A Noiva do Deus do Mar
Capítulo 18
- Vamos voltar, Mina. Já ficamos aqui muito tempo.
Ele pega minha mão, e parece natural encostar minha palma na dele, me reconfortando em sua solidez constante.
De mãos dadas, o Fio Vermelho do Destino desaparece completamente. É como se estivéssemos no reino mortal, onde o destino é invisível aos nossos olhos.
18
K IRIN E NAMGI ESTÃO NOS ESPERANDO NA DOCA quando voltamos para a Casa de Lótus.
- Chegou uma carta enquanto você estava fora - diz Kirin a Shin, entregando-lhe um pergaminho. - Da Casa do Grou.
Shin desenrola o barbante e abre a carta. A mensagem é curta e foi escrita em uma caligrafia elegante e cheia de volteios.
- Lorde Yu afirma ter informações sobre a traição de lorde Bom. Está pedindo para irmos vê-lo imediatamente - diz ele.
Viro-me para Namgi:
- Na minha primeira noite no Reino dos Espíritos, você me disse que a Casa do Grou era o lar dos estudiosos.
- Isso mesmo - Namgi assente. - A casa do Grou é o lar dos maiores estudiosos que já viveram.
- Então… - Viro-me para Shin: - Posso ir com você?
Queria falar com um deles ou com o próprio lorde Yu sobre o Deus do Mar. Talvez alguém conheça o passado dele.
Shin parece hesitar, então Namgi diz:
- Comigo, Kirin e você, Mina estará segura.
Shin concorda, apesar de estar um pouco relutante, e vou depressa até o pavilhão para me trocar, já que meu vestido ainda está cheirando a limo. Coloco um outro mais enfeitado, com a parte de cima azul-clara e a saia cor-derosa. Mantenho o punhal da minha tataravó em volta do pescoço e minha pedra entalhada com a flor de lótus, dentro de uma bolsa de seda amarrada à cintura.
Sigo com Shin, Namgi e Kirin para a Casa do Grou, que fica a nordeste do palácio. O sol poente ilumina os edifícios com um brilho dourado e difuso. Espíritos carregando longas varas entram e saem, acendendo as velas de seus lampiões.
Shin e Kirin logo começam a discutir, provavelmente discordando sobre a tática para expor lorde Tigre.
O ar reverbera com um ruído baixo, como se houvesse uma grande cachoeira nas proximidades.
- Como era o Deus do Mar? - pergunta Namgi, caminhando a meu lado.
Lembro da expressão dele olhando para o lago.- Ele não era nem um pouco como eu esperava. Ele estava… melancólico, como se tivesse perdido algo e esquecido o quê.
Namgi chuta uma pedra solta.
- O dragão estava com ele? Eu daria tudo para vê-lo de novo.
O desejo está evidente em sua voz. Seu perfil se destaca nas sombras das velas. Lembro do que ele me disse antes -
que os Imugis, sua espécie, enfrentam batalhas sem fim na esperança de um dia se tornarem dragões.
- Quais são as diferenças entre os Imugis e os dragões? -
pergunto.
- São poucas, mas são enormes. Os Imugis são criaturas de sal e fogo, e os dragões, de ar e água. Enquanto a magia de um Imugi arde forte e rápida feito uma estrela cadente, o poder de um dragão é como um rio lento e constante, mas sem limites. Dizem que a pérola de um dragão pode realizar qualquer desejo. Os dragões são três vezes maiores que os Imugis, e são universalmente benevolentes e bons. Não são como os Imugis, considerados criaturas cruéis.
- Mas Namgi, você é um Imugi - falo devagar.
Namgi dá risada.
- Sim, eu sou!
Um cardume de carpas se afasta, em pânico. Na nossa frente, Kirin se vira para pousar os olhos prateados em Namgi, atraído por sua risada.
- Talvez a maior diferença - continua Namgi - seja que os dragões são criaturas solitárias, enquanto os Imugis vivem em grupo. Assim como os lobos, nós vivemos e morremos com nossos irmãos, e raramente ficamos sozinhos. Sou o único rebelde que conheço. A maioria dos Imugis não sobreviveria sem um bando.
