A Noiva do Deus do Mar

Axie Oh · Capítulo 23 de 38

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A Noiva do Deus do Mar

Capítulo 23

Levanto-me e quase tropeço quando minha saia fica presa em algo. Olho para baixo e vejo Shin segurando-a por

trás. Ele também percebe e me solta abruptamente, desviando o rosto para o lado.

Hesito, e então me ajoelho nos cobertores.

- Quer que eu fique aqui?

Ele olha para mim, e seus olhos desejosos me dão a resposta.

Eu me movo para alisar seu travesseiro. Então ele se inclina em minha direção, eu me aproximo dele, e seus braços me envolvem. Sinto sua respiração em meu pescoço enquanto ele me puxa para perto.

Parece impossível pegar no sono agora, com a tensão vibrando sob a minha pele e me causando dor, mas, por fim, sou embalada em um sono tranquilo, e cada batida do meu coração é um eco da batida do coração dele.

 

23

A CORDO COM UM TROVÃO RETUMBANDO a distância e sabendo com todo o meu coração o que devo fazer.

- Shin - digo, me virando para encará-lo.

Hesito. Ele está dormindo. Ao contrário da agitação da noite passada, agora ele parece em paz, as sobrancelhas relaxadas e os lábios levemente abertos. Eu daria tudo para que seu sono pudesse se prolongar um pouco mais. Mas não posso fazer isso sozinha.

- Shin - repito.

- Mina? - Ele pisca, sonolento. - O que há de errado?

- Preciso sair.

Ele franze o cenho, me observando com atenção.

- Para onde?

- Para o palácio do Deus do Mar.

Seus olhos obscurecem, mas ele concorda:

- Tudo bem.

Ele se levanta, pega um conjunto limpo de vestes no armário e sai do quarto. Apressada, visto uma saia coral e

uma blusa branca e desço a escada correndo. Shin está me esperando do lado de fora com Namgi e Kirin, e o ar está coberto por uma névoa pesada. Ao leste, nuvens escuras pairam sobre as montanhas.

- Algo não está certo - diz Kirin. - Aquela tempestade não parece natural.

- Se ela está vindo das montanhas do leste - fala Namgi -, é porque vêm do mundo dos humanos. - Eles trocam um olhar inescrutável.- Vamos - diz Shin.

A névoa se estende por toda a cidade, pairando sobre o chão feito nuvem. As portas do palácio do Deus do Mar estão fechadas, então Namgi escala o muro e joga uma corda para Shin e Kirin; eu vou agarrada às costas de Shin.

Além do muro, o jardim do Deus do Mar está estranhamente silencioso. O nevoeiro nos envolve feito gavinhas fantasmagóricas estendendo-se para nos engolir.

Shin vai na frente e Namgi segue a meu lado, como sempre. Para minha surpresa, Kirin me escolta do outro lado.

- Então você decidiu o que quer - diz Kirin em um tom esquisito.

Sua animosidade é palpável.

- O que está tentando me dizer? - pergunto.

- Ontem à noite, lorde Grou estava ansioso para nos relatar o que tinha lhe contado, que o Fio Vermelho do Destino que liga você a Shin pode ser desfeito se você formar uma conexão com o Deus do Mar.

Então Shin sabia. Olho para ele, caminhando na frente. A névoa é tão densa que é improvável que ele esteja nos

escutando.

- Não é uma decisão só minha. Shin também pode formar uma conexão com outra pessoa.

- A modéstia não combina com você. A escolha está em suas mãos.

- Meus sentimentos não são assim tão simples - sussurro.

- A indecisão também não é.

Vacilo, mas não culpo Kirin. Agora vejo sua lealdade a Shin.

- Isso não é justo com Mina - Namgi o repreende. - Não é tão fácil assim para ela seguir o coração. Ela tem um dever para cumprir com sua família, seu povo.

Kirin grunhe.

- Então eu deveria elogiá-la por seu senso de lealdade e condenar você por não o ter.

Namgi fica tenso.

- Eu sou leal.

- É por isso que você abandonou seus irmãos, sua família, seu sangue? Isso não o torna menos monstruoso, Namgi. - A voz de Kirin é fria e implacável. - Só o torna um traidor.

