A Noiva do Deus do Mar

Axie Oh · Capítulo 3 de 38

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A Noiva do Deus do Mar

Capítulo 3

T RÊS FIGURAS MASCARADAS AGUARDAM abaixo do palanque, posicionadas em um semicírculo, feito o arco de uma lua crescente.

O salão é cavernoso, mas mesmo assim não ouvi sinal da aproximação delas. Nuvens passam acima, encobrindo a luz filtrada pelas vigas e depositando um manto de escuridão sobre o salão. As duas figuras mais próximas do trono lhe escapam, mas não a terceira, afastada das outras. O último vislumbre que tenho antes que ela seja consumida pela escuridão é a curva de uma bochecha pálida.

- O que é isso? - A figura à direita lança uma adaga no ar e a recupera em seguida. - Uma pega perdida na tempestade? Ou outra noiva do Deus do Mar? - Sua voz baixa soa abafada sob a máscara de pano. - Você é uma noiva ou uma ave?

Molho os lábios salgados.

- E você é um amigo ou inimigo?

- Se eu for um amigo…?

- Então sou uma noiva.

- Se eu for um inimigo…

- Você é?

- Talvez eu seja um inimigo querendo ser amigo. - Ele inclina a cabeça, e um cacho escuro cobre seus olhos. - E

talvez você seja uma ave querendo ser noiva.

Ele está tão perto da verdade que estremeço. Os anciãos do meu vilarejo têm um ditado: uma pega pode até sonhar em ser uma grua, mas nunca será.

- Sei - murmura a figura à esquerda, toda de preto, assim como a primeira. Seu cabelo vai além dos ombros, e seus olhos, de um tom estranho de castanho-claro, vão da minha trança meio desfeita para a minha veste áspera de algodão.

- Não era para você ser a noiva do Deus do Mar.

Ao contrário do jovem de cabelo encaracolado, este não tem nenhuma arma, apenas uma gaiola de madeira pendurada no ombro por uma corda - o que é curioso.

- Os anciãos do seu vilarejo escolhem a noiva um ano antes do ritual. Ela é sempre extraordinária, seja em seus talentos ou em sua beleza.

- De preferência os dois - intervém o garoto da adaga.

- Não é uma honra concedida às pessoas comuns, fracas ou impulsivas. Então diga-me, Noiva de Ninguém, quem escolheu você ?

Se o jovem de cabelo encaracolado empunha uma adaga como arma, o de olhos frios brande palavras. Apesar de todas as minhas muitas bênçãos - uma família amorosa, minha coragem e minha saúde -, não tenho beleza nem talento.

Posso até imaginar os anciãos enfurecidos depois do retorno de Joon e Cheong, sem acreditar no que tinha acontecido, amaldiçoando minha obstinação. Mas eles não estavam ali no barco. Eles não sentiram o jato de água afiado e aquele medo capaz de parar o coração ao ver um ente querido em perigo. Posso ser impulsiva. Comum, talvez. Mas não sou fraca.

- Eu me escolhi.

A terceira figura no fundo se mexe. Desconfiada, noto o movimento

singelo.

Estranhamente,

meus

dois

interrogadores também percebem, apesar de estarem de costas para ele. Eles inclinam a cabeça, esperando… por um sinal? Ele não fala nada, e eles endireitam a postura.

O primeiro garoto cruza os braços, colocando a adaga ao lado do peito.

- Não acha romântico, Kirin? Uma jovem ave comum espera salvar sua espécie de um terrível dragão e concorda em se casar com ele. Mas logo descobre que ele está preso em um feitiço poderoso que é a raiz de sua natureza destrutiva. Então a ave corajosa e inteligente encontra um jeito de quebrar a maldição e acaba se apaixonando pelo dragão, e ele por ela. A paz é restaurada no céu, na terra e no mar. Certamente é uma fábula extraordinária. Vou chamá-la de “O dragão e a pega”.

- Não, Namgi - diz o estranho de olhos frios, Kirin, prolongando as sílabas. - Não acho romântico.

