A Noiva do Deus do Mar
Capítulo 15
- Vi uma jovem… - Ela estava ajoelhada na margem lamacenta. Lágrimas escorriam por sua face quando ela pousou um beijo no barquinho de papel. - Ela estava grávida.
Shin aperta os lábios, e uma sombra obscurece suas feições.
- O que foi? O que há de errado?
Ele balança a cabeça.
- Vamos à Casa da Lua. Precisamos falar com a Deusa das Mulheres e das Crianças.
15
S AÍMOS DO PALÁCIO PELO PORTÃO DA FRENTE, que permaneceu aberto, apesar de Namgi ter falado que ele ficava fechado a maior parte do ano. Se Shin estranhou, não comentou nada. Procuro Mascarada e Miki entre as barracas montadas do lado de fora, mas não as vejo. Alguns espíritos lançam olhares em nossa direção, claramente surpresos de ver dois indivíduos saindo de lá.
- Por aqui, Mina - diz Shin, me conduzindo por uma rua lateral, longe da multidão.
Conforme caminhamos, refaço a dobradura. O pedido pode até estar borrado, mas não vai impedir a deusa de saber a verdade, que nem sempre pode ser expressa em palavras. É por isso que, apesar de celebrarmos o festival dos barquinhos de papel uma vez por ano, qualquer humano pode rezar para os deuses quando bem entender, seja em um templo, seja em algum lugar onde se sintam mais perto deles - em um campo aberto onde os ventos
sopram ou perto de uma fogueira crepitante, nos penhascos ou no mar.
Esse
desejo
devia
ter
alcançado
a
deusa,
independentemente do barquinho de papel, dado que foi feito com o coração. Mas talvez os deuses não consigam mais ouvir nossas orações, com a conexão entre o mundo mortal e espiritual quebrada por causa da maldição do Deus do Mar.
Caminhar pela cidade com Shin é uma experiência diferente da que tive com Namgi ou com os espíritos. Talvez porque não queira ser parado nem reconhecido, ele vai pegando becos, cortando caminho através de pátios e cozinhas privativas e até subindo a escada de uma casa de chá a fim de saltar da varanda para um telhado baixo.
Quando se vira para me ajudar, eu já pulei, pousando um pouco desajeitada, mas em pé. Ele levanta uma sobrancelha, e eu encolho os ombros.
Enquanto descemos a rua estreita, um pensamento me ocorre.
- A Casa da Lua tem alguma coisa a ver com a Deusa da Lua e da Memória?
- Não - diz Shin. - Uma não tem nada a ver com a outra.
A Casa da Lua é dedicada às mulheres e às crianças, assim como a Casa do Sol é dedicada aos homens e ao imperador.
- Imperador? Mas não existe imperador. Ele foi morto anos atrás.
- É por isso que a Casa do Sol está vazia.
Shin segue adiante, mas eu diminuo o ritmo. Cem anos atrás, o imperador foi morto e as tempestades começaram.
Mas até mesmo um deus, independentemente de seu amor
pelo imperador, não puniria uma população inteira pelo crime de apenas uma pessoa. Naquele salão, toquei o Deus do Mar e visitei suas memórias. Talvez elas retratassem o momento em que o imperador foi morto. O que será que aconteceu naquele penhasco, que deixou um imperador morto, dois mundos destruídos e um reino amaldiçoado por cem anos?
- Aí está - diz Shin em um tom sombrio, apontando para o outro lado. - A Casa da Lua.
Estive tão distraída com meus pensamentos que não percebi que estávamos na periferia da cidade. À nossa frente, um canal longo e raso se estende, com entulho flutuando em sua superfície lamacenta. Prédios em ruínas, portas quebradas e janelas com venezianas margeiam os caminhos de terra de ambos os lados do canal. Depois do burburinho e do barulho das ruas do centro da cidade, esse silêncio deserto é enervante, assim como a falta de cor. O
Fio Vermelho do Destino é a única coisa brilhante contra os prédios cinzentos e opacos. A desolação paira pesadamente no ar.
Até na cidade dos deuses há lugares assim.
No fim do canal - para além de um portão destroçado, com seu arco partido em dois -, há um grande edifício em forma de lua crescente vista de lado. No centro da construção, a porta que foi arrancada de suas dobradiças, deixando apenas um buraco negro.
Sinto um calafrio descendo pelo pescoço. Enfio a mão no bolso do vestido e pego o barquinho.
A tarefa seria mais fácil se a Casa da Lua não parecesse tão agourenta. Centenas de janelas me observam feito
olhos escuros e infinitos. Não consigo enxergar nada além da porta. O ar vai ficando mais frio à medida que nos aproximamos. Uma brisa amarga escapa da porta e se infiltra em minha pele. Respiro fundo, adentrando a escuridão.
