A Noiva do Deus do Mar

Axie Oh · Capítulo 11 de 38

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A Noiva do Deus do Mar

Capítulo 11

- Você é humana - diz Namgi, o que não responde muito.

- E…?

O sorriso de Namgi poderia acender uma vela.

- A líder da Casa da Raposa é um demônio.

 

11

D OIS BARCOS PARTEM DA CASA DE LÓTUS: um levando Shin, Namgi e eu; e o outro, Kirin e três mulheres poderosas usando vestes vermelhas e brancas de sacerdotisas.

As notícias do que aconteceu ali já parecem ter se espalhado pela cidade. Cruzamos com barcos seguindo na direção oposta. Ao ver Shin, seus ocupantes perguntam se os boatos são verdadeiros, se ele realmente vai se casar com uma humana - que é ninguém menos do que a noiva do Deus do Mar!

Shin os ignora, fecha os olhos e se apoia na proa do barco. É Namgi quem responde às perguntas erguendo o remo.

- A Casa de Lótus enfim tem uma dama! - anuncia, recebendo gritos de comemoração em resposta.

Ninguém parece me notar, provavelmente me tomando por uma criada.

- As pessoas da cidade estão sempre interessadas desse jeito nos assuntos das casas? - pergunto, observando Namgi manobrar o barco com dificuldade para passar por uma curva estreita do canal.

Ele só responde depois que enfim consegue retomar o curso.

- Para os espíritos, os dias parecem se misturar, e qualquer pequena mudança os irrita. É por isso que a chegada da noiva do Deus do Mar é uma ocasião tão importante, uma desculpa tão boa quanto qualquer outra para uma celebração.

Mais cedo, quando eu andava com Mascarada, Dai e Miki, parecia que a cidade estava em um clima festivo, com todas as pessoas nas ruas e todos aqueles lampiões, comida e fogos de artifício. Até a Casa de Lótus estava em festa.

Não era como no meu vilarejo. Será por isso que os deuses nos abandonaram? Será que eles não se importam com as dificuldades do mundo mortal porque o Reino dos Espíritos não sofre suas consequências?

E os espíritos, será que não se lembram de como era ser humano? Será que não se preocupam com os que deixaram para trás? Ou suas lembranças acabam ficando distantes e enevoadas conforme o tempo passa aqui no Reino dos Espíritos, como Namgi sugeriu?

Do lado de fora de uma grande casa de chá construída sobre o canal, uma multidão se reúne. As pessoas se empurram para dar uma olhada no nosso barco. Não tenho certeza, mas penso ver um garoto de cabelo grosso com um bebê nas costas se enfiando entre a multidão.

- É verdade que os assuntos de algumas casas interessam os espíritos mais do que outros - continua Namgi, despreocupado. - Há oito grandes casas na cidade do Deus do Mar, e todas servem a ele. Shin é o líder da mais poderosa, a casa que todos procuram em busca de orientação e ordem. Enquanto casas como a Casa dos Espíritos protegem os interesses dos espíritos, e as do Tigre e do Grou protegem os soldados e os estudiosos, respectivamente, a Casa de Lótus protege os interesses dos deuses.

- E os deuses protegem os humanos - digo.

Sei que ganhei a atenção de Shin quando ele se senta devagar para me observar de perto. O barco mergulha na água e eu agarro o banco, envolvendo as tábuas de madeira com os pés.

Talvez eu não devesse provocá-lo. Nossa aliança - se é que posso chamá-la assim - é, na melhor das hipóteses, provisória. Mas os sons da celebração aborrecem meus ouvidos, com as risadas estridentes e os cantos desafinados. Sobre todos esses ruídos, ouço, alto e bom som, o tilintar de um sino.

O barco balança, nos trazendo para perto um do outro.

- Então você acha que os deuses não devem proteger os humanos?

- Acho - ele fala com uma voz baixa. Suas palavras são tão impiedosas e cruéis quanto as que ele disse no salão do Deus do Mar. - Humanos são criaturas instáveis e violentas.

Por temerem a própria morte, travam guerras e não hesitam em varrer da terra rapidamente o que leva anos para crescer.

 

- Só porque a morte os acompanha de perto - respondo. -

Como pode culpá-los, se a morte não tem paciência, invadindo suas casas e roubando o ar de suas crianças?

- Eu culpo os humanos assim como você culpa os deuses pelas tolices dos humanos.

- Mas deveria ser um ciclo, não? Os deuses deveriam proteger os humanos, e os humanos deveriam rezar e honrar os deuses.

- É típico de um humano pensar que o mundo gira em torno de vocês, que os rios são para vocês, que o céu e o mar são para vocês. Vocês só são uma das várias partes que compõem o mundo e, na minha opinião, a que estraga todas as outras.