Namgi fica completamente imóvel. Depois, seus ombros se curvam, e ele parece se entregar. Ele diz, em um tom derrotado muito diferente de seu tom cordial:

- Às vezes a família não está no sangue, mas em outro lugar.

E, apesar de as palavras duras terem sido proferidas por Kirin, é Namgi quem desvia o rosto, como se estivesse magoado.

Namgi se afasta e a névoa o engole. Espero alguns minutos, e quando ele não volta, pergunto, preocupada:

- Será que devemos ir atrás de Namgi? Ele pode ter se perdido no meio da névoa.

Das profundezas nebulosas, ouvimos um grito abafado.

- Namgi! - grita Kirin, levando a mão à espada em sua cintura.- Vá procurá-lo - digo. - Eu vou seguir o Fio Vermelho do Destino para encontrar Shin.

Ele me olha, acena com a cabeça e desaparece na névoa.

A chuva volta a cair, e logo minha roupa está encharcada. Talvez tenha sido um erro querer procurar o Deus do Mar em vez de esperar a tempestade passar, mas, no fundo, desde o instante em que acordei esta manhã, eu soube que, se eu não o procurasse agora, provavelmente nunca mais o procuraria. Posso acabar me desviando do caminho que escolhi para mim quando pulei no mar e, em vez disso, seguir meu coração.

A chuva se transforma em um chuvisco leve. Sigo o Fio Vermelho do Destino névoa adentro, vibrando no ar úmido até o pavilhão do Lago dos Barquinhos de Papel. É ali que encontro Shin, no centro da elegante estrutura de madeira.

Com ele, está o Deus do Mar.

Se Shin está surpreso por vê-lo acordado, ele toma o cuidado de não demonstrar. Talvez ele tema - como eu - que o deus possa fugir, levando consigo a chance de resolver o mistério desse feitiço.

- Veio me contar mais uma história? - pergunta o deus-menino.

Ele está usando as mesmas vestes grandiosas do primeiro dia em que o vi, com dragões bordados em prata no peito. Mais uma vez, fico perplexa por ele se parecer tanto com uma criança, querendo ouvir uma história em vez de enfrentar a verdade.

No mesmo instante, me repreendo. Minha avó me daria uma bronca por pensar assim. Às vezes a verdade só pode ser ouvida através de uma história.

- Se for o que você quer - digo, apesar de não saber qual história contar.

Encontro o olhar de Shin por sobre o ombro do deus-menino. Escolho uma história de amor, a favorita de Joon.

- Muito tempo atrás, havia um lenhador que vivia nos limites de uma grande floresta. Ele era jovem, forte e bondoso. Também era bastante solitário. Uma noite, ao voltar para casa, ouviu risadas em meio às árvores. Curioso, seguiu os sons adoráveis. Debaixo de uma magnífica árvore dourada, encontrou duas donzelas celestiais nadando em uma pequena lagoa formada por pedras. Seus lindos vestidos brancos flutuavam atrás delas. Ambas haviam tirado suas asas e as pendurado em um galho baixo da árvore dourada.

Gotas pesadas começam a tamborilar no telhado do pavilhão. Levanto a voz para me fazer ouvir.

- O lenhador contou três pares de asas pendurados no galho, mas só havia duas donzelas no lago. Então, algo branco no meio da mata verdejante chamou sua atenção. A terceira donzela estava se aproximando por entre as árvores. Ela foi até o lago, mas não entrou na água. Em vez disso, olhou para as árvores, para as estrelas e fechou um

olho para enxergar melhor. O lenhador se apaixonou ali mesmo. E decidiu roubar suas asas.

Tanto Shin quanto o Deus do Mar franzem o cenho, mas nenhum deles fala nada, ouvindo a história com atenção.

- Quando suas irmãs voltaram para o céu, usando suas fortes asas para subir, a donzela mais nova ficou sozinha sem suas asas. Foi aí que o jovem lenhador se aproximou, oferecendo-lhe seu manto. Ela o aceitou, encantada por sua humildade e por seu amor por ela. Eles construíram uma vida juntos. Não podiam ter filhos, já que ela não era deste mundo, mas foram felizes por muito tempo.