O calor me envolve. Pisco, surpresa. Pelo tamanho da Casa da Lua, achei que ela seria cavernosa, úmida e arejada. Mas o cômodo em que entrei é pequeno, tem um teto baixo e paredes apertadas. Não vejo nenhuma porta para as profundezas da construção. É como se a Casa da Lua toda - que, vista de fora, parecia ter vários andares e muitos corredores - consistisse neste pequeno cômodo. Sua única habitante é uma mulher.
Ela está sentada em uma almofada, atrás de uma mesa baixa, nos fundos da sala. Ao lado dela, chamas crepitam na lareira, lançando a mulher nas sombras. Tudo o que posso ver são o branco de seus olhos e a curva de seus lábios vermelhos.
Um som atrai meu olhar para baixo. A mulher tem uma das mãos levantada na direção da mesa. Ela está tamborilando as unhas longas e curvas na superfície.
Faço uma reverência e espero ela falar. Fico encarando o chão irregular, sujo de terra e lascas de madeira. O barulho incessante de suas unhas batendo, batendo e batendo na mesa continua.
O barquinho de papel pesa em minhas mãos.
Então ela finalmente para de tamborilar as unhas.
Olho para cima. Seu olhar está focado em algo além do meu ombro. Ela tem um sorriso triste em sua boca larga.
- O que temos aqui? - pergunta ela com uma voz oleosa e suave, como se comesse corações de amêijoas todos os dias. - Ora, ora, se não é o lorde Shin. O que fiz para merecer tal honra?
- A honra é nossa - responde Shin calmamente. - Nós viemos lhe pedir um favor.
- Nós…? - Ela desvia os olhos para mim. - E quem somos nós?
- Meu nome é Mina - digo, dando um passo à frente. -
Trouxe um desejo.
A deusa pisca.
- Um desejo?
- Não é para mim. - Ergo o barquinho de papel. - Vim em nome de outra pessoa.
Ela estica uma mão pesada de anéis de pedras preciosas. Quando vou lhe entregar a dobradura, ela estala a língua.
- Primeiro, exijo pagamento.
Fico olhando para sua mão branca e firme com a palma voltada para cima. Lembro das mãos trêmulas da garota colocando o barquinho na água.
A deusa fica impaciente e estala os dedos, me arrancando da lembrança.
- Não vou realizar o desejo, a não ser que receba um pagamento.
Minha garganta está seca, e engulo saliva antes de falar.
- Tenho um punhal que pertenceu à minha tataravó. É a única coisa que possuo.
A deusa faz uma carranca e recolhe a mão de volta para as sombras.
- Isso não vale nada. Não vou realizar o desejo a não ser que receba pagamento em ouro. - Ela vira as costas para mim e para o barquinho que ainda seguro estendido para ela.
- Não entendo - sussurro. - Você é a deusa das mães. Das crianças. Com ouro ou não, você devia querer realizar o desejo dessa jovem.
- Não seja tola, garota. Nada neste mundo é oferecido de graça.
Lágrimas brotam espontaneamente dos meus olhos.
- Ela estava chorando na margem de um córrego. Ela colocou todas as esperanças que tinha nesse pedido para você. Ela acreditou em você. O que mais você poderia querer?
A deusa nem pisca. Ela só fica me encarando como se eu fosse digna de pena. Como se fosse eu que não entendesse.
Shin joga um cordão de moedas de ouro na mesa. Ela o pega e o enfia na manga do vestido.
A deusa estende o braço e arranca o barquinho de minhas mãos débeis. Fico observando seus dedos correndo pelo papel, enquanto suas unhas acompanham a tinta de carvão.
Ela começa a rir, uma risada terrivelmente aguda.- Onde você pegou esse barco, garota? Sabe quanto tempo esse desejo tem? Meses. Anos. Essa garota está morta. Sua filha está morta. Seu pedido nunca foi atendido.
Isso é só uma memória, esquecida há muito tempo. - Ela ergue a mão e atira o barquinho no fogo.
- Não! - Lanço-me para a frente. Enfio a mão nas chamas.
Solto um som horrível e gutural, um grito agonizante que
tem menos a ver com a queimadura e mais com meu coração partido.
Shin me segura e me puxa para trás. Ele me arrasta pela sala enquanto a risada da deusa ressoa alto em meus ouvidos.
Quando chegamos à rua, ele me solta. Então rasga um pedaço de sua manga e faz uma bandagem improvisada.
- Precisamos te levar de volta para a Casa de Lótus.
- Como ela pôde fazer isso? Por que ela não se importa?
Ela é a deusa das… das crianças!
Ele tenta pegar minha mão, mas me afasto.
- Mina - diz ele com cautela -, temos que cuidar da ferida, senão ela vai infeccionar.
