A Noiva do Deus do Mar
Capítulo 29
Os Imugis estão aqui.
29
D ISPARO PELAS RUAS COM SHIN. Os espíritos correm para se esconder debaixo dos edifícios ou para pular no canal enquanto a chuva de Imugis ataca a cidade.
À nossa frente, um raio atinge uma casa de chá, abrindo um buraco no telhado em camadas. Os clientes se lançam para a porta já fumegante, tropeçando nos próprios pés em meio ao pânico e ao medo. Saio apressada para ajudar uma mulher a se levantar, enquanto Shin carrega um menino até o canal, jogando-o na água rasa para apagar as chamas em sua blusa. Mais gritos cortam a noite não muito longe de nós. Observo Shin ficar tenso, instintivamente inclinando a cabeça na direção do som.
- Vá - digo, e aponto para as pessoas amontoadas e tossindo no chão da casa de chá. - Vou ajudar os outros, e depois correrei para a Casa de Lótus. Já conheço o caminho.
Um Imugi ruge pela rua, e outros gritos se seguem.- Casa de Lótus - repete Shin. - Não demore mais que uma hora.
Assinto. Ele sustenta meu olhar por um segundo antes de disparar na direção dos gritos.
Levo o restante das pessoas até o canal, agora abarrotado de espíritos tentando escapar das chamas.
Quando o último cliente da casa de chá está seguro na água, saio correndo pelas mesmas ruas que percorri antes com Namgi e Nari. Só que, dessa vez, no lugar de alegria, sinto apenas angústia ao passar por lanternas quebradas e pipas amassadas.
Estou quase na ponte que leva à Casa de Lótus quando ouço um som horrível de algo rastejando. Entro em um beco depressa e me encosto na parede bem quando um Imugi passa, sem me notar nas sombras.
A viela está deserta. Há apenas uma pequena alcova um pouco mais para baixo que parece abrigar um altar -
reconheço a familiar tábua de pedra e a tigela para oferendas. Varetas de incenso lançam fumaça no ar. O
santuário provavelmente é dedicado a um deus local, sendo um lugar para os espíritos se reunirem e pedirem favores à divindade.
À medida que me aproximo, o cheiro forte de incenso me inunda, fumegante e amargo. Então noto um objeto flutuando na tigela de oferendas. É um barquinho de papel que foi rasgado ao meio e costurado novamente.
Um calafrio desce por minha espinha. Devagar, levanto os olhos para ler as palavras escritas na pedra.
Este altar é dedicado à Deusa da Lua e da Memória.
Ouço uma risada suave flutuando pelo ar.
Viro-me para encarar a deusa.
Ela está usando um vestido branco bastante simples com uma faixa vermelha na cintura. Mesmo sem sua enorme montaria, ela é aterrorizante, com o dobro da minha altura e chamas nos olhos. Ela ergue o queixo de leve, e seus olhos estão brilhando.
- Por que não pega o barquinho? Vamos descobrir seu desejo mais profundo.
Engulo meu medo.
- Os Imugis são seus servos, não são? Por que você os deixou causar tanta destruição? Não acha que esta cidade e estas pessoas já sofreram demais?
Ela continua como se eu não tivesse falado nada:
- Quando eu vislumbrar a sua memória, ela vai pertencer a mim. E eu vou ficar com aquela parte de você que deseja ser a noiva do Deus do Mar.
O quebra-cabeça de suas palavras se encaixa, e acho que finalmente entendi o que ela quer. Viro para a tigela e pego o barquinho. Quando olho para trás, preciso morder a língua para não gritar. A deusa se moveu sem fazer barulho e está a meu lado. Ela está tão perto que posso ver as chamas em seus olhos queimando com força. Desdobro o papel e o ofereço a ela.
- Está me oferecendo de maneira voluntária?
Durante as tempestades, ela me disse que não podia ver minha memória porque ela estava intimamente ligada à minha alma. A deusa só vai exercer poder sobre mim se eu a oferecer por vontade própria.