Namgi responde a Kirin com um insulto, e Kirin segue com sua tréplica rude. Essa dinâmica deve ser rotineira, porque a discussão deles logo fica animada.

Eu os ignoro, preferindo me concentrar na história que o primeiro garoto acabou de contar. Minha avó sempre diz que devemos prestar atenção nas histórias, pois as verdades geralmente estão escondidas nelas.

- Então é uma maldição? - pergunto, e Namgi e Kirin encerram a discussão e voltam o foco para mim. - O Deus do Mar não abandonou seu povo, ele está sob uma maldição.

Não posso controlar como os outros vão medir meu valor, mas estou familiarizada com histórias e mitos.

Histórias e mitos são meu sangue, são o ar que respiro.

E para esta já posso ver um padrão se formando, como uma melodia tecida através do mito. O dragão parece trazer as noivas do Deus do Mar com segurança a este reino. O

mundo está coberto de névoa, mas o Fio Vermelho do Destino as guia até o palácio.

Ainda assim, por que nenhuma delas foi bem-sucedida em sua missão? É como se a melodia fosse interrompida; como se, quando elas finalmente estivessem prestes a terminar a história, um inimigo surgisse para impedi-las.

O Deus do Mar grita. Solto um suspiro de espanto quando uma sensação desconhecida comprime meu coração feito um nó apertado. O Fio Vermelho do Destino esquenta na minha mão. Atrás de mim, uma tábua do assoalho range. Eu me viro.

Namgi e Kirin se moveram. Ainda mantêm a mesma posição, Namgi com os braços cruzados, Kirin imóvel com a gaiola, mas agora estão três passos mais próximos de mim.

Estava tão preocupada em defender quem eu sou, uma estranha em um mundo estranho, que esqueci de perguntar

quem eles são. Que tipo de homem usa máscara? Só os que pretendem permanecer esquecidos. Ladrões.

Assassinos.

- Agora - diz Kirin para Namgi.

Namgi descruza os braços e saca a adaga.

- Sinto muito, pega. Você não devia acreditar tanto nessas histórias.

Ainda estou segurando o meu punhal. Assumo a postura defensiva que minha avó me ensinou, com a lâmina inclinada.

- Para trás.

Ele ataca abruptamente, e cerro os dentes de dor. Não consigo pensar com clareza. Será que eles mataram todas as noivas antes de mim? Minha mão está tremendo. Em emergências, posso até saber usar uma lâmina, mas não sou uma guerreira. São dois contra um - três, incluindo a figura nas sombras.

Kirin vira o rosto, me dispensando.

- Você nunca deveria ter vindo, Noiva de Ninguém.

Por que isto está acontecendo? Será que o Deus do Mar…

está me rejeitando? Não sou Shim Cheong. Não sou a noiva do Deus do Mar. Tudo isso começou com ela. Joon arriscou a própria vida porque não conseguia aceitar perdê-la, e eu arrisquei a minha porque não consegui aceitar perdê-lo. E

Shim Cheong… o que ela não conseguiu aceitar?

Posso vê-la claramente parada no barco, enfrentando seu destino na forma de um dragão se erguendo do mar. Um destino pelo qual ela nunca pediu. Um destino que ela recusou.

No trono, o deus-menino se debate de um lado para outro. Ele ainda está adormecido, seus olhos estão bem fechados. O Fio Vermelho do Destino avança, me queimando.

Com um salto desesperado, alcanço o Deus do Mar. Ao mesmo tempo, alguém grita atrás de mim. Eu ignoro, agarrando a mão do Deus do Mar e segurando-a com força.

O Fio Vermelho do Destino desaparece entre as palmas das nossas mãos, e então sou puxada para a frente com tudo, para dentro de uma luz ofuscante.

Deparo-me com uma enxurrada de imagens se movendo rápido demais para fazerem sentido - um penhasco à beira-mar; uma cidade dourada queimando em um vale; vestes vermelhas no chão, manchadas de sangue; e uma sombra colossal.

Olho para cima. O dragão vem descendo do alto, segurando uma pérola com sua garra gigante. É como se ele estivesse segurando a lua.