- Qual é o problema deste mundo? O que há de errado com os deuses?
Não consigo parar de gritar. Lágrimas escorrem por minha face, e meu coração bate loucamente. Shin pega minha mão ferida e a envolve com o tecido. Não sinto nada; parece que um estranho torpor tomou conta do meu corpo.
- Eles amam os deuses - falo em voz baixa, e a frase soa como uma acusação.
Shin dá um nó no pano e olha para cima.
- Eles quem?
- Meu povo. Todo mundo. Minha avó. Ela vai ao templo todos os dias para rezar e fica ajoelhada por horas, apesar da dor nas juntas e nas costas. Minha cunhada. Mesmo depois de perder a bebê, ela não culpou os deuses, e fica andando em silêncio e chorando quando acha que ninguém está vendo. As pessoas do meu vilarejo. As tempestades podem destruir suas plantações, e ainda assim elas deixam
oferendas para os deuses da colheita. Porque o mundo pode estar corrompido e quebrado, mas, enquanto houver deuses, haverá esperança.
Se eu visse pena nos olhos de Shin, teria me afastado.
Indiferença seria pior ainda. Mas há algo em seu olhar que perfura o meu torpor até que eu sinta a dor, o sofrimento.
Vejo compaixão ali.
- Mina…
- Eu os amo. - A frase sai como uma confissão, e percebo com relutância que realmente é. Sempre que eu corria pelos campos de arroz, os grous de pescoço comprido balançavam
suas
enormes
asas
como
se
me
cumprimentassem; sempre que escalava os penhascos, a brisa me impelia a continuar; sempre que olhava para o mar, com o sol refletindo na água feito uma risada, eu sentia amor. Eu me sentia amada.
Como os deuses podem abandonar quem os ama?
Não percebi que falei em voz alta até que Shin solta minha mão, olhando para o canal desolado.
- Não há nada que você possa fazer.
Ele já tinha falado isso antes. No jardim, ele afirmou que não havia nada que eu pudesse fazer para ajudar a garota.
Quando nos conhecemos, ele disse algo parecido, que eu falharia, assim como todas as noivas que vieram antes de mim.
No fim, ele estava certo. Mas, enquanto ele não ganhava nada por estar certo, eu perdia tudo por estar errada.
- Você é tão culpado quanto o resto deles - digo.
Shin ri com dureza.
- Está me comparando com uma deusa que aceita suborno para realizar desejos e ri diante da dor dos outros?
- Não. Você é pior do que ela. - Seus ombros ficam tensos e sinto uma pontada de arrependimento, mas meu sofrimento me faz querer desabafar. - Você faz falsas promessas. Com uma palavra, me dá esperança, e, na palavra seguinte, me oferece desespero.
- Eu te ofereci um lugar na minha casa para te manter segura, criados para que você tenha tudo de que precisa, e guardas para te protegerem…
- Com ordens de me impedirem de sair.
- Porque já houve uma ameaça contra a sua vida!
Ladrões nunca tentaram roubar a alma da noiva do Deus do Mar antes. Hoje de manhã, fui confrontar lorde Bom da Casa do Tigre, e ele tinha fugido. Até eu descobrir quem está por trás dessas ameaças, você precisa ser paciente. Dê-me um tempo. Ainda não se passou nem um dia.
- Um dia do último mês da minha vida. - Sei que estou sendo dramática, mas a raiva e o sofrimento estão me queimando por dentro.
- O que você quer de mim, Mina?
- Não quero nada de você. - Fecho a mão machucada e estremeço de dor. - Só o Deus do Mar pode me ajudar agora.
Shin estreita os olhos.
- O que ele tem a ver com isso?
- Quando a maldição for quebrada…
Shin zomba com crueldade:
- Você não entende mesmo, não é, Mina?
- O que eu não entendo? - Aponto para a porta aberta da Casa da Lua. - Você não viu a garota da lembrança. Ela estava sofrendo, chorando. Tudo o que ela tinha era a sua esperança, e, no final, isso não foi suficiente. Quando vai ser suficiente?
Shin se vira de repente, com um misto de raiva e desespero nos olhos.
- Nunca vai ser suficiente! Você não vê, Mina? Não há maldição alguma sobre o Deus do Mar. Ele escolheu se isolar porque não conseguiu lidar com a própria dor. Foi ele quem abandonou seu povo. Ele abandonou a todos nós!
Shin desvia o olhar, tremendo. Sua mandíbula dá um espasmo e os cantos de seus olhos estão levemente vermelhos.
- Você odeia o Deus do Mar - sussurro.
Ele fecha os olhos e, sem perceber, leva a mão ao peito.
- O Deus do Mar. A Deusa das Mulheres e das Crianças.
Todos nós somos indignos. Todos merecemos ser esquecidos.
Nós.
De repente, compreendo.