O Deus do Mar vira o rosto para o jardim, como se estivesse distraído.

- Mas, assim como a vida, o lenhador ficou mais velho e mais sábio. Ele percebeu que o amor que sentiu em um instante não era nada comparado ao amor construído ao longo de uma vida toda. Embora a decisão pesasse em sua alma, ele sabia o que tinha que fazer. Pois sabia que, se realmente amava a donzela celestial, ele teria que deixá-la ir.

Enquanto falo, olho para Shin. Ele tem uma expressão pungente no rosto. Respiro fundo para terminar a história.

- De noite, ele foi até a floresta e desenterrou as asas dela no local em que as escondera, debaixo da árvore dourada. Ele as colocou ao lado da esposa enquanto ela dormia e voltou à floresta para chorar.

“Na noite seguinte, ele foi para casa e descobriu que sua donzela celestial não estava mais lá, assim como suas asas.

Com lágrimas nos olhos, ele saiu para olhar para o céu.

Havia mais uma estrela entre as outras. E, apesar de chorar

pelo que tinha perdido, ele também estava feliz. Porque soube que sua donzela celestial tinha voltado para seu lar.”

À medida que pronuncio as últimas palavras, o Deus do Mar ergue o rosto para olhar para a tempestade. Ele leva a mão ao peito e enfia os dedos no tecido de sua roupa.

- Estou sentindo uma pontada na alma. - De repente, ele salta para fora do pavilhão e sai correndo em direção à chuva.

- Espere!

Vou atrás dele. Ouço Shin gritando às minhas costas, mas a chuva abafa tudo. A névoa me cerca e logo estou perdida. Tento voltar para o pavilhão, mas não faço ideia se estou indo na direção certa. Mal consigo ver o Fio Vermelho do Destino em meio à neblina pesada.

Meu pé se enrosca em algo no chão e eu cambaleio para a frente, caindo diante de uma grande escadaria - a mesma que subi quando cheguei a esta cidade. Acima dela estão os portões do palácio do Deus do Mar, cujas portas estão abertas agora. Como é que vim parar aqui, se estava no jardim?

Atrás de mim, ouço o inconfundível som de cascos batendo na pedra. Viro-me e deparo com uma figura se aproximando em meio à névoa - a Deusa da Lua e da Memória. Assim como antes, sua montaria é um grande cavalo com chamas no lugar de cascos.

- Eu avisei o que aconteceria quando te encontrasse sozinha - diz ela.

- Você disse que iria me matar.

Ela me observa com olhos frios e impassíveis.

- Não está com medo?

- Estou. Mas, me diga, você ainda ia querer me matar se eu não fosse a noiva do Deus do Mar? Se eu fosse uma criança, como Dai? Se eu fosse alguém que acreditasse que você poderia me ajudar?

- Você não é nenhuma dessas coisas.

- Sou a última.

Por um momento, seus olhos cintilam, então ela vira o rosto.

- Você está enganada.

De suas largas mangas, ela tira dois barquinhos de papel. Eu reconheço imediatamente o que está em sua mão esquerda, com pontos vermelhos e tortos. É o meu desejo.- Como conseguiu isso?

- Sou a Deusa da Lua e da Memória. Este barco guarda a memória de um desejo que você fez.

- Você viu qual é o desejo?

Ela me observa com atenção.

- Não. Não consigo ver esta memória, porque ela está intimamente ligada à sua alma. - Estico o braço, mas ela afasta o barquinho. - O que você ofereceria por este pedaço da sua alma?

Olho para ela sem falar nada. Se esta é uma batalha de vontades, ela já ganhou, pois eu daria tudo para ter essa memória de volta, para atirá-la no fogo, onde é seu lugar.

Ela enfia o primeiro barquinho na manga de sua veste e me oferece o segundo, que eu tinha momentaneamente esquecido, pensando em meu desejo.

- Este pertence a alguém que você conhece. Talvez você possa devolvê-lo.

A deusa olha por sobre o meu ombro, e eu sigo seu olhar.

A chuva está tão pesada que, por um instante, não reconheço a jovem caminhando no meio do aguaceiro.

Shim Cheong.