Os olhos de Namgi estão cravados em nós. A poucos metros de distância, Kirin também nos observa de seu barco, atraído por nosso tom de voz elevado.

Levanto a cabeça devagar, sustentando o olhar de Shin.

- Então você protege os deuses - digo - dos humanos.

Passamos o resto da viagem em silêncio, mantendo distância um do outro no banco estreito. O canal deságua em um corpo de água maior, e deixamos os edifícios luminosos da cidade para trás, adentrando as sombras. À

frente, uma luz brilhante surge no barco de Kirin. Namgi segue seu exemplo e acende uma tocha, que entrega a Shin.

Logo, não consigo ver nada além da luz das tochas. A escuridão se adensa. Ao me segurar na borda do barco,

percebo que a madeira está úmida pela névoa. Então, de repente, sinto uma presença imensa a meu redor, e o ar fica pesado. Da escuridão, vislumbro algo enorme e monstruoso, tão grande quanto o dragão. São centenas, milhares. Pego meu punhal e olho para Shin e Namgi, mas nenhum deles parece preocupado. Então observo com mais atenção. Os grandes objetos são…

Árvores.

Elas surgem da água e parecem se erguer infinitamente para o céu. O barco se aproxima de uma, e Namgi dá um chute no tronco, mudando nossa direção.

Há uma vibração sutil no ar, como se as árvores estivessem sussurrando. Alcançamos os limites de uma enorme floresta, muito maior do que a da Casa de Lótus, mais profunda e sombria. O barco reduz a velocidade, deslizando sobre seixos. Antes que pare totalmente, Shin já está de pé, saltando para o lado.

- A mestra da Casa da Raposa mora aqui? - pergunto, olhando para a floresta escura. Não vejo trilha nenhuma em meio às árvores. É como se ninguém colocasse os pés ali há milhares de anos. Ou, pelo menos, nenhum humano.

- Sim - diz Namgi, oferecendo uma mão para mim. - É um lugar adequado para um demônio-raposa, não acha?

Coloco os pés na água rasa, molhando a barra da minha saia. Shin entra na floresta com Kirin e as sacerdotisas.

- Você deu a entender que não seria sensato me trazer para a Casa da Raposa porque sua líder poderia… me comer. - Estremeço. -Mas, nas histórias da minha avó, demônios-raposas são espíritos malignos que atacam somente homens.

- Este demônio não é tão específico assim. Vamos? -

Namgi pega a tocha do barco e gesticula para que eu o acompanhe.

Conforme nos aproximamos da floresta, os sons ao nosso redor vão ficando mais altos - o murmúrio dos insetos, o zumbido das árvores. Mas, quando adentramos na floresta, tudo silencia. Fico parada no limiar, incapaz de ir mais longe. Sinto um frio na barriga enquanto aquele medo familiar começa a me dominar. Namgi não parece compartilhar de minha hesitação. A luz de sua tocha já está longe. Saio correndo para não perdê-lo, quase trombando com ele, que parou para investigar alguma coisa na floresta.- O que foi? Há algo errado? Por que você parou? -

pergunto, preocupada.

Ele olha para mim de sobrancelhas franzidas.

- Parece que algo grande passou por aqui. - Ele aponta para a trilha. Há um enorme galho partido em dois no meio do caminho. Ao lado dele, uma pegada de animal no chão. -

Faz tempo que não venho a esta floresta. Dizem que as bestas podem ficar imensas, se não forem perturbadas: tigres e cobras, lobos e ursos. - Namgi levanta a tocha, estreitando os olhos para me observar melhor. - Você está bem? Parece pálida.

- Estou bem - respondo um pouco rápido demais.

Ele dá de ombros e segue adiante, caminhando mais depressa do que antes.

- Espere, mais devagar. - Tropeço em uma raiz e me apoio em um tronco.

A luz da tocha de Namgi está cada vez mais distante.

Tento correr atrás dele, mas acabo caindo no chão.

Ele volta para me perguntar:

- Tem certeza de que está bem?

- Não consigo ver nada, preciso de mais luz. É melhor me dar a tocha.

- Não sei, não. - Ele coça a bochecha. - Não sei se é uma boa ideia deixar uma pessoa desastrada ficar com o fogo em uma floresta.

- Por favor.

- O caminho é uma reta.

- Tenho medo de florestas - confesso, envergonhada.

Devo parecer tão fraca e humana pra ele… Quando Namgi não responde, sigo em frente, resvalando nele.

Só dei alguns passos quando Namgi enlaça meu braço com o seu.

- Tenho medo de muitas coisas - diz ele -, mas não do escuro. Posso enxergar no escuro, sabe. Deve ser por isso.