- Você é um deus.
A resposta está na maneira como sua respiração fica irregular. Seus dedos, já pressionados contra o peito, se afundam no tecido de suas vestes.
- Shin, você é o deus do quê?
A princípio, acho que ele não vai dizer, mas então ele balança a cabeça.
- De mais nada. - Ele fala tão baixinho que preciso me esforçar para ouvir. - É preciso acreditar em algo para ser
seu deus.
Já é noite quando chegamos à Casa de Lótus. Shin dispensa os criados que vieram nos cumprimentar e chama Kirin.
Vamos juntos até o pavilhão do lago. No quarto de cima, alguém já estendeu as mantas no chão. Caio de joelhos nos lençóis de seda, usando a mão boa para me apoiar. Tento dobrar os dedos da mão esquerda e faço careta ao sentir a dor aguda.
Levanto a cabeça e deparo com Shin me observando.
- Posso…? - pergunta ele.
Faço que sim.
Ele se agacha ao meu lado, pega minha mão e solta a bandagem devagar. Estremeço. Minha pele está em carne viva e há manchas de sangue no tecido.
Ele fica olhando minha queimadura com as sobrancelhas franzidas.
- Por que colocou a mão no fogo? Você sabia que era tarde demais para que ela realizasse o desejo da garota. Era só um pedaço de papel.
- Eu sei, mas… - hesito, tentando lhe explicar algo que nem eu entendi direito. - Naquela hora, não fazer nada me doía mais do que colocar a mão no fogo.
Alguém bate forte na porta.
Kirin irrompe, fazendo uma grande reverência. Seus olhos atentos notam a mão de Shin segurando a minha.
- O senhor me chamou?
- Mina está ferida.
- Ah, estou vendo.
Franzo o cenho para eles. As palavras não ditas pesam no ar. Por que Shin mandou chamar Kirin e não um médico?
Enquanto Shin solta minha mão, Kirin pega de dentro de suas vestes uma pequena adaga de prata. Com um movimento rápido, ele faz um corte profundo na palma de sua mão. Sangue da cor das estrelas jorra da ferida.
Fico boquiaberta por um instante antes que ele agarre meu pulso e coloque sua mão ensanguentada sobre a minha mão queimada.
Seu sangue prateado penetra minha ferida e logo a dor lancinante das queimaduras diminui, substituída por uma sensação refrescante. Ele espera uns dois minutos e depois afasta a mão da minha, revelando a pele por baixo -
imaculada e macia.
- Vai ficar dolorido por uns dias, mas vai passar - diz Kirin.
Viro a mão para a luz da vela. A única evidência da queimadura é o vermelho nas bordas da palma.
- Kirin, obrig…
Pisco para o espaço vazio onde ele estava. Ele já saiu pela porta, fechando-a atrás de si.
- Você devia descansar um pouco - diz Shin, acenando para os cobertores. - Deve estar exausta.
Ele percorre o quarto apagando as velas. Em seguida, vai até a parede oposta, pega o biombo de papel e o coloca cuidadosamente sobre os cobertores.
Percebo que vamos dormir juntos, com o biombo entre nós. Estou cansada demais para protestar. Minha mão ainda está doendo, e, para meu grande horror, lágrimas quentes
começam a escorrer por minha face. Corro para a beira do palete, puxando os cobertores por cima do ombro.
Do seu lado da tela, Shin apaga a vela, e sua sombra desaparece de vista.
Deito de barriga para cima e fico ouvindo seus movimentos - o barulho que ele faz enquanto se despe, o suspiro que solta quando se ajeita nos cobertores. Hoje de manhã, ele foi até a Casa do Tigre para questionar seu senhor sobre a tentativa de roubo da minha alma. Mesmo ressentido com o Deus do Mar, ele está tentando protegê-lo.
O Fio Vermelho do Destino cintila no ar, indo da minha mão até a dele através dos cobertores e do biombo de papel.
Na escuridão e no silêncio, fico repassando os eventos do dia - não só o encontro terrível com a deusa, mas aquele momento no jardim, quando testemunhei o último pedido de uma garota no limite da esperança. Todos aqueles desejos não atendidos, flutuando inertes e esquecidos. Fico pensando nos meus próprios desejos - os que fiz no festival dos barquinhos de papel, e também os que sussurrei no escuro, achando que ninguém estava ouvindo.
Não, não é verdade. Eu achava que havia alguém ouvindo. Porque, mesmo nas horas de desespero, eu acreditava que os deuses cuidavam de nós. Eu acreditava que nunca estávamos sozinhos porque eles nos amavam.
Era assim que eu pensava. Era nisso que eu acreditava.
A imagem da garota tremendo na margem do riacho está gravada na minha mente. No instante de maior sofrimento, ela de fato estava sozinha.