A Noiva do Deus do Mar

Axie Oh · Capítulo 35 de 38

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A Noiva do Deus do Mar

Capítulo 35

A pérola começa a brilhar e a esquentar na minha mão.

Shin coloca sua mão sobre a minha, e a segura firme.

- Desejo que o mundo seja como deve ser - sussurro -, que o imperador retorne ao seu lugar de direito e que Shin volte a ser quem foi, o Deus do Mar, protetor do nosso povo.

A última coisa que ouço é a voz de Shin me dizendo: Eu te amo. Espere por mim onde a terra encontra o mar.

 

35

A CORDO COM O SOL BATENDO EM MEUS OLHOS. Estou deitada na margem do lago do jardim da minha família, com Shim Cheong a meu lado. Tudo está como há um mês. Os vasos de barro estão alinhados nos fundos do jardim, cheios de soja fermentando para o inverno. Os patos grasnam dos juncos. Do outro lado do jardim está minha casa, com seu telhado de palha e paredes de madeira.

A porta dos fundos se abre.

- Mina! - Minha avó sai correndo pelo gramado, com Joon em seus calcanhares. Eu me levanto depressa e bem a tempo de receber seu abraço. - Ah, Mina, meu amor, minha neta querida.

Eu a abraço com força, vertendo lágrimas copiosamente.

A nosso lado, Joon abraça Cheong e a beija com fervor.

De dentro da casa, surgem Sung e Soojin. Minha avó me solta e meu irmão mais velho me envolve com os braços.

Depois Soojin me abraça com gentileza, cheirando a hibisco e peras que ela devia estar descascando minutos antes.

 

Logo estou nos braços de Joon, e talvez seja por conta de todas as memórias de infância em que ele me confortava se eu ralava o joelho ou se as outras crianças me provocavam por causa do meu jeito um pouco rude, mas começo a chorar aos soluços.

Estou tão aliviada por ele estar bem.

Mais tarde, vou lhes contar o que aconteceu no Reino dos Espíritos, depois que pulei no mar e acordei em um mundo de névoa e magia.

Vou contar à minha avó que conheci a avó dela, que se apresentava como Mascarada e escondia o rosto de mim porque sabia que, se eu a visse, eu saberia quem ela era. E

vou contar para todos eles sobre meu avô, sobre como ele cuida de Miki, mal deixando que ela saia de seu campo de visão. Vou descrever para Soojin e Sung quão feliz aquela bebê é, e vou lhes dizer que ela tem a personalidade alegre de Sung e a beleza e a inteligência de Soojin.

Vou lhes contar sobre Namgi, Kirin, Nari, Shiki e Hyeri…

E sobre Shin também. Vou lhes dizer como ele é alto, nada assustador e honrado. Como ele me salvou de novo e de novo, como ele mesmo e como dragão. E vou lhes dizer quanto o amo.

Mas, por ora, não falo nada.

Depois de um tempo, nos separamos, e Cheong diz:

- Mina, olhe!

Florescendo em rosa e dourado por todo o lago, feito grandes estrelas caídas na terra, estão milhares de flores de lótus.

Pensei que as mudanças viriam gradualmente, mas logo nas primeiras semanas após o meu retorno os efeitos do meu desejo são visíveis pela terra. Nos lugares onde as tempestades arrancaram árvores, mudas brotam durante a noite. Mais para o interior, onde as secas fizeram os córregos e os rios desaparecerem, a água parece encher os canais vazios, que logo fervilham de peixes e aves. E o que é ainda mais maravilhoso: há boatos se espalhando pelo norte, tão dilacerado pela guerra, de que qualquer arma levantada com a intenção de causar dano vira pó.

Mas há também os pequenos milagres. Vizinhos trabalham lado a lado para reconstruir a terra, plantando vegetais, dividindo tempo e esforço. Crianças pequenas ajudam os idosos a se acomodarem à sombra dos grandes pinheiros enquanto brincam junto ao riacho cintilante. Toda semana lidero um grupo de mulheres para procurar raízes e colher frutas e ervas na floresta. Às vezes ficamos até de noite, mas nunca temos medo, porque um caminho sempre se abre ao luar para nos levar de volta para casa.

