A Noiva do Deus do Mar

Axie Oh · Capítulo 22 de 38

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A Noiva do Deus do Mar

Capítulo 22

 

D AI É COLOCADO NO QUARTO DE NAMGI, um dos dois aposentos do piso térreo do Pavilhão de Lótus - o outro pertence a Kirin. Fico esperando no corredor com Miki nos braços. Seu corpinho treme a cada poucos minutos. Começou quando ela foi tirada de Dai pela primeira vez, depois que ele a salvou dos Imugis. No caminho de volta para a Casa de Lótus, ela chorou até cansar, mas o tremor não parou.

Quando ela estremece de novo, eu a abraço mais forte.

A porta do quarto de Namgi se abre e Shin sai, seguido por Kirin.

- Como ele está? - pergunto baixinho.

Kirin ajusta as bandagens da mão.

- Ele é forte para um garoto tão jovem. Vai sobreviver.

Shin estende a mão para afastar gentilmente os fios de cabelo que se soltaram da minha trança e grudaram na minha testa e nas minhas bochechas. A suavidade de seu toque quase derrete os muros frágeis que construí em volta do meu coração.

- Pensei que estivesse dormindo - diz ele. Neste momento, a aurora já deve estar despontando no horizonte.

- Quero vê-lo.

Ele assente, dando um passo para o lado. Quando cruzo a soleira da porta, ele fala com bondade:

- Ele vai ficar bem, Mina.

Tento controlar as lágrimas. Olho para ele e depois para Kirin.

- Obrigada.

Kirin hesita, e então faz um aceno com a cabeça.

Entro no quarto e Shin fecha a porta.

Uma luz meio rosada, meio amarelada se infiltra por uma janela fechada, conferindo um brilho difuso ao quarto.

Mascarada está sentada no chão ao lado de Dai, o corpo inclinado para a frente enquanto dá batidinhas no cobertor ao redor dele. Eles estão conversando aos sussurros e não notaram minha presença.

- Eu fiz bem, não fiz, Mascarada? - pergunta Dai. - Eu protegi as duas, como tinha prometido.

- Sim - diz ela baixinho -, você foi muito corajoso.

Em meus braços, Miki solta um murmúrio, chamando a atenção dele.

- Miki! - grita Dai, abrindo os braços e tremendo de dor logo em seguida. Então se encolhe nos cobertores.

Avanço depressa, me ajoelhando do outro lado do palete, de frente para Mascarada.

Cubro a boca com a mão.

- Ah, Dai…

Seu cabelo preto está puxado para trás, revelando hematomas ao longo da testa e da mandíbula. Seu rosto

está pálido, e ele tem um corte na ponta dos lábios. Os cobertores escondem seu corpo, mas dá para ver que ele está todo dolorido pela maneira como se mantém deitado rigidamente de lado e por não tentar pegar Miki no colo.

- Mascarada estava dizendo que sou muito corajoso - diz ele. -Preste atenção, Mina. Vou precisar que você se lembre disso mais tarde, quando eu estiver melhor e ela estiver sendo malvada comigo de novo.

Mascarada dá uma risadinha, e a expressão de sua máscara é a de uma vovó sorridente.

- Concordo com ela, Dai. Você foi muito corajoso. Foi horrível ver você e Miki debaixo da sombra de um Imugi.

Mas você a protegeu. E você não é muito maior do que ela.

- De vez em quando eu esqueço que sou pequeno. Eu não fui sempre pequeno assim, sabe.

Franzo o cenho.

- Não sei se entendi.

- Quando entramos neste reino como espíritos, podemos escolher a forma que quisermos - explica ele. - Se morremos jovens, podemos assumir a forma de um velho, por exemplo. Se morremos velhos, podemos assumir a forma de um garotinho. Miki morreu bebê, e nem teve chance de se imaginar mais velha. Quando decidi qual corpo eu queria, pensei nela. Pensei: “É melhor ser pequeno como ela, para saber o que ela está sentindo”. Mas se sou só um garotinho, como é que posso saber como é ser uma bebezinha?