- Você vai levar os Imugis embora se eu te der essa memória?
A deusa me olha com atenção; as chamas em seus olhos permanecem estáveis.
- Sim.
- Então a ofereço voluntariamente.
Ela abre um sorriso triunfante.
- Então você é uma tola. Porque, apesar de ter salvado a cidade por esta noite, você jogou fora a chance de salvá-la para sempre. A memória contida neste papel pertence a mim agora, e eu vou destruí-la junto com seu desejo de ser a noiva do Deus do Mar.
Ela segura o papel, e a memória emerge, tomando conta de tudo.
Estou no jardim atrás da minha casa, e a deusa está comigo. Assim como o desejo que encontrei no Lago dos Barquinhos de Papel, esta memória está turva, como se estivesse coberta por um véu de névoa. A deusa parece deslocada ali, parada em uma postura majestosa ao lado do lago do meu avô.
Enquanto observa a cena diante de si, sua expressão de antecipação se transforma lentamente em confusão. Eu me preparo e sigo seu olhar.
Uma garota está ajoelhada diante de um altar quebrado.
Uma senhora idosa está de pé ao lado dela, com as mãos trêmulas e ásperas pelo trabalho duro sobre a cabeça baixa da garota.
Fecho os olhos. Afinal, não preciso ver esta memória para me lembrar.
- Mina! - grita minha avó. - O que você fez?
À minha volta, estão os restos do que sobrou do altar. A comida - o pouco que peguei das minhas próprias refeições
-, dedicada à Deusa das Mulheres e das Crianças, está espalhada no chão. O tapete de palha velho, onde eu me ajoelhava todos os dias por horas com a testa pressionada contra a terra, está todo rasgado.
Olho para minha avó tremendo diante de meu sofrimento e das lágrimas em meus olhos.
- Minhas oferendas não foram suficientes? Minhas orações não eram poderosas o bastante? Talvez eu deva abandoná-la de uma vez. Uma deusa abandonada deve morrer da mesma forma que as pessoas que ela esqueceu.
Minha avó suspira de horror.
- Fique brava com a deusa, Mina. Mas nunca - ela agarra meus ombros trêmulos -, nunca perca sua fé nela.
Atrás de nós, ouvimos um lamento seguido de um estrondo. Minha avó segura a saia e sai correndo, alarmada pelos gritos agonizantes da minha cunhada, enlouquecida de dor. A culpa me domina. O que é minha dor em comparação com a dela?
Estico o braço e corro os dedos devagar pelas oferendas expostas no altar - um sino de vento de estrelas e lua para trazer sorte e felicidade, tigelas de arroz e caldo para trazer saúde e vida longa e um barquinho de papel para guiar minha sobrinha em segurança para casa. Apesar de eu fazer os mesmos pedidos todos os anos no festival dos barquinhos de papel - uma boa colheita, saúde para minha família e meus entes queridos -, este ano eu trouxe o
barquinho para casa a fim de colocá-lo no altar, porque não queria que nada se colocasse entre a deusa e meu desejo.
Arranco o barquinho do altar e o rasgo em dois.
Assim como o barquinho, a deusa e eu somos arrancadas da memória. Estamos de volta ao beco, e nos afastamos do altar.
- Você me enganou! - grita ela. - Seu desejo não era ser a noiva do Deus do Mar!
Eu deveria estar me sentindo vitoriosa. Ela presumiu errado. Ela pensou que, se conseguisse roubar a memória de quando eu desejei ser a noiva do Deus do Mar, ela poderia roubar esse desejo de mim. Mas eu nunca desejei ser a noiva dele, nem nunca quis ser sua salvadora.
A deusa e eu concordamos em uma coisa: o desejo é uma parte de sua alma. O verdadeiro desejo, se não for realizado, pode partir seu coração.
Mesmo ali no beco silencioso, consigo ouvir os servos dela pairando sobre nós.
