A Noiva do Deus do Mar
Capítulo 7
Suspiro, perplexa.
- Nari?
7
Q UANDO EU ERA CRIANÇA, HAVIA UMA GAROTA NO VILAREJO que eu admirava mais do que todas as outras, em parte porque eu morria de medo dela. Ela era amiga de Joon, dois anos mais velha do que eu. Era tão luminosa quanto o dia, e tinha um coração destemido. Joon tem uma natureza gentil, e por ser alto demais para sua idade, ele sempre era alvo de provocações das outras crianças.
Era Nari quem o defendia. Quando ela se colocava entre os valentões, eles a ouviam. Quando ela recriminava a crueldade deles, eles imploravam perdão. Cair nas graças de Nari era como ter o sol brilhando consigo. Ou pelo menos era isso que eu imaginava; ela nunca ligou muito para mim.
A última vez que a vi foi um ano atrás, quando ela pulou no rio inundado pela tempestade para resgatar os barcos que tinham sido arrastados da doca. Mas o rio subiu e levou tudo - incluindo Nari -para o mar. Nunca pensei que fosse vê-la de novo. E aqui está ela diante de mim, sorrindo e chorando.
- Mina, não pode ser! - Ela me faz cruzar a soleira e me envolve em um abraço apertado. Ela cheira a flores silvestres e juncos resistentes que crescem ao lado do rio. -
Se está aqui, significa que… que você está morta!
Ah, claro que ela ia pensar isso. O único jeito de entrar no Reino dos Espíritos é morrendo ou sendo trazida pelo dragão. Mas, assim como todo mundo no vilarejo, ela sempre soube que Shim Cheong era a noiva deste ano.
- Estou viva, só que… - Suspiro. Ela não pode me ouvir.
- E Joon! Coitadinho do seu irmão! Perder você e Cheong na mesma noite… ele deve estar arrasado. Me conte, como aconteceu? Você se afogou no meio da tempestade? Foram atacados por bandidos do norte?
- Você não entendeu nada! - interrompe uma voz alta e indignada. -Ela não está morta! Ela é a noiva do Deus do Mar.
Nari me solta e se vira para Dai, parado do lado de fora da porta, sozinho. Mascarada e Miki desapareceram.
- Quem é este garoto, Mina? - pergunta Nari, franzindo o cenho. -Ele está te incomodando? É só falar e eu me livro dele. - Ela pega uma longa vara com uma lâmina curva na extremidade que está encostada no muro. Não tinha percebido, mas ela usa as mesmas vestes e armadura pretas que os guardas do lado de fora do portão principal.
- Sou amigo de Mina! - grita Dai. - Ao contrário de você, que a acusa de estar morta quando ela claramente é a noiva do Deus do Mar.
Nari arregala os olhos.
- Noiva? Mas… em que ano estamos? Faz cem anos que o imperador desapareceu. Eles iam sacrificar Shim Cheong, se me lembro direito. E todas as noivas têm dezoito anos. Você deve ter dezesseis agora, a mesma idade que eu tinha quando morri. Mina, por que não está falando nada?
- Não consigo falar.
- Ela não consegue falar - explica Dai. - Sua voz foi roubada e transformada em uma ave!
Eu acharia bastante difícil acreditar nessa história.
- Ah - diz Nari. - Faz sentido. No ano passado, houve uma baita confusão depois que lorde Shin cortou o Fio Vermelho do Destino de Hyeri e a alma dela virou um peixinho. Seu amante, Shiki, o Deus da Morte, exigiu que ela fosse devolvida. Mas lorde Shin se recusou e rolou uma grande batalha aqui mesmo nesta casa.
Dai inclina a cabeça para o lado.
- Quem ganhou?
- Não se sabe ao certo. Quem assistiu à batalha acha que lorde Shin tinha vantagem e teria ganhado se Hyeri não tivesse interrompido no último minuto.
O que significa que Shin perdeu. Sinto uma certa satisfação presunçosa ao saber disso.
- Mas ainda resta uma pergunta. - Dai se aproxima e fala em um tom conspiratório: - Você se oporia aos desejos do seu senhor?
- Claro que não. - Nari segura sua vara firmemente. - Sou uma serva leal da Casa de Lótus.
Dai agarra meu braço.
- Vamos embora, Mina.
- Esperem! - Nari agarra minha manga. - Se você é mesmo a noiva do Deus do Mar, então veio recuperar sua alma. - Ela faz uma careta, franzindo as sobrancelhas
enquanto reflete. - Eu lembro de você, Mina. Lembro que você costumava seguir Joon e eu para as praias e pelas trilhas da floresta. Tenho que admitir que te achava irritante. Nunca fui muito paciente, sempre queria sair correndo na frente.
Ela faz uma pausa. Seus olhos escuros ficam pensativos.
- Eu não era como Joon. Eu costumava pensar “Então é assim que é ter uma irmãzinha?”. Eu não tinha como saber, sendo filha única. Joon sempre caminhava mais devagar, sabendo que você estava nos seguindo.
Meu peito aperta.
- Ele te amava, Mina. E eu o amava como um amigo verdadeiro. Tenho uma nova vida aqui que eu planejo prolongar o máximo que puder, mas vou te ajudar. Por você e pelo seu irmão. Pode confiar em mim.
Dessa vez ela oferece uma mão e eu a aceito. Dai sorri, observando da porta.
- Qual era o plano para entrar? - pergunta Nari para ele.
- Pensei que ela podia se passar por criada.
Nari dá um passo para trás a fim de me avaliar, e depois assente, satisfeita.
- Acho que vai funcionar.