Ainda assim, só fico sabendo do milagre mais extraordinário de todos depois de um mês. Um mensageiro real chega da capital. De pé no topo de um barril junto ao poço do vilarejo, ele nos entrega um comunicado que mais parece uma história excepcional que uma proclamação: o imperador que desapareceu cem anos atrás surgiu magicamente nos degraus do palácio, sem ter envelhecido um dia sequer.

- Onde ele esteve esse tempo todo? - perguntam os anciãos do vilarejo, dando voz à nossa surpresa.

- Ele não se lembra - responde o mensageiro. - Mas muitos acreditam que ele estava no Reino dos Espíritos, sob a proteção do próprio Deus do Mar durante esses cem anos!

As

pessoas

suspiram

em

choque,

virando-se

naturalmente para Cheong e para mim, paradas atrás da multidão. Imagino como o imperador deve estar se sentindo, tendo acordado de um sono encantado após cem anos, sem se lembrar de nada do tempo que passou como Deus do Mar. Para alguém que tanto adorava histórias, agora ele é parte de uma das mais incríveis de todas.

- Ele reconquistou o palácio com a ajuda dos bisnetos e de seus antigos seguidores - continua o mensageiro real -, e está trabalhando neste exato momento para restaurar a paz e a ordem em nossa terra.

Todos comemoram as notícias maravilhosas.

Depois da proclamação do mensageiro, várias pessoas se aproximam de Cheong para lhe agradecer por seus feitos.

Ela me olha, resignada. Encolho os ombros, sorrindo para ela.

Após alguns dias do nosso retorno, percebemos que a maior parte dos moradores acreditava que Shim Cheong era a responsável pelo fim da maldição do Deus do Mar, já que foi sua última noiva - e a única, além de mim, que tinha voltado. A princípio, ela ficou horrorizada e tentou corrigir seus simpatizantes, mas eu lhe disse que não me importava. E não me importo mesmo. Afinal, na última história que contei para o Deus do Mar, Shim Cheong era sua noiva.

As estações passam e, na primavera, Sung e Soojin trazem uma criança ao mundo. Sua bisavó a batiza de

 

Mirae, em homenagem a seu futuro brilhante.

Conforme a primavera vai dando as boas-vindas ao verão, começo a descer para a praia. Minha família percebe e, adivinhando o motivo, inicia os preparativos para minha partida. Minha avó e minhas cunhadas fazem um lindo vestido para mim usando o tecido de seus próprios vestidos, tanto para me homenagear quanto para me fazer lembrar delas. Meus irmãos forjam uma adaga para mim -Joon entalha uma pega em seu cabo - para fazer companhia ao punhal da minha tataravó.

Exatamente um ano após meu retorno ao mundo de cima, vou até a praia e fico esperando com minha família. O

sol se põe e a lua nasce. Shin não aparece. No dia seguinte, voltamos, e no seguinte e no seguinte, até que fico esperando sozinha e o verão vira outono.

No início, fico confusa, depois duvido que ele tenha me amado, e então finalmente compreendo. Porque, se o imperador perdeu a memória quando sua alma voltou, provavelmente Shin também perdeu.

O outono vira inverno e, na primavera, o mesmo mensageiro de antes volta, nos surpreendendo com a notícia de que o imperador estava planejando vir ao nosso pequeno vilarejo para celebrar o aniversário de seu retorno milagroso. Um festival seria realizado em homenagem ao Deus do Mar, primeiro no vilarejo, depois no penhasco, e os moradores comemoram.

Logo várias caravanas chegam da capital, trazendo consigo nobres e damas da corte. Seus criados armam tendas elaboradas nos campos, animando as crianças e fazendo os mais velhos resmungarem.

Durante semanas, o vilarejo inteiro se prepara para a chegada do imperador. Lanternas são amarradas nos beirais dos prédios da praça e entre os galhos das árvores que ladeiam o caminho até os penhascos.

As fogueiras ardem noite adentro, e o barulho do ferro contra a madeira pode ser ouvido do nascer até o pôr do sol enquanto telhados são consertados e novos edifícios construídos para acomodar centenas de mercadores e artesãos que se aglomeram em nosso vilarejo na esperança de atrair os nobres.

