A Noiva do Deus do Mar
Capítulo 32
M ASCARADA ENTRA PRIMEIRO, SEGUIDA DE DAI E MIKI. Fico um pouco surpresa, e ao mesmo tempo nada surpresa, porque é claro que eles são a minha família - eles me ajudaram esse tempo todo.
Dai sorri.
- Você chora demais, Mina - diz.
Mascarada se aproxima, levando as elegantes mãos até a nuca para desfazer o nó dos fios que seguram a máscara no lugar. A máscara cai no chão. Olho para seu rosto e vejo meu próprio rosto me encarando de volta, só que muito mais bonito. Ou talvez seja apenas o amor que sinto por ela refletindo de volta para mim. Ela me abraça.
Engasgo com meu choro.
- Você é minha tataravó, não é? - Sinto-a assentindo contra o meu ombro. - Quando eu estava morrendo, você cantou pra mim. Pensei que era a minha própria voz, mas era a sua.
- Eu cantei pra você, mas foi sua vontade de viver que te trouxe de volta.
Viro-me para Dai.
- E você é… meu avô.
Ele sorri.
- E Miki… - Estou aos prantos. Mal consigo falar. - Miki é a filha do meu irmão mais velho.
Ela é a garotinha que nunca mostrou seu lindo sorriso no meu mundo, mas recebeu uma segunda chance em outro.
Ela dá uma risadinha atrás do ombro de Dai.
- Joon fez um berço pra ela - digo baixinho.
- Sim - diz Dai. - Foi esse barco que a carregou. Ela teria caído no Rio das Almas se não fosse por ele. Algo feito com tanto amor nunca poderia afundar.
Mascarada pega minha mão.
- Pergunte pra gente o que precisa saber, Mina. Não podíamos te contar antes, pois os espíritos não podem influenciar diretamente as ações de seus descendentes. Mas podemos te contar agora, neste lugar sagrado - diz.
Assinto, enxugando as lágrimas.
- Preciso saber como devolver Shim Cheong para o mundo de cima.
Mascarada e Dai trocam um olhar.
- Isso nunca foi feito antes - diz ela pausadamente. - Mas não significa que não possa ser feito.
- E se ela voltar pro rio? - sugere Dai. - Shim Cheong tem corpo e alma. Se ela conseguisse subir o rio, talvez pudesse voltar pro mundo lá de cima.
Mascarada balança a cabeça.
- A correnteza é forte demais, seu corpo não aguentaria a passagem.
Vejo sua expressão e me pergunto se eu também faço essa cara quando estou refletindo sobre algo. Resisto à vontade de esticar o braço e suavizar o vinco que surge no meio de suas sobrancelhas.
- Em tempos de grande perigo - diz ela -, um desejo pode ser feito para a pérola do dragão.
Sinto uma agitação estranha no coração.
- Um desejo?
- Isso mesmo! - grita Dai, animado. - Agora me lembrei. A pérola do dragão é a fonte de seu grande poder, e um desejo feito para ela pode fazer até o impossível se tornar realidade.
Penso em todas as vezes que vi o dragão - no barco e no jardim, voando pelo céu e do lado de fora do palácio.
- Nunca vi o dragão com a pérola - digo. Então me lembro do mural na parede do salão do Deus do Mar. Na pintura, o dragão estava perseguindo uma pérola pelo céu.
- É possível que ele a tenha perdido - diz Mascarada -, o que pode estar relacionado à maldição.
- Ou que ela tenha sido roubada - acrescenta Dai sombriamente.
No pesadelo do Deus do Mar, ele estava ferido. Talvez esse tenha sido o momento em que a pérola foi roubada.
- Então se eu recuperar a pérola e devolvê-la ao Deus do Mar, o dragão vai realizar o meu desejo?
Dai e Mascarada trocam um olhar.
- Se fosse tão simples assim - diz Dai -, todo mundo estaria procurando uma chance de fazer um pedido.
- Apenas alguém que o dragão ama muito pode fazer um desejo para a pérola - explica Mascarada.
- Alguém que o dragão… ama?
Ela assente com a cabeça.
- O dragão e o Deus do Mar são um só. O dragão é a alma dele. Se o Deus do Mar ama alguém, essa pessoa teria o poder de fazer um desejo para a pérola. No passado, era sempre o imperador que era mais amado pelo Deus do Mar.
Em tempos de grande perigo, diziam que ele poderia fazer um desejo para mudar o mundo.
Encontro Namgi, Kirin e Shin no salão principal, e conto a eles o que aprendi com meus ancestrais. Kirin e Shin não parecem surpresos ao descobrir a verdadeira identidade dos espíritos que estavam me ajudando, mas Namgi parece bastante chocado.