- Sua irmã perdeu o filho - diz ela baixinho.
Há algo estranho em sua voz. Então percebo o que é: tristeza. Lágrimas escorrem por seu rosto. As chamas de seus olhos se apagam.
- Ela é minha cunhada, a esposa do meu irmão mais velho. Ela perdeu a filha.
A deusa recua, uma mão sobre o peito.
- Preciso ir - diz ela. O vento sopra no beco. O vestido da deusa esvoaça. Penas brancas e vermelhas se soltam do tecido e formam um redemoinho ao seu redor. O vento fica mais forte, e levanto a mão para me proteger da onda de penas e poeira.
E, quando o vento passa, estou sozinha mais uma vez.
Mesmo que a deusa tenha se retirado, os Imugis continuam vagando furiosos pela cidade. Do beco, posso ouvir os gritos, sentir o tremor dos corpos se movendo pelas ruas.
Meu coração dói toda vez que um choro silencioso assombra a noite. Havia tantas crianças no festival. Penso no menino me pedindo timidamente um beijo, na menina alegre no balanço, no povo comemorando o fim das tormentas. Deve ter sido por isso que a deusa atacou. Mas por que ela foi embora? Vêm-me à mente sua expressão, as chamas apagadas de seus olhos depois de ver a memória.
Seria pena o que vi ali?
De qualquer forma, não importa. Ela foi embora sem chamar seus Imugis, portanto, quebrou nosso trato. E a cidade que, alguns dias atrás, estava inundada por conta da tempestade, agora arde em chamas.
Penso no pesadelo do Deus do Mar, na cidade ardente que vi em seus olhos. Esta cidade reflete aquela memória, com a fumaça subindo e sufocando as nuvens. Quando isso vai acabar?
Acima, vejo uma figura saltando sobre os telhados. Sua sombra cai sobre mim.
Kirin.
Saio correndo pelo beco até encontrar a rua larga onde ele termina. Uma enorme serpente marinha se debate por toda a sua extensão, acertando os edifícios ao redor, que desmoronam com o impacto. Kirin dispara e pula da beira de um telhado. Em um movimento rápido, ele desembainha a espada e mergulha a lâmina no pescoço da criatura. A besta solta um grito terrível. Ele salta para longe quando o corpo da serpente começa a se contorcer em seus estertores de morte, cuspindo sangue e veneno. Eu me agacho atrás de uma série de barris enquanto o sangue respinga na parede, incendiando a madeira rapidamente.
Kirin cai no chão a meu lado.
- Mina! O que está fazendo aqui? Você está bem?
- Estou. Estava indo para a Casa de Lótus para encontrar Shin.
- Vamos juntos. - Ele se vira, mas para de repente, estreitando os olhos. - Este é…
Sigo seu olhar. Namgi se move erraticamente no céu em sua forma Imugi. Atrás de sua cauda há um enxame de serpentes.
- Esse idiota! - grita Kirin. - Ele está levando os Imugis para fora da cidade. Mas ele não vai conseguir.
Kirin sai correndo, e eu vou atrás. Estamos quase no rio quando Namgi afunda, desaparecendo sob o enxame.
Ouvimos um estrondo terrível, e a massa de serpentes se divide. Namgi, de volta a seu corpo humano, cai do céu.
- Namgi! - grita Kirin.
Disparamos pela rua, virando a esquina para encontrar Namgi todo surrado e quebrado no chão. Kirin avança, se jogando ao lado da forma inerte do colega. Ele pega uma faca da cintura e leva a lâmina à palma da mão. Mas, antes que se corte, Namgi estica o braço e agarra seu pulso.
- Não, Kirin - diz ele, vertendo sangue pela garganta. -Minhas feridas não podem ser curadas tão facilmente. Não dessa vez.
Ele tem razão, mas Kirin não deixa de grunhir de frustração.
