A Noiva do Deus do Mar

Axie Oh · Capítulo 24 de 38

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A Noiva do Deus do Mar

Capítulo 24

S HIM CHEONG ESTÁ USANDO UM VESTIDO DE NOIVA ELABORADO. Suas longas mangas se arrastam no chão, e círculos vermelhos estão pintados nas bochechas pálidas da garota.

Seu cabelo preto foi penteado para trás e preso com um enfeite de jade e ouro. Por que ela está aqui? As noivas são sacrificadas apenas uma vez por ano. Até as tempestades recomeçarem no verão seguinte, não há necessidade de mandar outra noiva, quanto mais Shim Cheong, que eu quis poupar com meu próprio sacrifício.

Eu me viro, mas a deusa não está mais ali para responder às minhas perguntas. Cheong solta um grito agudo ao tropeçar em seu vestido longo.

- Cheong! - Vou correndo até ela.

Ela suspira em choque.

- Mina?

Enfio o barquinho na blusa e puxo Cheong pelos braços.

- Você está bem? Está ferida?

Ela fica me olhando com seus olhos escuros e luminosos cheios de lágrimas.

- Ah, Mina… Estou tão feliz de te ver. Joon ficou arrasado quando você pulou no mar.

- Cheong, por que está aqui?

Uma palidez fantasmagórica toma seu rosto.

- Fui sacrificada.

Por um momento, só consigo encará-la, incapaz de pronunciar uma palavra.

- Mas… por quê?

- A gente pensou que tinha acabado… - Seus lindos olhos estão vidrados, aterrorizados. - Mas as tempestades voltaram muito piores do que antes. Vilarejos inteiros foram varridos pelo mar. Maridos foram separados de suas esposas, e crianças, de suas mães. O conselho dos anciões se reuniu e concluiu que acabamos enfurecendo o Deus do Mar quando você tentou me substituir. Enviaram soldados para nossa casa. Sua família lutou bravamente para me proteger. Seu Sung, sua cunhada, sua avó, a mais destemida de todos. E Joon.

Cheong engasga ao pronunciar o nome dele, e acho que ela não vai conseguir continuar, mas então ela respira fundo e segue com o relato.

- Mas eu fui levada, vestida como você me vê e jogada no mar. Quando fui capturada e levada pelas ondas, eu soube que era um erro. Uma ira como essa não pode ser amenizada com apenas uma vida. A fúria do Deus do Mar é grande demais, poderosa demais. Temo que, dessa vez, a tempestade vá destruir todos nós.

Fico olhando para ela, querendo apenas refutar suas palavras, mas sabendo que ela não falaria coisas tão terríveis se realmente não acreditasse. Penso em Namgi e em Kirin, que esta manhã disseram que a tempestade parecia sobrenatural, vinda das montanhas do leste, onde o mundo dos humanos termina e o rio começa.

Sou tomada por um pensamento horrível.

- Mina? - chama Cheong.

- Espere aqui - digo. Não quero deixá-la, mas preciso ter certeza. Seguro as saias e saio correndo para o rio.

Logo ouço o rugido de corredeiras violentas. Além da névoa, o rio aparece, bradando alto e furioso. Shiki está na margem, os olhos vazios de tristeza. Vejo famílias inteiras sendo arrastadas - mães, pais e crianças. Ao contrário da garota da noite anterior, nenhum deles luta contra a correnteza. Estão todos imóveis, como se tivessem perdido as esperanças. Por que isso está acontecendo? Por que as tempestades voltaram?

O Deus do Mar. Meu corpo é tomado pela fúria.

Viro na direção do palácio e subo a escadaria correndo até os portões abertos. Cheong grita meu nome, mas não me detenho. Disparo pelos pátios. A chuva está mais fraca aqui. Sinto-a escorrer por meu rosto e queimar meus lábios.

A água tem gosto de sal. Sigo até o último pátio e entro no salão.

A chuva vaza pelos buracos no telhado e bate nas pedras geladas. O Deus do Mar está no chão ao lado do trono, as mãos segurando o peito. É o mesmo gesto que ele fez quando saiu apressado do pavilhão. Estou sentindo uma pontada na alma. Seria o Fio Vermelho do Destino? Só que

não há nada em seu pulso, tampouco no de Shim Cheong.

Se eles compartilhassem um destino de verdade, ele seria visível para ela - e ela teria notado algo tão estranho assim.

O Deus do Mar solta um grito agonizante. Corro até ele e hesito antes de tocá-lo. Da última vez, fui arrastada para suas memórias. Respiro fundo e coloco a mão em seu ombro. Uma luz ofuscante se ergue e me engole por inteiro.

Há uma parede de som, como uma floresta ao vento, e então sou libertada abruptamente.

Estou na beira de um penhasco de frente para o mar. O

sol poente forma um caminho dourado de luz na água, que vai ficando cada vez mais escura.

Eu me viro lentamente, observando tudo a meu redor. O

ar cheira a madressilva fresca. Uma brisa quente roça minha pele, afastando o cabelo de meu rosto.

Também temos nossos próprios penhascos, que ficam a um quilômetro e meio do nosso pequeno vilarejo. Joon e eu sempre competíamos para ver quem chegava primeiro no topo, sem fôlego e rindo.