Então sou levada para longe das imagens, e minha mão é arrancada da mão do Deus do Mar. O terceiro assassino agarra meu pulso, e sinto que ainda estou nos sonhos do Deus do Mar, porque quase posso acreditar que estou vendo o dragão refletido em seus olhos escuros.

E então ele me solta e dá um passo para trás. Esforço-me para lembrar das imagens do sonho - ou seriam lembranças? O penhasco é familiar, se estendendo pela costa. A cidade deve ser a capital, mesmo que todos os mensageiros que passem pelo nosso vilarejo tragam apenas notícias dos triunfos do conquistador, não de guerras nem destruição. E as vestes do Deus do Mar são prateadas e azuis.

- Essas imagens… - Balanço a cabeça, tentando me concentrar. -Pareceu que eu estava vendo através dos olhos do Deus do Mar.

Fico surpresa quando o assassino responde:

- São imagens do pesadelo dele. Todo ano, é igual.

- Então ele realmente tem uma conexão com a noiva do Deus do Mar. O poder de quebrar a maldição vive nela.

- Você queria matá-lo agora há pouco.

Lanço um olhar severo para o assassino. Ele e os outros deviam estar no salão quando cheguei, se me viram erguendo o punhal. Por que não me impediram? Não acho que eles quisessem ferir o Deus do Mar, senão teriam aproveitado para atacá-lo agora, enquanto ele está vulnerável, dormindo.

Assim como Namgi e Kirin, o terceiro assassino está vestido com finas vestes de algodão de um azul tão escuro que até parece preto. Mesmo com a máscara, sua juventude é inegável - ele tem uma pele lisa, um corpo forte e esguio.

Ele não deve ter mais do que dezessete anos.

- Não posso estar brava? - pergunto, seca. - Meu povo tem sofrido muito por conta do abandono do Deus do Mar.

Por negligência dele, os outros deuses viraram as costas para nós.

Penso na minha avó me chamando para rezar no templo.

Penso no sino de vento que fiz para a minha sobrinha, espatifado contra as rochas. E então outra lembrança emerge de dentro de mim: uma floresta escura e um caminho sinuoso.

Balanço a cabeça, afastando as imagens.- Mas isso aconteceu quando cheguei aqui e descobri que nada é como eu esperava. Ele não é como eu esperava. - No trono, o Deus do Mar dorme tranquilamente depois do tumulto que acabou de acontecer. Ele não é a divindade cruel e rancorosa que imaginei, mas um deus-menino adormecido, chorando em seus sonhos.

Não saí correndo para a praia a fim de me tornar a noiva do Deus do Mar, mas para salvar meu irmão. No entanto estou aqui agora e, se existe uma chance de salvar não somente ele, mas todo mundo, preciso tentar.

E talvez, quando tudo isso acabar, eu possa voltar para casa. Para o meu vilarejo. Para a minha família. Meu coração se agita só de pensar.

- Se é uma maldição que o prende, então vou encontrar um jeito de quebrá-la.

O Deus do Mar solta um suspiro suave. Entre nós, o Fio Vermelho do Destino se agita, e um sentimento parecido com esperança se infiltra em meu coração.

- Você é igualzinha às outras noivas - diz o garoto de olhos escuros. Eu me viro e vejo que ele recuou e fala de cabeça baixa. - Humanos inventam mitos para explicar o que não entendem.

Ele levanta o rosto, e seus olhos são como o fundo do oceano, frios e insondáveis. Penso que seus olhos escondem seus pensamentos melhor do que a máscara esconde seu rosto.

- Mas posso explicar para você - continua ele. - Seu povo sofre não pela vontade dos deuses, mas por causa de seus próprios atos violentos. Eles travam guerras que queimam

as florestas e os campos. Eles derramam o sangue que polui os rios e os córregos. Culpar os deuses é culpar a própria terra. Olhe para o seu reflexo para encontrar sua inimiga.

Suas palavras ecoam pelo salão com uma verdade de gelar os ossos.

É como se eu estivesse de volta ao mar, a água congelante me puxando cada vez mais fundo.