- Por que você é tão impulsivo? - berra ele. - Pensei que você só queria se tornar um dragão. Você se esqueceu? Um Imugi só pode se transformar em dragão se tiver vivido mil anos.
Namgi tosse. E mesmo com sangue escorrendo por seus dentes, ele sorri.
- Isso. Mil anos. Eu não acreditava nesses imbecis que pensavam que conseguiriam se transformar em dragões lutando batalhas infinitas. Será que eles não entendem o que é um dragão de verdade? Os Imugis vivem para causar morte e destruição, mas os dragões são a manifestação da paz. - Ele tosse de novo, demorando mais para deixar de tremer. Kirin segura sua mão, e Namgi olha para ele com uma expressão juvenil e temerosa. - Eu queria… queria ser um dragão, Kirin. Era só o que eu queria. Queria ser sábio e bom. Queria ser pleno.
Kirin aperta sua mão com mais força.
- Você é, Namgi.
E diante dos nossos olhos, o corpo de Namgi começa a desaparecer.
Olho para eles, desesperada.
- O que está acontecendo?
- Ele está perdendo a alma - engasga Kirin. - Rápido, precisamos levá-lo até o rio. Me ajude, Mina.
Juntos, colocamos Namgi nas costas de Kirin. Sigo na frente, verificando as esquinas, em busca de serpentes no meio do caminho.
À nossa volta e acima de nós, a batalha continua. Vejo de relance o Deus da Morte, Shiki, pulando de telhado em telhado, liderando um bando de guerreiros com arcos pendurados
nas
costas.
Procuro
Shin,
mas
fico
decepcionada por não encontrá-lo entre eles.
Chegamos ao rio. Ao contrário da noite da tempestade, agora ele está calmo. Alguns corpos flutuam em sua superfície. Kirin e eu gentilmente tiramos Namgi de suas costas e o deitamos na margem.
- Procure Namgi - diz Kirin, desabotoando a jaqueta. - Ele vai descer pelo rio.
A ideia me aterroriza. Apenas os recém-falecidos podem entrar no Rio das Almas. Será que Namgi já está… morto?
Ele está absolutamente imóvel. Um cacho de cabelo está caído sobre seu rosto pálido. Sem sua alma vibrante para animá-lo, ele parece vazio…
- Mina! - grita Kirin.
Desvio os olhos do corpo de Namgi para o rio. Preciso me concentrar. Ele ainda não partiu.
A princípio, só vejo desconhecidos, homens mais velhos e mulheres, sombras fantasmagóricas na água. Até que…- Ali! - Aponto para um corpo esguio e familiar.
Namgi está flutuando com o rosto virado para baixo. Olho para Kirin, se aproximando do rio.
- Kirin - digo, subitamente percebendo o que ele está prestes a fazer-, Shin disse que apenas os mortos podem entrar no rio. A correnteza vai levar sua alma embora.
- Não vou entrar no rio.
Kirin está bem na borda da margem; a água espirra em seus pés. Seu corpo começa a tremer e sua pele emite um lindo brilho prateado. Seu corpo humano se transforma. Há uma explosão cintilante, como se uma estrela tivesse se fragmentado. Então uma besta mitológica emerge da luz, batendo os cascos na pedra. E, no lugar de Kirin, agora há uma magnífica besta de quatro patas com dois chifres e uma juba de fogo branco. Ela tem a forma, o corpo e os membros de um veado, mas a altura e a força de um cavalo.
- Kirin? - sussurro, e a criatura me encara com seus olhos prateados.
Ele joga a cabeça para trás, batendo os cascos no ar. Em seguida, salta da margem para a água. Ele não afunda, mas caminha na superfície. A cada passo, a luz radiante de seus cascos pulsa para fora, deixando um rastro de incandescência.
Kirin alcança o corpo de Namgi no rio, dando um cutucão em seu ombro com o nariz. Quando Namgi abre os olhos, suspiro de alívio. Ele agarra o pescoço de Kirin e se iça para as costas largas da besta. Devagar para que Namgi não caia, Kirin volta para a margem.