O templo à beira-mar dedicado ao Deus do Mar volta à sua antiga glória, e um artista é contratado para pintar um mural do dragão, cercado por noventa e oito flores de lótus, em homenagem a cada noiva sacrificada para salvar nosso povo.

O trabalho duro me faz ansiar pela magia do Reino dos Espíritos, mas também é uma distração bem-vinda para quando meus pensamentos ficam pesados. A saudade que sinto é como uma farpa em meu coração.

Na manhã que precede o festival, há uma comoção intensa do lado de fora da nossa casa. Cheong e eu, sentadas perto da lareira, levantamos os olhos dos brotos de feijão.

- O que é isso? - pergunta ela.

Ouço com atenção.

- Artistas de circo?

- Talvez seja o filho mais velho de Kim de novo - brinca Cheong. -Ele está bastante determinado a te conquistar.

Atiro um broto de feijão nela.

- Só tenho dezoito anos. Não vou me casar por pelo menos mais dez anos!

A porta se abre, e Joon entra correndo. Ele se apoia no batente para recuperar o fôlego. Então abre a boca e a fecha novamente sem falar nada.

- Joon, meu amor - fala Cheong, paciente. - Quem chegou para nos visitar, fazendo todo esse estardalhaço? Estou ouvindo tambores?

- O imperador - fala Joon, ainda sem ar. - O imperador chegou!

Cheong se levanta de repente, arregalando os olhos.

- Aqui no vilarejo?

- Aqui na nossa casa! Ele está no portão!

O tempo parece desacelerar. As vozes animadas de Cheong e Joon se tornam murmúrios incompreensíveis. Ela sai correndo para contar a notícia à minha avó e Soojin, enquanto Joon dispara pelo jardim para buscar Sung. Olho para baixo e vejo que o broto de feijão que eu estava segurando está amassado na palma da minha mão.

Nós nos reunimos no pequeno pátio de nossa casa. Sung e Soojin estão na frente com Mirae, depois estão Joon e Cheong e, por fim, minha avó e eu.

Nossa criada, uma senhora que contratamos depois que Mirae nasceu, abre a porta. O imperador atravessa o portãozinho de madeira. Tento reconhecer o Deus do Mar que conheci - aquele menino assustado e tristonho -, mas ele não está mais ali. Este homem, ostentando a postura

ereta e exalando orgulho, é o jovem que vi naquela memória, que enfrentou a morte em um penhasco desolado e desejou viver. Ele corre os olhos por nós. Então seus olhos encontram os meus, e eu baixo a cabeça.

Sung se aproxima dele e diz:

- Vossa Majestade, o senhor nos honra com a sua presença.

O imperador não fala nada, e Sung tenta novamente:

- Posso lhe oferecer um refresco?

- Não - diz ele, com uma voz diferente, mais profunda e imperiosa. -Por favor, apresente-me sua família.

Sung hesita por um momento.

- Estas são minha esposa e minha filha.

Ouço o som de suas botas batendo no chão.

- Meu irmão e sua esposa, Shim Cheong. O senhor deve ter ouvido…

O imperador deve demonstrar impaciência, porque eles avançam.

- Minha avó - continua Sung.

Eles param diante de mim.

- E minha irmã.

Fico olhando para as botas do imperador.

- Qual é seu nome?

Engulo em seco com força. Por que ele está aqui? Ele não devia se lembrar de mim. Sou uma estranha para ele. O

imperador coloca o dedo sob o meu queixo e ergue meu rosto.

- Vossa Majestade… - digo. - Meu nome é Mina. Sou a filha da família Song.

- Mina - diz o imperador com uma voz profunda e desconhecida. -Vamos dar uma volta? Talvez no seu jardim?

Olho para a minha família, que me encara com olhos arregalados.

- Claro, Vossa Majestade.

Vamos para o jardim. Ele segue na frente. Está diferente do meu Deus do Mar. Seus ombros são mais largos e sua altura é a de um guerreiro. Ele tem uma espada na cintura, e seu cabelo está mais comprido. Uma estranha saudade do meu Deus do Mar vai crescendo dentro de mim. E percebo que esse Deus do Mar não existe mais. Meus olhos se enchem de lágrimas.