- Você vai falhar, assim como todas as outras noivas que vieram antes de você - diz ele.

Não há dragão nenhum para me salvar, nem qualquer esperança em que eu possa me agarrar. O mundo acima pisca feito uma estrela.

- É inevitável. - Ele desvia o olhar. - É o seu destino.

Meu destino?

A sensação de afogamento passa.

Para começo de conversa, esse destino nunca foi meu.

Eu o tomei para mim quando pulei no mar. Mas, mesmo antes, não fui eu que mudei o curso da história. Foi Shim Cheong, que negou seu destino ao não soltar Joon. Não foi por isso que ela virou as costas para o dragão? Afasto o pensamento. Posso não conhecer os motivos dela, mas conheço os meus.

- Você tem razão - digo. Os olhos do garoto se voltam para mim e se estreitam enquanto eu falo. - Eu sou como as outras noivas. Sei como é amar alguém e estar disposto a fazer qualquer coisa para proteger essa pessoa. Quem é você para dizer qual é meu destino? Para me dizer se vou falhar ou não? Meu destino não é uma decisão sua. Ele pertence a mim.

O garoto fica me observando com uma pequena ruga na testa.

Namgi assobia baixinho.

- Nunca pensei que veria o grande lorde Shin da Casa de Lótus ficar sem palavras diante de uma noiva do Deus do Mar - diz.

Ele é um nobre. De alguma forma, não fico surpresa.

Embora seja sem dúvida o mais jovem dos três, Kirin e Namgi parecem se subordinar a ele em todas as coisas.

- Lorde Shin - diz Kirin depressa, mas numa voz baixa -, a névoa se dissipou. - Seus olhos estão voltados para o céu. O

luar se infiltra pelas vigas, banhando o salão com sua luz.

Shin recua.

- Fique com seu destino, Noiva do Deus do Mar. Não tenho nada a ver com isso. - Ele puxa uma espada de sua bainha, na lateral da cintura. O som metálico é ensurdecedor no salão silencioso.

- Meu nome é Mina.

Ele para.

- Não sou a Noiva do Deus do Mar nem a Noiva de Ninguém, muito menos uma pega - digo. - Eu tenho um nome, escolhido pela minha avó para me conferir sabedoria e força. Sei quem sou, e sei o que devo fazer. - Ergo o punhal da minha tataravó. - E não vou deixar você tirar minha vida.

Shin puxa a máscara. O pano escorrega e fica pendurado em seu pescoço.

- Mina - diz ele, e meu coração me trai batendo descompassado. - A noiva do Deus do Mar.

Engulo em seco com dificuldade. Sua voz ressoa clara e calorosa sem a máscara. Ele tem traços bonitos, nariz reto e lábios macios. Com seus olhos escuros como o oceano, ele é deslumbrante.- Não vou tirar sua vida.

Uma esperança dolorosa brota dentro de mim.

- Só sua alma.

Ele envolve meu pulso com a mão e o torce. O punhal cai no chão. Com a outra mão, ergue a espada e se prepara para um golpe. Eu grito. O som penetrante é interrompido abruptamente quando sua espada acerta…

A fita.

Ele corta o Fio Vermelho do Destino.

Fico boquiaberta, observando a lenta queda da fita cortada como as duas metades de uma pena quebrada.

Como isso é possível? Por um breve segundo, tudo fica silencioso e inerte. Então meu grito ressoa de volta, mas o som desesperado não sai da minha boca, e sim de fora do meu corpo, no ar. O grito rodopia e se funde em uma massa de cores brilhantes girando juntas. A fita escorrega da minha mão e sobe, seguida de perto pela metade da fita do Deus do Mar. Juntas, elas envolvem o grito, formando uma impressionante esfera de luz.

Shin dá um passo para a frente com a mão estendida.

Há um clarão colorido. Logo depois, estou vendo estrelas.

E meus ouvidos captam um som maravilhoso e inesperado neste salão desolado - o alegre gorjeio de um pássaro.

Aninhada no centro da palma da mão de Shin, com as asas dobradas confortavelmente nas laterais, está uma bela pega com as pontas das asas vermelhas.