Ouço um grito agudo vindo do céu. Uma serpente está dando voltas sobre o rio, de olho em Kirin e Namgi. Se ela atacar, será o fim. Mesmo que Kirin consiga enfrentá-la em sua forma de besta, ele não pode arriscar derrubar Namgi.
Com uma mão, pego o punhal da minha tataravó e, com a outra, levanto a saia. Dou meia-volta e disparo para a
cidade. Ouço mais um grito no ar - a serpente me avistou.
Corro o mais rápido que consigo.
Sei que estou sendo imprudente. Namgi e Kirin jamais me pediriam -para arriscar minha vida pela deles. Mas não consigo evitar. É verdade que as pessoas fazem as coisas mais desesperadas por quem amam. Algumas até chamam isso de sacrifício - talvez seja o que pensaram quando pulei no mar no lugar de Shim Cheong. Mas, para mim, deve ser o contrário. Acho que seria um terrível sacrifício não fazer nada.
Fora que nunca pensei no bem de ninguém além do meu.
Eu não seria capaz de suportar viver em um mundo em que eu simplesmente não fizesse nada, em que eu deixasse quem amo sofrer e ser ferido. Se eu tivesse ficado em casa, se nunca tivesse ido atrás de Joon, se eu nunca tivesse pulado no mar, haveria um buraco gigante no meu coração
- o vazio de saber que não fiz nada.
Ainda assim, enquanto olho para as serpentes me perseguindo e para as que estão bloqueando o meu caminho, fico desejando que as circunstâncias não fossem tão nefastas.
Estou no bulevar principal do lado de fora do palácio do Deus do Mar. O espaço aberto é invadido por serpentes marinhas deslizando por todos os becos e escalando os muitos telhados. Estou cercada. Meu peito lateja com a pressão dos meus pulmões. Meu ombro dói com o ferimento deixado pelo assassino.
As serpentes estão todas vindo na minha direção, grandes e assustadoras. Seguro o punhal com as duas mãos. Posso ver as pessoas me olhando dos prédios. Mais cedo, um menino me chamou de noiva do Deus do Mar e me pediu um beijo. Não vou decepcioná-lo agora. Afinal, eu sou uma noiva do Deus do Mar. Talvez eu não seja a noiva, mas sou uma garota que um dia quis, em um mundo muito distante deste, um destino diferente daquele que recebeu -
um destino ao qual eu pudesse me agarrar e nunca mais soltar.
Um rugido terrível sacode a cidade.
Olho para cima.
Um dragão vem descendo do céu.
Ele é imenso, com cerca de três vezes o tamanho da maior serpente. Ele varre sua longa cauda pela rua, arremessando os Imugis contra os edifícios. Feito uma matilha, eles tentam se aproximar do dragão, mas ele ataca, se debatendo e se contorcendo. Um vento gelado sopra. Cacos de gelo afiados feito vidro chicoteiam no ar, perfurando a pele grossa das cobras. Uma a uma, elas caem no chão, transformando-se em homens. Os outros saem voando, lamentando sua derrota.
O terrível dragão, todo ensanguentado, solta outro rugido. Ele gira a cabeça ferozmente, procurando um novo inimigo.
Dou um passo para trás e tropeço na escada do palácio do Deus do Mar. O dragão percebe o movimento. Ao contrário do que aconteceu no barco, quando minha raiva me deu coragem, agora sinto o medo me dominar. O dragão reduz a distância entre nós, cravando as quatro garras curvas no terreno acidentado, deixando grandes buracos em seu rastro.
- Mina!
Shin está parado no telhado do prédio mais próximo. Ele salta, rola no chão e dispara até mim. Ele se aproxima e me puxa para seus braços. Está cheirando a suor, sangue e sal.
Abraço-o com vontade, tirando forças das batidas de seu coração.