Na verdade, não preciso dessa tocha, mas você sim, então vou segurá-la pra você. Às vezes sou insensível, e gosto de provocar os outros. Mas pode contar comigo.

Ele fica tagarelando, e me concentro no som de sua voz.

A trilha dá em uma clareira onde Shin, Kirin e as sacerdotisas estão nos esperando

- Não temos tempo a perder - diz Kirin.

Os olhos de Shin vão de Namgi para mim, então ele entrega sua tocha a Kirin.

- Vá na frente para iluminar o caminho.

Kirin obedece imediatamente, acompanhado pelas sacerdotisas da Casa da Raposa. Deixamos a clareira para trás, adentrando ainda mais na floresta. Com Kirin na frente e Namgi na retaguarda, agora noto detalhes que não tinha

percebido antes: há marcas na terra, e a trilha está bem demarcada devido ao uso.

Depois de alguns minutos, Shin quebra o silêncio:- Pensei que você não tivesse medo. - Ele segura um galho solto para que eu passe por baixo; suas folhas roçam meu cabelo.

Encaro-o para ver se ele está tirando sarro de mim, mas seu olhar é questionador.

- Então você não tem medo de nada? - pergunto.

- Se eu tivesse - diz ele, soltando o galho -, não os dividiria com você.

Desdenho:

- Porque medos são fraquezas?

- Não tenho fraquezas.

- Assim como o Deus do Mar. - Fico observando atentamente para ver sua reação, mas ele não revela nada.

- Ele é sua única preocupação?

Os olhos de Shin encontram os meus, e uma ruga se forma entre suas sobrancelhas. Ainda assim, não vejo raiva.

Ele está tentando decifrar algo em mim, assim como eu tento entendê-lo.

- Estamos quase lá - diz ele.

Uma luz cintila no fim da trilha. Provavelmente, caminhamos uma distância razoável sem que eu percebesse. Como aconteceu com Namgi, nossa conversa me distraiu do meu medo da floresta. Ele se afasta de mim, seguindo na frente.

- Eu estava certa ao acreditar no que você disse antes, quando me prometeu um mês? - pergunto. Ele olha para trás. Levanto o braço, e o Fio Vermelho do Destino brilha intensamente entre nós. - Mesmo se nossa ligação for quebrada, você não vai me impedir de cumprir minha tarefa?

- Pelo menos isso eu posso te garantir.

- Mesmo que eu seja um dos humanos que você tanto despreza.

Ele não fala nada por um momento, então diz, hesitante:

- Eu não… desprezo humanos. Afinal de contas, todos os espíritos já foram humanos, e eles formam a maior parte do reino…

- Então por que…

Ele balança a cabeça.

- Você acha que os deuses deveriam amar e cuidar dos humanos. Eu discordo. Não acho que o amor possa ser comprado, nem conquistado, nem suplicado em oração. Ele deve ser oferecido livremente.

Pela primeira vez, não saio argumentando, mas reflito sobre suas palavras.

- Posso respeitar isso - digo por fim.

- E eu posso respeitar sua determinação de salvar seu povo - diz ele. Você não vai conseguir, mas respeito a tentativa.

Fecho a cara.

- Eu fiz um elogio sincero.

Shin dá risada, o que é tão inesperado que, por um momento, ele se parece menos o lorde de uma grande casa e mais um garoto do meu vilarejo.

As árvores ao nosso redor ficam menores e mais distantes umas das outras. A luz da lua se infiltra pelas copas e Kirin e Namgi apagam suas tochas. Uma névoa

brilhante cobre o chão da floresta. Figuras vestidas de vermelho e branco se movem graciosamente entre as árvores.

Nosso grupo se aproxima de um pequeno templo com paredes abertas para a floresta. Alguns passos nos levam a uma elegante plataforma de madeira onde duas mulheres esperam.

A mais nova se aproxima para cumprimentar as sacerdotisas que nos acompanharam desde a Casa de Lótus. Então ela se vira para Shin e faz uma reverência.

- Estávamos esperando o senhor, lorde Shin.

Kirin franze o cenho.

- Suas sentinelas avisaram que estávamos vindo?

- Nossa deusa sabe de tudo. - Desta vez é a mulher mais velha que fala. Pelo vestido branco e pelo chapéu de penas, fica claro que deve ter uma posição de honra entre as mulheres. Ela desvia seu olhar gracioso para a floresta. -

Vejam, ali vem ela.

A princípio, tudo o que vejo é o verde profundo da floresta, salpicado pelos pequenos focos de luar. Então um movimento perturba a tranquilidade. Do meio das árvores, surge uma raposa branca com uma cauda longa e elegante dividida ao meio. Ela salta sobre um pequeno riacho com agilidade e sobe os degraus do templo, aproximando-se.