O imperador se vira. Ele permanece em silêncio, me observando chorar. Espero ver confusão, ou quem sabe até aversão em seu olhar. Mas ele parece… quase aliviado, como se minhas lágrimas fossem a confirmação de algo.

- Mina, peço desculpas por vir aqui assim desse jeito. Sei que isso é bastante… inesperado. Eu só… precisava ver você. A verdade é que… - Vejo seu pomo de adão se mexendo. Ele está nervoso. - A verdade é que eu sonho com você.

Pisco.

- Você… o quê?

- Tenho pesadelos. Uma lembrança de… solidão. De uma terrível impotência sobre um destino opressor. A única constante é você. Você está em todos os meus sonhos, me mostrando como sair da escuridão.

O imperador pega minha mão e a leva até a boca. Seus lábios são quentes. Seus olhos encontram os meus - e são os olhos do meu Deus do Mar, aquele menino perdido que,

 

até este momento, eu não tinha percebido que me fazia tanta falta.

- Você quer se casar comigo, Mina? Quer ser minha noiva?

Mais tarde, naquela noite, Joon e eu estamos caminhando pelo jardim. No ano anterior, não tivemos muito tempo juntos, só nós dois. Ele tem uma família agora, com Shim Cheong e o pai dela, e, algum dia, terão filhos, se forem abençoados. E, apesar de eu estar sempre em seu coração, ele precisa pensar neles primeiro. Como deve ser.

Joon suspira.

- Não acredito que o imperador está aqui. Na nossa casa.

Querendo se casar com você.

- É… quase inacreditável - digo.

Ele me empurra com o ombro.

- E você pediu uma noite para pensar. Minha irmã, dizendo ao imperador do nosso país que vai pensar na proposta…

Joon dá risada e fala baixinho:

- Confesso que me senti mal pelo filho mais velho de Kim.

Seguimos até o lago e caminhamos pela margem devagar. Ficamos em silêncio, perdidos em nossos pensamentos. Os patos nadam preguiçosamente em círculos. Quando uma nuvem obscurece a lua, bocejo.

- Vamos entrar.

 

- Espere - diz Joon, me chamando de volta com uma expressão perturbada no rosto.

- Não se preocupe - digo. - Não vou tomar nenhuma decisão precipitada. Vou escolher me casar com o imperador ou não. Nada nem ninguém pode me obrigar.

Ele balança a cabeça.

- Não, não é isso… - Ele olha para os patos no lago. -

Acho que qualquer irmão ficaria feliz por ter uma irmã imperatriz. E estou feliz por você. Ou pelo menos estaria se… - Ele se vira do lago para me encarar com olhos questionadores.

- O que está tentando dizer, Joon?

- Este ano, desde que…

Desvio o olhar, e ele não termina a frase.

- Você tenta esconder - diz ele baixinho. - Mas é como se você estivesse escapando de nós. Mina, eu só… quero que você seja feliz. Ele vai te fazer feliz?

- Você me faz feliz. Os patos me fazem feliz. O céu azul, o mar tranquilo, a paz duradoura. Todas essas coisas me fazem feliz.

- Se está feliz, por que está chorando?

Aperto os dedos contra os olhos, e eles ficam molhados.

- Não sei. Acho que eu choro muito. Tenho olhos fracos.

Meu irmão me abraça.

- Ou um coração forte.

Enterro o rosto em seu ombro. As lágrimas são infinitas, e a dor, insuportável.

Mais tarde, vou até a praia. Há nuvens escuras sobre a água. Uma tempestade se forma ao longe. No ano passado, houve várias tempestades, uma mais inofensiva do que a outra. Elas molham as plantações e mantêm nossos rios cheios. E os deuses são apreciados e amados pelo povo - o Deus do Mar mais que todos.

Espere por mim onde a terra encontra o mar, ele disse.

Mas eu te esperei todos os dias durante um ano inteiro, e você não veio. O que vou fazer? Como posso seguir em frente esperando você desse jeito, sabendo que você jamais virá?

Estamos separados pela distância, por mundos. Pela memória.

- Shin. - Seu nome é uma oração, uma súplica.

Viro as costas para o mar e pego o caminho de casa.

Deito na minha cama com lágrimas nos olhos, e acordo horas depois com o rufar de tambores e o som de uma flauta de bambu. O festival do Deus do Mar começou.