Mas qual é a ocasião?
- Vai ter um festival na cidade hoje à noite para celebrar o fim das tempestades.
Lembro de Dai dizendo ao lado da minha cama: As tempestades acabaram. Estão dizendo que acabaram para sempre.
Será verdade? Mas o que mudou? Da última vez que vi o Deus do Mar, ele estava desesperado.
Cheong levanta os olhos brilhantes.
- Você precisa ir. Afinal de contas, os boatos estão correndo pela cidade. Estão espalhando que as tempestades acabaram por sua causa.
28
M AIS TARDE, CAMINHANDO COM NAMGI E NARI pela cidade, fico surpresa com a mudança do clima no ar. A cidade está sempre transbordando entusiasmo e luzes, mas, esta noite, é como se as pessoas tivessem derramado sua alegria nas ruas. Acrobatas pulam e saltam ao som de tambores. Vendedores ambulantes de comida distribuem bolos de arroz doce e fios de mel. As consequências da tempestade são visíveis nos caibros quebrados e nas vigas perdidas, embora os escombros tenham sido limpos e consertados nos últimos dias. Dou um pulo para trás para abrir caminho para duas meninas carregando um grande barril. Uma delas abre a tampa e liberta centenas de carpas douradas com sinos amarrados às barbatanas. Enquanto os peixes nadam, um coro de sinos ressoa por toda a cidade.
Mesmo maravilhada com o que vejo e ouço, não consigo evitar me sentir um pouco melancólica. Depois que Cheong foi embora, fiquei esperando Shin ansiosamente, mas, quando o sol se escondeu atrás das montanhas, perdi a
esperança de que ele fosse me ver. Para não desperdiçar o presente dela, pedi para Nari e Namgi me trazerem para a cidade.
- Mina - diz Nari, levantando uma sobrancelha -, acho que você tem um admirador.
Olho para trás - talvez um pouco ávida demais. Um pequeno grupo de garotos da idade de Dai se juntou debaixo da marquise de uma casa de chá. Eles estão lançando olhares furtivos em nossa direção, e um deles está sendo empurrado pelos outros. Em suas mãos, há um barquinho de papel.
- Lady - diz ele, se aproximando -, pode me conceder um desejo?
- Não sou uma deusa - digo, suavizando minhas palavras com um sorriso.
Ele afasta o cabelo do rosto, revelando olhos travessos.
- Por favor. Só você pode fazer meu desejo se tornar realidade. Levanto a sobrancelha, curiosa. Pego o barquinho e desfaço a dobradura enquanto Namgi se inclina por cima do meu ombro para ler o que o garoto escreveu no papel. A gargalhada dele assusta um cardume de peixes que estava passando, fazendo-os dispararem feito estrelas cadentes.
No meio do tumulto, gesticulo para que o garoto se aproxime, e me abaixo para dar um beijo em sua bochecha.
Ele coloca as mãos sobre o rosto com reverência; então, virando-se para seus amigos, ele grita:
- Vejam! Ganhei um beijo da noiva do Deus do Mar! - Os meninos soltam gritinhos de comemoração. Um por um,
eles pressionam os lábios na bochecha dele, como se quisessem compartilhar meu beijo entre si.
Olho em volta e percebo que várias pessoas estão nos encarando, olhando para mim. Uma garotinha até levanta o braço para apontar.
- Isso tem a ver com o que Cheong disse? - pergunto para Nari. -Que estão espalhando pela cidade que as tempestades pararam por minha causa?
Nari assente.
- Na noite da tempestade, várias pessoas viram você subir a escada e atravessar os portões do palácio do Deus do Mar. Menos de uma hora depois que você saiu, os ventos e a chuva diminuíram e um arco-íris apareceu. - Até Nari, que está sempre calma e contida, fala com admiração na voz. - Nunca tinha aparecido um arco-íris depois de uma tempestade. Os boatos dizem que ele também foi visto no mundo de cima, como uma ponte entre os dois mundos. As pessoas estão entendendo isso como um sinal de que as tempestades terminaram de vez e que o mito finalmente se tornou realidade.
Tento absorver suas palavras.
- Mas e o Deus do Mar?
Namgi balança a cabeça.
- O portão do palácio está fechado. Ninguém o viu.