Namgi deve ter notado minha expressão, porque estica o braço para dar batidinhas suaves no meu ombro.
- Não se preocupe, Mina. Eu tenho Shin e Kirin, e eles são os irmãos de que preciso.
Olho para Kirin para ver se ele ouviu, mas ele está longe.
Chegamos à Casa do Grou, uma imensa fortaleza preta e branca com vários andares e um telhado curvo no formato das asas de um grou. Um criado também vestido de preto e
branco nos conduz a uma sala elegante com um piso de carvalho lindamente polido. De ambos os lados de uma longa mesa estão prateleiras forradas de pergaminhos empilhados meticulosamente e livros encadernados com linha.
É uma biblioteca. Deve haver centenas, milhares de histórias aqui -narrativas, mitos, poemas e canções. A memória dos espíritos e dos deuses podem ser nebulosas, já as dos livros, não. As histórias são eternas. Talvez em um desses pergaminhos esteja a história do Deus do Mar, do que aconteceu há cem anos que fez com que ele sucumbisse a esse sono sem fim.
No jardim, ele disse que nunca seria perdoado pelo que fez. Mas o que foi que ele fez? Se ele se sente culpado por ter abandonado seu povo, por que não volta para nós?
A empolgação de ver todos esses livros diminui diante da avassaladora perspectiva de ter que vasculhar cada um em busca de uma pista sobre o passado do Deus do Mar.
Mesmo se eu tivesse um ano, seria impossível.
O criado, que saiu para informar lorde Grou de nossa chegada, volta.
- Meu senhor vai recebê-los agora.
Kirin dá um passo à frente, mas Shin balança a cabeça.
- Fique com Mina - ordena ele. - Namgi vai comigo encontrar o lorde Grou.
Os lábios de Kirin se comprimem, mas ele só faz uma reverência.
Shin se vira para mim, suavizando o olhar:
- Depois que lorde Grou e eu terminarmos, vou te chamar para falarmos com ele. Juntos.
- Obrigada, meu senhor - digo, então faço uma reverência, julgando que é o apropriado.
Shin e Namgi seguem o criado para fora da sala. Eu fico ali e vou em direção à prateleira mais próxima, correndo os dedos pelos pergaminhos ora suaves, ora ásperos.
É evidente que Kirin está irritado por ter sido deixado comigo, e ele não abre a boca. Eu também não estou muito satisfeita. Ao contrário de Namgi, todo acolhedor e animado, Kirin é tão frio quanto seus olhos prateados.
Mas seu sangue era quente. Eu me lembro de senti-lo se derramando sobre a minha ferida até a dor passar completamente.
- Nunca te agradeci direito por ter curado minha queimadura - digo, me movendo para ficar de frente para ele. - Obrigada. Sou grata de verdade.
- Não fiz isso por você.
Suspiro, aliviada pelas mulheres da minha família terem uma couraça mais grossa que a maioria das pessoas. De qualquer forma, as palavras de Kirin são muito menos dolorosas do que a queimadura que consegui no fogo da deusa.
- Você é um deus? - pergunto, pensando na magia de seu sangue. -Ou uma besta de algum mito?
- Não sou um deus.
O que significa que ele é uma besta de algum mito. Mas não uma serpente marinha. Na noite em que cheguei, quando os servos da deusa surgiram, os irmãos de Namgi o chamaram de Prateado, dizendo que os Imugis tinham massacrado até o último ser de sua espécie.
Meu senso de autopreservação me diz para não trazer isso à tona.
- É estranho pensar que Namgi é da mesma espécie que aquelas serpentes marinhas, que pareciam tão cruéis e horríveis. Namgi sempre foi amável comigo. - Faço uma pausa, acrescentando com um sorriso: - E talvez um pouco travesso.
Kirin balança a cabeça.
- Nunca confie em um Imugi.
Olho para ele.
- Confio em Namgi.
- Então você é uma tola.
Faço uma careta, magoada por Namgi, que meia hora atrás estava falando afetuosamente sobre Kirin.