No caminho de volta, às vezes a gente via Shim Cheong subindo, a mão agarrada com força na de seu pai. Eles levavam horas para alcançar o pequeno campo do topo, mas iam mesmo assim. A bela Shim Cheong e seu pai eram pacientes. Os olhos turvos dele nunca puderam ver o pôr do sol, mas ele adorava aqueles passeios diários ao lado da filha, e sorria quando ela lhe descrevia o mundo, tingido pela luz de seu amor.

Pisco, dissipando a lembrança.

Então o vejo encolhido na beira do penhasco. O Deus do Mar. Corro até ele e caio de joelhos. Suas vestes estão rasgadas e sujas de terra. Passo a mão pela seda, e meus dedos encontram algo quente e molhado.

Sangue. Toda a parte de trás de suas vestes está coberta de sangue.

- O que aconteceu? Quem fez isso com você? - pergunto aos gritos.

O Deus do Mar, que estava encarando o oceano, vira o rosto para mim. Seus olhos estão vidrados, e sua bela face está contorcida de dor.

- A dor não é nada - sussurra ele, com uma voz que não é a de um deus, mas a de um menino, frágil e trêmula. - A dor não é nada comparada ao que eu fiz. Eu falhei com todos eles.

- Não - digo, afastando o cabelo molhado que caiu sobre seus olhos.- Você pode consertar as coisas. Vou te ajudar.

Tem que haver um jeito…

De repente, o Deus do Mar estica o braço e segura meu pulso. Seus olhos encontram os meus, e dou um suspiro de susto. Neles vejo as chamas, uma cidade inteira pegando fogo. Ele me solta, e sou arremessada para trás, e bato a cabeça no chão. Quando volto a mim, estou no salão do Deus do Mar.

Olho para cima, para o mural de dragão na parede. Então me lembro. A chuva. A tempestade.

Eu me levanto e vou cambaleando até ele. Examino suas vestes em busca de sangue, mas elas estão limpas, apenas molhadas da chuva.

O Deus do Mar grunhe e se senta. Avanço para ajudá-lo, mas ele levanta uma mão para me impedir.

- O que está fazendo aqui?

- Vim falar com você. Onde estávamos? O penhasco…

Era no mundo dos humanos? Por que você estava sangrando?

- Pare! Sou eu que faço as perguntas aqui. Por que você me contou essas histórias tristes? - grita ele. - Quer partir meu coração? Você devia saber que ele já está quebrado há muito tempo.

- O que aconteceu naquele penhasco é o motivo de as tempestades terem começado? Foi um humano que fez aquilo com você? Foi por isso que você parou de nos proteger? Foi por isso que nos abandonou?

Ele se encolhe todo, como se quisesse bloquear minhas palavras. Então fala com uma voz baixa e cansada:

- Você diz que é a noiva do Deus do Mar, mas como pode ser, se suas palavras me enchem de vergonha? Quem está me machucando… é você.

Lá fora, um trovão estrondeia sobre o palácio. A chuva continua a cair pelos buracos no telhado, fazendo barulho no piso de madeira. Parte de mim quer ir embora, quer deixar o Deus do Mar com sua tristeza e seu destino. Mas outra parte quer ficar, porque, mesmo que eu esteja brava e frustrada, meu coração está dolorido por ele. Por vários motivos, ele me lembra Joon quando era mais novo - ele pode até ser um guerreiro agora, mas, quando pequeno, era maltratado pelas outras crianças do vilarejo. Ele tinha um coração grande e era gentil demais. Eu costumava gritar com as meninas e os meninos que gostavam de provocá-lo e ofendê-lo. Como ousavam machucar meu irmão, a pessoa que eu mais amava no mundo?

Gentilmente, me aproximo e envolvo o Deus do Mar em meus braços.

- O que você está… - protesta ele.

Eu o abraço com firmeza, emprestando-lhe meu calor e minha força.

- Quando eu era criança, eu rezava para você. Quando as tempestades surgiam e as ondas se quebravam contra a costa, eu ficava com medo, mas mesmo assim acreditava em você. Quando o mar estava calmo e meu irmão e eu brincávamos em segurança nas ondas, eu ficava feliz, e acreditava em você.

- Mas não acredita mais - murmura o deus-menino.

- Eu ainda acredito em você. Às vezes é difícil… eu duvido até de mim mesma, mas nunca duvidei de você.

Como posso duvidar do mar, do vento, das ondas? Queria poder aliviar um pouco o seu fardo. Te abraçando agora, posso sentir como ele é pesado.

Ele começa a chorar, e coloco os braços ao redor de seu pescoço, como se pudesse acalmá-lo apenas com minha força.

- Queria que você soubesse que, mesmo depois de tudo, mesmo depois das tempestades e do sofrimento, meu povo sente sua falta. Nós amamos você - digo. - E sempre vamos te amar, porque você é nosso. Você é nosso mar, nossas tempestades, nosso sol raiando a cada dia. Você é nossa esperança. Estamos te esperando há tanto tempo. Por favor, volte para nós. Por favor.

Minhas vestes, que já estavam encharcadas com a chuva, agora recebem as lágrimas quentes do Deus do Mar.

Através dos buracos no teto, a chuva cai a nosso redor, uma sinfonia sem fim nos embalando em nossa dor.