Ele me solta e se coloca entre mim e o dragão.
- Não vou deixar que você a machuque.
Respiro fundo, me lembrando de Joon e Cheong no barco.
O dragão abaixa a cabeça, expondo fileiras e mais fileiras de presas mortais. Shin desembainha a espada e abre a mão para reposicionar a arma, segurando o cabo com força.
Seus ombros estão tensos, prontos para atacar.
Uma voz diz:
- Minha alma nunca machucaria minha noiva.
O Deus do Mar está parado nos degraus do palácio.
Ele está usando suas vestes cerimoniais. O emblema dourado em seu peito mostra o dragão como se apresenta agora, poderoso e feroz. Já o deus-menino parece pálido, mas está inegavelmente desperto.
Então os boatos são verdadeiros. O Deus do Mar acordou por causa daquela noite em que eu o segurei em meus braços enquanto sua tristeza chovia sobre os dois mundos.
Minhas mãos começam a tremer, e as escondo na saia.
- Eu o servi bem, meu senhor - diz Shin, abaixando a espada. -Protegi sua casa. Protegi sua pessoa…
- E protegeu minha noiva.
- Mas não posso servi-lo nisto.
Os olhos do Deus do Mar cintilam, furiosos.- Está contra mim? Eu sou um deus!
- Assim como eu - diz Shin com ferocidade.
O dragão avança ameaçadoramente. Cerro os punhos e estremeço de dor. Esqueci que estava segurando o punhal.
O sangue escorre sobre a cicatriz na palma da minha mão, há tanto tempo escondida debaixo do Fio Vermelho do Destino - naquela ocasião, passei essa mesma lâmina contra minha pele e prometi minha vida ao Deus do Mar.
- Mina? - Levo um tempo para perceber que o Deus do Mar está falando comigo.
Apesar de sua aparência grandiosa, das vestes magníficas, do palácio atrás e do dragão diante de si, seus olhos são exatamente os mesmos que vi em seu salão.
Estão repletos de um imenso sofrimento.
- Você vem comigo? - pergunta ele baixinho. Na vastidão do bulevar, sua voz é quase um sussurro. - Quer ser minha noiva? Eu fiz o que você pediu. Acabei com as tempestades.
Tomei meu lugar de direito entre os deuses e entre o meu povo. Eu… eu acordei.
Ele vacila por um momento, mas depois levanta o rosto.
- Sou o Deus do Mar. E você é minha noiva. Venha comigo agora, como você disse que faria. Você prometeu.
Olho para Shin e para o dragão, assomando de trás dele.
Se eu disser não para o Deus do Mar, será que o dragão, com raiva, vai atacar Shin? O dragão me observa, à espera.- Mina - diz Shin, uma pontada de pânico na voz. - Você não precisa fazer isso.
- Você mesmo disse isso, Shin - murmuro. - Você sabe por que eu vim. Sempre foi para proteger minha família. - Olho para a cidade além dele e do dragão. As lanternas do festival, que antes brilhavam tanto, agora estão rasgadas e despedaçadas. As pessoas nos observam dos prédios em
ruínas, com olhos arregalados e rostos sujos de fuligem. - Eu tenho que fazer isto. Não está vendo? Acho… acho que sou a noiva do Deus do Mar.
- Mina… - diz Shin com uma voz rouca. - Por favor, não faça isso.
- Sinto muito.
Viro no instante em que as lágrimas começam a cair, alcanço os degraus do palácio e pego a mão que o Deus do Mar estende para mim. Ele me leva escada acima e, juntos, atravessamos o portão. O vento sopra quando o dragão levanta voo, deslizando sobre nós. Meus pensamentos estão turvos. Meu coração bate forte em meu peito, fazendo um barulho oco.
No último segundo, olho para trás.
Shin está parado do lado de fora do palácio do Deus do Mar, com a cabeça baixa. Ele não ergue o olhar nem quando as portas se fecham.