Ele ri de si mesmo. A seu lado, Mascarada solta sua risada abafada, e Miki treme em meus braços.

- Sabe quanto eu amo Miki? - continua ele. - Quando ela faz barulhinhos de alegria, meu coração aumenta umas dez

vezes. Quando ela está triste, meu coração parece se partir.

Eu daria minha vida por ela, até cem vezes se fosse preciso.

As lágrimas que eu estava segurando escorrem por minha face. Sei que ele seria capaz de fazer isso; hoje, ele quase fez.

- Sabe quanto eu amo Miki? Eu vim do céu pra poder ficar com ela.

- Do c-céu? - pergunto.

Ele sorri com um olhar distante.

- Além deste mundo, há muitos outros. Um deles é o céu.

É lá que eu estava, sabe. Eu estava esperando minha esposa, mas Miki… ela é minha bisneta. Minha esposa nunca me perdoaria se eu a deixasse seguir sozinha pelo Rio das Almas. Então eu desci do céu, a tirei da água e nunca mais a larguei. Sei que estou mimando ela. Mas ela é minha Miki. Eu a amo.

Miki estica os braços para ele, e não posso negar seu pedido. Com cuidado, eu a coloco no colo dele.

- Ela não é pesada - sussurra ele. - Ela é bem levinha. E, se minha esposa for direto para o céu, ela só vai ter que esperar. Mas ela não vai se importar, porque sabe que eu estarei com a nossa Miki.

Do outro lado de Dai, Mascarada pega minha mão, e ficamos observando Miki apoiar a cabecinha no ombro dele.

Segura em seus braços, ela para de tremer. O pequeno sulco no meio de sua testa desaparece, e ela cai em um sono tranquilo.

- Sabe quanto eu te amo, Miki? - sussurra Dai. - Nem eu sei. Meu amor por você é infinito. Profundo e infinito, assim como o mar.

 

De manhã, acordo com o sol no meu rosto e Dai babando na minha manga. Mascarada e Miki não estão aqui, apesar de termos pegado no sono todos juntos no pequeno palete. O

rosto de Dai recuperou a cor. Ajeito seus cobertores, tomando cuidado para não acordá-lo.

Do lado de fora, vejo Miki no colo de Mascarada, observando Namgi e Nari jogarem um jogo de tabuleiro com pedras brancas e pretas. Namgi pega uma pedra preta em uma tigela e a segura acima do tabuleiro. Mascarada estala a língua em repreensão. Ele mexe a mão. Quando ela acena com a cabeça, ele a coloca no tabuleiro.

- Isso é injusto - diz Nari, pegando uma pedra branca de sua tigela. -Pensei que ia jogar com um jovem Imugi, não com uma avó.

Olho para Namgi e Mascarada. Na noite passada, vi Namgi se transformar em uma monstruosa serpente marinha, e Dai disse que ele e Mascarada não eram como suas aparências poderiam sugerir. No entanto, ao sol da manhã, eles parecem como sempre: familiares e bons.

Acomodo-me ao lado dela, e faço cócegas nos pezinhos de Miki.

- Onde estão Shin e Kirin?

- Foram até a Casa do Grou - responde Nari. - A esta altura, lorde Grou já deve estar arrependido de todos os seus erros.

Namgi dá risada, mas, conforme o dia vai passando e Shin e Kirin não voltam, fico me perguntando o que poderia

estar acontecendo. Será que lorde Grou revelou a Shin o que disse para mim?

Até mesmo o Fio Vermelho do Destino pode ser desfeito, se uma parte formar uma conexão mais forte com outra pessoa. Como Shin vai reagir a isso? Desde que nosso destino se conectou, ele quis destruí-lo, temendo colocar sua própria vida em risco. Por isso ele não vai querer formar laço nenhum com ninguém. O que significa que só eu posso quebrar nosso laço ao escolher o Deus do Mar, esperando que ele também me escolha.