Será que foi só uma coincidência a tempestade ter parado depois que eu saí do palácio? Uma hora depois, fui atacada pelo assassino e o Fio Vermelho do Destino foi cortado. Lorde Grou disse que eu saberia se fosse a noiva do Deus do Mar, porque um Fio Vermelho do Destino seria
formado entre nós. Mas, quando eu acordei, meu pulso estava vazio.
Vozes animadas à frente me distraem de meus pensamentos. Uma multidão se reuniu sob uma grande árvore que cresceu no meio da rua. Lampiões cintilam entre as folhas de sua enorme copa. Do galho mais grosso, pende um balanço, feito com duas cordas e uma prancha de madeira. Uma garota da minha idade está de pé no assento, dobrando os joelhos para ganhar impulso. A multidão suspira, batendo palmas e assobiando enquanto a garota sobe cada vez mais alto.
Namgi, Nari e eu nos juntamos à torcida.
A garota vai se balançando para a frente e para trás, ganhando velocidade. Logo, ela chega tão alto que seu corpo fica paralelo ao chão.
Na descida, ela tira uma mão da corda para acenar para a plateia.
Grito mais alto quando ela reduz a velocidade, saltando do banquinho com um floreio e fazendo uma reverência.
Depois, ela se aproxima e diz:
- Quer experimentar?
- Não sei…
- Não se preocupe. Se você cair, um dos guardas vai te pegar.
Olho para trás e vejo Namgi flertando com um garoto no meio da multidão. Mas Nari está por perto e acena a cabeça, me encorajando.
A garota me arrasta até o balanço e me ajuda a subir na prancha de madeira. Envolvo as cordas com os dedos.
- Pronta? - pergunta ela.
- Era para os meus joelhos estarem tremendo?
- Acho que não. Lá vamos nós! - Ela sai correndo e me empurra, e eu seguro as cordas com firmeza. - Dobre as pernas! - ela grita, me soltando. - Mova seu corpo com o balanço!
Inspiro e expiro depressa várias vezes. Nunca brinquei em um balanço antes, mas já brinquei de outras coisas em festivais, e esta é só mais uma brincadeira: se eu confiar em mim mesma, pode ser divertido.
Conforme a garota instruiu, dobro as pernas e movo meu corpo no ritmo do balanço. Para a frente e para trás. Quanto mais alto vou, mais consigo ver a cidade além da multidão.
Crianças correm pelas ruas, empinando pipas em forma de peixes com rabiolas douradas. Grupos se reúnem para fazer jogos de rua, outros se sentam ao redor de barracas de contadores de histórias, ouvindo extasiados os contos sendo desvendados. Mechas de cabelo se soltam da trança e se agitam em torno do meu rosto. Fecho os olhos e sinto o vento.
Quando finalmente esgoto as forças dos meus braços e das minhas pernas, diminuo a velocidade e me preparo para descer. A multidão comemora enquanto eu salto do balanço e ajudo a próxima garota a subir.
Enquanto caminho, tenho um pressentimento repentino.
Meu coração dá um solavanco, e me viro para a árvore. Sob seus galhos longos, Shin está me esperando. Ele está vestido com simplicidade, com uma veste azul--escura, o cabelo caindo sobre a testa. Ele parece um jovem que saiu para se divertir em um festival, e não o lorde de uma grande casa.
Conforme me aproximo, ele dá um passo à frente para me encontrar.
Noto suas olheiras escuras e sua pele pálida, que realçam seus lábios vermelhos.
- Você parece péssimo. Quando foi a última vez que dormiu?
- Você está linda - diz ele ao mesmo tempo.
Ele faz uma careta.
- Isso é tudo o que tem para me dizer?
- Posso falar mais. Onde esteve o dia todo? Por que não foi me ver quando eu acordei? Está bravo comigo?
Shin faz menção de responder, mas depois parece mudar de ideia e olha ao redor. Atraímos uma plateia. Ele lança um olhar significativo para o canal, e eu o sigo até a margem, onde ele paga um barqueiro para nos emprestar seu pequeno barco a remo. Tomando cuidado para não tropeçar no vestido, pego a mão de Shin. Ele a segura com firmeza, e só me solta quando me sento no banco.
Shin vai deslizando os remos pela água em um movimento calmo e fluido até estarmos no meio do canal.
Ele encosta os remos e deixa que o barco flutue. Há alguns outros barcos por ali, mas eles estão mais perto da margem.
A sensação é de que estamos sozinhos no rio. Fico ouvindo o murmúrio das águas e o rangido da madeira. Uma dúzia de lanternas brilhantes nos cercam.