- Confio em Namgi muito mais do que em você - digo. -Ele é direto e sincero. Ele me contou como conheceu Shin e por que o serve. Já você não me contou nada sobre si.
Hesito, me perguntando se fui longe demais com minhas palavras impulsivas. Kirin parece mesmo chateado. É o primeiro sinal de emoção que vejo nele.
- Só porque sou antipático, você acha que sou desleal -
diz ele com uma voz fria. - Mas eu sirvo Shin há muito mais tempo do que Namgi. Nunca houve um momento em que eu não estivesse ao lado dele. Ele é meu líder, mas, mais do que isso, é meu amigo. Confio minha vida a ele.
Ele faz uma pausa, então me olha com uma expressão de horror.
- Não acredito que você me irritou a ponto de eu querer me defender contra as suas afirmações ridículas.
Dou um passo à frente, virando-me para ele e abrindo um largo sorriso.
- É mais fácil falar com você sabendo que é um pouquinho humano.
Sei que disse algo inadequado quando o sorriso relutante em seus lábios desaparece.
- Não sou humano - diz ele com frieza.
Durante a meia hora seguinte, nenhum de nós fala uma palavra. Avanço entre as prateleiras, que são muito mais longas do que eu pensava. Seria realmente impossível examinar cada pergaminho e cada livro, mesmo se o método de organização utilizado fosse claro. Enquanto caminho, percebo que a sala é bem maior do que a visão da Casa do Grou sugeria do lado de fora, parecendo mais alta do que larga. Ela é ao mesmo tempo parecida e diferente da Casa da Lua, cuja sala onde a deusa residia era minúscula em comparação com a aparência dela do lado de fora.
Sigo explorando a biblioteca, virando as esquinas que encontro, até que, no final de uma fileira particularmente longa de estantes, vejo uma porta. Fico surpresa, pois pensei que a biblioteca estava toda concentrada em uma sala única. A porta está entreaberta. Dou uma olhada e vejo uma pequena escadaria que leva ao andar de baixo.
Sei que devo voltar. Se Shin me chamar e descobrir que não estou onde deveria, não vai ficar nem um pouco satisfeito. Só que esta é a Casa do Grou, o lar dos estudiosos. Que mal poderia haver em um lugar como este?
Atravesso a porta, desço a escada com cuidado e entro em um corredor estreito e mal iluminado por lampiões com velas de chama fraca. Em ambos os lados, há salas
destinadas à leitura e à escrita, e outras atividades similares, repletas de rolos de pergaminho, tinta e pincéis.
No final do corredor, há um escritório privado, maior do que o resto. Nas paredes, pergaminhos de poesia estão pendurados ao lado de pinturas da natureza. A escrivaninha está posicionada no fundo, diante de um biombo de papel.
É um biombo lindo, quatro vezes mais comprido do que o do quarto de Shin, com o dobro de sua altura. Cada painel retrata o estágio de vida de um grou. A primeira tela mostra seu nascimento, e a última, seu voo. O único ponto de cor na pintura é o vermelho vivo de sua coroa.
- Desculpe. Não estava preparado para receber visitas, senão teria me arrumado um pouco.
Eu me viro e me deparo com um estudioso alto e idoso parado na porta.
- Lorde Yu - digo, reconhecendo-o daquela primeira noite na Casa de Lótus. Faço uma grande reverência. - Perdoe minha intromissão. Eu estava esperando na sala de cima e encontrei uma escada…- Pareço ofendido? - pergunta lorde Yu. - Venha, sente-se, por favor.- Ele acena para a mesa baixa na frente do biombo de papel. Em seguida, vai até um armário lateral e pega uma bandeja com uma garrafa e duas xícaras de porcelana. - Gosta de bebidas alcóolicas?
- Nunca tive a oportunidade de descobrir - respondo, me acomodando no assento diante dele.
Ele ergue a garrafa e despeja o líquido dourado em uma das xícaras. Pego-a com ambas as mãos e viro o rosto para bebê-la de uma vez, como vi meus irmãos fazendo. O licor é amargo.
- Agora - diz lorde Grou -, conte-me quais são as suas perguntas.