O olhar cintilante da raposa está cravado em mim. Ela é maravilhosa; seus olhos cor de âmbar têm tons de ouro puro. Seu pelo é quase todo branco; suas orelhas pontudas e os tufos de sua cauda dividida são prateados.

De repente, a raposa avança mostrando as presas afiadas.- Não! - grita a sacerdotisa mais nova. Primeiro, penso que é um aviso para o demônio, mas então percebo que ela está com o braço estendido para Shin. Ele desembainhou a espada e está apontando a lâmina para o pescoço da raposa.

Ela desvia os olhos ferozes e sagazes para ele, então se abaixa, esquivando-se e mordendo o Fio Vermelho do Destino. A raposa o força para baixo, torcendo-o e sacudindo-o de tal forma que, se fosse uma fita normal, teria se despedaçado. E então ela recua, sentando-se e lambendo a pata. O Fio Vermelho do Destino brilha intensamente, intacto.

- Como ousa levantar a espada contra a nossa deusa? -

sibila a sacerdotisa mais nova.

Antes que Shin responda, uma voz sonora e profunda responde:

- E por que ele não deveria proteger o que mais importa?

A poderosa voz vem da sacerdotisa mais velha. Seu comportamento mudou. Antes, seus olhos estavam turvos e confusos, mas agora emanam uma luz misteriosa, âmbar com manchas de ouro.

- Então você pode ver - diz Shin, de olho não na sacerdotisa, mas na raposa branca. - O Fio Vermelho do Destino.

- Ele está brilhando bastante - responde novamente a sacerdotisa. A raposa está falando através dela.

- Como assim, Fio Vermelho do Destino? - Kirin observa o espaço entre mim e Shin, vazio para ele. - Não pode ser…

A raposa avança para esfregar o topo da cabeça na fita, emitindo um zumbido baixo do fundo da garganta.

- Já vi um destino assim antes, muitos anos atrás. É um tipo muito perigoso de destino, que não pode ser cortado por lâmina nenhuma.- Deve haver algum outro jeito de quebrá-lo - diz Kirin.

- O único jeito de acabar com um destino assim é se algum de seus portadores morrer.

Após uma breve pausa, Namgi pergunta:

- Então, se Mina morrer, o Fio Vermelho do Destino vai desaparecer?

A raposa balança a cabeça em um movimento assustadoramente humano.

- Há uma chance de que, se um morrer, o outro também morra.

Namgi franze o cenho.

- Mas você acabou de dizer que, se um deles morrer, a conexão entre os dois será quebrada.

- Se ambos morrerem, não há destino.

- Agh! - Namgi puxa o cabelo. - É por isso que nunca se deve consultar um demônio ou uma deusa. Eles nunca dão uma resposta direta.

- É o mesmo que acontece com o Deus do Mar - diz Kirin, ignorando Namgi. - Mas, nesse caso, é a vida de Shin que está em perigo.

- Sim, mas há uma diferença importante.

A deusa não continua imediatamente, e Kirin pergunta:

- Qual?

- Como você pode ver, ou não, o destino é invisível, mas não é assim com o Deus do Mar. Embora cada noiva que venha a este reino tenha um Fio Vermelho do Destino, ele não está predestinado a todas elas. Afinal, esse não é o verdadeiro propósito do Fio Vermelho do Destino.

Suspeito que a deusa sinta prazer em reter informações até que a pergunta certa seja feita.

- Então qual é o propósito do Fio Vermelho do Destino? -

pergunta Namgi com os dentes cerrados.

A raposa inclina a cabeça para o lado, e seus olhos cor de âmbar cintilam.

- Ele conecta almas gêmeas.

- Almas… gêmeas - diz Kirin, devagar.

- Sim. Ele conecta uma alma a outra, duas metades de um mesmo todo.

Por algum motivo, fico surpresa ao ouvir a explicação dela. Essa é a maneira que os humanos contam o mito, tentando explicar o que acontece quando os destinos de duas pessoas se cruzam e mudam o curso de sua vida para sempre. É isso que justifica a inegável ligação entre amantes - como Cheong e Joon, que se amaram desde a primeira vez que se viram.

- Não é possível - diz Shin, trazendo uma lembrança à tona. Ele disse algo parecido quando o Fio Vermelho do Destino surgiu entre nós.

Minha avó sempre disse que somente as palavras nas quais acredito podem me machucar. Ainda assim, Kirin está me encarando, incrédulo, e até Namgi parece descrente.

Quanto a Shin, ele está esfregando os dedos no pulso, como se a fita o incomodasse.