- Você perguntou onde eu estava o dia todo - diz Shin. -
Eu estava no palácio do Deus do Mar. Queria descobrir a verdade. Os portões estavam fechados. Quando tentei escalar o muro, uma força me impediu de entrar. Como pode ver, várias pessoas acreditam que as tempestades
acabaram para sempre. - Seus olhos se movem para a margem, onde os espíritos se reuniram para soltar lanternas de papel na água. - Mas vamos ter que esperar até o ano que vem para ter certeza.
Mergulho a mão na água, e as gotas deslizam pelos meus dedos feito pérolas.
- O que vai acontecer agora? - Tomo cuidado para manter a voz calma. - O Fio Vermelho do Destino foi quebrado. Em uma semana, vou ter passado um mês no Reino dos Espíritos. - A insinuação está clara nas minhas palavras: em uma semana, vou me transformar em um espírito. Endireito a postura, colocando as mãos no colo. - Minha maior preocupação é Shim Cheong. Existe algum jeito de ela voltar para o reino dos humanos?
Shin fica me observando, mas é difícil interpretar sua expressão.
- E você? Você quer voltar? - pergunta.
Prendo a respiração.
- Eu posso?
- A segunda pergunta que você me fez é por que não fui te ver depois que você acordou. E o motivo é que eu fui até a Casa dos Espíritos para consultar seus ancestrais.
- Meus ancestrais? - repito, sem entender. - Como assim?
- É possível falar com os parentes que morreram antes de você, pelo menos com os que saíram do rio para ficar no Reino dos Espíritos. Vários espíritos ainda recebem os rituais ancestrais de seus filhos e netos. Se você fosse um espírito, saberia instintivamente disso.
Sempre me perguntei se os presentes, as comidas e outras oferendas que deixamos no altar de nossos entes
queridos chegam ao Reino dos Espíritos. Sorrio maravilhada.
- Os ancestrais estão ligados a seus descendentes, e, depois de passarem anos no Reino dos Espíritos, eles geralmente acumulam bastante sabedoria. Pensei que podia pedir a ajuda deles. Mas, como não são meus ancestrais, não me permitiram falar com eles. Em um outro dia, vou te levar lá.
Fico perplexa, e uma onda de emoções toma conta de mim. Estou aliviada com a possibilidade de eles conhecerem uma forma de Shim Cheong voltar para o mundo de cima - e quem sabe até de eu voltar. Mas também estou insegura, porque tenho pouco tempo.
- E minha última pergunta? - falo baixinho. - Está bravo comigo? Pelo que aconteceu com o assassino?
- Não - responde ele. - Não foi culpa sua.
Ele leva uma mão ao peito em um movimento inconsciente. Ele fez o mesmo do lado de fora da Casa da Lua, ao me contar que era um deus que tinha perdido tudo o que tinha prometido proteger.- Na verdade, eu estava bravo. Antes. Por causa da história que você contou para o Deus do Mar sobre o lenhador e a donzela celestial. No final, ela voltou para casa, para o seu lar.
Ele respira fundo.
- Sei que tudo o que você queria era salvar a sua família.
Foi por isso que você pulou no mar. Essa é a motivação que está por trás de todas as decisões que você tomou, sejam as impulsivas, sejam as corajosas.
Seus olhos encontram os meus.
- Eu estava bravo, mas não com você. Estava bravo com o destino que recebi. Porque percebi que, para você conseguir o que quer, eu teria que perder a única coisa que já quis.
Mal posso respirar; meu coração está na minha garganta.
Shin desliza a mão para dentro de suas vestes, em seu peito, e tira uma bolsinha de seda. Ele desamarra o cordão que a fecha, e a pedra entalhada com a flor de lótus cai.
- Vou te devolver para o seu lar, Mina. Prometo. Mas pode demorar mais do que uma semana. - Ele fecha os dedos em volta da pedra. -Para continuar humana, você tem que conectar sua vida a um imortal. Posso não ser o deus de rio, montanha ou lago nenhum, mas sou um deus, e conectaria minha vida à sua, se você me aceitar.
Estou tomada pela emoção. Não compartilhamos mais um Fio Vermelho do Destino, mas ele está disposto a fazer isso por mim mesmo assim.
- Eu…
De repente, ouvimos uma explosão crepitante, seguida de um grito. Uma nuvem escura se espalha sobre a cidade. Olho para cima e vejo uma centena de sombras rastejando sobre a lua.