- Você precisa pedir desculpas pra sua tataravó por mim, Mina - diz ele timidamente. - Diga a ela que metade das coisas que falei não era a sério.
- Namgi, a maioria dos espíritos aqui não é ancestral de alguém? Cada espírito com quem você flerta poderia ser um avô.
Ele grunhe.
- Nem me lembre.
Com o conhecimento dos meus ancestrais, agora sei como salvar Shim Cheong. Mas, ainda que isso pareça simples, a tarefa não é nada fácil, porque, por mais que eu ache que o Deus do Mar me respeita, ele não me ama.
E as perguntas que Hyeri fez sobre a maldição me fazem lembrar de como me senti quando entrei no palácio do Deus do Mar pela primeira vez - como se eu estivesse perdendo a última parte de uma história, como se o final dela fosse inalcançável.
Vacilo enquanto uma estranha dor faz meu coração se agitar. Com o canto do olho, vejo o Fio Vermelho do Destino se esticar no ar.
- Mina? - Shin dá um passo à frente. - O que foi?
O Fio Vermelho do Destino dá outro forte puxão, e eu falo:
- É… o Fio Vermelho do Destino… - Shin fica imóvel. - Tem algo errado.
Sinto mais um puxão, e desabo.
Ele me ampara e me põe de pé.
- Ela está virando um espírito. - Ouço a voz de Kirin sobre mim. -Faz exatamente um mês que ela entrou no Reino dos Espíritos.
Luto contra a dor terrível; parece que a minha alma está sendo arrancada do meu corpo.
- O que vamos fazer? - pergunta Namgi. - Como podemos ajudá-la?
Kirin olha para Shin e fala:
- Ela precisa voltar para o Deus do Mar.
Shin não hesita. Em um movimento fluido, ele me levanta do chão e eu enlaço seu pescoço com meus braços.
Em uma velocidade sobrenatural, ele sai correndo da Casa dos Espíritos, disparando pelas ruas e pulando sobre os telhados.
A dor vai diminuindo conforme nos aproximamos do palácio. Quando chegamos ao pátio do lado de fora do salão, já recuperei as forças. Shin me coloca no chão.
- Me espere no jardim - digo antes de sair correndo.
Assim como na primeira noite, quando o Fio Vermelho do Destino me trouxe até ele, o Deus do Mar está caído no trono, os olhos fechados.
Atrás dele, o sol poente pinta o mural do dragão com tons alaranjados e amarelados, e a pérola parece ouro polido.
- Mina? - O Deus do Mar abre os olhos.
Vou até ele, e ele olha para mim.
Ele não é nada parecido com o Deus do Mar da minha história. Aquele deus era forte e poderoso. Afinal, ele levou Shim Cheong para casa.
Olho para o Deus do Mar diante de mim e penso em como um deus pode ser assim tão frágil? Tão humano?
A dor que senti antes se transformou em um leve incômodo. Como estamos próximos, a fita tem apenas o comprimento de um braço. Eu me aproximo mais, colocando minha mão sobre a dele. A mão dele é fria e macia, enquanto a minha é quente e áspera. Nada acontece. Não sou arrastada para nenhum sonho; não há explosão nenhuma. Quando me movo, o Fio Vermelho do Destino desapareceu.
- Mina… - O Deus do Mar ajeita a postura. - O que aconteceu? O que você fez?
- Não sou a sua noiva - digo gentilmente. - Não de verdade. Você não me ama, e eu não amo você. Estamos predestinados, mas não desse jeito.
Tenho a impressão de que o Deus do Mar vai protestar.
Ele franze as sobrancelhas e uma expressão genuína de preocupação se espalha por suas feições delicadas.
- Mas você vai morrer, Mina. Você vai se tornar um espírito.
- Não se eu puder evitar. - Sorrio para tranquilizá-lo. -
Você tem que ser forte só mais um pouco. Pode fazer isso por mim?
- Eu… sim. Acho que sim.
Viro as costas para ele e corro para a porta atrás do trono. Desço os degraus de pedra e entro no jardim. A dor passou, mas sei que logo vou me tornar um espírito. E, apesar de sentir medo, a esperança brota dentro de mim.
Quero contar tudo para Shin - que eu sinto muito por tê-lo deixado, que pensei que era a única decisão que eu podia tomar. Mas eu estava errada. Sempre há uma escolha.
Quero lhe dizer que minha escolha é ele, que sempre foi ele.
Disparo pelo jardim, pulando sobre o córrego e por entre as árvores cintilando o brilho laranja do poente. Atravesso o campo, cruzo a ponte e saio na colina que dá para o pavilhão onde Shin me espera.
Não persiga o destino, Mina. Deixe o destino te perseguir