- Maravilha! Vou deixá-la em suas ótimas mãos. - Dai me empurra pela soleira. - Boa sorte, Mina! - Ele sai andando pela rua, falando por cima do ombro: - Quando nos encontrarmos de novo, vou querer ouvir sua voz!
Coloco a cabeça para fora da porta e aceno até ele desaparecer na esquina. Volto para dentro e dou uma olhada ao redor. Estamos em um pequeno pátio de pedras.
Um portão aberto à direita revela um caminho que leva ao
terreno da casa. No meio do pátio, há uma cerejeira com flores brancas e cor-de-rosa. De seus galhos elegantes pendem amuletos de papel, que balançam e giram lentamente com a brisa suave.
- Este é o pátio dos criados - diz Nari, se colocando ao meu lado depois de fechar a porta. - Vamos passar despercebidas por um tempo. - Ela gesticula para que eu me sente em uma pedra esculpida na forma de uma tartaruga. Então vai até a árvore, pega um raso balde de metal e o coloca perto dos meus pés. Dou uma espiada e vejo que ele está cheio de água da chuva. - Lave-se enquanto tento arranjar umas sandálias pra você.
Obedeço imediatamente, mergulhando os pés na água morna e esfregando a sujeira e a fuligem das ruas. Nari volta e me entrega um avental, que amarro na cintura, e um pano branco, que amarro no rosto, cobrindo o nariz e a boca.
- É raro alguém ficar doente no Reino dos Espíritos -
explica ela -, mas qualquer um ia querer esconder o rosto após uma noite de bebedeira pesada. - Por fim, Nari me entrega um par de sandálias resistentes. Depois que as calço, ela me avalia. Devo parecer uma criada aceitável, porque ela assente, se vira e gesticula para que eu a acompanhe pelo portão leste.
Do pátio dos criados, seguimos por um largo caminho de terra. Em ambos os lados, há grandes cozinhas; os saborosos aromas de molho de soja e vinho de arroz escapam pelas janelas. Uma porta à esquerda se abre e nos pressionamos contra a parede mais próxima, observando os criados em uniformes azul-claros saírem, cada um carregando uma bandeja coberta. Contamos nossas respirações conforme eles passam e, em seguida, deslizamos silenciosamente por um caminho de grama ladeado por grandes vasos de barro, emergindo perto da parede externa.
- Chamamos de casa - explica Nari enquanto subimos um pequeno morro repleto de pereiras floridas -, mas na verdade o terreno engloba vários prédios com jardins, campos e lagos entre eles. Se nos separarmos, você deve procurar um pavilhão a nordeste de onde estamos agora.
Ele fica em um lago e só pode ser acessado por barco ou por uma ponte no lado sul. Deve ser lá que estão guardando sua alma. A área não é muito frequentada e deve estar ainda mais vazia esta noite, com grande parte das atividades acontecendo perto do pavilhão principal.
Enquanto subimos o morro de onde é possível ver o terreno da Casa de Lótus, paro para recuperar o fôlego.
Há um lago magnífico logo abaixo, se estendendo por quase todo o comprimento do terreno. Flores de lótus se exibem pelas águas escuras, e no centro há uma pequena ilha com um pavilhão brilhante. Este parece ser o ponto de encontro para a celebração desta noite. Figuras vestidas com cores vivas se movem pelas grandes colunas de pedra, e sons de música e risadas escapam das varandas do andar superior. Duas pontes dão acesso ao pavilhão. Na oeste, vejo nos ombros dos carregadores pelo menos quatro palanquins cobertos. Na leste, as tochas estão apagadas.
Pergunto-me por que estão aqui esta noite. Lembro que os guardas do portão estavam desde cedo verificando a entrada de cada indivíduo.
- Eles estão aqui para servirem de testemunhas - diz Nari, seguindo meu olhar. - Todo ano, as grandes casas do reino se juntam para garantir que a fita entre o Deus do Mar e sua noiva tenha sido cortada. Enquanto ele dorme, vários na cidade gostariam de tomar o controle. - Ela acena para as duas maiores procissões passando pelo portão, uma toda decorada em vermelho e dourado, e outra, em azul e prateado. - Aqueles são os lordes da Casa do Tigre e da Casa do Grou, os líderes das duas casas mais ambiciosas.
Ao cortar o laço que tornaria o Deus do Mar mortal por meio de sua conexão com você, lorde Shin mantém o Deus do Mar imune a ataques e os grandes senhores sob controle, pelo menos por mais um ano.
Ela vira as costas para o lago.
- Agora chega de enrolar. Venha, Mina. Estamos perto.
Então Shin estava falando a verdade no salão do Deus do Mar. Ele cortou o Fio Vermelho do Destino para proteger o deus daqueles que poderiam tentar tomar o poder. Em qualquer outra pessoa, tal demonstração de lealdade seria considerada honrosa, mas meu peito aperta com uma sensação desagradável ao pensar naquele lorde de olhos escuros.
Afastando-me do lago, desço pelo lado oposto da colina, onde Nari já desapareceu em um bosque. Eu a encontro agachada atrás de um arbusto baixo, espiando uma clareira.
- O lago fica do outro lado deste prédio. - Ela aponta para um grande templo todo aberto, derramando sua luz sobre a grama molhada. Posso ver os contornos das pessoas lá dentro, sentadas em mesas baixas. Pelos sons de risadas e xícaras de porcelana tilintando, elas devem estar bebendo.
Olho para as árvores atrás do templo; em algum lugar além dele está o lago, o pavilhão e minha voz.
- Nossa vantagem é a escuridão - diz Nari. - Você vai primeiro. Eles não vão reparar em uma criada. Está pronta?