Logo, o dia vira noite e todos se dirigem para os próprios aposentos- Miki e Mascarada se juntam a Dai no quarto de Namgi; Namgi segue para o quarto de Kirin, onde ele vai ficar nos próximos dias, até Dai se recuperar; e eu sigo sozinha para o quarto no andar de cima.

Vou até a parede dos fundos, apanho o grande saco de dormir e o coloco no meio do chão, dando tapinhas nos cobertores até que fiquem lisos e macios. Hesito antes de pegar o biombo de papel e arrastá-lo sobre os cobertores para dividir a cama. Depois, tiro minha blusa de seda e desamarro os cordões da saia. Deixo as roupas caírem no chão antes de chutá-las para o lado. Em minha veste branca e fina, me enfio debaixo dos cobertores. Fico acordada por um tempo, prestando atenção em todos os sons do lado de fora, mas quando uma hora se passa e ninguém aparece, adormeço.

Estou sonhando com o dragão emergindo do mar com os olhos sobre mim, escuros e insondáveis, quando um ruído me faz despertar, assustada. Pisco, desorientada. A luz da lua se infiltra pela janela. As sombras das nuvens vagam lentamente pelo biombo de papel. Não deve passar muito da meia-noite.

Escuto o ruído mais uma vez. E um inconfundível grito de dor. Shin!

Levanto-me de uma vez, afastando o biombo. Shin está se revirando, as vestes desarrumadas. Ele deve ter chegado e se deitado sem se trocar. Verifico se há feridas visíveis, mas não encontro nenhuma. É só um pesadelo, então? O

suor escorre por sua testa e seu corpo treme, como se tomado por um calafrio.

Agacho-me ao lado dele e agarro seus ombros, sacudindo-os com firmeza.

- Shin, acorde!

Ele abre os olhos.

- Mina?

Coloco o dorso da mão em sua testa.

- Você não está com febre. Como está se sentindo?

Ele começa a sentar, e eu o ajudo a se ajeitar. Depois, vou até a prateleira e pego a tigela que está lá, colocando o barquinho com gentileza ao lado. Verifico a temperatura da água com a ponta dos dedos e fico aliviada por encontrá-la gelada. Volto para Shin, mergulho um pano na água e o levo até sua testa.

- Você estava tendo um pesadelo - digo, limpando o suor.

- Se lembra com o que era?

Ele balança a cabeça devagar, os olhos fixos em mim.- Falei com lorde Grou. Ele sabe que estamos conectados pelo Fio Vermelho do Destino e confessou ter enviado ladrões para roubar sua alma. Tendo falhado nisso, ele os contratou para te matar.

Um calafrio toma meu corpo. Mascarada, Dai e eu podemos ter derrotado o assassino-urso, mas o assassino-doninha ainda está por aí.

Mergulho o pano na água mais uma vez e o levo até seu pescoço.

- Ele falou mais alguma coisa?

Ele deve ter dito a Shin que o Fio Vermelho do Destino pode ser quebrado.

- Não.

Levanto a cabeça. Os olhos de Shin encontram os meus; sua expressão é inescrutável. Será que ele está…

mentindo? Mas por que ele mentiria, sabendo a verdade?

- Ele também me falou umas coisas… Disse que, para quebrar a maldição do Deus do Mar, é preciso formar uma conexão predestinada com ele, a mesma que ocorre entre amantes. Quanto ao Fio Vermelho do Destino que compartilhamos, ele disse…

- Você se enganou - ele me interrompe. - Acho que estou com febre.

Acordei desorientada, mas agora já me sinto desperta.

Segundo Nari, espíritos e deuses não ficam doentes.

Shin esfrega a mão no rosto. O movimento chama minha atenção para seus antebraços e suas vestes desarrumadas, que afrouxaram durante o sono e agora revelam seu pescoço. De repente, meus ombros parecem bastante expostos sem minha blusa. Nenhum de nós está vestido adequadamente para ter essa conversa.- Vou buscar Kirin.