Devo parecer surpresa, porque ele acrescenta:
- Você deve ter perguntas para as quais busca respostas, sendo uma jovem de uma pátria em perigo e uma noiva do Deus do Mar com um mistério a desvendar.
- Então você deve saber qual é a minha pergunta antes mesmo que eu a faça.
- Ainda assim, você precisa perguntar para que eu possa responder.
- Como posso quebrar a maldição do Deus do Mar?
- Você não precisava me procurar para encontrar a resposta a essa pergunta. Ela está no mito: Somente a verdadeira noiva do Deus do Mar pode dar um fim à sua fúria insaciável. A noiva que compartilhar o Fio Vermelho do Destino com ele é quem tem o poder de quebrar a maldição.
- Não entendo - digo, frustrada. - Toda noiva chega com um Fio Vermelho do Destino.
Lorde Yu enche as duas xícaras e empurra a minha para mim. Ele não fala até que eu tenha bebido todo o líquido dourado.- Todas as noivas compartilham o Fio Vermelho do Destino com o Deus do Mar, mas isso é só um feitiço para protegê-lo. Senão, lorde Shin não conseguiria cortar o destino, como faz todos os anos. Afinal de contas, o verdadeiro destino não pode ser quebrado com a lâmina de uma espada.
Assinto devagar; a deusa-raposa também disse isso.
Lorde Yu continua:
- A noiva que o amar e que for correspondida será a única com o poder de transformar o mito em realidade. Se esse destino se concretizar, será invisível para todos, exceto para o Deus do Mar e sua noiva.
Instintivamente, meus olhos disparam para o Fio Vermelho do Destino que me conecta a Shin. Um destino invisível. Lorde Grou não parece perceber, e me serve mais uma xícara.
- Então não tem jeito - digo. - Até que a noiva predestinada seja lançada no mar, o Deus do Mar não vai acordar.
Mais garotas serão sacrificadas. Mais vidas serão perdidas nas tempestades.
- Não é assim - diz ele. - É possível criar tal destino.
Afinal, o apego, ou o que os poetas estudiosos chamam de amor, também é uma escolha. Duas pessoas podem se escolher por necessidade. Ou por dever. Dessa forma, até mesmo o Fio Vermelho do Destino pode ser desfeito, se uma parte formar uma conexão mais forte com outra pessoa.
Você tem um mês para descobrir como salvar o Deus do Mar, e eu tenho um mês pra descobrir como me livrar de você. Esta é a resposta que Shin está procurando.
Lorde Grou empurra a xícara para mim. Essa é a terceira ou a quarta dose? Quando vou pegá-la, sou tomada por uma leve vertigem.
- Você já tem sua resposta sobre como quebrar a maldição. Forme um Fio Vermelho do Destino com o Deus do Mar. Isso se ainda não o tiver formado com outra pessoa.
Levanto a cabeça, atenta à mudança em seu tom. Ele estava falando em uma cadência rítmica quase
hipnotizante, como a usada por contadores de histórias. Mas agora há algo falso em sua voz, uma centelha de avareza.
Seus olhos pousam em minha mão.
- Ouvi um boato curioso que diz que Shin, assim como o Deus da Morte, Shiki, se viu preso em um destino inesperado.
Ele avança de repente e agarra meu pulso. Tento me afastar, mas sua mão é firme e forte para um idoso.
Entretanto, esse foi o meu erro: pensar que ele era outra coisa que não um espírito com uma força desumana.
No mesmo instante, o Fio Vermelho do Destino começa a se agitar. Algo deve estar acontecendo do outro lado. Shin!
Será que ele também está sendo atacado?
Com o coração acelerado e a cabeça nublada pelo álcool, tento soltar a mão. Por que lorde Grou está aqui comigo quando deveria estar com Shin?
- Enviei uma carta para a Casa de Lótus com a intenção de separar Shin de você - revela lorde Grou. - Fiquei furioso ao descobrir que você veio com ele até aqui. Para minha sorte, você se separou do Prateado. Já se passou muito tempo desde que fui humano. Eu era idiota desse jeito?